Amor em tempos de corte no orçamento

Nada de motel. Nada de jantares em restaurantes caros. Nem baratos. Nada de jantares à luz de velas, nem de lanternas. Nada de lanches no McDonalds. Nada de presentes de aniversário, de dia dos namorados ou lembrancinhas de qualquer tipo. Esqueça.

Nada de viagens para perto, longe, de trem, ônibus, jegue ou a pé. Nem pense em bebidas chiques, comidas gourmet, sequer farinha de mandioca com mel de abelha.

Viveremos de amor! Surfando nas nuvens da fome, nadando nos oceanos de prazer da inanição, sambando nas churrascarias veganas, sonhando com as feijoadas do tesão e macarronada do casório perfeito!

A nossa vida em uma choupana que não abriga da chuva e não protege do frio, deitados sobre folhas de bananeira, bebendo água dessalinizada artesanalmente e comendo peixe sem tempero, banana verde e sopa de pé de pombo será abençoada por Deus e bonita por natureza, mas que beleza!

O nosso amor de cada dia abominará a rotina, pois a cada dia nos reservará surpresas inesgotáveis. Catar latinhas, cobre e papelão trocando olhares hipnotizantes de paixão, dividir a fila do SUS com sorrisos ternos, de mãos sujas dadas, fedendo a porco molhado, sem saber o que é um banho há meses…

 Ausência de reclamações, lamentos, acusações ou atitudes mimadas explicitamente pela falta de forças e energia. O amor tão resistente quanto o vírus da gripe, capaz de atravessar barreiras e empalidecer a qualquer um.

Os olhos mortiços e nublados emprestam um artifício novo que possibilita enxergar uma beleza que só pode ser exterior. Uma vida de abstinência às armações midiáticas que lhe fazem consumir desesperadamente, sendo enganados a um ponto de não sobreviver sem os vícios dos produtos novos, dos lançamentos tecnológicos e novidades politicamente corretas que ajudam a disseminar a hipocrisia universal.

Quantos são os casais dispostos a um amor assim? Inviolável, irresistível, quase mortal? Quantos são os casais modestos o suficiente para abandonar os frutos dos amores artificiais e velozes de hoje em dia, que acontecem e acabam tão rápido quanto uma estrela cadente? Quantos viverão de amor e pelo amor? Há alguém?

Entendem agora o que querem dizer os poetas através dos tempos?

                              Marcelo Gomes Melo

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A mãe do guarda é mito!

A mãe do guarda é legal, a mãe do guarda é letal, a mãe do guarda é fatal. Se alguém tiver que morrer, o guarda deve morrer, a mãe do guarda tem que sobreviver.

A mãe do guarda o criou, a mãe do guarda o ensinou a comer sentado à mesa, não em frente à TV; o ensinou a usar os talheres e o guardanapo, a ajudar a retirar a mesa, e ajudar a secar a louça e guardar. O guarda aprendeu a pedir licença, a sorrir, a ser gentil e educado, a não se intrometer na conversa dos adultos, a fazer o dever de casa e a respeitar os mais velhos; o guarda nunca tirou notas vermelhas, nem foi à diretoria para ser advertido, o guarda sempre foi lotado de amigos.

A mãe do guarda cuidava para que ele tivesse horários livres durante o dia para se divertir, andar descalço na rua, empinar pipa e jogar futebol, jogar bolinha de gude e colocar o anzol para pescar no riacho. A mãe do guarda deu-lhe várias duras e o fez comer verduras e legumes, tapas na testa quando falava besteira, e surras com fio de ferro de passar roupa quando o guarda vacilava com as suas obrigações.

O guarda cresceu e arrumou um emprego que o ajudasse a colocar em prática tudo o que aprendeu com sua mãe durante a vida feliz, queria ajudar as pessoas e garantir que a cidadania fosse respeitada e funcionasse plenamente. O guarda usava a farda brilhando com orgulho e fé, sorria para as pessoas enquanto fazia a ronda a pé.

A mãe do guarda o ensinou que não existem heróis; que Chuck Norris e Rambo jamais iriam muito longe com aquela atitude feroz. Influenciou o guarda a se tornar um homem de bem, lutar pela paz e contribuir para um mundo melhor. A mãe do guarda sabia através da experiência, que nada jamais é sequer parecido com o que se pensa. Tratou de treinar o guarda para perceber a manipulação por trás das campanhas gigantescas prometendo fazer o bem, a não acreditar em falsos redentores que sorriem como em um comercial de creme dental enquanto a mão leve desfalca os recursos financeiros de quem já não o tem, prometendo ilusões que terminarão em morte.

A mãe do guarda é quem sabe. Ela formou o guarda, não o sistema. Graças à mãe do guarda hoje há um ser humano do lado do bem. O que o guarda tem e mais ninguém tem é a preciosidade de uma mãe que encarava as sombras para protegê-lo sem super protegê-lo, e o transformou no portador de um uniforme limpo, à custa de socos, sermões e pontapés.

 Hoje o guarda é feliz, e tenta cuidar de sua própria família do jeito como foi cuidado. Mas os tempos são outros e isso enlouquece o guarda. E todas as vezes em que isso acontece ele reza; suas orações aliviam o peso de criar os seus filhos em uma zona de guerra.

A mãe do guarda é feroz. A mãe do guarda é a determinação em pessoa. Não importa que o tempo passe, ela continua firme e a sua simples presença faz com que o guarda jamais desista do que é certo, por piores que sejam as chances de conseguir vencer. Graças à sua poderosa mãe, o guarda já venceu!

                                       Marcelo Gomes Melo

A falácia do amor incondicional

O amor incondicional pode ser bastante tedioso, embora seja o santo graal da maioria das pessoas nas redes sociais, nas trocas de cartas nas caixas postais, nos programas de televisão à tarde para donas de casa desiludidas. a

Trata-se de uma busca ilusória e infrutífera, já que todos os participantes acreditam encontrar tal amor diversas vezes, trocando de pares cada vez mais rápido após seguir o devido protocolo, que é conhecer-se superficialmente, contar segredos da vida pessoal um do outro que logo se tornarão armas para atingir mortalmente e tentar consertar o erro de achar ter encontrado o amor perfeito.

Surge como um jogo para solitários ingênuos que pretendem superar os próprios defeitos com as qualidades do parceiro, mas logo descobrem que isso exige reciprocidade, e logo um caminhão de defeitos derrama-se sobre si, dobrando o desespero e distanciando-se do que, a princípio parecia amor.

Os que vivem melhor são os que se adaptam às imperfeições do amor, desistem de mudara si mesmos e aos outros e distribuem o sofrimento igualmente a ponto de se tornar suportável.

Então as pílulas de carinho, atenção, cuidado e apoio servirão plenamente para restaurar o corpo e a mente das dores, realizando desejos e guiando para uma nuvem quase incessante de alegria.

Um amor mais pobre, sem superpoderes, realista, que atua como base para a construção de uma vida inteira!

Soa melhor viver com o que for possível receber do amor do que querer coloca-lo em uma jaula e dominá-lo ao ponto de fazê-lo perder o valor, esvaindo-se pelo ralo enquanto o seu corpo vazio adormece e morre aos poucos por algo sem cura.

                    Marcelo Gomes Melo

A mulher que me amava

Ela não afastava os olhos dos meus quando, segurando as minhas mãos em concha cobriu os próprios seios, protegidos por um tecido macio que não disfarçavam o calor aconchegante nem os mamilos túrgidos que atacavam as minhas palmas e me tiravam do solo, sem peso, flutuando como na lua. Ela pretendia ler a minha alma através dos meus olhos escurecidos e brilhantes, febris.

 Tudo o que conseguiu naquele momento foi ceder à tentação de baixar os olhos e presenciar o volume que denunciava a minha total fragilidade ante o seu perfume. Instintivamente me pus a roçar em suas coxas, entre elas…

Quando pressionou as minhas mãos, que segurava sobre os seios, me obrigou a apertá-la, as palmas deslizando; isso a fez suspirar me levando um passo à frente em direção ao seu corpo, que ficou entre mim e a parede. Forcei a coxa entre as dela. Os olhos grandes e escuros brilharam ainda mais, e os lábios se entreabriram com o maior dos convites da Terra.

Não havia outros sons além de respiração ansiosa, leves toques sobre roupas desnecessárias; toques suaves, mas firmes. Não havia hesitação, o que existia era esquecimento. Habitávamos outro planeta no qual não havia outros habitantes. Não saberíamos, depois, dizer como começou, nem por que começou; isso não importava, porque o tempo parara.

Os lábios se colaram, macios, famintos, e só então um pouco de umidade passou a fazer parte daquela equação. As línguas embaralhadas, idiomas criados para contar uma história, enquanto as minhas mãos rastreavam os seus seios e as maneiras para desembrulha-los para o meu prazer. O prazer dela era o meu prazer.

Eu rapidamente consegui livrá-la da parte de cima do vestido, que caiu aos nossos pés como um escravo rendendo-se aos nossos desejos.

Arranquei-lhe gemidos com meus lábios grossos, com a minha língua habilidosa e gentil, uma devoradora de delícias como as dela. As mãos reconheciam a maciez daquelas coxas, que ela tão lindamente entreabria para mim, automaticamente, respondendo aos pedidos silenciosos feito com os dedos que mergulhavam e se ensopavam, sentindo-a tremer. Sons enrouquecidos saíam das nossas gargantas.

 Firme, impaciente, ela arrancou-me a camisa junto com os botões, jogando-a ao largo. Beijando o meu torso ocupou-se do cinto e do outro botão, em seguida do zíper. A trilha que a sua língua generosa fez circulando o meu umbigo e descendo me obrigou a fincar os pés com força, tensionando os músculos das coxas para não correr o risco de perder o equilíbrio assim, tão fácil.

 Apoiei umas das mãos na parede e a outra em seus cabelos, tentando conter a gula que ela demonstrava a qualquer momento, mas parecia inofensivo segurar-lhe os cabelos. Inútil resistir.

As unhas percorriam-me as pernas. Ela me olhava provocante, mostrando o prazer que sentia, misturando-se ao prazer que eu jamais imaginei ser possível sentir. Não parou. Não parei. Movendo o quadril quis me aprofundar nela o quanto pudesse. Ao me afastar um segundo para retomar o fôlego, um arremedo de sorriso me acelerou o coração ainda mais.

