Badalando os sinos que anunciam o fim

Sincero. Morto pela sinceridade desnecessária, patológica, aquela que passa a ser rudeza pura, desprovida de charme, o caminho para a perda de popularidade, a transformação em inimigo público número um, tipo desagradável que fala o que é dispensável, que muitos pensam, mas jamais ousam dizer, porque seria suicídio social.

Nojento. Daqueles assassinados pela frescura que irrita, a indisponibilidade para o mínimo de escrúpulo de esconder a enorme e desagradável atitude de não gostar de nada, reclamar e revirar os olhos, atrapalhando a paz do entorno de sua indelicada figura, que não gosta daquilo, odeia isso, não suporta assim, não aceita assado… A imagem da chatice por através de todos os poros.

Egoísta. Absurdamente voltado para os próprios desejos não interessa a quem tenha que destruir e atropelar para garantir as necessidades que só atendem a si mesmo. Trapacear, ludibriar, enganar não têm significados negativos, ao contrário, são qualidades cultivadas friamente, sem sabor, para não ter que dividir com ninguém mais. Nem com aquele ser estranho no espelho.

Cruel. De uma forma dolorosa. Com olhos oblíquos de maldade e sorriso de tubarão, salvando com a mera possibilidade de causar desconforto, ansiedade e estranheza contínua, transformando o ambiente para quem o cerca em terreno hostil. Sem caridade, sem empatia, dono de uma morbidez patética.

Letal. Pronto para afastar do caminho a quem quer que ouse, querendo ou não, ficar entre ele e o objetivo. Mira a todos como alvos descartáveis e não hesita em implodir mentalmente ou explodir descaradamente aos seus competidores. Não tem parcerias, não aceita e nem oferece ajuda. Expõe insensivelmente apenas para saborear o fim do opositor. Vive para degustar a dor. Um solitário capaz de se automutilar para sentir a emoção da morte de uma parte, mesmo que seja a sua.

Esse é o esquadrão de seres viventes que formam a maioria em uma sociedade decadente. Mentirosos que pregam o oposto do que são. Empatia são pílulas de veneno, as quais distribuem entre sorrisos falsos; bondade são balas de alto calibre que carregam as próprias metralhadoras para disseminar a dor escorregando em rios de sangue pegajoso e vermelho, enegrecendo à medida em que esfria.

O dom dessa época é destruição. Que não sobre ninguém, pregam os heróis do horror universal, mortos-vivos nocivos em uma paródia deles mesmos, badalando os sinos que anunciam o fim.

                    Marcelo Gomes Melo

Sobre a sede por imortalidade

Da sacada do prédio, os pobres parecem formigas. Da cobertura são todos esmagáveis sem uma razão necessária, como medo ou asco. Eles não conhecem o viver lá embaixo, não têm noção do preço de um pão, raciocinam em milhões e suas mentes matemáticas não incluem emoções além da excitação de faturar alto, arriscar alto com a vida dos outros, manipular, criar regras que as limite.

Da cobertura do prédio o céu é mais azul e o mundo é diferente. Eles exorcizam os próprios demônios com rituais absurdos que envolvem a morte dos pobres. Planejam ganhos, inserem cálculos complicados que os dirão a quem eliminar, quantos matar e a porcentagem segura a manter vivos, sob controle, como futuro sacrifício em caso de necessidade.

Com esses sacrifícios enriquecem mais, aprendem mais a controlar, dominar e extinguir ao seu bel prazer. Um ponto ainda os incomoda, entretanto: eles ainda envelhecem como todos os outros, não importa o que façam, o que tentem. Envelhecem, murcham como flores, e a ganância continua, não parece diminuir nem secar como os seus corpos decrépitos ao sol da cobertura ao lado da piscina.

Os olhos. Assombrosos, lúbricos, parecem não pertencer aos corpos. São uma entidade à parte, assim como o cérebro, que funciona como um computador cuja memória foi inserida com toda a maldade e maquiavelismo que uma alma pode suportar.

Eles não enxergam os pobres como seres humanos, mas como formigas. Vermes. Esmagáveis. Tudo para manter a sua sede por imortalidade. O preço a pagar para continuar a existir é irrisório, caso consigam.

É assim que se vive no planeta das águas. Ilhados na terra, cercados por todos os lados, procurando dominar a tudo o que desejarem, sugar do planeta poder suficiente para suportá-lo. Desafiam descaradamente, com ódio para encobrir o medo. Recusam-se a reconhecer que o planeta é inacabável, enquanto todos eles apenas habitam uma cobertura, facilmente demolível. Sim, há um fim.

                    Marcelo Gomes Melo

O início do fim do mundo para os que ficam pelo caminho

É o milho, meu filho, trata de plantar o milho. Sob o sol do  meio-dia trabalho duro, pele escurecida, comida aquecida pelo calor da terra, água morna para manter a hidratação, a ausência de pensamentos, apenas o foco na labuta, bruta, inesgotável, o uso da terra fértil para plantar alimentos que manterão vivos com o mínimo necessário, mas produzido com suor e lágrimas, honestamente, em uma luta constante com as forças da natureza guiadas por Deus, o único a quem podem apelar para não perder o plantio e submeter-se às agruras da fome, da sede, da perda, da morte.

É o plantio do arroz, irmão, para sustentar em pé os homens, mulheres e crianças que dependem do que plantam, do que colhem e procuram revender para atenuar a falta de outros ingredientes que são sinônimos de dignidade.

Em seu pedaço de mundo, afastados das áreas urbanas, dormem cedo, acordam cedo, trabalham o dia inteiro, e aos domingos resta a missa que os alimenta de autoestima e força para continuar brigando, um almoço simples e uma dose de cachaça e um cigarro de palha, descansando na varanda enquanto as crianças trabalhadoras aí viram crianças de verdade e brincam alegremente com tão pouco.

O que trazem em comum são as fisionomias marcadas, envelhecidas, dos olhos entristecidos, os cérebros desprogramados para qualquer ambição. São como bois que vivem sem razão aparente, sobrevivendo com pouco até serem sacrificados porque é assim que são as coisas na Terra.

Não questionarão a si mesmos jamais, Deus sabe o que lhes está destinado e é assim que se resume toda a explicação. Até que a avalanche urbana surge com os seus vícios mercantis, compram, exploram e carregam tudo o que podem, inclusive a paz.

A invasão é imparável, não há como conter a fome urbana de poder, tomando tudo, mudando a rotina e escravizando tranquilamente, substituindo mãos por máquinas e excluindo sem dor na consciência, por vilania, poder e dinheiro. É o início do fim do mundo, que acaba para os que ficam pelo caminho.

                    Marcelo Gomes Melo

A minha inóspita filosofia

– Como você sabia que eu precisava tanto de um ato de carinho?

– Eu sei das coisas que eu preciso e não recebo. E isso não significa que eu não possa oferecer. A humanidade é egoísta e contraditória, raramente se satisfazem presenteando, ouvindo, apoiando. Geralmente cobram isso das outras pessoas, remoem, acusam e odeiam. Faz parte do DNA, não há o que possa ser feito para mudar isso.

As anomalias são os que se preocupam, sacrificam e sofrem de diversas maneiras, culpam a si mesmos e morrem como covardes por não aguentarem a pressão constante de existir.

Há segundos de alívio que surgem quando os poucos dispostos a oferecer o que um outro precisa, sem esperar nada em troca, respiram oxigênio puro, prêmio por abnegação e incapacidade de pagar com a mesma moeda.

E o mundo segue, perigoso e astuto com os seus pupilos, distribuindo as máscaras que aceitam utilizar, representando coisas que não conhecem, defendendo ideias que jamais maquinaram, lutando por ideais os quais jamais forjaram.

Eu faço essas coisas por mim mesmo, para me beneficiar com um quinto do seu bem-estar, um milímetro de sua felicidade, um segundo do seu sorriso, um pouco de calor do seu coração. Coisas que você nem ninguém dividiriam conscientemente em momento algum. Eis a filosofia da vida.

Marcelo Gomes Melo 

Lágrimas mais quentes do que a chuva

Se ela quisesse já teria vindo, a essa altura. E eu não estaria aqui parado nesse abrigo de um ponto de ônibus, no fim do mundo, observando a chuva fina formar poças na rua de terra. Ao fundo, uma mata, enxertada com alguns casebres.

A essa altura, fim do fim da tarde, fosca, destacando luzes mortiças de lampiões, aqui onde a esperança não chega, e ninguém fala alto, porque o silêncio é tão dominante que costuma ler os seus corações assombrados.

Olhando para o chão vejo os meus pés molhados, os sapatos manchados de barro como a minha esperança, desgastados pelo tempo, mas ainda de muita utilidade, como a esperança. Qualquer esperança.

Barulhos vindos da mata. Ou do meu próprio cérebro trabalhando a mil por hora, incessantemente focado apenas em quando ela chegasse, como eu ficaria agradecido, a ponto de renascer! Recomeçar a jornada sem o peso inclemente que carrego às costas, com pecados individuais, coletivos e alheios. Com as dores do mundo e à procura de alívio que não creio ser possível, com os meus resquícios de esperança ali, ensopados pela chuva de vento, sem ter como esconder meu remorso, meu cansaço, minha solidão.

Ela, minha diva, minha sina, onde estaria? E se estivesse em algum lugar, chegaria? Ali no limite da minha alma, à porta do calabouço, a entrada sem ticket que os derrotados pelo tempo recebem e não podem recusar. Anoitecia rapidamente, céu sem estrelas, todos os sinais de que ela não iria chegar. Nem o ônibus.

E então ouvi um barulho de uma chave, uma porta atrás de mim se abrindo e uma voz idosa, enrouquecida pela falta de uso se dirigiu a mim.

– O próximo ônibus só amanhã às sete, meu filho.

Olhei para a figura mirrada, enrugada, de olhos gentis profundos e experientes, que acenou para mim.

– Venha, tome uma xícara de café, uma refeição quente. Tenho uma cama simples disponível, na qual passará a noite em segurança.

As lágrimas que desceram livremente dos meus olhos eram mais quentes do que a chuva. Finalmente ela chegara, restaurando a minha esperança imediatamente. Era ela, que tardava, mas jamais falhava. Era ela, a minha inabalável fé!

                    Marcelo Gomes Melo

Beber para lembrar de esquecer

Ela rasgou as minhas roupas e tocou fogo, atirou a minha coleção de relógios caros pela janela, quebrou os meus óculos, destruiu os meus computadores e celular. Aos gritos e soluços me expulsou de casa prometendo uma guerra judicial que me faria perder tudo. O que tivesse e o que não tivesse. Tudo tinha a ver com dinheiro. A intenção brutal dela era acabar com a minha vida como cidadão, impor uma humilhação que me destruísse socialmente e me transformasse em um monstro para os meus próprios filhos. Nossos filhos. E não, ela não me deixava perguntar a razão, urrava e quebrava tudo, acusava e chorava como uma corredeira, sem nunca dizer claramente o motivo.

Atônito, fiquei observando o show de horrores promovido sem embaraço por ela. O que teria causado tal ira? O que um homem como eu, por pior que parecesse, poderia ter feito para ser dizimado da própria família por alguém com quem dividira metade da vida?

E então, pela minha mente passou ponto a ponto a nossa longa história. Do início, na Universidade, trocando olhares e sorrisos. A atração jovem exposta para o mundo inteiro, quando se pensa um no outro como em um mundo à parte, e os encontros são como rituais nos quais se quer demonstrar apenas as qualidades um do outro, como se não houvesse defeitos.

Essa dança duraria algum tempo, porque enquanto nos conhecíamos a tendência era misturar delícias do amor com episódios mal-humorados, brigas bobas, escolhas surpreendentes e preferências diferentes. O surgimento das falhas que nos separaria seria maturado, tolerado, mas nunca superado.

Enquanto casal saberíamos se tratar de equilibrar uma convivência pacífica dentro dos limites que diminuiriam a paixão, envolvendo em uma complicada equação, filhos. Bênçãos que separariam um pouco mais o casal que acreditava ser só. O ódio apareceria em breves instantes, rechaçados rapidamente, mas deixando marcas como um chicote.