Prestes a desabar senti as mãos macias dela me conduzirem ao chão sobre o seu corpo forte, me acolhendo com um longo suspiro, me apertando com força contra si, espremida pelo meu peso, que tentei amenizar firmando as mãos em torno dela, no chão, como se fizesse flexões. Caso um dia me perguntassem, flexões eu diria.

 Os sons aumentaram, os gemidos, impossíveis de compreender, nos olhávamos em uma tácita combinação não assinada e explodimos juntos, prazeres indescritíveis.

  Trocamos de lugar sem nos distanciarmos um milímetro, e sobre mim ela pôde apoiar-se em meu peito, os cabelos lhes caindo sobre o rosto, o sorriso incontrolável da felicidade.

 Milhões de anos passariam sem que fôssemos capazes de esquecer, em qualquer tempo ou situação. Eu era o homem dela. Ela a mulher que me amava.

                              Marcelo Gomes Melo

A vida com todos os percalços

Eu descobri que sou muito romântico. Daqueles da antiguidade, cheio de pompas, embora a minha aparência e o meu comportamento neguem isso peremptoriamente a quem está destinado a enxergar apenas a superfície de aço.

Todas as vezes que me envolvo para tirar onda, amor de uma noite apenas, restrições impostas com dureza sobre negação de informações pessoais, apenas o bom e velho sexo imediato, sem cobranças, sempre alguém se apaixona.

Não importa o quão diferentes sejamos, ou o quão financeiramente destoamos, tudo acaba em paixão sequiosa, prantos e desencontros; pazes e tesão redobrado.

O único antídoto é a diferença intelectual. Nada resiste a pensamentos toscos, dificuldades de tomar posicionamentos firmes de qualquer forma, não importando o que a maioria pensa ou defende.

Tal incapacidade gera repulsa, não há tesão que resista, e passado o teor alcoólico resta um vazio inominável, um arrependimento doloroso que não paga o prazer supostamente adquirido.

 Então decidi aceitar que sou um romântico incorrigível, incapaz de aventuras homéricas que não se transformam em amor. Puro. Duradouro. Gerando sofrimento real e constante. Testando a resistência falha de menos humanos iludidos, manipulados de uma forma ou de outra.

 Questionar é estupidez. Analisar é arrogância. Submeter-se é inevitável. É a vida, com todos os percalços.

                              Marcelo Gomes Melo      

A vida é uma sequência de poemas costurados…

Todo dia eu componho uma canção diferente em meus pensamentos, com versos que duram apenas o suficiente para controlar as ações extremas que eu poderia tomar, acalmando os meus passos, destruindo as angústias, transformando-as em pó sob os meus sapatos; ficam para trás, carregadas pelo vento.

A minha mente trabalha vinte e quatro horas por dia em velocidade insana, atropelando a força do meu corpo, me atirando contra o muro da existência a cada vez em que me ergo e resisto. As canções que componho a cada momento, sem mover os lábios salvam a minha vida constantemente, ainda que outras pessoas não as cantem nem as ouçam; que os versos se desfaçam pelo ar assim que imaginados, criados para suavizar as dores auto emuladas e os constrangimentos comuns inerentes à vida em sociedade.

O certo é que a força motriz por trás dos meus atos é a música que produzo para os meus ouvidos e o meu coração, e mais ninguém. A poesia particular salva muitas vidas, atenua os temores, encanta o cérebro e lhe empurra para o mundo, consciente dos dissabores e preparado para compreender, intuir e saborear a poesia alheia, enriquecendo a si próprio com outras visões, interagindo com o resto do planeta com uma leveza capaz de contribuir social e mentalmente para a evolução.

A vida é uma sequência de poemas costurados, colados, adesivados uns aos outros. Precisam ser lidos e observados com melhor atenção para transformar e evoluir.

Marcelo Gomes Melo

A Era do anoitecer assombrado

Vive-se em uma época em que o dinheiro seduz muito mais do que o intelecto. A imagem pública é pautada pelo status pueril das marcas que lhe vestem, dos automóveis que lhe conduzem e até dos aparelhos celulares que são ostentados.

 Frequente locais em que possa ser visto, beba o drinque mais caro, ouça as músicas da moda, cantadas pelos piores cantores e com as letras mais inócuas, defenda posições políticas condescendentes, valorize o politicamente correto e jamais esqueça de eternizar através de vídeos e fotos para as redes sociais.

 Fique bem com os seus pares, dê palpites superficiais sem nenhum fundamento, sorria falsamente e repita clichês dos quais não tem nenhuma noção do significado.

Defenda uma versão do amor livre dos anos 70 mesmo sem conhecer o movimento e desconheça os problemas atuais, mortais; viva uma vida desqualificada, enxergue através de uma visão míope por trás de suas lentes coloridas, enalteça o lixo que consome e adormeça feliz no pântano nojento que ajuda a criar diariamente. Submeta-se às definições confusas que lhe entontecem e limite as suas ações por mera preguiça e incapacidade, cultive a imbecilidade própria e a espalhe aos quatro ventos sem medo.

O mundo precisa reciclar a si mesmo, de tempos em tempos, como o organismo vivo que é, eliminando todos os seres nocivos à sua sobrevivência secular. Quanto mais idiotas forem destruídos pelos tufões, incêndios, desastres, mais o planeta facilitará a renovação dos seus recursos.

Os únicos idiotas que procurem maltratar o planeta, acabando com o próprio habitat é o ser humano, formado por uma maioria de incapazes inúteis com mania de superioridade. Qual é a vantagem de estar no topo da cadeia dos predadores

Bem-vindo ao século do anoitecer sombrio.

                              Marcelo Gomes Melo

A misteriosa dubiedade do outono

As tardes de outono refletem a minha bipolaridade, o sol presente em um céu azul maravilhoso, uma beleza digna de lágrimas de emoção, enquanto as sombras reservam um frio peculiar, exigindo a proteção de algo quente, como uma jaqueta, luvas, um abraço seu…

É possível respirar livremente, inundar os pulmões de ar frio, agindo para clarear os pensamentos e aumentar a percepção do que está à volta, incutindo a impressão de que se está inserido em algo maior, possibilitando diminuir o desespero e facilitar a compreensão das coisas que parecem não ter solução.

O cair da noite instala o mistério, e tudo o que não é conhecido provoca o temor, a ansiedade, o impulso de se defender embora não se tenha noção exata de quê.

 O outono, dentre todas as estações, tem uma dubiedade que espelha a vida em si, mostra ambos os lados, todos os ângulos, e permite o equilíbrio de emoções que tornaria qualquer ser humano em alguém no caminho da plena realização pessoal.

                              Marcelo Gomes Melo

A rocha transformada em pedregulhos

A rocha que se parte em pedregulhos dormiu em autossuficiência. Cansou de resistir através dos tempos de modificação natural, do desgaste de permanecer imóvel, sem temor diante da iminente destruição do ambiente como é conhecido.

 O testemunho das grandiosidades, a fotografia das crises que resultaram em catástrofes, o destino de existir como um marco em determinado lugar faz da rocha a maior mantenedora da história do mundo, muda, inclemente, resignada e ignorada, até que desiste de seus desígnios enquanto pedra fundamental para quebrar-se, desmantelar-se em pedregulhos insignificantes e utilizáveis.

A decisão para isso parece em princípio, tresloucada, para quem não passou séculos sendo rocha; no entanto há um motivo, e ele soa muito razoável da perspectiva de quem exercia o poder imutável e imóvel por tanto tempo, com pouca efetividade na opinião dos que zombam do tempo.

Pedregulhos transformam-se em armas imediatas, se espalham por todos os lugares e causam pequenos danos, influenciando situações em contundência maior, embora com menor relevância.

A troca entre o tipo de poder instantâneo e o poder imortal depende da rocha em si, e suas intenções na participação universal intrínseca à sua existência.

Os pedregulhos se desfazem e misturam-se ao pó, mudando a sua forma e função universal, sendo esquecidos para sempre, inclusive terem sido fruto de uma última ação rebelde da rocha.

                              Marcelo Gomes Melo

A tosca possibilidade de amar

Quando eu não fazia ideia de que lhe amava, eu levava flores do campo todas as manhãs para enfeitar a mesa do seu café da manhã, o qual eu preparava cantando baixinho hits dos anos 80, alheio ao sol nascendo lá fora, clareando o espaço limpo e agradável em que você habitava.

O cheiro do café brasileiro que eu fazia, à moda antiga, com bule e filtros de papel espalhava-se pela residência, dando um sabor de vida e família. Naquele tempo eu nem entendia assim, era algo gostoso, mas sem significado.

Quando eu não fazia ideia de sua importância vital para a minha existência, eu colocava canções românticas para suavizar os seus dias e costumava voltar para almoçar com você, comida brasileira cujas receitas eu sabia de cor, e garantia que ficassem deliciosas para o seu prazer.Às tardes conversávamos e sorríamos, e eu recitava poesia milenar para o seu deleite, tomando suco gelado e café com biscoitos.

Realmente tudo era pra mim algo especial e instrutivo, embora não houvesse como definir ou determinar o que havia entre nós. Eu não sabia do amor infinito que em mim habitava.

O anoitecer era tranquilo e jantávamos e víamos TV, brincávamos um com o outro até que o sono viesse, então lhe acompanhava até o seu quarto, fazia um gesto de boa noite sem tocá-la e fechava a casa antes de ir embora, religiosamente à mesma hora, rotineiramente.

Então a tempestade chegou, inesperadamente em uma noite em que bebíamos vinho e conversávamos através dos olhares, nos aproximando cada vez mais através dos relâmpagos e trovões que ribombavam lá fora.

Naquela noite eu não pude ir, tive que permanecer com você e uma nova garrafa de vinho. Os trovões me fizeram entrar em seu quarto pela primeira vez. Compartilhamos a cama. Foi algo surpreendentemente perfeito e prazeroso para nós dois.

 Isso se repetiu depois, com frequência, com ou sem tempestade por muito tempo. Com ou sem vinho aprendemos um novo modo de interação, mais completo e, de vez em quando doloroso para ambos. Eu nunca soube explicar a sensação de vazio quando cometíamos algum erro que nos impedia de compartilhar o mesmo quarto, momentaneamente.

O destino causa problemas em situações como essa. Um dia entendi que aquilo que nos movia era amor. Eu estava perdidamente apaixonado por você.

Triste descobrir daquela maneira. Irônico passar uma vida de alegria sem saber a razão e só agora que você se foi, me reconhecer habilitado para definir nossa vida.

Como continuar a existir sem você é a minha nova questão sem resposta, um desafio para prosseguir com uma vida sem propósito, que se arruinou no momento exato em que acreditei na tosca possibilidade de amar.

                              Marcelo Gomes Melo

A paz mundial não é da sua conta!

Astro da banda inglesa The Smiths, ícone do rock dos anos 80 que liderou a invasão britânica no mundo, Morrissey lança novo CD e, ao mesmo tempo tem o seu contrato com a gravadora cancelado por conta de comentários feitos por ele contra o establishment, além de uma canção que retrata o seu pensamento quanto à dominação sofrida pelo povo por parte dos governantes que os trata como tolos e decidem todos os destinos fria e completamente.

 Na letra de “World Peace Is None of Your Business” (A Paz mundial não é problema seu), Morrissey cita o Brasil entre os países em que as pessoas estão sofrendo, vítimas dos governantes que os conduzem como uma manada, usando a força policial para reprimir e a mídia para emburrecer.

Paz Mundial é balela! Seu voto serve apenas para apoiar o processo de dominação; pague seus impostos, não se envolva no esquema dos poderosos; saiba que os ricos ficarão ainda mais ricos, mas não pense que os pobres serão extintos; eles são necessários para o massacre diário que enche os dominadores de prazer.

          Abaixo a letra traduzida da nova canção de Morrissey:

          “A Paz Mundial não é da sua conta”

          A paz mundial não é da sua conta

          Você não deve mexer com o esquema

          Trabalhe duro e docemente pague seus impostos

          Nunca perguntando o porquê

          Oh, oh, pobre tolo

          A paz mundial não é da sua conta

          A polícia irá paralisá-lo com suas armas de choque

          Ou irão te desabilitar com suas armas

          É pra isso que o governo serve

          Oh, oh, pobre idiota

          A paz mundial não é problema seu

          Então você, por favor fique fora disso

          Os ricos devem lucrar e ficar mais ricos

          E o pobre deve ficar mais pobre

          Oh,oh, pobre tolo

          Cada vez que você vota, você apoia o processo

          Brasil, Bahrein, Egito, Ucrânia

          Tantas pessoas sofrendo

                                                 (Morrissey)

          Marcelo Gomes Melo   

A participação real do ser humano no planeta é questionável

As maquinações que sua cabeça trama, acontecem espontaneamente, você é dominado pelo que o seu cérebro comanda influenciado pelo entorno físico e metafísico, transformando-lhe em um mutante que crê piamente ser o gestor da natureza, modificando-a ao seu bel prazer quando o que acontece não chega perto disso.

 O modificar da natureza se concentra basicamente na destruição, na artificialidade que afronta o que já existe à perfeição; encaminha todo um planeta para o fim indiscutível por adoecer graças a arrogância nojenta de quem manipula a natureza com intenções únicas de lucrar e dominar o mundo, o que soa mais louco do soam os vilões dos gibis.

 Não saber como o próprio cérebro funciona já deveria servir de advertência para o ser humano, mas humildade dentre os que alcançaram posição de poder é inexistente. Decidir a quantidade de pessoas que vivem ou desaparecem em nome do bem-estar de poucos é inaceitável.

 A vida é frágil para esses mandantes também. Estarão eles considerando dominar a imortalidade? Qual é a motivação em, inebriado de poder decidir eliminar milhões de seus pares humanos através de guerras, doenças, catástrofes, se pode se tornar vítima súbita das armas que criou…

 A não ser que estejamos forçosamente incluindo inúmeras teorias da conspiração para explicar o porquê esses mandantes fazem o que fazem. Aliens? Extraterrestres no comando, eliminando humanos para deixar palatável a Terra para a sobrevivência de sua espécie? A seguir cenas dos próximos capítulos.

Marcelo Gomes Melo

A paciência deixa de ser virtude e passa a ser caminho para a obtenção de lucro

O professor não tem mais paciência para orientar o aluno. O aluno não tem paciência para ser orientado pelo professor e nem entender a importância de crescer com o aprendizado.

 O médico não tem mais paciência para ouvir o paciente. O paciente não tem paciência para entender o atendente, que não tem paciência para realizar nenhum atendimento.

 O policial não tem paciência para lidar com os cidadãos de bem porque a maioria das pessoas com quem lidam é de bandidos. Os cidadãos de bem não têm paciência de confiar na polícia porque acreditam que todos são corruptos e mal preparados.

A imprensa não tem paciência para apurar de verdade as notícias. A população não tem paciência para filtrar as informações que lê e assiste, separando o joio do trigo; o que é plantado e inventado do que é verossímil.

Quem é que tem paciência hoje em dia? Além dos budistas, é claro. Além dos discípulos de Gandhi e dos flutuantes experts em meditação transcendental. Além dos indianos que praticam autopunição para espiar os pecados. Além dos monges que ateiam fogo ao próprio corpo num ato de produção de churrasco humano inigualável. Quem?

Muitos profissionais são pacientes! Os vendedores de carros usados, por exemplo. Os vendedores de jazigos; os profissionais que ganham por comissão…

Os mais pacientes de todos, com grande certeza são os gerentes de banco e os candidatos a algum cargo político. Esses são donos dos sorrisos mais largos do mercado, os mais atenciosos, gentis e preocupados seres do planeta. Apertam mãos, beijam, oferecem cafezinho, colocam crianças no colo, fazem promessas sem fim.

Seria o caso pensarmos que a paciência estaria ligada à possibilidade de obtenção de lucro? Às vantagens a serem adquiridas? Isso seria desacreditar em um dos pilares da virtude humana, corrompida irrefutavelmente em tempos de individualismo e pensamento baseado apenas no materialismo e no imediatismo da ascensão social promovida pelo dinheiro conseguido a qualquer custo.

 As pessoas já não pensam mais na coletividade, não sentem piedade nem agem apenas pelo bem do coletivo. Toda a demonstração de apoio e comoção com o sofrimento alheio, com as tragédias que ocorrem diariamente é falsa, da boca pra fora, visam apenas elevar a própria imagem pública.

  O ser humano de hoje será o autômato inanimado de amanhã?

Marcelo Gomes Melo

A maravilha feminina que enfeita a vida

Domina o meu pensamento a forma como todo aquele conteúdo cabe dentro daquela minissaia! Uma fórmula matemática há que existir que defina a razão para que ela caiba perfeitamente dentro daquele pedaço mínimo de pano sem ser vulgar ou desperdício do que esconder, porque nada se consegue ver que não o seja através dos olhos da mente.

Como ela se movimenta tão fácil, se preocupa tão pouco e consegue manter a elegância intacta, inquietando meninos e intrigando homens?

Nada se vê além do que ela queira mostrar. É algum treino ser bonita e refletir a tudo de maneira natural, afastando-se inteiramente do bizarro que visa vender belezas produzidas em linhas de montagem.

 O fato é que ela consegue gerar sensualidade intuitiva e causar pensamentos excitantes sem o desprezo demonstrado ao que é sem propósito, cujo sensacionalismo que gere dinheiro é só o que importa. O desprezo pelo que é Belo em evidência, tentando incutir em cada cérebro a beleza que os interessa.

Nada disso será possível, felizmente. Os seres humanos utilizam todos os sentidos para reconhecer a verdadeira beleza. Ela é a principal representante dessas sensações. E eu, o maior de seus súditos nessa intrincada tarefa que é desvendar as maravilhas femininas que enfeitam a vida.

Marcelo Gomes Melo

A hora do Tapitinguá

Hanestésio é macho bomba, é garoto sepulcral, é modinha plural, o homem das baladas epidemiológicas. Gosta de se vestir de forma inequívoca, tornando claro que está antenado com as tendências delimitadas pelo mundo em todas as áreas, principalmente as artísticas.

Artísticas na óptica dele, diga-se de passagem. E o gosto de Hanestésio, homem do amor e da flor, tiozinho Sukita sem noção, não era lá essas coisas, pendendo mais para o péssimo do que para o razoável. Mas gosto é algo bastante subjetivo, dizem os que vivem em cima do muro, sem querer se comprometer com nada que lhes traga antagonismo.

Hanestésio empurrava aquele boné na pequena cabeça de melancia, uma calça daquelas retalhadas que custam uma fortuna mesmo que faltem pedaços, um tênis de jogador de basquete americano, coloridão com cadarços desamarrados, uma camisa polo de marca dois tamanhos maior e um óculos escuros utilizado como “arquinho”, resquício da mania do pagode que ele mantinha sem perceber. Ah, cabe ressaltar que os óculos ficavam sobre o boné, o que era ainda mais bizarro!

E assim ia ele às baladas mais exóticas, batalhando as novinhas como se não houvesse amanhã, tentando se acomodar em uma tribo que não parecia ser a dele em nome da felicidade. Hanestésio era homem de cidade pequena, distante dos grandes movimentos da moda universal, mas desde que inventaram o computador, as informações se encurtaram, chegavam mais rápido ao local em que ele se escondia, isso era estarrecedor. As notícias chegavam, mas distorcidas como na antiga brincadeira do telefone sem fio, que existia na Era da pedra lascada ou coisa assim.

 Para ele a sexta feira era a “hora do Tapitinguá”, era quando a onça bebia água, e a “onça” era ele; saía para a caçada semanal por sexo, cerveja e funk carioca, não necessariamente nessa ordem. Esses elementos acalmavam o âmago tumultuado de Hanestésio, o desespero silencioso que o massacrava, a solidão tática que se espalhava por todo o seu ser e o fazia tentar eternamente manter o pescoço acima do lamaçal que era a vida para um ser humano como ele.

Pode ser triste, mas é assim com milhares de indivíduos, e talvez o apego às futilidades salve diversas pessoas do ostracismo e da morte; então, já filosofando sem querer filosofar, nada é tão sem categoria que não se possa absorver alguma coisa em proveito próprio. Isso faz de muita gente uma recicladora ambulante de lixo.