A parte econômica familiar sofreria com os comentários de cada família, enevoando os pensamentos, incutindo desconfiança entre duas pessoas que antes sorriam juntas. Atitudes violentas e invejosas abriam covas no relacionamento, e um de nós iria surtar em algum instante, e o arrependimento não seria suficiente para reaver o que tinha de bom. Melancolia e infinita tristeza se manifestaria sem que fosse percebida, pairando no ar como entorpecente, causando insônias, silêncios e ofensas desnecessárias, até que o ponto primordial acontecesse. Aquele descrito no início.

A mim restava lutar uma luta sangrenta, mortal, esquecendo quem éramos, ou me retirar em silêncio para uma vida arrasada, mais um frequentador de botecos bebendo para lembrar de esquecer que nada permanece perfeito, simplesmente porque essas falhas modificam os rumos de uma existência linear, incluindo surpresas para apimentar uma vida curta e moldável.

O motivo, jamais saberei. Você jamais saberá, ninguém jamais saberá. Acontece sempre e se repete ad eternum, geração após geração. Viriam cinema e teatro, e os chamam tragédia.

                    Marcelo Gomes Melo

Manter funcionando a roleta da paixão

Na estrada da vida, meu amor, o amor me autuou várias vezes, me encaminhou a uma prisão encantada e realizou o julgamento sem que eu tivesse direito a advogado de defesa. Eu era o réu, e as donas acusavam livremente, com os melhores advogados, paixão e crueldade, amigos da meritíssima juíza, que sempre agia parcial e ostensivamente.

O meu couro é de crocodilo, agora aguento as pancadas e não faço menção de me defender, derrotado antecipadamente pelos rumos que escolhi, seduzido, acalentado, usado e destruído completamente.

Não posso julgar injustiça, porque recebi diversos prêmios que a maioria dos homens sequer sonharia; tive coragem para ir além, baixei a minha guarda e entreguei corpo e alma, em um ringue perfumado no qual já entrava derrotado pelos prazeres que acumularia, enquanto aguentasse física e mentalmente.

As cicatrizes das minhas derrotas carrego em meu corpo, orgulhoso, machucados que guardam histórias inesquecíveis. A minha capacidade de amar se resume a sacrifícios e que enfrento sempre que sou fisgado como um peixe inocente que só pensa em saciar o desejo, assumindo possíveis perdas com dignidade, porque o ciclo nunca termina. Perde-se algo, recebe-se outro prêmio tão valioso quanto, e o caminho segue com o seu próprio tempo.

A minha carteira da paixão está corroída, sem mais espaços para multas, e sempre sou julgado culpado, à revelia ou não. Enfim, pago a minha dívida, devasto algumas garrafas de vinho do porto, durmo por dias, deprimido, e quando alguém abre a janela e o sol invade o meu quarto, o oxigênio novo e um café reforçado repõe as minhas forças e a vida recomeça. Troca a minha roupa, coloco os meus óculos de sol e passeio pelo parque com as mãos nos bolsos olhando a beleza da vida, descansando e tranquilo, sem pressa de cruzar o olhar com a próxima razão de viver com quem terei momentos incríveis enquanto durarem, e novamente crucificado, manterei funcionando a roda viva da paixão.

                    Marcelo Gomes Melo

Os piores entre os sobreviventes

Há um filtro entre a vida que se quer e a vida que se tem. Ele é responsável por afastar os pensamentos poluídos que permitem alcançar o patamar que se quer, mantendo a dosagem de falta de indignação correta para que a manutenção do status inferior permaneça sem maiores problemas.

O que acontece quando esse filtro anda descalibrado é o resultado de uma sociedade enlouquecida, sem parâmetros, sem um norte a seguir e muito menos alternativas criativas para suportar a própria mediocridade.

Cruzando as avenidas apressadamente, imersos em seus pensamentos devassos ou fanáticos, muitas vezes conversam sozinhos em voz alta pela rua, sem notar os outros seres que caminham na mesma ou em outra direção, como aliens, estranhos uns aos outros. Os seus olhares só se cruzam quando os objetivos se parecem, e trocam caretas estranhas como se fossem sorrisos desonestos, e a mente formiga em busca de uma brecha para passar o outro para trás e usá-lo como degrau invisível em tresloucada subida em atmosfera cinzenta.

O filtro descalibrado requer ajustes, mas esses são feitos com inexperiência, afundando-os cada vez mais em um poço de incompetência sangrenta. Todos ficam dispostos a tudo, e isso é perigoso. A cada esquina, a cada palavra trocada.

A opção atual é agir covardemente, rastejar para alcançar um lugar privilegiado sobrepujando aos outros, preparando-se para o salto final, no vazio e escuridão, alcançando a tudo ou perdendo-se para sempre. Vale o risco. Muitos perdem. Os que conseguem experimentam a sensação de prazer típica dos vencedores. Inebriados, não fazem ideia do quão pouco durará o seu reino, com boas intenções ou não.

No final o filtro falha e todos se transformam em Nero, tocando a lira enquanto a cidade queima, presos em sua loucura, sufocando na fumaça das notas altas de papel moeda, enviados para o inferno sem parada no purgatório.

A pior morte de todas. E nas profundezas enquanto ardem em sofrimento sem fim, produzem os novos filtros que regerão a humanidade até as novas catástrofes. Os escolhidos do mal, os imperdoáveis, os gananciosos sem saída…

Na superfície a poluição visual e sonora, as regras estúpidas fabricadas por hipócritas farão com que um novo começo estabeleça novas formas de autodestruição, híbridos dos seres anteriores com mais maldade e incertezas. Como em O Inferno de Dante, descem em círculos sem perceber, pagando pelos pecados que criaram, usaram e espalharam por um mundo sem culpas, um planeta sem culpas. Apenas os piores dentre os seres viventes.

                    Marcelo Gomes Melo

Nuvem de gafanhotos tecnológicos

O ser humano supostamente ocupa o topo da cadeia alimentar por ser a única espécie conhecida do planeta considerada racional. Por eles mesmos. Por aparentemente dominarem o ambiente e torna-lo seu habitat natural, cientificamente explorando novas possibilidades com o intuito de evoluir a qualquer custo, mesmo que seja destruindo o habitat de outros seres, dizimando a muitos, inclusive aos seus pares, impiedosamente.

A sensação de poder, o dinheiro como principal arma de sedução, a fraqueza de uma enorme maioria que se encolhe e aceita as migalhas do que realmente merecem por direito equânime.

A água, por exemplo, engarrafada e vendida. Um bem natural apossado pelos espertos dispostos a matar e a morrer pelo vil metal, inconscientes do valor mínimo para sobreviver lá embaixo, sem eletricidade, sem esgoto, sem educação, sem trabalho, sem dignidade, sem sonhos.

Destroem a tudo o que encontram como uma nuvem de gafanhotos impiedosos, e depois, em terra infértil, inventam um novo uso tecnológico que magoará o planeta e destruirá mais seres, inclusive humanos, para sustentar a sua sede por poder.

O ser humano não está no topo da cadeia alimentar por ser racional, porque não o é. Nunca o foi e jamais o será! É irracional, cruel, e ainda não foi extinto por uma simples razão: são extremamente adaptáveis. Sim, conseguem usar de resiliência para tirar algo de onde não existe, e assim sobrevivem um dia a mais. Todos fazem maldades, mesmo os desgraçados aos ainda mais desgraçados.

E orgulhar-se de ocupar o topo da cadeia alimentar não parece que durará muito tempo, pois eles mesmos estão se encarregando de criar vírus, doenças letais invisíveis, robôs, tecnologia invasiva e fria disposta a regular toda a vida, e acreditam que não serão afetados, manterão o comando e o controle, embebedados irremediavelmente pela sede insaciável de poder, buscando encontrar a vida eterna custe o que custar, incluindo as próprias vidas.

Será que olham à própria volta nesse momento e se sentem confiantes? Brindam com uísque contando os mortos? Como dormem? Quais são os planos para a retomada dos parâmetros pós destruição da vida como a conhecemos? Estarão eles preparados e sobreviverão? E caso sobrevivam, poderão ser chamados de seres humanos?

                    Marcelo Gomes Melo

Par de orelhas com garota no centro

Os brincos de ouro enormes eram pauta de discussão no trabalho, em casa, na rua em que morava e adjacências. Ela virou a garota mais importante da vila por causa daqueles brincos enormes. Dourados. Estaria namorando algum camarada rico? Os brincos eram mesmo de ouro? Seria fruto do trabalho da vida amarga, a prostituição?

Não, contra-argumentaram uns. Ela era moça direita, frequentadora da igreja aos fins de semana. Tímida e prestativa, só mudava quando os colocava. Aí virava uma rainha!

Pode ter ganhado uns trocos no jogo do bicho, por que não? Dera veado e o ex-namorado dela fora desmascarado há pouco tempo!

Os brincos hipnotizavam. Outras meninas fotografavam para postar no Facebook, senhoras a cercavam ostensivamente para admirar. Pacientemente ela deixava, sorria e agradecia os elogios. Ficava intrigada por que simples brincos hipnotizavam assim as pessoas! Logo ela que jamais chamara a atenção por nada.

Imaginava quando isso iria acabar, se acostumariam com os brincos, que eram, na verdade, bijuteria, embora ninguém acreditasse.

Um dia, reunidos na farmácia, vários vizinhos a cercaram quando entrou para comprar uma aspirina e puseram-se a filosofar sobre a razão de aqueles brincos chamarem tanta atenção de todos. De quase todos. O rapaz que trabalhava na limpeza da farmácia nunca demonstrara interesse. Era o único.

Finalmente alguém percebeu isso e o intimou. Por que não estava impressionado com os brincos, era cego? Invejoso? Burro?

Não, ele respondeu, incrédulo. O que vocês não perceberam ainda é que o que lhes chama a atenção não é o par de brincos!

Não? Então o que era? Pelo amor de Deus desvenda esse mistério!

E o garoto devolveu, sem parar de esfregar o chão:

– Sério?! Acham que o impressionante são os brincos? Não se tocavam de que o que realmente chamava a atenção são as enormes orelhas separadas da moça, que a transformavam em uma árvore de natal ambulante?! Francamente!

                    Marcelo Gomes Melo

A falta de sorte típica dos pobres

A ideia era boa. Caiu do céu para ele, rapaz de pouco talento, mas muita simpatia. Nem ele sabia se viera do céu, a tal ideia, só que não era hora para questionar.

Ele estava desempregado há oito anos, já, recebendo o benefício do governo. Como era solteiro dava até para comer arroz com frango uma vez por mês! Pelos dias restantes era arroz com arroz.

O que pegou foi que resolveu se engraçar com uma menina do bairro, que trabalhava pintando unhas em um salão de beleza. Moça de sorriso fácil, que não abria mão de uma cervejinha no fim de semana, ouvindo pagode com os amigos. Ela tomou a iniciativa e o convidou para juntar-se a eles. Ficou sem graça, deu uma desculpa, mas acabou prometendo ir.

Ele sabia que se demorasse muito perderia a chance de pegar a garota, então passou a fazer contas para enfiar no orçamento pelo menos o custo de duas latinhas de cerveja. Dez reais. Sexta e sábado. Vinte reais. E uma das latinhas era para ela.

Observando a mesa deles rapidamente, viu que havia porções de batata frita, ovos de codorna, salame… Já engrossava a conta. Digamos que dividissem, não sairia menos de vinte e cinco reais cada um. Se tivesse que pagar a parte dela, cinquenta. Dois dias, cem reais. Era 50% do que recebia do seguro desemprego. Se deixasse de pagar a luz, o gás… Tomaria banho frio, comeria arroz cozido em uma fogueira no quintal. Mesmo assim não sobraria muito.

E se começasse a dar certo, motel nem pensar! No quartinho em que morava tinha uma cama de solteiro, dessas de campanha que comprara de um ex-soldado. Rangia pra caramba!

O desespero tomou conta do homem apaixonado. Saía cedo para procurar emprego, voltava tarde, e nada. Um dia parou em um bar para tomar um copo d’água da torneira, grátis, a televisão estava ligada no jornal, e a presidente da época discursava sobre a genial ideia de estocar vento.

Pensativo, voltou para o cafofo e fez mais contas. Ao comprar dois quilos de arroz no mercado, uma lata de óleo, sal e tempero, podia discretamente pegar saquinhos plásticos a mais, disfarçadamente. Encheria as sacolinhas com ar, fecharia bem e se posicionaria na esquina da estação de trem, sorrindo e oferecendo aos passantes sacos de oxigênio puro. Por dois reais poderiam levar para as suas casas um saquinho de oxigênio puro, sem partículas nocivas, sem ácaros, sem fuligem. Poderiam respirar profundamente, fortalecer o corpo e dormir melhor apenas respirando ar direto de Campos do Jordão!

Nem ele acreditou quando esgotou o conteúdo que levara, retornando para casa com doze reais! A alegria era tanta que mal dormiu! Agora era um empresário do ramo do oxigênio. Passou no salão de beleza, e, timidamente confirmou a presença no bar com a moça na sexta-feira vindoura. Tirasse doze reais por dia, na sexta à noite seria o rei do bar! Pediria um frango assado para impressioná-la, e compraria camisinhas. Duas!

Quando chegou quinta-feira ele era só dentes para fora, sorrindo a toa. Cento e três reais! A postura mudara, mais um dia e poderia até comprar uma sandália havaianas para ir ao encontro.

Na sexta ele chegou cedo ao ponto, esperava vender mais e sair por volta das cinco horas para se preparar adequadamente. A falta de sorte típica dos pobres aconteceu quinze minutos antes das cinco. Três barbudos de camiseta vermelha se aproximaram e apresentaram uma carteirinha. Fiscais da prefeitura. Teria que apresentar o atestado de liberação para vender ali, o que quer que fosse. Ele não tinha! Na verdade, era o primeiro a seguir a ideia da presidente e estocar vento.

Os fiscais lamentaram, mas confiscariam o produto e o dinheiro que amealhara. E ele devia se dar por sortudo, daquela vez não o prenderiam. Tristeza. O sonho fora destruído de uma vez! Nada de frango assado, nada de namorada. O governo dá, o governo tira.

Voltou à sua vida lamacenta, enterrado em depressão e baixa estima. O ódio só martelava a sua pobre cabeça sem cérebro. Na próxima eleição teria a sua vingança.

                    Marcelo Gomes Melo

Corrida de trator

– Vamos.

– Não.

– Ah, vamos! Lá nós bebemos alguma coisa…

– Eu não bebo, esqueceu?

– Um guaraná! Nós bebemos um guaraná, ficamos confortáveis e iremos garantir a diversão por, pelo menos quatro horas.

– Não adianta, já disse que eu não vou. Não é não.

– Eu sei que não é não, talvez é sim, e sim é sim! Como é um programa legal e nós somos namorados, e não meros ficantes, estou insistindo. Peço perdão. Não convidarei mais.

– A que horas?

– A que horas o quê?

– Você quer ir. A que horas?

– Começa às 13h00. E eu não quero ir sozinho. E muito menos acompanhado por dó.

– Não é dó. Somos namorados, você tem razão. Só não quero ficar toda lambuzada. Voltar para casa toda lambuzada.

– Se for esse o problema, não se preocupe! Todos os casais que vão acabam lambuzados. E todos dão um jeito. A diversão é garantida. Tem música, tem vídeo para despertar os sentidos antes do começo da maratona…

– Maratona?

– O bicho é bruto, garota, não se engane. A resistência é o primeiro requisito. Habilidade também. Acelerar na hora certa do final…

– Você parece ser experiente nisso, hein?

– Modéstia à parte, sim. Só não lhe levei antes por constrangimento. Você recusar e me deixar frustrado. Na família nós fomos incentivados a começar cedo e virou tradição. Era uma outra época.

– Agora eu quero ir! Você despertou a curiosidade; e se vamos ficar juntos por muito tempo, em algum momento terei que estrear.

– Assim é que se fala, meu amor! Vamos, que preciso comprar os tickets e garantir um lugar legal. Dias como hoje tem até espera!

– Tenho que ir em casa trocar de roupa!

– Não se preocupe, bobinha, está vestida do jeito certo. Esse vestidinho sexy lhe deixa ainda mais maravilhosa.

E então foram. O lugar era privilegiado. Um morro perto da rua de terra cheia de buracos enlameados, chuva fina e persistente, muitos casais excitados, com as preferências pessoais.

Ali de onde estavam eles veriam tudo, ouviriam o ronco persistente, os guinchos esganiçados e barulhos de marchas sendo trocadas com violência. Começou pontualmente. Um apito estridente, bandeirada e… A corrida de tratores começou. A vibração era enorme, a gritaria incessante, a torcida fiel aos seus tratores preferidos. A lama espirrava em direção à plateia, que ficava imunda e feliz.

Uma hora e meia depois de ultrapassagens, luta e tratores fora da corrida, o vencedor cruzou a linha e comemorou efusivamente ao erguer o troféu.

Para a torcida qualquer um que fosse vitorioso seria louvado e aplaudido. O importante era estar posicionado no lugar certo, que era a entrada da única trilha que dava em uma rua de terra, cercada por matagal que dava para um prédio na outra esquina, pequeno e simples com uma placa enorme piscando em luzes vermelhas: “Motel, há vagas. Quartos com chuveiro, água quente”.

– Vamos, vamos! Precisamos chegar a tempo de conseguir um quarto!

– O quê?!

– Não vai querer voltar para casa assim, vai? Só tem aquele lugar discreto para tomarmos um banho. E eles ainda lavam, secam e passam as roupas. Em quatro horas! Vamos!

E saiu correndo com ela, de mãos dadas, arrastando-a para serem um dos primeiros casais a adquirir um quarto. Grande corrida de tratores! O resto era história.

                              Marcelo Gomes Melo

Comigo é no iguana!

O professor se apresenta, dizendo o nome e a disciplina a qual lecionaria, e completa com a expressão: “Comigo é no iguana”. Em seguida, como era a primeira aula do ano e requeria esse procedimento rotineiro, os alunos, um a um passaram a apresentar a si mesmos, automaticamente concluindo com uma frase sobre cada um, um lema por assim dizer, seguindo o estilo do professor sem que fossem solicitados.

Os mais discretos nem comentaram, mas os curiosos quiseram saber o significado do “comigo é no iguana”, e levantaram a mão para perguntar. A resposta do professor foi de que tratariam daquele assunto após a apresentação de todos, o que seria mais lógico, pois assim quem o desejasse poderia comentar sobre o que mencionaram após o nome. Terminadas as apresentações, retornaram ao ponto de curiosidade: o significado da frase “comigo é no iguana”.

O professor, então, iniciou a explicação dizendo não ser nada misterioso, e que cada um poderia escolher e utilizar um lema de acordo com a visão de mundo pela qual fosse guiado. Apenas utilizara-se de um mote filosófico criado individualmente. Uma expressão que levava em conta o lagarto herbívoro conhecido por iguana como uma boa influência, com diversas qualidades intrínsecas.

Caso quisessem saber mais, os alunos poderiam pesquisar a respeito do réptil, mas destacaria os motivos pelos quais citara o iguana: quando jovens a cor verde prenominava e conseguiam mesclar-se ao ambiente, adaptando-se e tendo como um modo de proteção ficar praticamente invisíveis. É uma boa qualidade, às vezes, não se expor desnecessariamente.

Uma outra qualidade do iguana, cuja espécie tem 65 diferentes tipos, é que ficam imóveis avaliando uma situação; tão quietos e concentrados que podem indicar facilidade de ser capturado. E de repente, com uma velocidade incrível pode cruzar um rio afastando-se do que julga ser um perigo. O iguana adora tomar sol; é valente porque se acostuma a lutar sozinho desde cedo, pois não recebem como outras espécies qualquer auxílio ou assistência materna. Em caso de necessidade, impossibilidade de fuga, luta ferozmente contra quem o ataca, defendendo-se com mordidas e golpes de cauda.

Sendo assim, concluiu o professor, a expressão pode significar resiliência, coragem para sobreviver, talento para fazer parte da natureza com inteligência e respeito, força para autodefesa…

E além de tudo era um raio de um lagarto bonito, não acham?

                    Marcelo Gomes Melo

Dois drinques

O homem vivia de impressões. Era a forma como ele levava a vida. Tinha a impressão de algo e bang! Seguia sem pestanejar; se estivesse certo, tomava um drinque e comemorava. Se algo desse errado… Dois drinques. Um para lamentar e outro para se refrescar e continuar a vida.

Jogo do bicho, loteria, bingo… Às vezes ganhava, mas, havia uma regra que a sorte impunha: jamais faturava muito dinheiro. No máximo conseguia um carro novo, a grana para dar de entrada… Uma vez ganhara o suficiente para quitar a casa, nada além disso. Nunca reclamaria da sorte.

Quando olhava uma garota e tinha a impressão de ter sido olhado de volta, erguia o copo e dava um sorriso. Geralmente bastava para um papo inicial, e a sequência definiria o período de duração e a intensidade do contato.

Nunca ser perguntara se todos procediam dessa forma durante a vida, se era uma filosofia comum seguida por todos, do sexo masculino ou não. Ele não era homem de perder tempo com os desígnios do universo, a existência era matematicamente simples. Em um dia estava vivo e no outro… Também.

Não percebia o tempo passar, tinha a impressão de que tudo se resumia a um longo dia com noites no meio, de vez em quando longas, outras vezes curtas, e mudanças no clima aleatoriamente. A humanidade não passava de um exército de bonequinhos de plástico sem vontade e sem arbítrio real, a não ser contra eles mesmos.

Com o passar do tempo as impressões ficam difusas, com um olhar através de uns óculos sujos, de um carro com o para-brisa quebrado. Talvez fosse um aviso de que o tempo podia ser cruel. Isso acendeu uma pequena luz vermelha no fundo do seu cérebro frio, serviu como um empurrão para que definisse o que desejava fazer definitivamente após a aposentadoria. Essa era uma impressão forte.

Sendo um homem simples não ficou impressionado, triste ou pressionado por essa constatação miserável, de tão óbvia. Tratou de partir para as decisões, ajustar-se para o tempo final de sua existência com alguma tranquilidade e dignidade. Decidiu rapidamente comprar uma pequena sala na esquina de uma universidade. Contratou dois funcionários, algumas máquinas de xerox… É isso mesmo, um homem que vive de impressões nunca muda.

Agora seria um executivo do ramo de impressões de papel.

                    Marcelo Gomes Melo

A pobre vida

Eu quero queimar as roupas que eu usava quando pensava assim. Como a maioria! Quero tomar um longo banho com sabonete líquido, bucha, sais de banho, xampu, e sair novo para ser julgado em frente do espelho, fazendo a barba, cortando os cabelos, mudando o que é externo para começar a me diferenciar dos iguais, porque finalmente caiu a ficha e passei a notar em mim a inutilidade dos membros de um rebanho.

Eu desejo reconstruir em minha vida uma nova maneira de pensar, partindo do zero, apagando todas as minhas memórias até aqui do jeito que se faz com um computador resetado para, como uma criança grande observar a todos os acontecimentos e tentar formar sozinho uma maneira filosófica de enxergar o mundo, e de viver à margem de uma sociedade previsível sem julgar ou ser julgado pelas decisões tomadas.

A minha nova vida precisa me encaminhar a um fim suportável, embora imagine que a solidão será a minha única companheira, principalmente porque não quero parceiros de pensamento, seguidores das minhas ideias.

A grande dificuldade se apresenta por causa da minha determinação em ser um único vivente livre de verdade, sem compartilhar absolutamente nada espiritual ou fisicamente com ninguém, me recusando a ser influenciado e vivendo apenas para não influenciar.

Será que superarei todas as dificuldades? Cegar a mim mesmo para não enxergar a nenhum outro. Ensurdecer-me para que os sons não me emocionem ou enraiveçam. Cortar a própria língua para resistir a me pronunciar jamais!