A hora do Tapitinguá pode ser um engano solene ou uma salvação sensacional, dependendo de como cada um encara a sorte, ou a falta dela. Levando isso em consideração, todos deveriam agir como Hanestésio em 50%, pelo menos; criar a própria hora, seja em que dia for, seja em que local estiver. Sem esquecer que a ausência de preconceito também pode se tornar um preconceito, metalinguisticamente falando.

Marcelo Gomes Melo

A imagem que as pessoas criam de si mesmas, o amor e a fé cega.

É incrível como funciona a imensa roda do universo, partindo do ponto de vista de nós, seres humanos, aqui no planeta Terra. Nada do que fazemos ou pensamos parece realmente real; existe uma verdade individual, a visão que temos e formamos de nós mesmos, e a maneira que imaginamos como somos vistos pelas outras pessoas.

          Essa imagem pública tem mudado através dos tempos. É como as celebridades se comportam ou são induzidos a se comportar para chamarem a atenção do público e conseguir criar polêmica suficiente para que funcione como um coletor interminável de dinheiro e, consequentemente influência social. Poder. Políticos criam uma imagem pública de cordeiros, representantes reais do povo inculto e ingênuo, mas com enormes tendências corruptas, capazes de criticar a maneira como seus eleitos roubam, mas praticam pequenos assaltos diários, desvios de conduta e ética aos quais perdoam descaradamente em si mesmos, embora não nos outros.

          A imagem criada para vender ao resto do mundo é sempre perfeita, ou beira à perfeição, ao mesmo tempo em que precisam demonstrar tolerância a aberrações para serem considerados modernos e aptos a liderar uma vanguarda cada vez mais bizarra, valorizando a qualquer coisa que gere e multiplique dinheiro e fama. Os donos dessas imagens plastificadas de si mesmos sabem disso, e utilizam a ajuda de consultores para produzir uma imagem atraente e ideal para fisgar a maioria imensa da população, o que é muito mais simples hoje em dia com a velocidade do alcance das redes sociais. Para influenciar pessoas basta coragem e cara de pau, porque há milhares de imbecis dispostos a seguir qualquer coisa; idolatrar de carrinhos de bebê a pedras preciosas, de drogas alucinógenas a espaçonaves.

          Hoje todos sabem e comentam a respeito do que costumam chamar de “fake”, mesmo que não saibam o significado da palavra em seu idioma; não é um problema nem traição utilizar-se de uma imagem pública totalmente oposta ao que se é na realidade. Ou no que se imagina ser.

          Além da imagem pública, existe a imagem particular, que corresponde ao que a pessoa acreditar ser e parecer. Quando se olha em um espelho é o que ela vê, e pensa que todas as outras pessoas as veem assim também. Essa imagem é o sonho de cada um tentando se concretizar, e envolve apenas excelentes valores; então todos são lindos, magnânimos, justos, felizes, coerentes, amorosos, ricos, saudáveis, generosos… Quase santos. Os defeitos são esquecidos no fundo do baú. Aliás, ninguém parece reconhecer que têm defeitos, de mau hálito a cleptomania, de mau humor a covardia, de burrice a traição.

          É por isso que, quando alguém sente atração por outra pessoa, jamais é pela razão que a outra pessoa imagina. Ela pode tentar exercitar as maiores virtudes que pensa possuir, sorrindo sensualmente, contando as maiores mentiras sobre como se é inteligente e acredita na paz mundial, suprir todas as necessidades materiais, espirituais ou sexuais e apostar que são as razões para ser amado verdadeiramente, e no final das contas não ser nenhuma dessas as razões para ser gostado. Primeiro nunca é possível saber que é realmente amado, a não ser em circunstâncias para lá de especiais, por puro acaso. Nada do que se possa ouvir ou falar, fazer ou demonstrar será suficiente para bater o martelo e acreditar definitivamente. Depois, a motivação da outra pessoa para dividir os momentos com você, bons ou ruins pertence apenas a ela, e é muito provável que ela nunca as divida com você. E vice-versa. É preciso fantasiar para tornar suportável a vida.

          Por fim a imagem real. A forma como as pessoas lhe enxergam e julgam. Sim, porque faz parte do ser humano julgar o tempo inteiro, tendo ou não fatos suficientes para isso, ou razão, ou direito. As pessoas julgam. Talvez seja por isso que a existência seja tão etérea e a humanidade esteja disposta a acreditar em qualquer coisa que alivie o fardo de viver.

          A decepção é a moeda de troca através dos tempos. Será que vale a pena saber de verdade o motivo de alguém que diz lhe amar? Será que a razão do amor vai lhe satisfazer ou lhe destruir completamente? Ninguém sabe os segredos que a alma dos seres humanos esconde, nem eles mesmos.

          Embora o ódio seja mais facilmente explicável, e explicitado sem nenhum constrangimento, é o amor, que todos acham possuir em todos os níveis, o mais difícil de explicar; ou de entender. É o amor, juntamente com a razão de existirmos, que muitas almas inquietas procuram obsessivamente desvendar. Mas o mesmo amor, tão cantado em prosa e verso, tão decantado e confessado através dos tempos é a pedra filosofal, enquanto as pessoas são os alquimistas, em uma busca incessante, instrumento crucial para o conhecimento maior que consolidaria a razão para a existência. O que move essa procura nada mais é do que a fé cega.

A namorada do criminoso

A namorada do criminoso é bela como um entardecer na praia, com seus modos jeitosos e olhares convincentes. Os seus passos tão leves a levam à caverna em que o criminoso se esconde, e então ela derrama sobre ele as bênçãos de uma mulher iluminada.

 A garota do criminoso fala como uma escolhida, de voz aveludada, com o olhar baixo o suficiente para denotar submissão, mas o queixo erguido o suficiente para demonstrar superioridade nata, não forçada. Ela costuma passar incólume por entre os ratos que habitam a caverna do criminoso, dividem com ele o lar e a escuridão. Ela jamais reclama, parece não vê-los por lá, roendo restos das refeições que entrega religiosamente ao namorado diariament Disso o criminoso não pode ser acusado; não dividir suas rações com os companheiros ratos e demais seres rastejantes que parecem não assustar a princesa flutuante que é sua musa. Ela tem o dom de envolver a carapaça dura e fria do criminoso com suavidade e amor, e controlar com a respiração os instintos mais mortais da criatura.

 A mulher do criminoso não o teme. Não teme, também, os algozes que o perseguem, nem os juízes que o julgam, ou os curiosos que o acusam; ignora aos covardes que o incriminam ao mesmo tempo em que o temem. Ou o incriminam porque temem.

A namorada do criminoso sorri bondosamente a seu tempo, distribuindo pílulas de amor como milho aos pombos da praça, nocivos pela inutilidade da existência atual, embora extremamente ativos na antiguidade, mensageiros de boas novas e segredos tétricos.

Ela parece pairar acima de todos os outros seres, e o fato de namorar o criminoso aumenta ainda mais o respeito com que lhe tratam a escória, e também a elite. Só há elogios para suas atitudes e paixão platônica para sua pessoa, já que ninguém ousaria tirá-la do criminoso; não por temê-lo, mas por saber que o amor dela era intransponível, intransferível e eterno. Ninguém jamais poderia competir com o criminoso, cujas boas referências desconheciam, muito menos a capacidade dele de amar, mas por ela ser a perfeição sobre duas belas pernas, exalando perfume francês e ajudando a todos, crentes ou descrentes sem discriminação. Aliás, como poderia? Era a namorada do criminoso!

A namorada do criminoso desfrutava de um status absurdamente elevado, sem almejar nada daquilo em momento algum; ou exatamente por não almejar tanta influência. Namorá-la tornava o criminoso, aos olhos dos outros, alguém com um resquício de alma, digno de habitar as profundezas sem ser definitivamente eliminado da vida em sociedade. O criminoso deveria agradecer a cada momento pela existência de tão bela criatura que o amava incondicionalmente e acalmava a fera contundente e aterrorizante que ele era desde que nascera; deveria saber que ela era o único anteparo entre ele e o inferno em chamas, e sua luz para o caminho inacabável e escuro da redenção.

Todos amavam a mulher do criminoso. As mais jovens sonhavam imitá-la na postura, na beleza e na bondade, embora não quisessem nenhum criminoso como marido; as mais velhas adoravam a sua devoção humilde, a sua disposição com o namorado, a sua atuação como pacificadora implorando perdão a Deus pelos crimes do desastre que era o seu homem.

Os homens jovens a olhavam com ardor apaixonado, sem ousar dirigir-lhe a palavra, mas todos a homenageavam em seus quartos, à noite, com uma mistura de medo e prazer. Medo e vergonha de que suas mães descobrissem, e pavor indescritível de que o criminoso soubesse! Os mais velhos a cumprimentavam com seus olhares lascivos e sorrisos falsos, escondendo atrás do respeito excessivo seus desejos mais nojentos.

Era unanimidade, a namorada do criminoso. Principalmente quando chegava ao Banco após a visita ao seu homem e abria a sacola cheia de dinheiro, depositando 80% em sua conta secreta e o restante na conta conjunta com o seu namorado. Os gerentes sorriam, babavam e tremiam, hipnotizados por tanta beleza e tanto dinheiro vivo! Os banqueiros tiravam os chapéus e ofereciam café e licor, quem sabe um jantar ao anoitecer, mas ela recusava docemente e se recolhia, tranquila, para preparar-se em seus aposentos para uma nova caminhada ao amanhecer em direção à caverna.

Todos ouviam as notas divinas do piano, tarde da noite, vindas do quarto da figura atraente e superior, e imaginavam com inveja, comovidos, como alguém poderia ser assim abençoada com tantos predicados. Após a peça bem tocada ao piano, a namorada do criminoso recolhia os anéis de ouro que jaziam sobre o instrumento e os recolocava em seus dedos finos e elegantes. Então retirava o peignoir e dormia o sono dos justos em sua alcova macia e gigantesca, sem pensar na caverna em que o criminoso, de olhos arregalados, abraçava o próprio corpo para diminuir o frio e tentava sobreviver uma noite mais.

Marcelo Gomes Melo

A tosca possibilidade de amar

Quando eu não fazia ideia de que lhe amava, eu levava flores do campo todas as manhãs para enfeitar a mesa do seu café da manhã, o qual eu preparava cantando baixinho hits dos anos 80, alheio ao sol nascendo lá fora, clareando o espaço limpo e agradável em que você habitava.