Isso seria o suficiente para ser uma nova pessoa, fincada em um mundo de coerências hipócritas em que status é o que favorece sempre, em detrimento dos menos dotados de posses e significância?

Ainda assim, todo mutilado, eu ainda estaria pensando, e pensar influencia a mim mesmo, tira a pureza dos meus sentimentos e se volta contra a determinação tácita de não aceitar influências nem de mim mesmo.

Não pensar seria a última das soluções. Para realizar isso teria que me matar. Sair dessa vida e deixar de ser um membro desse mundo incompreensível. Até perceber, frustrado, a total incapacidade de me suicidar sem a ajuda de qualquer um. A inutilidade da minha vida só não é maior do que a impossibilidade de ousar tentar ser outro ser humano e acabar por perceber como perdi tempo com vergonhosa filosofia falsa, que jamais irá existir.

                    Marcelo Gomes Melo

A Ira

Ah, todos os luares inúteis

Os quais passei sozinho

Em torno da fogueira

Armado com um copo de vinho

E um cobertor para o frio exterior!

Ah, todos os dias cinzentos

Que representaram a ausência

De quem deveria acalentar

O meu corpo magoado, arranhado

Envolvido em silêncios sufocantes

Ah, todos os pensamentos confusos

Por não encontrar as respostas

Das perguntas jamais feitas,

Dos olhares jamais trocados

Dos finais arrasadores sem começo…

É isso o que causa a ira?

As lágrimas que inundam o mundo?

A força que esmaga as pedras?

O suspiro rebelde que escapa das masmorras?

O ritual inclemente do amor?

Marcelo Gomes Melo

O dia-a-dia das deusas

Há um lago em chamas no fundo do olhar dela, varrendo a noite como um cavalo alado de asas negras e crina reluzente. No local em que bate estrelas se movem como meteoros, e casais apaixonados fazem promessas, enquanto em algum lugar buracos enormes abertos, estrondos acordam os comuns e alguma destruição real é vivida pela queda.

O céu é domínio dos prendedores dos seus cabelos; ela, displicentemente os permite cair como chuva de vaga-lumes encantando aos notívagos e despertando alguma paixão em casais antigos, rememorando dias gloriosos.

Não é preciso sorrir para que saibamos que ela se orgulha de tudo ao redor, e esse orgulho a deixa um tanto mais generosa com os pedidos dos amantes e com os sonhos dos adolescentes.

O seu corpo é um mapa perfeito perseguido por todos, mas dificílimo de alcançar, pelas estradas tortuosas, cânions assustadores e barrancos impiedosos que destroem os que distraem com as visões hipnóticas dos montes e das curvas perigosíssimas.

Já se ouviu dizer, por poetas românticos que em seguida se despediram da vida com satisfação de terem vislumbrando uma mera centelha do que ela seria, que o cálice sagrado perseguido pelos cavaleiros da Távola Redonda mal se compararia aos encantos que dela emanariam.

Um sopro de seus lábios carnudos aliviaria o calor do deserto, e ao mesmo tempo causaria tempestades incríveis, letais e destruidoras. E entre os destroços, diamantes, pedras preciosas e rastros de sangue, pétalas de rosas perfumadas e espinhos venenosos, representando as armadilhas do que é viver sem ter certeza alguma do que pode acontecer.

Empenhar tudo o que se tem, apostar até o que jamais se terá é algo comum aos olhos cálidos dela, e as expressões de tédio e incredulidade, permitindo entrever que não há outro caminho, tudo isso é tributo merecido e devido a ela, que observará começos e finais, sempre trágicos e desastrosos causados simplesmente por sua existência, e é assim que deve ser para todo o sempre. Esse é o dia-a-dia das deusas.

                    Marcelo Gomes Melo

Ermitão urbano: falsa modernidade

Eu não sei andar de bicicleta. Eu não sei dirigir automóveis. Não sei desenhar, não consigo pintar. Eu não sei velejar, não sei nadar, não sei cantar. Não sei dançar, nem lutar.

Posso continuar uma lista infinita das coisas que não sei fazer, não tenho noção de como discursar, não consigo vender, não sou bom em comunicar, jamais saberia consertar qualquer coisa, não entendo de física, matemática, química ou mecânica, não tenho prática em religião, sou incapaz de trocar um pneu, não sei jogar xadrez.

Eu diria com toda a certeza ser um inútil, dono de uma vida inútil e sem propósito. Não sei cozinhar, lavar, passar, costurar, fazer ou cortar unhas, fotografar, atuar, levar cãezinhos para passear. Não sei consolar, não consigo pedir nem oferecer. Estou trancado em um quarto minúsculo de um apartamento inexistente sem nada que me distraia. Não presto atenção, não tenho sonhos, não tenho imaginação.

Também posso citar milhares de coisas as quais não suporto: barulho, pessoas fracas, choronas ou chatas. Quem fala demais, mal-humorados, alegres demais, de maneira forçada, sem noção alguma da vida que levam, militantes de qualquer coisa, fanáticos, radicais, ingênuos, egoístas, idiotas em geral, julgadores, moralistas, arrogantes, hipócritas, mal educados, calculistas frios, seres rastejantes, obcecados, ambiciosos, corruptos, mentirosos, invejosos… Ou seja, a nata da sociedade atual.

Isso faz de mim um ermitão urbano, fácil de ser julgado por psicólogos amadores, cartomantes, leitores da mente, pastores, padres. Eles não gostam das pessoas fora dos padrões, indomáveis, incrédulos, que vivem pelos próprios regulamentos sem ferir nem incomodar a quem quer que seja.

Os chamados cidadãos marginais, que observam o universo, mas não dizem nada, sem interesse em interferir ou se deixar influenciar, não dividem as coisas que enxergam, não se importam com o dia de hoje, muito menos o de amanhã, e esquecem completamente o que já passou. Não escolhem refeições, não demonstram desejos por alguma coisa em especial pela qual economizariam. Nada de busca por status, nada de respostas-padrão, nada de resposta alguma. Sem perguntas, sem interesse, sem sentimento aparente. Descaso. Cansaço. Impaciência.

Essa rotina é real, vivida por muitos ao redor do mundo, os que vegetam à vista dos enquadrados nas normas de comportamento ideal para se tornarem cidadãos modelos de algo que sempre muda. Um organismo vivo que hipnotiza e mantém os acontecimentos girando eternamente, repetindo comportamentos, modas e expectativas.

Até que uma nave espacial gigante sobrevoa as grandes cidades, abduzem malucos e dão um choque de adrenalina para que a vida se repita, falsamente moderna, mais do mesmo, nada de novo no front.

                    Marcelo Gomes Melo

Comi!

       Eu mordi. Sentei os dentes sem piedade porque era gostosa demais para deixar passar. A minha imagem diante daquele suculento acepipe, macio e maravilhoso era a de um lobo salivando, os enormes dentes à mostra, pronto para dar o bote e degustar instantaneamente, saciando a minha voracidade.

      Não poderia renegar a minha espécie, fugir ao meu destino de apreciador das delícias inesgotáveis, inexplicáveis, inefáveis… Mesmo Não me sendo oferecido aquele regalo arredondado, cheiroso, quente e atraente, os meus músculos tremeram de prazer ante à mera possibilidade de comer. E agora, lambuzado e satisfeito posso garantir que comi.

       Eu faturei e foi muito bom; comeria de novo, devo ressaltar. A fome cumpre diversos estágios, que instigam a coragem de um homem e o transformam em uma arma pronta para atirar.

       O primeiro estágio é o cheiro. Você inspira e flutua, sendo guiado ao jardim dos prazeres mesmo sem saber a forma e o sabor, desejando assim mesmo através da imaginação.

       O segundo estágio é a observação. Você vê aquela maravilha saltitante, palpitante, aparentemente à sua disposição, prontinha para ser tomada e comida com um gosto especial. Você devora com os olhos.

       O terceiro é o toque. Suas mãos tateiam, exploram, apertam, espremem, mapeiam… É uma loucura até o momento em que você prepara o ataque fatal, olhos esbugalhados, suando gelado frente a expectativa maioral de saciar o desejo.

       Não precisa receber permissão, não aguenta esperar um oferecimento. Você sabe que dará um enorme problema e será julgado pelo excesso de desejo que gerou essa atitude antissocial e odiosa de sua parte.

       Eu comi! E afirmo que foi bom, embora ela tenha ficado surpresa com a minha ação veloz, chegando, pegando e me deliciando sem me importar em pedir antes, pelo menos.

       Ela ficou paralisada e estática, sem saber o que dizer ou fazer, na frente de todos. O fato é que tomei o sonho enorme das mãos dela e comi sem dó nem piedade. Depois, satisfeito, um tanto envergonhado, informei: “Eu pago outro”.

                              Marcelo Gomes Melo

Entre a cantada e a morte

Ambos chegaram pontualmente à lanchonete na qual marcaram o encontro. Ele de calça de sarja bege, camisa polo listrada e sapatênis. Ela de vestido florido simples e sexy, pouca maquiagem e sandálias da moda.

Um cumprimento tímido, com direito a sorriso e um leve beijo no rosto (um risco alto na hierarquia do abuso). Dois refrigerantes, por enquanto. Ele tentava manter a calma e não suar como um porco. Ela parecia mais segura de si e tranquila.

Fora um parto conseguir aquele encontro. Levara meses ensaiando em frente ao espelho, pressionado pelos amigos que afirmavam que ela estava a fim, bastava um movimento dele. Então retrucava aos amigos, meio sem convicção: “se é isso mesmo, por que ela não toma a iniciativa?”, não existe mais isso de que o homem é quem deve convidar, é até cafona! E se ela se sentir ofendida e me acusar de misógino, machista, porco chauvinista e destruir a minha imagem pública no colégio e nas redes sociais, acabar com a minha vida, me transformar em um cidadão cancelado, atirado à margem da sociedade e sem opção de retorno pelo resto da vida?

A contra-argumentação era simples: você é um cara legal, não aparenta querer levar vantagem! Vai dividir a conta do cinema e da lanchonete, até do motel, se for o caso. Não falará sobre nada que lembre contato físico, não elogiará a roupa e muito menos olhará o decote! Se puder não cruzem os olhares. Converse olhando para a mesa e estará seguro.

E se ela achar que eu estou olhando para as pernas ou os pés dela? Posso ser denunciado como tarado! Use óculos escuros. Mantenha o capacete da bicicleta. Tudo acabará bem.

Ainda assim o convite foi feito indiretamente, sugerido por um casal de amigos de ambos. Passou noites e noites decorando o manual das garotas feministas; o que poderia ou não fazer, o que deveria ou não dizer.

Foi uma semana exaustiva. A felicidade de poder encontra-la, sufocada pelas regras de convivência do século XXI. Ainda bem que os óculos escuros impediriam que ela visse as olheiras. Hoje em dia era difícil lidar com uma pessoa do sexo oposto sem correr altos riscos de ser julgado e condenado por um mínimo deslize.

As garotas estavam no comando. Elas decidiriam se o rapaz merecia outra chance ou deveria ser queimado na fogueira da inquisição moderna das redes sociais.

Tudo correu razoavelmente durante o encontro. Ele tossiu bastante, gaguejou, tremeu… estava seguro por enquanto. Não pôde deixar de notar a beleza natural e a luz que emanava dela. Inteligente, linda e segura de si. E ele um mero verme covarde apaixonado, submetido às regras de um mundo ao qual não entendia, com medo primal de dizer à moça qualquer coisa lisonjeira.

No final do encontro, quando cada um pagou a sua parte e se preparavam para a despedida, a loucura se apossou dele! Um vírus incontrolável de agir como homem fez a sua garganta coçar e os seus olhos revirarem. Os seus joelhos baterem um contra o outro e um desespero que veio de dentro, e ele não conseguiu conter. Quando percebeu já havia dito, em forma de elogio:

– Você tem joelhos lindos!

– O que disse?!

Os olhos dele saíram da órbita e apertou o próprio pescoço com ambas as mãos. Não chegou a notar o sorriso afável e orgulhoso dela. Caiu estrebuchando no chão da lanchonete. A ambulância chegou, mas era tarde demais. Infarto. Morreu com 18 anos de idade. A causa: medo de amar.