          O cheiro do café brasileiro que eu fazia, à moda antiga, com bule e filtros de papel espalhava-se pela residência, dando um sabor de vida e família. Naquele tempo eu nem entendia assim, era algo gostoso, mas sem significado.

          Quando eu não fazia ideia de sua importância vital para a minha existência, eu colocava canções românticas para suavizar os seus dias e costumava voltar para almoçar com você, comida brasileira cujas receitas eu sabia de cor, e garantia que ficassem deliciosas para o seu prazer.

          Às tardes conversávamos e sorríamos, e eu recitava poesia milenar para o seu deleite, tomando suco gelado e café com biscoitos.

          Realmente tudo era pra mim algo especial e instrutivo, embora não houvesse como definir ou determinar o que havia entre nós. Eu não sabia do amor infinito que em mim habitava.

          O anoitecer era tranquilo e jantávamos e víamos TV, brincávamos um com o outro até que o sono viesse, então lhe acompanhava até o seu quarto, fazia um gesto de boa noite sem tocá-la e fechava a casa antes de ir embora, religiosamente à mesma hora, rotineiramente.

          Então a tempestade chegou, inesperadamente em uma noite em que bebíamos vinho e conversávamos através dos olhares, nos aproximando cada vez mais através dos relâmpagos e trovões que ribombavam lá fora.

          Naquela noite eu não pude ir, tive que permanecer com você e uma nova garrafa de vinho. Os trovões me fizeram entrar em seu quarto pela primeira vez. Compartilhamos a cama. Foi algo surpreendentemente perfeito e prazeroso para nós dois.

          Isso se repetiu depois, com frequência, com ou sem tempestade por muito tempo. Com ou sem vinho aprendemos um novo modo de interação, mais completo e, de vez em quando doloroso para ambos. Eu nunca soube explicar a sensação de vazio quando cometíamos algum erro que nos impedia de compartilhar o mesmo quarto, momentaneamente.

          O destino causa problemas em situações como essa. Um dia entendi que aquilo que nos movia era amor. Eu estava perdidamente apaixonado por você.

          Triste descobrir daquela maneira. Irônico passar uma vida de alegria sem saber a razão e só agora que você se foi, me reconhecer habilitado para definir nossa vida.

          Como continuar a existir sem você é a minha nova questão sem resposta, um desafio para prosseguir com uma vida sem propósito, que se arruinou no momento exato em que acreditei na tosca possibilidade de amar.

Marcelo Gomes Melo

A vida é uma sequência de poemas costurados…

         Todo dia eu componho uma canção diferente em meus pensamentos, com versos que duram apenas o suficiente para controlar as ações extremas que eu poderia tomar, acalmando os meus passos, destruindo as angústias, transformando-as em pó sob os meus sapatos; ficam para trás, carregadas pelo vento.

          A minha mente trabalha vinte e quatro horas por dia em velocidade insana, atropelando a força do meu corpo, me atirando contra o muro da existência a cada vez em que me ergo e resisto. As canções que componho a cada momento, sem mover os lábios salvam a minha vida constantemente, ainda que outras pessoas não as cantem nem as ouçam; que os versos se desfaçam pelo ar assim que imaginados, criados para suavizar as dores auto emuladas e os constrangimentos comuns inerentes à vida em sociedade.

          O certo é que a força motriz por trás dos meus atos é a música que produzo para os meus ouvidos e o meu coração, e mais ninguém. A poesia particular salva muitas vidas, atenua os temores, encanta o cérebro e lhe empurra para o mundo, consciente dos dissabores e preparado para compreender, intuir e saborear a poesia alheia, enriquecendo a si próprio com outras visões, interagindo com o resto do planeta com uma leveza capaz de contribuir social e mentalmente para a evolução.

          A vida é uma sequência de poemas costurados, colados, adesivados uns aos outros. Precisam ser lidos e observados com melhor atenção para transformar e evoluir.

Marcelo Gomes Melo

“Batendo palmas para louco dançar”

          Estupidez e morte. Essa é a rota da degradação moral e espiritual. A mesquinharia é serventia da casa.

          De que adianta ousar vender uma imagem ao mundo, se essa imagem corresponde, não ao que você realmente é, mas ao que a demanda social ordena?

          Sentir-se excluído por não seguir as determinações da maioria lhe magoa a ponto de abandonar os próprios princípios?

          Ser democrático é curvar-se ao desejo da maioria sem deixar de defender os próprios pontos de vista; respeitar e se fazer respeitar sem usar de falsidade e boicotar ao que foi aprovado nas sombras, covardemente, sem nenhum escrúpulo.

          Buscar fazer parte do bolo de incautos que se deixam levar pela maré por medo de fazer as próprias escolhas é deprimente. A visão atual de viver em sociedade é clara: siga os dominantes, esconda os seus pontos de vista e aceite a promiscuidade, o trato aos idosos, adolescentes, crianças e demais minorias com condescendência e mantenha a cabeça baixa, sempre pronto para aplaudir a loucos dançando.

          A alternativa é badernar, mentir, destruir e sacanear em nome de um posicionamento tosco, mentiroso e cruel.

          Sim, é isso mesmo. Sair do caldeirão para cair na frigideira. A mediocridade está no poder!

                              Marcelo Gomes Melo

Civilização em movimento autodestrutivo

         É estranho para quem, de repente, percebe que tem história para contar, que viveu determinada época que hoje faz parte da história, participou de ações que mudaram a sociedade e criaram novos dogmas que à época pareciam comuns e hoje ditam comportamentos.

          Essa estranheza se dá porque tal percepção equivale a reconhecer que envelhecemos. Citamos acontecimentos de há trinta anos com conhecimento de causa enquanto a juventude que nos cerca apenas ouviu falar. Isso significa que somos mais experientes e sábios ou meros seres ultrapassados?

          Os novos desígnios da juventude nos soam absurdos porque estão calcados na agenda da mídia contaminada que distorce fatos para estender a lavagem cerebral rapidamente, e faz parecer comuns atitudes dantescas, principalmente para nós que envelhecemos.

          Sobreviveremos o suficiente para lutar contra a nova configuração ou sucumbiremos a ela, ficando marginalizados, tratados como a um móvel antigo, superados e ignorados, inclusive desmerecidos por quem segue o enterro sem ter conhecimento adquirido, mas busca cavar um novo túnel para viver segundo as próprias regras, mesmo que sejam toscas e tortas, e, na nossa visão envelhecida os levem a uma derrocada completa, ou venceremos a guerra para manter os velhos hábitos após o nosso desaparecimento físico, como por exemplo modelo familiar, importância religiosa. Noções de convivência, ética e responsabilidade?

          Civilizações somem. Dinossauros e outros animais foram extintos. Dogmas viraram objetos de estudo e controvérsia. Estamos envelhecendo e defendemos a bagagem intelectual adquirida como molde indiscutível para viver com qualidade, no momento em que as novas gerações escolhem maneiras diferentes das nossas, e que aparentam ser nocivas e destrutivas. É assim que caminha o mundo, em potencial força de autodestruição inigualável. Quem viver, verá.

                              Marcelo Gomes Melo

Amores de todas as cores

Amplie o seu modo de pensar. Abandone as definições protocolares sobre o que é o amor e de como é amar. Desenvolva o talento da permissão; permita a si mesmo deixar fluir o pensar, o ser e o pertencer. Conecte-se ao universo partícula por partícula! Desligue-se do que é padronizado, afaste-se dos impulsos de excluir, de discriminar por opiniões diferentes, posicionamentos políticos contrários, opções sexuais divergentes, tom de pele ou linguajar diferenciado… Simplesmente inclua-se. Ouça e entenda, antes de falar. Compartilhe ao invés de dividir; conteste sem afastar. Desfrute das cores, dos sonhos, da vida! Os números são infinitos.

O amor é resiliente, é a cola que une as partículas, a ponte que intermédia as atitudes, é a chama da autoestima e não cobra por isso. Não é preciso nada além de se fazer presente e deixar o amor se apossar, corpo e alma, diluindo decepções, pondo de lado recalques, substituindo tristezas.

Os amores de todas as cores, de todos os sons, de todas as nuances, gratuito, desprovido de impostos, incorruptível, com todos os seus artifícios. O amor paterno. O amor materno. O amor a Deus. O amor sensual, sexual; o amor pela natureza. O amor pelos animais, pela vida, pelo trabalho. O amor pelos esportes, o amor próprio… Enfim, todo amor é instrutivo, é saudável, construtivo e viável. Se não o for, não é amor.

Conscientize-se de que é importante falar, escrever, ler, agir, expressar todo esse amor; como paliativo às dores, alternativa à intolerância e demonstração cabal de que um gesto, um pensamento, uma atitude são essenciais para controlar o universo, particular e coletivo.

Fale de amor, sinta! Ame!

                    Marcelo Gomes Melo

Deixando-se levar pela ambição. Cuidado com o que deseja.

         O delegado estava sob grande pressão, precisando demonstrar resultados para aspirar a um cargo maior; talvez até uma candidatura a vereador, deputado… Subprefeito já servia. Síndico do prédio dos milionários já aceitaria de bom grado, mas não havia nada que lhe indicasse uma chance dessas imediatamente.

          Estava pensativo no balcão do bar, sentado num daqueles bancos altos, o copo de uísque e outro de cerveja ao lado, pensativo, observando os demais frequentadores, a maioria conhecidos da cidade. Que razões teriam para votar nele, aqueles que estavam jogando bilhar, os que degustavam salgadinhos e bebiam seus drinques debatendo assuntos gerais, uns com fervor, outros mansamente?

          Seria preciso acontecer uma hecatombe política em forma de onda para que ele surfasse no topo e virasse o assunto principal, capaz de ser erguido ao status de imprescindível para uma carreira longa e lucrativa. Só que naquela cidade ninguém morria! Nem de atropelamento, muito menos de causas naturais. Então não havia como se destacar se não tivesse nada para investigar, coisa alguma para exigir a sua liderança ou seu lado filosófico de conselheiro.

          Ele esvaziou o copo de uísque e pediu outro com um gesto ao garçom, passando a se ocupar da cerveja na tulipa. Foi quando entrou uma loira exuberante no salão. Todos os olhos se desviaram para ela de imediato, principalmente os masculinos, hipnotizados com a visão. Alta, vestido colado ao corpo, em listras horizontais vermelho e branco, Acabava logo no início das coxas firmes.

          As mulheres pensaram em como ela iria fazer para sentar em um banco daqueles sem deixar nada à mostra, enquanto ela se dirigia sensualmente ao balcão, segurando uma bolsinha pequena. Os homens não pensavam, torciam para que ela sentasse em um daqueles bancos altos, e se arrumaram instintivamente, voltando o olhar para o caminhar da loira.

          O delegado suspirou, apertando os olhos e acendendo um cigarro. Era deslumbrante, a mulher, realmente. Mas em nada poderia ajudá-lo a obter status a ponto de conseguir virar um astro com potencial político. Além do mais, as chances que tinha com uma mulher daquelas era igual a de ser eleito presidente da República naquele momento.

          Quanto mais ela se aproximava, mais podia-se enxergar o contorno do corpo dela. Era como se não vestisse nada por baixo! Ou os camaradas tinham sido abençoados com visão de raios-X de uma hora para outra! Estavam tão concentrados nos vales e montanhas da loira que sequer perceberam sua cara aterrorizada, a maquiagem borrada pelas lágrimas… As mulheres deduzindo que pelo menos era feia de rosto, a vagabunda, e os caras pensando que no escuro todos os gatos são pardos.

          Ela parou bem na frente do delegado, que custou a acreditar que era com ele que a moça falava, em um tom choroso e nervoso. Minuciosamente percorreu a interlocutora, dos cabelos aos dedos dos pés, lenta e incisivamente. Só não pediu que ela virasse porque seria inescrupuloso demais naquele recinto. Ainda não entendera uma palavra do que ela dissera; toda a atenção estava voltada para a observação empírica do objeto.

          Finalmente ela alteou a voz e ele entendeu que a pergunta era se estava falando com o delegado. Engolindo em seco, concordou com a cabeça, já imaginando se tirara a sorte grande e sairia dali com aquele monumento. Isso lhe daria status suficiente para fumar um charuto no dia seguinte lá no clube e insinuar as peripécias da noite anterior, como um cavalheiro o faria. Contando o milagre sem mencionar o santo.

          A loira estava explicando uma coisa que parecia terrível, e se referia ao vestido que usava, pois percorria o corpo todo com as mãos finas enquanto falava, parecendo uma dançarina de strip tease sem muita experiência. Todos os clientes a rodearam para ouvir a história. Os que estava acompanhados fortemente agarrados por suas mulheres, que os observavam com cara de “depois te pego”. Só então o delegado conseguiu manter o foco e prestar atenção ao que ela dizia.

          O fato era sensacional, ele pensou, aprumando-se profissionalmente no banco e afastando o copo de uísque. Aquilo lhe daria exposição suficiente para ser candidato a promotor ou até mais! O vestido que ela usava… Que vestido? A mente dele insistia em refutar. Ali nem tinha vestido algum, dava pra ver até a alma! Aquilo era um novo tipo de tecido em relevo, só podia ser!

          As mulheres reclamaram e demonstraram alguma piedade e horror com o caso contado por ela. Preciso me concentrar de uma vez! Isso pode decolar a minha carreira, essa loira é o trampolim para o meu futuro! Gentilmente pediu silêncio às mulheres e pediu que ela contasse outra vez o que acontecera.

          Ela era casada. Bem casada, ressaltara. O marido era político famoso e supostamente chefe da máfia naquela cidade. Ele estivera viajando e retornara antes do previsto, pegando-a na companhia inocente de seu ajudante pessoal, um rapaz que era encarregado de pintar-lhe as unhas, fazer-lhe massagem e levar suas camisolas e lingeries para o cesto de roupa suja. Além de tudo, o menino nem era chegado no modelo tradicional de amor; estava juntando dinheiro para trocar de sexo! Mas o marido mafioso não pensou assim quando o pegou com ela dentro da banheira. Segundo a explicação dela, o moço estava apenas fazendo borbulhas dentro da banheira para alegra-la pela falta que sentia do marido.

          Alucinado o mafioso sentou em uma cadeira e mandou que seus capangas pregassem o ajudante dela na banheira, para que ele tomasse um banho permanente e fizesse borbulhas com o próprio sangue. Ela presenciara ao ato ali, em pé, nua e molhada, se encolhendo e cobrindo como podia. O marido se irritara com aquilo, perguntando porque ela estava se cobrindo se usava roupas tão curtas que mostrava até a fiação elétrica! Então ordenara que dois capangas a secassem vigorosamente com toalhas ásperas, e quando ela ficou sequinha, cobriram seu corpo com supercola e enfiaram aquele vestido, para que ficasse vestida para sempre.

          Os homens, gelados, voltaram aos seus lugares pedindo mais uma dose da bebida mais forte, enquanto as mulheres demonstraram uma alegria perversa e sorriram disfarçadamente; algumas hipotecaram solidariedade e olharam para o delegado significativamente, querendo uma solução para o caso.

          Pálido, ele esvaziou o copo de uísque de uma vez e em seguida o de cerveja. Tossiu um pouco e um filme passou por sua cabeça naqueles segundos. Talvez status demais não fosse tão bom assim… Talvez um cargo proeminente exigisse coisas que deixariam pessoas mais poderosas irritadas com ele, e a vida era tão frágil!

          Apagou o cigarro e pagou a conta enquanto instruía a loira sobre o que fazer. A senhora vá até um hospital agora e depois volte pra casa, seu marido deve estar mais calmo e poderão conversar melhor. Amanhã a senhora procura a delegacia e conversa com o delegado de plantão, caso ainda queira registrar alguma queixa. Mas brigas entre casais são assim mesmo, deveria relevar… Levantou-se e se despediu, pedindo licença e saindo o mais depressa que podia em direção à sua casa. Do lado de fora ligou o carro com as mãos tremendo e suspirou de alívio, secando o suor da testa com a manga do paletó: ainda bem que estaria de folga no dia seguinte!

                              Marcelo Gomes Melo

 

Algo que você não sabe o que é

         Escalar a muralha escorregadia com as mãos ensanguentadas, os dedos feridos e quebrados, o vento descaradamente sussurrando propostas indecorosas em meus ouvidos zumbindo, todas elas mortais, enquanto me empurrava impiedosamente para o lado e para o além não foi a parte mais difícil.

          Concluída a tarefa hercúlea após horas de sofrimento, com a testa franzida em concentração inquebrantável, alcançar o topo, a pele do rosto queimada pelo frio, os olhos esgazeados de cansaço e dor, ameaçar um arremedo de sorriso, mais uma careta, um esgar, a expressão mais feia do mundo, mas significando vitória, superação sobre todas as forças, naturais ou extrassensoriais. Vitória sobre os medos pessoais, sobre as indefinições da vida, as visões enganadoras e os terrores intrínsecos à uma alma que vagueia sem rumo em um mundo apocalíptico.

          Um longo olhar embaçado, sem enxergar a vastidão em redor, mas ainda assim superior, provocativo, um quase morto recusando-se a deixar o ambiente rústico dos vivos, por piores que sejam as provações. Um longo e renovado suspiro. Ar gelado magoando os pulmões e relembrando cada escoriação, e em seguida a lembrança de que a descida precisa ser iniciada. A missão concluída ao pisar no chão do lado oposto, a terra dura que equilibra os corpos humanos e permite que o olhar assista aos corpos celestiais em movimento quase imperceptível, brilhantes em seus destinos distantes.

          A descida é bem mais fácil, tentam se convencer os alquebrados, porque aos trambolhões chegam ao final quase sem escolha, empurrados constantemente pelas forças invisíveis que os dominam. E ao tocar finalmente o chão, os joelhos se dobram. As forças se acabam, a breve vitória anterior se transforma em tragédia. O suor escorre pela face pálida e enxerta a terra envenenada, enquanto, sem nem mesmo poder olhar em volta, é possível sentir a zombaria muda do ambiente, perguntando de que valeu tanto esforço, se o resultado era sabido desde o início.

          Não há mais forças quando a cabeça encosta o chão e os braços, inúteis, se deixam cair, completamente vencidos. O cérebro trabalha, entretanto. A vontade permanece. A boa vontade não se extingue ante as agruras. O ar que enche os pulmões permite a recuperação lenta. A natureza que destrói é a mesma que ajuda; não existe almoço grátis. Tudo exige uma troca, em apoio, em sorriso, em dinheiro, em favores… Em agradecimentos, sobretudo.

          Não é preciso ser religioso para ter fé. Não é necessário saber que é fé o que permite crer na ciência. Não é preciso denominar como fé. Basta lembrar que há algo que lhe permite quebrar e consertar, sofrer e superar; algo cujo nome você desconhece. Algo que você não sabe o que é.

                              Marcelo Gomes Melo

 

…Assim falou o psicopata canibal

       “- Os olhos dela reviraram!” – Disse ele esfregando as mãos numa alegria quase juvenil, os dentões brancos à mostra – Isso é bom! Isso é muito bom! Ha, ha, ha, ha, ha! Quer dizer que atingi o famigerado ponto G!

          Seus olhos demonstravam uma alegria quase febril enquanto percorria aquele quarto, sorrindo e respirando fundo para absorver aquele odor acre, para ele tão sensual. A adrenalina sacudia suas veias e o fazia quase estrebuchar de um prazer contido.

          – Minha querida, vamos tentar outra coisa, em minutos, me deixa apenas recuperar o fôlego, não seja cruel! A juventude abandona a um homem aos poucos, mas a experiência consome suas incertezas e faz dele um experimentador melhor.

          Realmente se assemelhava a um cientista ou a um Indiana Jones qualquer, com antebraços musculosos e uma tatuagem no rosto, ao lado do nariz, entre muitas outras pelo corpo. Contava que aquele corvo fora tatuado às costas com tinta de caneta preta e pregos de construção; isso causava  certa atração rústica por parte das mulheres. Os cabelos compridos e sem corte definido estavam espalhados displicentemente e as manchas vermelhas na camisa branca e no jeans azul sugeriam ser algum pintor; não de paredes, de telas. Um artista plástico. Isso ajudava bastante em suas conquistas. Além de sorrir sempre. Sorria para todos: mulheres, crianças, idosos… Isso era uma virtude para o seu ramo de trabalho. Considerava-se um político sem partido; um ator de monólogos teatrais que conseguia facilmente transformar-se em um mestre dos diálogos, quando encontrava companhia.