                    Marcelo Gomes Melo

Os enigmas que regem a existência humana

Se todos os instintos são os caminhos para a realização dos pecados, quem possui a espada da absolvição será o verdadeiro culpado pela disseminação de cada um deles, usando o instinto para absolver os enganos os quais surgem literalmente movidos a sentimentos passageiros, mas devastadores, que arrasam e destroem, deixando escombros como o rastro de um cometa à velocidade da luz, repetindo-se geração após geração, imparável, inevitável, inacabável.

Instintos são inseridos nas consciências como uma arma com o intuito de desequilibrar. De vez em quando estão certos e impelem às reações mais inesperadas, por desagradáveis ou desarvoradas que sejam, levando a términos terríveis e indiscutíveis.

Será destino do ser humano carregar os seus instintos mais secretos em uma batalha infindável na qual o vencedor decide o rumo da vida do vencido? E no caso da vitória dos instintos, uma vida de culpa arrastará o ser humano para o fundo, solitário e derrotado, sem argumentos ou armas para sobreviver?

E se, no entanto, o instinto for dominado com força de vontade e caráter, não permanecerá à espreita, lá no fundo, aguardando um deslize, obrigando o ser humano a viver em alerta todos os segundos de sua vida? Como isso pode ser considerado uma vitória?

O meio termo é uma existência monótona, covarde, sem riscos e sem ganhos; apenas o incômodo de sentir vontade e não ter coragem, de jamais ousar, relegado a uma inutilidade dolorosa, cheia de vergonha e fraqueza, antecessores dos ultrassensíveis que acabarão magoados por coisas fúteis, agindo pelas sombras como ratazanas sorrateiras até que sejam de alguma forma esmagados pelo tosco viver.

O dilema da vida é impossível de resolver, porque a duração da existência é diferente para cada elemento, e não anunciada. Seres humanos habitam um círculo vicioso no qual a curiosidade e a capacidade de regular ou não os instintos darão as respostas sobre quem será e por quanto tempo o será, e cada resposta acontecerá de surpresa, indubitavelmente tarde demais.

                    Marcelo Gomes Melo

Caso de amor de horror

Incrível! Estávamos namorando há dois dias, e durante esses dois dias trocamos algumas palavras, bebemos muitas cervejas e nossos olhares guerrearam ousadamente, vorazes, canibais, por bastante tempo. Sorrisos tortos, silenciosos e toques com as costas das mãos, aparentemente acidentais.

Eu paguei a conta e saímos lado a lado, ombros colados. Paramos na calçada um momento naquela madrugada fria com alguma neblina, olhando para os dois lados da rua mal iluminada, até que segurei a mão dela e saí caminhando. Ela não se opôs, me seguiu docilmente. Quando entramos no meu prédio ela olhou em volta o ambiente silencioso, quase sem curiosidade, e entramos no elevador. Quarto andar. De mãos dadas alcançamos o final do corredor, meu apartamento número doze.

Enquanto o abria, ela me observava, com olhos sorridentes. Entramos. Ela bebeu água gelada, deu uma rápida inspecionada no local ainda com o olhar e veio atrás de mim para o quarto. Isso foi há dois dias. Poucas palavras, muitas mãos despindo um ao outro e explorando os corpos um do outro.

Estranhamente não houve gemidos de filmes pornô. Éramos silenciosos, cuidadosos e carinhosos. Cada toque era uma descoberta, cada beijo um sabor diferente. A cama era o nosso país particular, uma nave espacial utilizada completamente, em cada milímetro.

Não houve pedidos, exigências ou perguntas. Sabíamos o que fazer naturalmente e o fazíamos com rara sensibilidade. Repetíamos. Compartilhávamos água e sorrisos sem som. Os belos grandes olhos escuros com os quais me olhava eram hipnotizantes. Pareciam conter uma pergunta profunda, uma dúvida imensa que acelerava o meu coração, e me tornava esfomeado por conhecer e delinear um mapa secreto do seu corpo, que me daria, supostamente, algum alívio para a necessidade que eu tinha de possuí-la.

Com fome, sentamos nus nas cadeiras da pequena cozinha e comemos chocolate, miojo e sorvete, nos beijando nos intervalos, misturando sabores. No colo a carreguei de volta para a cama desarrumada, nossa nave segura para aprofundarmos as nossas necessidades de um prazer indescritível.

Por volta da madrugada do segundo dia, debruçado sobre ela, olhos nos olhos sussurrei roucamente, de forma quase inaudível: “Minha namorada”. E no mesmo instante, no mesmo tom, ela não hesitou em responder, ainda mais baixo: “Meu namorado”. Selamos o acordo com sorrisos abobados e beijos vorazes.

Ao amanhecer do terceiro dia adormecemos abraçados, cansados e saciados. Um sono sem sonhos, os corpos restaurados do estresse, das dúvidas e de qualquer tristeza. Um respirar saudável como há muito tempo não sentíamos.

Acordei por volta das duas da tarde na nave desarrumada. Esticando o corpo, com fome e vontade de sorrir. Finalmente falar, tentar colocar em palavras tudo o que foi vivido tão intensamente com ela, infindável, infinito, maravilhoso, um marco para uma vida. Duas vidas. Duas vidas em uma vida.

Ela não estava ao meu lado. Levantei e fui até o banheiro, lavei o rosto, escovei os dentes, passei a mão pelos cabelos espalhados. Fui à sala vazia. Ao alcançar a cozinha eu já sabia que ela havia ido embora. Sem despedidas.

Uma sensação nova me deu vontade de chorar. Peguei água na geladeira e sentei em volta da mesa em que, há dois dias dividíramos iguarias. Então notei na mesa rústica de madeira, entalhada com a faca de cozinha, uma frase singular: “Namorados”. Ainda não sei da melancolia que sinto, não voltei ao bar em que nos conhecemos, segui a vida. As lágrimas noturnas limpam os olhos, mas não explicam nada. Coisa alguma.

                    Marcelo Gomes Melo

Imortalidade programada

Nos dias de hoje morrer vai além dos trâmites naturais, que são avisar aos parentes e amigos, cuidar da burocracia, ajeitar as coisas, saber das despedidas curtas, poucas pessoas em um velório simbólico, orações, consolo à uma distância segura, enterro e cópias da certidão de óbito para os que puderam aparecer para prestigiar, sem fazer parte do grupo de risco, obviamente.

Em seguida o isolamento de todo dia, as lembranças encapsuladas para poucas pessoas, aglomeração zero, se possível. Lide com a sua depressão e adquira outra como brinde.

Não é possível tentar seguir a vida, pois você está estagnado, preso virtual e presencialmente, interna e externamente, engolindo o choro, os gritos e as lamentações, pois ainda há muitos outros vivendo à beira do despenhadeiro emocional, e falar da perda pode acabar causando muitas outras.

E cabe muito bem lembrar de que a pessoa se foi, mas está eternizada nas redes sociais, e os perfis permanecem ativos, recebendo mensagens, textos, emojis de quem jamais a conheceu pessoalmente e/ou não sabe do acontecido.

Aos vivos, além de procurar o equilíbrio para continuar sobrevivendo  entre quatro paredes, sem espaço ou oxigênio suficiente, remoendo as dores, sorrindo o sorriso profissional e o sorriso digital, fingindo que a vida continua para quem está vivo, mesmo que não seja verdade, buscando forças onde não há, ouvindo teorias e acusações em um tiroteio sem fim, sem ter firmeza de caráter de ninguém, sem poder confiar em  ninguém, muito menos nos que se encarregam de espalhar oficialmente a verdade que os interessa.

A morte continua pairando nas redes sociais, e até que os perfis sejam deletados o cadáver sorridente parece vender a ideia de que a vida é bela e não há o que temer, pois todos os agentes virtuais são felizes, perfeitos e competentes. Todos ostentam e reagem à ostentação que acreditam enxergar em alguém que já esteja morto.

Os fantasmas da era da internet das coisas, e da internet dos corpos permanecem nas ondas sem fio mesmo após deletadas, com os restos de suas informações arquivadas pelos softwares das grandes corporações, que vigiam e preparam um programa de vida compatível com o status da pessoa, para controlar os seus hábitos e faturar com as informações obtidas.

Talvez não habitem algum arquivo morto digital, no qual permanecerão até que seja possível reativá-los e voltar a enriquecer com algo que eles, mesmo mortos, possam voltar a proporcionar, nunca se sabe; afinal o trabalho nunca para, e provavelmente estejam investindo em zumbis virtuais, para que os vivos invistam as suas posses na esperança de um retorno via holograma ou coisa que o valha.

Ninguém morre definitivamente mais, na Era dos desalmados milionários que transformam sentimentos em código binário, fé em programas quânticos preparados para lucrar e nada mais. Isso é futuro em doses letais.

                    Marcelo Gomes Melo

Danos colaterais e a imensa muralha do término

O ano de 2021 começou estranho como era de se esperar. As estações do ano trocadas, chuvas fortes arrastam bens materiais e vidas como se tivessem o mesmo valor. Danos colaterais, afirma a mídia, sem nenhuma credibilidade, um dos focos de corrupção que atuam como sustentáculo para as forças obscuras sobrenaturais que adquiriram o caráter e a honestidade dos mais altos mandatários, que venderam tudo a preço de banana e defendem uma mudança brusca de valores pessoais e coletivos, uma aceitação tácita às novas regras que apagam religiões do mapa, transformam gêneros humanos e os multiplicam, e apoiam a eliminação de bebês como forma de contenção da humanidade.

Todas as outras ordens são igualmente pensadas para a produção de um novo tipo de humanidade, controlado física e humanidade, dispostos a aceitar como natural as novas imposições e apoiar o chamado “novo normal”. Os jovens são um livro ainda mal escrito, facilmente transformados e convencidos, guiados para o caminho sem retorno planejado para eles sem contestar, acreditando, pela total falta de experiência anterior que algo melhor já houve, e os pais foram incapazes de repassar o conhecimento para eles. Agora estão morrendo por isso; adultos inúteis para a nova ordem universal, que tem sido projetada lentamente, como um carro com arranque de balsa, mal percebida pela população em geral, mas agora acontece velozmente, e interfere com indiferença na vida dos distraídos, dos acomodados, das vítimas em geral, a maioria a ser sacrificada para a solidificação de novos dogmas que irão reger as gerações com as mentes mais putrefatas de todos os tempos, ignóbeis seres incapazes de se importar sequer com eles mesmos, onde o egoísmo é parte do DNA, mas não tem tanta força para mudar o destino desses seres toscos que serão as novas gerações de escravos, alimento para o ódio e diversão dos poderosos ainda mais irracionais e cruéis.

Um ano iniciando, com destruição e hipocrisia, depois com a destruição dos hipócritas por uma casta ainda mais tacanha, que mata por indiferença, desmotivados e sem rumo, sem nenhuma autoestima e nenhuma qualidade visível ou oculta.

Agora, ladeira abaixo, um carrinho de rolimã sem freio descendo a ladeira sem asfalto, cheia de pedregulhos, chegando ao destino em frangalhos. Nem por isso se importam, são apenas danos colaterais necessários, pois o aumento de população desmedido passou a requerer mais do que medidas ditatoriais.

Morte simples, lavagem cerebral, abandono das leis de convivência em troca de uma nova vida mais obscena, mais indiferente, onde o final é aterrorizante e ninguém se importa.

É o ano em que nada importa, e tudo foi reciclado, todos foram reciclados perdendo o contato com a própria essência. Um novo mundo em que os que ficam são programados para durar menos, por isso leis não se aplicam. Tudo o que for bizarro e inaceitável será imposto goela abaixo.

Esse é o ano em que não haverá retorno. Todos seguirão em alta velocidade até se chocarem com a imensa muralha do término.

                    Marcelo Gomes Melo

O que chamam de paz e não passa de escravidão

Se está à procura de paz, prepare-se para a guerra. A batalha invisível que lhe oprime silenciosamente através de pequenas obrigações sem as quais estará excluído de determinados benefícios, ou ajuda institucional. Determinadas ordens que você cumpre como se fossem obrigatórias seguindo o fluxo, porque a maioria o faz sem questionar, e quem questiona acaba sofrendo as consequências, julgado sem provas, humilhado e diminuído como ser humano, ao ponto de ser atacado pelos seus próprios pares, que não chegam a perceber que estão abraçando parte importante deles mesmos ao punir um dos seus em nome de argumentações vãs, esfarrapadas e ilusórias.

A paz não pode ser garantida com um lado dominante e outro dominado; isso não é paz, é escravidão. A maioria cumpre as ordens de uma minoria privilegiada em troca de migalhas mal distribuídas que os atiçam a brigar entre eles, dividindo-os ainda mais em nichos assustados e facilmente controlados.

Preparar-se para a guerra é demonstrar força de opinião, argumentação clara e apoio da maioria, fazendo-os pensar duas vezes antes de dominar pelo poder de ferir, ameaçar e até mesmo matar.

Impedir a alienação constante da maioria, posicionando-se com pés  firmes no chão e músculos tensos, olhares atentos, argumentos afiados, fará com que a paz torne-se mais plausível através da equivalência de forças. É o medo que atua como mediador nessas questões, e o temor mútuo obriga a pensar muitas vezes antes de burlar uma regra ou abocanhar uma fatia maior, aumentando o espaço de domínio, e com isso o comando das decisões mais sangrentas.

Todas as decisões de guerra acontecem quando uma das partes se julga poderosa o suficiente para impor suas regras, incluir tacitamente os seus desejos, e oprimir cada vez mais com intenção de tirar o espaço, as forças e a resistência do oponente, reduzindo-o a algo desprezível e plenamente destrutível, sem contestação, em nome de algo que nunca reconhecerão: escravatura.

O ideal é saber como equilibrar tais forças, e o armamento crucial para isso é o conhecimento, o poder de argumentar e compreender os meandros do que leva ao comando total de tudo o que os cerca, incluindo vidas humanas, descartáveis ao modo simples como enxergam as coisas.

                    Marcelo Gomes Melo

A razão das dores alheias

Perda. Constante. Indelével. Letal. E as diversas reações de cada um às catástrofes pessoais que, de cada maneira específica atinge e confronta as atitudes de acordo com o nível de envolvimento, o momento e as implicações gerais da perda.

Uma vida envolve estranhas e necessárias variáveis, entre elas dor e perda; elas ressignificam a história pessoal e em grupo de cada um. A felicidade adoça as mentes, suaviza os corações e desaparece como o perfume de flores depois de horas, enquanto a dor da perda, tatuada e incrustada no coração a laser, riscadas na pedra indestrutível que protege as lembranças e as aciona sempre que possível, necessário para trazer os pés e a mente de volta à terra firme.

A sociedade humana tem algumas marcas gravadas no DNA, e uma delas é a tendência a prejulgar os outros tomando por base as próprias inseguranças e falhas. Pecados dos quais não têm consciência em si mesmos, apenas nos outros, e não imaginam que estão, como todos, em frente a um grande espelho, e o reflexo de cada um mesmo é o que é visto e exposto. Ingenuidade ou punição, não os permite perceber?

Não há como escapar das pessoas. Uns choram e se martirizam; outros culpam a vítima e o entorno; todos procuram fugir da parcela de culpa que lhe cabe de alguma forma. O sofrimento é igual. A duração depende do que farão para cumprir as etapas até que se livrem da pressão, ganhando alívio ao coração, sensatez à mente e equilíbrio à vida, não para sempre, por um período em que as probabilidades mudam e os caminhos a seguir também. O que fica é a dor da perda, nas profundezas do pensamento, quase esquecidas, mas prontas para vir à tona em ocasiões especiais. A felicidade é superficial, alegra a existência; a perda é inevitável e eterna, molda o caráter, traça novas existências, rumos nunca antes imagináveis para ninguém, e ninguém está livre desse acontecimento. Até que você se torne a perda, a razão das dores alheias.

                  Marcelo Gomes Melo

O mês da melancolia e da tristeza

Dezembro é o mês da melancolia. A marca registrada da tristeza e da dor. É quando os pecados, as hesitações, a incompetência, a falta de atitude, o erro no trato com o próximo vem à tona como uma enxurrada cheia de lama e escombros, confrontando a todos, até os supostamente de coração frio.

Dezembro, com as suas insinuações sobre perdão, seu discurso sobre a religião e o poder do arrependimento, a paz instituída através de rabanadas e presentes. A reunião familiar que acontece uma única vez ao ano, com a presença da ovelha negra, dos desconsiderados, os incapazes de pensar como parte de uma família, agora reduzida por conta de uma pandemia.

Inevitavelmente a bebida acaba por recordar fatos passados não superados, acusações entaladas na garganta, choro e desconforto emocional. O mês das festas e do reencontro com a paz nunca age tão enganosamente, e entre luzes de natal e amigos secretos, a ruína de cada um se apresenta como em um palco de teatro, e as perdas vão se juntando como quebra-cabeças, formando uma hidra que os devora interna e externamente.

Todos sabem que um dia depois iniciarão o período de negação e esquecimento, já separados novamente sem a resolução de suas mágoas concentradas, feridas mal curadas que se abrem facilmente e não há como curar definitivamente.

Logo o ano novo virá, com mais barulho e paganismo, pregando materialismo como forma de redenção, instigando atitudes egoístas e festivas, coisas que apagarão com prazer no dia seguinte, para poderem seguir em frente erguendo a cabeça até onde for possível, sem deixar claro a submissão ao processo e às marcas que carregam no corpo ano após ano, cada vez mais profundas, desenhando labirintos sem saída por onde o cérebro percorrerá incansavelmente.

O mês da melancolia revestida de alegria; uma alegria seca, vazia, nua, sem valor, sem nutrição. Algo que continuarão a ingerir sem obter nada que os faça fortes e autossuficientes.

A solidão toma conta da noite e permite que os fogos de artifício sejam em sua própria homenagem, dominante entre sorrisos gelados, abraços frios e cumprimentos mentirosos.

Acrescente a esse ano um item ainda mais destrutivo, incluído aos poucos durante o período, causando tristeza e morte, medo e impotência ante o destino, distanciando ainda mais, assustando ainda mais, destruindo o GPS que controla a vida de quem fica cada vez mais incapaz de raciocinar. Logo serão zumbis, alienados, e o mês da tristeza e melancolia se estenderá e os cobrirá por uma escuridão sufocante, terrível e infinita. Assim como estava escrito nas entrelinhas para os que não sabem ler.

                    Marcelo Gomes Melo

Antes da escuridão e do recomeço

Nada como uma boa e velha pandemia para liberar todos os fantasmas guardados individualmente a sete chaves por cada ser humano, sem importar a idade, o credo, os sonhos, gêneros e os objetivos em si.

Trancafiados em si mesmos por décadas, acostumados a fingir ser outra pessoa que em seu julgamento é mais agradável, palatável ao convívio social no qual se aplica a política para alcançar patamares dignos de orgulho, dos quais exercem descaradamente o poder através do dinheiro, comprando, subornando, aliviando consciências, passam a encarar um isolamento um tanto desagradável, real, que os obriga a enfrentar o próprio medo sempre existente de encarar quem realmente o são.

Normas rigorosas assustadoras levadas na brincadeira no início, logo espalham dor e perda aleatoriamente, atingindo igualmente pobres e ricos, sem distinção de cor, religião ou sorte, acontecendo aos montes. Pessoas próximas, conhecidas, famosas deixando o ambiente de súbito, causando choque e fazendo lembrar da mortalidade que ignora padrões de vida altos, poderes políticos, financeiros e artísticos e expõem a miséria interior de quem antes se julgava imune.

As doenças rotineiras de acordo com a condição financeira se tornam maiores, assustadoras, gatilhos iminentes para, associadas à pandemia lhes encomendar um belíssimo traje de madeira.

Em negação, muitos enfrentam a faca com o peito aberto, julgando-se ainda imortais quando apenas são um meio de transferência para mais infectados e mais mortes. No meio da confusão, políticos querem faturar e aumentar o poder, até que sejam pegos no meio do caminho e enviados para uma cama de hospital, com mais chances de sobrevivência que os comuns, mas ainda assim vítimas da própria ambição.

Lidar com os inúmeros problemas como uma família é muito complexo e difícil, exigindo mais de alguns que conseguem tirar alguma força sabe-se lá de onde, deixando em troca a sanidade mental que em algum momento os abandonará.

Nada é fácil, todos sofrem do seu jeito, uns contam as horas para o fim de tudo, especialmente trágico; outros não perdem tempo com isso e ignoram as artimanhas cínicas de uns poucos que desejam mudar o mundo como o conhecemos, geograficamente, socialmente, eliminando a quem consideram inúteis para preservar uma nova raça, com novos dogmas, submetidos a uma dominação completa em nome de um Bem. Um Bem menor.

Esquecem que isso já foi tentado em outros séculos por outros malucos sanguinários, que sacrificaram muita gente e não conquistaram o seu objetivo porque a natureza é mais forte, e comanda os seus filhos, mesmo os mais rebeldes; e no fim os pune impiedosamente, antes da escuridão e do recomeço.

                    Marcelo Gomes Melo

Tudo o que se fala quando não há o que dizer

Tempos, tempos, que se façam lentos, apenas para nos torturar com o falatório estéril de quem hoje atua, por conta de uma boa equipe de propaganda profissional, preparados para desvirtuar as ideias que deveriam ser valorizadas e instalar no poder os tortos de caráter, imbecis unidos sob a bandeira da mudança de normas e regras que beneficiam a enorme maioria, calando-os, dividindo-os e incutindo ideais absurdos, putrefatos e bizarros como o novo normal, controlando através da liberação de ações tétricas impensáveis, que farão definhar toda uma população, sem importância para os atoleimados que tiveram o cérebro lavado e dominado, cegos ante a realidade, ávidos por comentar sobre o que  desconhecem e a julgar imediatamente, parcialmente, sem dores de consciência.

Tempo, que não tenha pressa e assista ao massacre diário, rotineiro, defendido pelos que em breve serão vítimas, e, tarde demais, queimarão com os cérebros vazios, sem saber o porquê de seu sacrifício, já que fizeram tudo como lhes foi ordenado. Não vislumbrarão o erro, morrerão na escuridão na qual viveram.

O falatório aumenta, especialistas surgem do nada para opinar sobre nada, criando hipóteses nocivas e nojentas, sorrindo como imbecis durante o discurso prolixo, tão obscuro que se tornam incapazes de serem compreendidos.

Traduzidos pela mídia pérfida, comprada por moedas de ouro, desfrutam dos quinze minutos de fama e depois tentam viver desse momento fugaz, entrando em desespero quando não mais reconhecidos. Recusam-se  a acreditar no lixo descartável que são, e  procuram novos acordos espúrios para continuar palpitando, nem que seja para as paredes, fingindo uma erudição inexistente, porque reduziram a qualidade da formação para que desqualificados obtivessem credenciais sem nenhuma condição ou talento para exercer o que atestaram que poderiam. Vivem de enganar a si próprios com tanta convicção, que se tornam cegos para a mais simples realidade.

Um mero exemplo, para clarear as ideias: se a maioria não reúne condições intelectuais ou vontade para aprender um idioma, por que não criar um acordo no qual se corrompa o que é certo e valorize o errado? As pessoas desqualificadas automaticamente viraram experts, e as preparadas através do que é do que é correto e milenar se perderão, horrorizados, até desaparecer para o surgimento de uma sociedade morta e incapaz, caminhando a passos lentos para a profundeza dos infernos.

                    Marcelo Gomes Melo

Os seres desprezíveis observados por um universo condescendente

Mulher, não me morda! Não assim, sem aviso, sorrindo e marcando o meu corpo de uma forma que eu não possa mostrar! Eu sei das disputas por território e do quanto as mulheres conseguem ser possessivas, mas garanto não ser a maneira correta de me fazer permanecer ao seu lado.

Quando um homem faz marcas de amor, ele sabe que qualquer mulher sabe esconder, disfarçar, ou mesmo assumir com orgulho o valor de suas prendas, ao ponto de mexer com o controle mental de um apaixonado irreversível.