          – Querida, querida, você permanece se contorcendo como um peixe fora d’água! Que energia fenomenal! Eu adoro essa resistência feminina volátil como uma bomba em contagem regressiva! – ele murmurava uma canção qualquer enquanto manipulava um pote de vidro com um conteúdo branco, tentando abri-lo. Falava olhando-a com o canto dos olhos, concentrado no vidro. – Pronto, meu amor, abri! Esses caras inventam esses potes com tampas quase impossíveis de abrir. Vê? Machuquei meu dedo! – vira-se para a cama e mostra as gotas de sangue escorrendo dos dois últimos dedos. Faz uma careta que julgava engraçada e aproxima-se da cama, sentando-se ao lado dela com o pote aberto.

          – Minha querida, por que não fica de lado, um pouquinho? Assim! – empurra gentilmente, colocando-a de ladinho – Hummmm, esse gemido foi cruel! – sorri enquanto derrama parte do conteúdo na palma da mão machucada – Sabe o que farei agora? Não? – sorri com os enormes dentes brancos, embora ela estivesse de costas para ele e não pudesse ver o que considerava seu mais sexy atributo – Vou untar você com esse preparado.

          Começa a esfregar o conteúdo pelas costelas da moça, cantarolando a mesma canção de antes – Ohhh, pode gemer mais baixo um pouco, querida? Não queremos atrair a atenção dos vizinhos, queremos? Quer saber o que é isso? Sal, principalmente; iodo. Bom para contusões – espalhava o preparado pelo lado do corpo da moça, enquanto conversava gentilmente – Não remexa tanto! Vai se sentir muito mais relaxada com esse meu preparo maravilhoso… Como uma costela gaúcha pronta para ser admirada por todos os seres carnívoros antes de uma refeição memorável!

          Terminando de untá-la, afastou-se até um canto do quarto em que havia uma bancada de madeira com diversos objetos e escolheu um espeto de um metro e meio, afiado como a língua de uma fofoqueira, com empunhadura de madeira cilíndrica e ponta em forma de flecha em aço reluzente.

          – E agora, meu amor, o grand finale! Terei que amordaçá-la para isso, querida, mas assim que estiver devidamente espetada, deixarei que sua voz excitante seja ouvida por todo o quarteirão vazio! – o sorriso aumentou de tom e os olhos avermelhados ganharam contornos assustadores. Arrancou a camisa branca completamente manchada de sangue e a pele repleta de símbolos demoníacos ficaram à mostra. Empunhando o espeto de churrasco gaúcho aproximou-se lentamente da moça imobilizada sobre a cama, bastante ferida e sem forças para qualquer reação. Na ponta da cama ergueu o espeto, arregalando os olhos e soltando um urro de satisfação antecipada.

          A porta foi derrubada com um golpe poderoso e seu corpo passou a sofrer espasmos contínuos, balançando freneticamente enquanto fitava os policiais armados até os dentes disparando sem piedade contra cada parte de seu corpo amalucado. Soltou o espeto, que lhe escorreu pelo lado do corpo e fincou-se no chão de madeira que receberia seu corpo ensanguentado segundos depois.

          – Tudo bem, fique calma, somos do resgate especial, você está salva! – disse uma policial enquanto soltava as amarras da moça com um corte feio nas costelas cobertos de sal e iodo. Outro solicitava uma ambulância e um rabecão.

          Na rua, jornalistas de programas sensacionalistas já se acotovelavam tentando buscar as melhores imagens para o noticiário noturno; moças bonitas, vestidas com terninhos bem cortados ajeitavam os cabelos e empunhavam microfones, prontinhas para mais um show.

                              Marcelo Gomes Melo

Conjugação da vida. Poço de falibilidades.

          Eu errei quando achei que as diferenças sociais de um povo não seriam pessoais, e que as necessidades de melhoria, por serem gerais, causaria uma mobilização conjunta, mesmo com visões opostas e acirramento natural dos ânimos. A compreensão do que significa ser democrático triunfaria, apesar dos pesares.

          Tu erraste quando, ao defender o ponto de vista do teu lado, exageraste nas ações difamatórias, violentas e reprováveis, quando o que estava em jogo era bem maior, e as prioridades de um todo superam em muito as vaidades de uma parte.

          Ele errou quando aceitou os termos da disputa, transformando-a em guerra e agindo como se o mundo fosse acabar caso a vitória não viesse; ou agindo como se fosse eliminar da face da terra os vencidos, caso eleito vencedor.

          Nós erramos ao evitarmos debater as falhas do país na totalidade, em vez de destacar a corrupção alheia de forma obsessiva, alijando os corruptores do processo, sem nos darmos conta de que tudo é corrupção e atitude danosa, que atinge a todos indiscriminadamente, então estamos cercados por corruptores e corruptos em todos os níveis e de todos os lados, o que é perigoso e fatal.

          Vós errastes quando esquecestes de que a corrupção envenena e prejudica a qualquer dos lados. Trocar acusações tentando varrer os próprios atos desonestos para debaixo do tapete, como se inexistissem, em nada ajudará a limpeza de que tanto o país precisa. Toda a excrescência precisa ser lavada para começarmos de novo, valorizando coisas que deveriam ser intrínsecas ao ser humano, principalmente àqueles que exercem atividades públicas: ética, honestidade, probidade, transparência, respeito às ideias contrárias…

          Eles erraram quando se permitiram afastar do mar de lama e observar do alto de suas torres de marfim, inatingíveis, sem querer se sujar nem se envolver, abdicando de participar do processo de mudança pelo qual todos bradam em uníssono, há tempos. Respingos da lama sobrarão aos que não se manifestaram, e todos no mesmo barco remando metade para cada lado apenas rachará o navio em dois, e o afogamento se tornará inevitável, sem sobrar ninguém para contar a história.

          Essa é a conjugação simples da vida no perfeito do indicativo, porque no princípio era o verbo, garantindo as ações que permitem uma comunicação perfeita, coesa, coerente, clara e eficiente.

          Uma comunicação perfeita, dentro das regras de convivência, diminui as chances da instalação do caos, que permitiria o surgimento de ditadores malucos prontos para devastar sociedades, destruir convicções e criar uma história obscura em uma derrocada infinita.

                                       Marcelo Gomes Melo

Canções antigas que refletem o presente

            Canções que há trinta anos pareciam banais, criadas por uma juventude relapsa em relação aos problemas político-sociais do país à época, ainda mais se comparados aos supostos ícones da resistência artística de duas gerações anteriores, incensados até hoje como deuses da luta política brasileira, embora seja desaconselhável que um idealista lucre com os seus ideais, parecem mais atuais do que nunca quando as ouvimos.

          Os criadores de uma música criticada por ser mera cópia estrangeira, sem consistência e até mesmo ingênua, produziram letras que refletiram, e ainda hoje refletem os momentos vividos por um povo sofrido e enganado com enorme frequência, embora hoje em dia a violência e a ausência de tolerância gerem atitudes escatológicas absurdas e nojentas como forma de expressão, talvez pela falta de conteúdo intelectual ou capacidade educacional.

Ultraje a Rigor – “Inútil”

“A gente não sabemos escolher presidente/Tem gringo pensando/Que nós é indigente/Inútil!/A gente somos inútil!”

Plebe Rude – “Até quando esperar”

“Até quando esperar/A plebe ajoelhar/Esperando a ajuda de Deus/Posso, vigiar teu carro/Te pedir trocados/Engraxar seus sapatos”

Biquini Cavadão – “Zé Ninguém”

“Eu sou do povo/Eu sou um Zé Ninguém/Aqui embaixo as leis são diferentes”

Capital Inicial – “Psicopata”

“Papai morreu, mamãe também/Estou sozinho/Eu não tenho ninguém/Sempre assisto a Rede Globo com uma arma na mão/Se aparece o Gianechinni/Adeus televisão”

Legião Urbana – “Geração Coca Cola”

“Quando nascemos fomos programados/A receber o que vocês/Nos empurraram com os enlatados/Dos USA, das nove as seis/Desde pequenos nós comemos lixo/Comercial, industrial/Mas agora chegou nossa vez/Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês”

          Agora resta-nos descobrir, daqui a trinta anos mais, se o país ainda será “baile de favela”.

                              Marcelo Gomes Melo

Comi!

 

          Eu mordi. Sentei os dentes sem piedade porque era gostosa demais para deixar passar. A minha imagem diante daquele suculento acepipe, macio e maravilhoso era a de um lobo salivando, os enormes dentes à mostra, pronto para dar o bote e degustar instantaneamente, saciando a minha voracidade.

          Não poderia renegar a minha espécie, fugir ao meu destino de apreciador das delícias inesgotáveis, inexplicáveis, inefáveis… Mesmo Não me sendo oferecido aquele regalo arredondado, cheiroso, quente e atraente, os meus músculos tremeram de prazer ante à mera possibilidade de comer. E agora, lambuzado e satisfeito posso garantir que comi.

          Eu faturei e foi muito bom; comeria de novo, devo ressaltar. A fome cumpre diversos estágios, que instigam a coragem de um homem e o transformam em uma arma pronta para atirar.

          O primeiro estágio é o cheiro. Você inspira e flutua, sendo guiado ao jardim dos prazeres mesmo sem saber a forma e o sabor, desejando assim mesmo através da imaginação.

          O segundo estágio é a observação. Você vê aquela maravilha saltitante, palpitante, aparentemente à sua disposição, prontinha para ser tomada e comida com um gosto especial. Você devora com os olhos.

          O terceiro é o toque. Suas mãos tateiam, exploram, apertam, espremem, mapeiam… É uma loucura até o momento em que você prepara o ataque fatal, olhos esbugalhados, suando gelado frente a expectativa maioral de saciar o desejo.

          Não precisa receber permissão, não aguenta esperar um oferecimento. Você sabe que dará um enorme problema e será julgado pelo excesso de desejo que gerou essa atitude antissocial e odiosa de sua parte.

          Eu comi! E afirmo que foi bom, embora ela tenha ficado surpresa com a minha ação veloz, chegando, pegando e me deliciando sem me importar em pedir antes, pelo menos.