Para um homem, mulher, é muito mais difícil porque não se exibe livremente, precisa ser discreto para manter a respeitabilidade ante os seus pares, embora todos saibam dos sacrifícios aos quais se deixam tomar, que os torna humanos e falíveis. Não falam sobre isso jamais, porque as fraquezas precisam ser secretas, e todos aceitam as regras implícitas em mundo masculino forjado desde tempos imemoriais.

Hoje em dia, mulher, esses arroubos rebeldes que buscam mudar o que é sensato, sequer esperto, porque a mudança de rotina fará com que os homens sejam extintos, e a ausência de sexo oposto exterminará a vida como a conhecemos.

A submissão velada também acabará com a força esperada dos homens, criados para agir com poder e ser capaz de defender suas fêmeas das intempéries da vida! Virar esse fato comum levaria séculos, e por consequência aumentaria a possibilidade de término da vida humana eternamente.

É um jogo que está em pleno vigor, com perdas de ambos os lados e confusão mental e física de ambos os lados. Quem estaria manipulando os cordões e brincando com uma raça cujo destino parecia traçado por séculos e séculos, e agora simplesmente apresenta falhas terríveis, enganos irremediáveis e crenças inicialmente absurdas!

Não há fim de verdade. Há mudança de regras e extermínio de iguais, maiorias dizimadas pela vontade das minorias, mudando o que antes era correto, a vontade de muitos sendo desrespeitada pelo desejo de poucos.

O pensamento seguinte é como a existência dessa raça seguirá, ou não, surgindo uma nova raça para habitar por séculos o mesmo ambiente natural, com estilos diferentes, até que um novo final se torne necessário, e novos grupos com novas ideias destruam insensivelmente a história para iniciar um novo período em um canto qualquer de um universo silencioso e impassível, esse sim imortal, inacabável, observando com olhos gelados o poder de consumir a si mesmos desses seres desprezíveis.

                    Marcelo Gomes Melo

Das razões além do alcance do cérebro

O tempo está sendo reconfigurado, tanto quanto o planeta, e os sinais dessa reconfiguração têm ido além das palavras dos futurólogos ou das teorias da conspiração espalhadas aos quatro ventos, imiscuindo-se no histórico popular, fazendo-os debater até acreditar que os homens no poder conseguem o que desejam e sacrificam aos lotes para facilitar as próprias vidas, mudando o que se conhece como regra por novas regras, novos comportamentos, religiões e noção do que é certo e errado.

Homens cujo poder supera o dos políticos e reis, que trabalham de acordo com as suas ordens nos bastidores, garantindo-lhes um poder falsificado, apenas para os olhos dos plebeus comuns sujeitos às escolhas de quem verdadeiramente decide como irão agir e como o serão.

Novas rotinas criadas, modos de pensar e agir artificiais que aos poucos se transformarão em naturais, e a forma anterior de viver com seus escrúpulos será esquecida para sempre.

A maioria domada serve a uma minoria cruel e letal, que não se importam com o bem-estar, considerando que são peões em um jogo de xadrez, sacrificados por um bem maior que é a vitória dos que manipulam um planeta inteiro, inclusive a natureza.

É nesse momento que surgem as dúvidas de alguns. Realmente conseguem dominar a natureza, causando maneiras diversas de usá-la como poder de fogo e destruição para reconfigurar os seus reinos?

Serão as tragédias e doenças mortais todas criadas por eles para redução populacional, novos gêneros para conter a continuação do surgimento de mais pessoas, prejudicando as regalias em um mundo caótico e doente? Ou a arrogância com a qual costumam agir não os permite notar que a reação do planeta pode ser tão potente que os destruirá a todos a qualquer instante, porque não podem ser contidas pelos artifícios produzidos por meros mortais surgidos século após a sua ancestral existência?

E se acontecer, o planeta vivo pode resolver dizimar os vírus que tanto mal lhes causam fazendo um recomeço sem essa raça maldita, destruidora e letal? A conferir.

                    Marcelo Gomes Melo

O poder exercido além túmulo

Tudo o que eu queria nessa festa sem fim era encontrar o antídoto para a imbecilidade humana, inerente à grande maioria, estimulada pelos canalhas que não se importam com vidas humanas e as manipulam conforme os seus desejos mais vis.

Sim, é nessa festa insana em que cantarolam desafinados batendo palmas para louco dançar que as grandes negociatas acontecem, e os responsáveis, idosos bem vestidos, cercados por assessores e guarda-costas saboreiam bebidas alcoólicas de qualidade e charutos cubanos originais, cuja fumaça os encobre e transforma em seres irreais, capazes de tudo para satisfazer aos seus fetiches malucos, que giram em torno do poder que só o dinheiro dá de decidir sobre a existência de outros, usando-os como cobaias, pressionando-os pelos seus pecados, explorando as suas fraquezas e finalmente destruindo-os quando todo o sumo da vida for consumido impiedosamente.

Um penetra nessa festa pobre cujo poeta há tempos se referiu de forma clara e debochada, ironizando e escancarando a grande hipocrisia que sobrevoa a vida dos signatários ingênuos, inúteis e desprezíveis como uma enorme nave espacial cobrindo o sol do meio dia, trazendo mentiras, verdades e outros artigos negociáveis, em que a moeda de troca serão os que vivem um dia de cada vez, sem ambição, aceitando o que decidirem para eles como cordeiros rumo ao abate.

A moeda de troca serão os ambiciosos covardes, capazes de vender corpo e alma em troca de migalhas que os farão pisotear os seus pares um degrau abaixo, e, arrogantes, esquecerão de que serão a próxima lenha a reacender o fogo que aquecerá as lareiras dos impiedosos, que mesmo vivendo muito não abrem mão dos benefícios do poder, querendo carrega-los no caixão para continuar a exercê-los do túmulo, habitantes do além, candidatos a um inferno no qual pretendem comprar uma cabine com ar condicionado e continuar a negociar com o diabo boas condições. São os sem noção ou os ambiciosos acima das leis divinas?

                    Marcelo Gomes Melo

Um abutre corroendo corações eternamente

O sagrado e o profano que habita em você, concordam em criar um equilíbrio que lhe mantenha como um cidadão comum, incapaz de pecados ferozes, arrependido dos erros pequenos que comete, vencido pela tentação, a quem culpa, ajoelhado, choroso, implorando por perdão para manter a sanidade e seguir a sua vida comum irrisória, passando incólume pela visão míope dos seus pares, criando cinismo e hipocrisia até para julgar atitudes alheias, tomando por base informações superficiais de segunda mão sem que isso lhes cause más sensações.

O problema são os fatores externos, que os controlam sem dificuldade e os convencem a tomar como filosofia de vida culpar os outros pelas próprias falhas, acusar a qualquer um para manter a liberdade, sorrir como hienas, satisfeitas com os restos, prontos para manter a sua vida inútil, peças de menos valor no quebra-cabeças dos poderosos, satisfeitos com as migalhas que os deixam arrogantes como se valessem alguma coisa na fila do pão.

O sagrado então se afasta, e o profano se espalha livremente, fazendo de cada um inimigo do mais próximo, seja quem for, e para sobreviver é preciso fazer o que for preciso contra quem quer que seja, então destroem famílias, condenam parentes, abandonam o que lhes tornava seres humanos, transformando-se em demônios, escória fedorenta preenchem os cargos médios para prejudicar aos seus pares e rastejar para os seus superiores e ganhar um afago humilhante e cruel.

Agora vítimas completas do profano que cresceu em cada milímetro dos seus seres, agem como zumbis, recebem e cumprem ordens, são cruéis para tentar apaziguar o vazio que sentem carregarão para sempre um abutre roendo os seus corações pela eternidade.

O nome disso é inexistência em vida, julgamento em curso e inacabável. Os produtores e testadores de todos os sofrimentos com os quais prejudicarão a humanidade. Sempre depois deles mesmos.

                    Marcelo Gomes Melo

O Julgamento Final ao alcance

Existe um determinado ponto em que nada mais importa para um ser humano. Sempre acontece, só difere do momento da vida de cada um. Viver é estar em uma enorme fila de prestação de contas, e até que chegue a sua vez, a sua existência vai sendo recheada pelas atitudes que escolheu tomar usando o livre-arbítrio, solicitando ao seu garçom particular, em pílulas, tudo o que lhe está destinado e até onde consiga suportar.

Nesse ponto crucial você passa a ser passageiro no seu próprio trem sem maquinista, rumo ao desconhecido, e é aí que descobrirá se há bônus para continuar errando, ou é o fim da caminhada, de vez em quando suave, de vez em quando terrível.

Importar-se com qualquer coisa é inútil e estúpido, as forças lhe abandonam, bem como qualquer resquício de autoestima e esperança. Quem paga para ver é porque está satisfeito com a tragédia e sem medo nenhum das consequências. E o que retira a ansiedade e liberta a insanidade por completo. O que acontecer será privilégio.

De braços abertos para alçar outros voos, com os dentes para fora e as carnes do rosto açoitadas por um vento impiedoso, a sensação é de um salto sem paraquedas em direção às respostas aos piores temores.

Chegam a esse ponto os despreparados, tontos, ingênuos, parte da leva de manipulados que apenas fizeram o que lhes mandaram, obedeceram ao que a maioria disse, incapazes de questionar até o espelho.

Esses são lenha para a imensa fogueira de eliminação do nível no qual se encontram; serão cinzas antes dos outros, piores do que os culpados por alguma coisa, hierarquicamente abaixo de todos pela inércia, pela covardia e isenção corrosiva. Desmerecidos pelo medo de tomar um lado, se beneficiar por qualquer coisa sem se comprometer com coisa alguma.

Esse é o ponto em que alma contesta o corpo, e o corpo, sem valor ou poder algum será dizimado como um péssimo receptáculo durante uma vida inteira, que pode ter durado muito ou apenas segundos, dependendo da capacidade de ouvir o coração e direcionar o cérebro para escolhas razoáveis, que valham alguma pena, no final das contas.

Tudo o que é certo é que o momento final se apresenta e só é possível assistir como a um filme o final determinado.

                  Marcelo Gomes Melo

Elemento imaculado

O elemento desceu a rua doze, esquina com a rua Aurora Boreal por volta de 24h00, passos largos, carregando uma sacola de feira, dessas de nylon, senhor. Estava um calor da fornalha do cão, e estranhamente ele trajava uma blusa com capuz, alaranjada, dava para ver daqui mesmo.

O quê? Sim, senhor, o elemento descia a ladeira que é a rua doze pelo meio, porque àquela hora não havia tráfego de automóveis, desviando das poças do terreno irregular. O desgraçado do prefeito foi reeleito três vezes prometendo asfaltar, mas dessa rua para baixo é tudo barro.

O que eu estava fazendo na rua? Fumando o meu cigarrinho no meu portão; a mulher não gosta que fume dentro de casa, e eu sou bobo, mas não sou burro não senhor, não quero arrumar perrengue com a dona da pensão.

Sabe o que, senhor? Essa hora, depois da chuva, a madrugada limpa a poeira do ar, é a última olhada antes de dormir o sono dos justos. Eu fecho o bairro, por assim dizer; o último par de olhos a detectar tudo o que está acontecendo no início da madrugada. Geralmente não acontece nada.

O senhor sabe que aqui todo mundo se conhece, nascemos, crescemos e vamos morrer por aqui. Se bobear tem um monte de ossadas de ancestrais enterrados nesses jardins das casas, gente que se fixou aqui como árvore. Ë brincadeira, brincadeira, essa história das ossadas, não leve a mal, me perdoe, é que eu sou muito engraçado.

Não, não conheço ninguém como o elemento, indivíduo diferente, alto, cabeça grande, braços longos… Nunca vi o moletom laranja pelo bairro. O time de futsal dos meninos é verde e vermelho. E aquela sacola… Posso dizer para o senhor dentro daquela sacola. O quê? Não sei, estava dentro da sacola, não pude ver.