          Ela ficou paralisada e estática, sem saber o que dizer ou fazer, na frente de todos. O fato é que tomei o sonho enorme das mãos dela e comi sem dó nem piedade. Depois, satisfeito, um tanto envergonhado, informei: “Eu pago outro”.

                              Marcelo Gomes Melo

 

 

As noites de fita cassete

      “Havia um tempo/Em que eu vivia/Um sentimento quase infantil/Havia o medo e a timidez…” Cantava o vocalista da banda brasileira RPM embalando uma juventude diferente, que não sofria as agruras da violência com a qual as gerações atuais têm que lidar. A tecnologia que domina a vida dos recém-nascidos nesse século não existia, e a grande novidade por aqui era o surgimento das rádios FM, segmentadas, trazendo as novidades europeias e americanas em termos de música com mais facilidade. Começava a se formar uma cultura musical diferente, assim como um comportamento que hoje pareceria pré-histórico e extremamente ingênuo.

          Não existiam CDs, muito menos pen drive ou qualquer dispositivo tecnológico de ponta. Nada de computadores pessoais ou música MP4. O que existia era o aparelho de som três em um, com tocador de vinil, rádio e tocador de cassete, primordial para a produção das fitas com 90 minutos de música sem interrupção para ouvir e dançar nos bailinhos de fim de semana, caseiros, que reunia a turma do bairro alternando os locais entre as casas de cada um.

          O funcionamento consistia em gravar as canções durante a semana, direto do rádio FM, torcendo para que a rádio não colocasse a vinheta no meio da música e estragasse tudo, ou que os pais invadissem a sala para oferecer lanche justo na hora da gravação, fazendo com que tudo fosse por água abaixo.

          A seleção romântica era a mais importante; havia programas noturnos no rádio para isso, com uma hora e meia de canções lentas para dançar e namorar, e isso era encarado com muita seriedade. Uma fita cassete com as melhores canções elevaria as chances de conseguir um par para o restante da noite. Táticas de sedução eram debatidas ao som de Marvin Gaye e até de Bem, do Michael Jackson, sem saber que a letra se referia a um rato.

          A bebida era meia de seda, a festa começava com os “balanços” até que chegava a hora das “lentas” e de cada um procurar a garota que despertava os seus instintos românticos mais profundos para curtir durante a sequência de canções. A época era inocente comparada à atual; a garotada tinha uma história de vida e valores extremamente peculiares, viviam como adolescentes e não com adultos. Cresciam sem a maldade interior no DNA que hoje se verifica desde o berço. Como é que essa juventude se tornou adulta e se transformou em pais gerando filhos com valores tão diferentes?

          As noites de fitas cassete produziam felicidade e simplicidade, regadas a beijos e sussurros no ouvido, nada além disso. Nostalgia pura de quem está envelhecendo, e com isso comparando diferentes gerações com diferentes propósitos, o que não deixa de ser injusto.

          O mundo segue como um trem descarrilado, e os seres humanos são passageiros buscando sobreviver a seu modo, em tempos ruins. O que nos resta é acreditar na ciclotimia da vida, que volte a ser mais tolerante, feliz e rica como em outras épocas. O problema é se, para que isso aconteça seja necessário zerar tudo e recomeçar a semear após terra arrasada.

                              Marcelo Gomes Melo

As palavras de amor

          As palavras de amor nunca foram tão usadas fora de contexto! Banalizando o sentimento por trás da voz que as pronuncia com intenções mesquinhas, inúteis, tornando-as mortais.

          Ignorantes todos os que proclamavam inconscientemente o que desconhecem, em nome de coisas fúteis e sem substância, que os enganam mais do que pensam enganar.

          As palavras são agulha e linha delineando o que o pensamento constrói e destrói instantaneamente. Se mal-usadas imobilizam a cadeia da vida individual prejudicando a coletiva. E o que é pior: matando a palavra, destituindo-lhe todo o poder que lhe é devido em nome da total falta de inteligência afetiva, sem contar o intelecto machucado.

          A população cresce afetada pelos dissabores inerentes ao círculo no qual convivem, decaindo vertiginosamente em termos de qualidade e sensibilidade.

          A luta, portanto, centra-se na recuperação das máquinas internas que consertam a dificuldade de viver, aguçando a percepção para o relacionamento humano tome um rumo correto, e o cérebro construa um vocabulário compatível com as situações, respeitoso e eficaz, que mantenha todas as palavras de amor em uma redoma especial para que sejam usadas com significância, apenas quando necessário, valorizando-as ao máximo. Desse jeito elas não se diluem, não mais são usadas como mera formalidade nem com intenções vagas e desonestas.

          Como alcançar a esse objetivo é outra coisa.

                              Marcelo Gomes Melo

A ocupação

         A ocupação começou há anos, tanto que nem lembro ao certo como aconteceu, o que provocou e como se deu. Foi um redemoinho de emoções inexplicáveis de ações inconclusivas gerando frustrações absurdamente inquietantes.

          Uma ocupação assim, silenciosa é ainda mais surpreendente, invasão alien dos filmes de ficção, porque invade sem estardalhaço, e quando se percebe já era, irmão. Perdeu, playboy!

          Aí é uma sequência de olhares furtivos, de mão roçando-se descuidadas, troca de palavras provocativas, sorrisos nervosos… E uma vontade torturante crescendo, dominando, instigando e fazendo ofegar. Transformando quase toda a razão em instinto puro.

          E quando se olha em torno tudo o que você vê faz referência ao desejo, à necessidade e ao prazer.

          Nesse momento alucinante imagine que a corrente se quebre. A distância se torne dolorosa e tudo o que transcorria para uma memorável conclusão amorosa imensurável se modifique sem acordo, apenas a sequência natural das coisas em um mundo ferino, cruel, insensível.

          Mesmo essa distância, entretanto, não apaga sentimentos nem desejos, apenas os conserva em fogo baixo, sem queimar, mas, mantendo brutalmente aquecido, provocando visões espantosas de amor pleno e satisfação gigantesca que faz deitar sobre nuvens e observar o universo do lado de fora.

          Finalmente, inesperadamente, um reencontro. Tranquilo, feito com atitudes superficiais, a cordialidade escondendo a selvageria de se apertar, amassar e misturar totalmente, com um “dane-se o mundo” engatilhado para tudo o que não disser respeito aos dois.

          Duas almas eletrificadas pelo desejo milenar, sorrindo quase friamente, usando palavras sem sabor, recriminando-se internamente porque não é o que queriam, é apenas o que o politicamente correto exige.

          A ocupação, meus senhores, ocorreu há tempos! Não há mais o que conquistar, já está tudo dominado. Em uma hora ou outra essa bomba relógio vai explodir e o tesão se concretizará, pleno, arrogante, atropelando como um trator os anos passados de vontade contida.

          Isso é o mais próximo da felicidade? Não, não o é. Haverá longas conversas tentando entender, entremeadas por momentos de carinho, por horas de prazer, por dúvidas incontáveis e até desentendimentos prováveis.

          A busca da felicidade completa é eterna. É a felicidade em si, difícil descobrir algo assim. Tempero.

                              Marcelo Gomes Melo

Breve relatório sobre os esquemas individuais para lidar com o amor

         Simone ama menos nos dias chuvosos, porque ela acredita que o amor que lhe cabe será diluído e levado pela enxurrada para longe demais, e assim demorará a voltar.

          José tira a camisa e se atira no chão de sua propriedade de terra batida sob a chuva torrencial, porque acredita que será encharcado de amor, com gotas maravilhosas lavando a sua alma por todos os poros, então abre os braços e sorri largamente, deixando-se açoitar por amor líquido e certo.

          Tariq restringe o seu amor à sombra nos dias quentíssimos sob o sol imperioso. Ele crê que será ressecado e seu amor, trincado como um solo sem água, caso se descuide.

          Georgina confia mais no escuro da noite, nas luzes difusas e odores saudáveis, que inspiram e incutem o sentido da coragem eterna para atos incontáveis e indizíveis. Fora isso ela se recolhe com pudor e se finge de pedra.

          Raul tem coragem e, com a faca entre os dentes adora a floresta que o cerca e sufoca, tomando-lhe o amor à força, vencendo-o em seu próprio jogo. Depois, cansado, esgotado, se arrasta de volta à fogueira, para esperar, com o senso de sobrevivência aguçado, um alívio completo e um medo persistente no fundo do seu ser.

          Elena bebe. Ela acha que o álcool a manterá entorpecida quando o amor se dispersar e aposta nisso para esquecer. Elena é cética e prefere o palpável ao inconsistente, embora deseje o estado alterado da percepção para lhe proteger do que inexiste. Caso inexista.

          Arthur e Serena não amam.

                              Marcelo Gomes Melo

A arte de comunicar (se)

“Mineirim”

          “Sapassado era sessetembro. Táveu na cuzinha tumano uma pincumel e cuzinhanu um kidicarne cum mastumate pra fazê uma macarronada cum galinhassada.

          Quascaí de susto quano ouvi um barui didenduforno, parecenu tidiguerra. A receita mandopô midipipoca denda galinha prassá. O forno isquentô, umistorô e o fiofó da galinha ispludiu. Nossinhora! Fiquei branquinem lidileite.

          Foi um treim doidimais, sô! Quascaí dendapia. Fiquei sensabê doncovim, proncovô, oncotô. Oi procevê quilocura! Grazadeus ninguém simaxucô”.

          O texto acima é a transposição literal da manifestação de alguém que desconhece a forma culta do idioma, conseguindo tranquilamente através da maneira informal de utilização da língua expor os seus pensamentos, baseando-se em seus conhecimentos pessoais e experiência de vida.

          A linguagem oral é diferente da modalidade culta, dependendo do conhecimento do indivíduo falante, o que não inabilita a ação comunicativa. A obtenção da capacidade de utilizar a norma culta da língua portuguesa é primordial para que todos os falantes se incluam socialmente em igualdade de condições, de compreender e argumentar com riqueza de detalhes, participando ativamente do crescimento da sociedade.

          Aproveite para exercitar o seu conhecimento culto da língua, transpondo o texto acima, encontrado na internet, para a forma gramaticalmente correta. Divirta-se!

   Marcelo Gomes Melo