O modo como o indivíduo carregava a sacola, com firmeza, cuidado, sem andar devagar nem correndo, um passo constante até o final da doze. É, ali mesmo; sob o poste ele parou na encruzilhada, olhou para os dois lados, indeciso, então pude ver. Sim, sim senhor! Vi com esses olhos que a terra há de comer! Era narigudo! Um narigudo trajando blusa de capuz laranja carregando uma sacola misteriosa. Foi isso mesmo. Pode anotar aí! Foi exatamente o que eu vi!

E então o quê? Ah! Ele pareceu se decidir e virou à esquerda, desaparecendo pela rua quinze, na escuridão. A rua quinze não tem asfalto e nem iluminação. O cabra desapareceu nas sombras.

Sim, foi só o que eu pude ver, por isso que estou contando para o senhor, autoridade policial. Tiros? Aqui?! Não, não ouvi nada, não. O homem? Só vi isso, do indivíduo, achei estranho. Fez nada não, senhor. Era praticamente um elemento imaculado.

                    Marcelo Gomes Melo

O ano da dor e da infelicidade

… Porque chegou um tempo em que as pessoas receberam um sobrenome igual, e esse sobrenome é sofrimento, no ano da dor e do desespero, em que o desamparo se espalhou e os seres pensantes estão sendo invadidos, dominados e destruídos pelos seres sem cérebro, só casca, que fazem e dizem absurdos contra uma muralha em tom abusivo, até que essa muralha desabe sobre todos.

O ano da dor infinita chegou de fininho, dando pequenos flashes do que estava por vir, e agora se instalou de verdade, semeando ódio, medo e uma confusão explícita, assustadora, mortal.

Ricos e pobres, fracos e fortes provarão do amargor que esse ano espalha e dissipa entre os poros. A constante provação mexerá com os seus cérebros e culminarão com a ruína dos seus corpos, exibidos desavergonhadamente como um meio de expressão impreciso e nocivo, revelando atitudes revoltantes e grosseiras tomadas como verdade, dissimuladas e vendidas como verdade, até serem aceitas como uma verdade imutável.

Os espelhos no ano da dor não refletirão a verdade, e os desatinados enxergarão em si mesmos um alguém diferente, não melhores, insanos. A cibernética ganhará força e as vítimas da tecnologia se sentirão nus e impotentes diante da falta do que os conduz.

Não haverá sequer pensamentos sensatos, porque estarão louvando a tudo o que é artificial, anulando-se como seres humanos, degradados pela pouca fé, afetados pela submissão a um sistema novo criado e comandado por velhas raposas que moldam a massa, e agora já podem decidir como querem os seus jovens; já podem eliminar os marginalizados, que agora são compostos pelos anteriormente corretos, soltando no mundo as ideias macabras dos marginais que agora subiram degraus, arautos do fim do mundo, gente que mata e morre sem noção do porquê, que eliminam por medo e costume, e são eliminados pelos que os incitaram a agir como abutres, sem âmago, sem disciplina, sem sentimentos. Os normais que sorriem e dizem as piores barbaridades demonizam porque foram demonizados, e agora caminham como zumbis, atirando os seus corpos em precipício infinito.

Tudo enevoado no ano da dor em que sofrimento virou sobrenome para todos os filhos de Deus! Uma lanterna fraca é a possibilidade de retomada da força, de colocar nos trilhos a máquina natural que está em fúria por tanto descaso e péssimo uso. Enfim… Toquem as trombetas aos de ouvidos moucos.

                    Marcelo Gomes Melo

Apenas pílulas do que virá

Nostalgia. Os facões se cruzam na escuridão, ossos partidos e gritos terríveis permanecem colados ao ouvido como uma trilha sonora inacabável. Os passos próximos ao pântano ficam mais incertos, o equilíbrio difícil. O fog. Fumaça gelada cobre o corpo, a capa e os cílios com fragmentos brancos, a luva negra que enverga a espada pede mais sangue para fertilizar as árvores anciãs que habitam o local desde o começo do mundo, e impassíveis observam os passantes desaparecerem sem o próprio sangue.

Nostalgia. O som cadavérico fluindo do fundo da garganta, os olhos sem vida mirando o além, os dedos ossudos apontando para a próxima vítima. As suas orações não lhe ajudarão nesse momento, garoto errado, você chegou ao ápice da inabilidade, nas profundezas de uma cidade pervertida, é hora de pagar o seu quinhão de pecados, e piedade é uma palavra inexistente nos livros dessas bandas.

A consequência dos atos e escolhas se lhe apresenta, não cabe a você desculpar-se. Chore sempre, o desespero está apenas começando. As lutas na escuridão com as armas de aço tilintam como taças de cristal, mas o vinho é muito mais viscoso.

Os membros separados dos corpos espalhados pela vala são como um quebra-cabeças, e quem conseguiu montar de forma decente carregou além da tumba o seu próprio Frankenstein. Destinados a vagar pelas noites sem lua e dias sem sol, não são vistos pelos vivos, assombram a si mesmo por não se enxergarem a si mesmos em qualquer espelho.

Essa insanidade não é real, é virtual, tente se convencer. Cavalgue sobre espadas afiadas e mergulhe nas brasas da fogueira imortal. A dor é uma sirene, enganando os seus estertores como se fossem vida, mas não o é, acostume-se. Reviver é impossível, sorrir, inviável, perecer, inevitável.

Concentre-se em sua taça de sangue, outubro acabou. Amanhã vista a roupa social e curta a ressaca, esqueça tudo o que sofreu até o ano que vem, nessa mesma data. Os outros dias lhe oferecerão apenas pílulas do que virá.

                  Marcelo Gomes Melo

Aquela mão quentinha e macia para segurar

O barato é que no sábado as asas se abrem e a rapaziada quer dançar e se divertir! Não há fim, estou lhe dizendo, só há começo e curtição. Um perfume mascarado, a roupa de batalha, cabelo no estilo pessoal, poses em frente ao espelho, balas de meta e chiclete.

A tarde se transformando em noite e o encontro com a tribo no local previamente aprazado, todo mundo ligado, planos para entrar em ação na pista de dança, preparada com talco, passos ensaiados, aquele olhar criminoso de amor feito para destruir qualquer possível resistência.

Os grupos, os cumprimentos personalizados, as bebidas e os esquemas de troca de olhares, cochichos e a coragem para colar na garota. Tomar uma tábua não era opção, então um esquenta na pista servia para chamar a atenção para o modo descontraído e divertido de ser. Deslizar  pela área de dança iluminada com destreza, sorrisos e batidas de mão concomitantes acompanhando as peripécias do DJ, piscadelas e toques que as meninas fingiam não ver, mas o sorrisinho desmentia completamente, e eram o encorajamento necessário.

Curta o balanço, chacoalhe a cabeleira, demonstre os seus talentos, comente com os amigos, analise as chances de se dar bem, a seleção de músicas lentas, românticas está para começar, noventa minutos seguidos sob luzes escuras para abraçar uma cachofra e sussurrar docemente em seu ouvido, convencê-la de que você é o melhor para beijar e curtir a madrugada juntos. E depois, quem sabe, algo mais.

Um dando força para o outro, ninguém sai sozinho; Jimmy Bo Horne ditando o ritmo, os oitenta tramam a movimentação da juvenília, só o que interessa é curtição monumental. É agora, moleque! Cruzar o salão de cabeça erguida, gingando perfeitamente, o coração aos pulos, o olhar confiante, caminhando em direção ao abismo ou da iluminação. Direto em direção da garota com a qual trocara olhares durante os balanços, um respirar fundo, um olhar 43 e o convite: vamos dançar? Quinze segundos de morte, a autoestima em jogo e… Sim!

Aaahhh! Aê, garoto, a noite está linda! Noventa minutos e o olhar de aprovação dos amigos, cada um partindo para buscar a própria chance, com maior ou menor timidez, mas todos decidindo o rumo de sua vida amorosa no fim de semana.

Nos oitenta era apenas isso que importava, cabano. Viver desesperadamente bem e superficialmente, aquela mão quentinha para segurar e a vida para detonar!

                    Marcelo Gomes Melo

O fim do mundo não está próximo

Cabe comentar a respeito do que o ser humano tem feito através dos tempos com esses avanços tecnológicos e em todos os campos da atividade terráquea, proporcionando mudanças cada vez mais rápidas na maneira de viver, aparentemente facilitando a existência e nos obrigando a esquecer e abandonar velhos costumes, por mais arraigados que estejam.

A mudança acontece física, mental e psicologicamente, sem contar o avanço geográfico, em que natureza é diariamente substituída por concreto armado e luzes artificiais. Do escambo às moedas virtuais, alimentos geneticamente modificados, comunicação à distância em tempo real, modificação no aspecto físico por apelo da moda, criação de novos pensamentos que geram intolerância, invenção de novos gêneros e denominações, tentativa de extinção de antigas religiões, que devem ser trocadas por novas ideologias e crenças monitoradas, acirrando o fanatismo da população e iniciando derramamento de sangue.

O excesso de gente habitando o planeta preocupa os mandatários, a escassez de víveres, o aumento das armas de destruição, guerras em curso e guerras iminentes, as infestações e doenças desconhecidas, pandemias surgidas do dia para a noite que dizimam seres impiedosamente, reduzindo à força a população mundial, com preferência, claro para a maioria de incapazes de se defender de algum modo, os chamados órfãos da tecnologia, as doenças e os vícios sociais, permitidos sub-repticiamente ou defendidos abertamente…

As novas doenças determinam a necessidade de novos profissionais, de videntes a curandeiros, de médicos a especialistas moleculares, todos especulando até encontrar uma cura. E é aí que a curiosidade aparece: todos receitam o retorno aos antigos costumes, o abandono a boa parte das novas tecnologias como caminho para a cura dos males possivelmente adquiridos com os novos avanços.

O mundo novo desenhado para apenas um terço da atual população parece mirar no extermínio de todos e na pausa do ciclo vital que começa com o nascimento. A destruição toma conta do resto. A nova configuração é impiedosa, mas produzida com lógica fria e implacável, e nessa equação entra a cibernética, mudando mortais por seres inanimados, programados e com muito mais força e eficiência.

No meio desse caminho porque não pensar em seres híbridos, com a inventividade e criatividade humana e a força e ausência de emoções das máquinas? E os médicos: “não use o micro-ondas, ele faz mal ao seu corpo, volte a cozinhar com lenha; cuidado com o aparelho celular, ele emite ondas perniciosas à saúde, podendo causar câncer. A moeda virtual irá cada vez mais lhe escravizar, a sua liberdade já escassa irá sumir de vez…

O fim do mundo não está próximo, está em curso.

                    Marcelo Gomes Melo

Manobras dispersivas para continuar vivendo

– “É justo matar um homem por algo tão irrisório?”.

Tudo na vida depende de prioridades. No momento em que se vê restrito a duas opções e uma escolha, o mais comum é que decida em segundos pela que lhe favoreça.

O restante no mundo é hipocrisia, nada é real como parece, gira em torno de decisões que agradem a alguma maioria, e essa maioria proporcione poder. E poder é sinônimo de vida boa, estar acima da lei, defender princípios indefensáveis e fingir ser um bastião da justiça, sabendo que isso não existe; a justiça tem vários matizes, misturam-se aos artifícios humanos para fingir que são apenas vítimas das circunstâncias e causam destruição tentando fazer o melhor para todos.

É impossível que todos atinjam um nível de satisfação igual, ao mesmo tempo, simplesmente porque para que alguns alcancem os seus objetivos, muitos devem sofrer. E quem abdica dessa regra primordial acaba por ser alijado do mundo, vive como um monge, um eremita afastado das tentações, ao alcance do que a natureza tem de melhor e de pior, recebendo o sumo da sanidade mental em troca de torturas gigantescas, mudanças geográficas e climáticas que devem ser suportadas estoicamente, tendo como companhia a solidão eterna, em um jogo que pode iluminar o ser ou enlouquecê-lo.

Matar por algo irrisório é discutível, pois o julgamento está no pensamento do oponente, que, egoísta, defende o seu ponto de vista sempre. E se considera certo sempre. A vida é linear e imparcial, os viventes são simples e acatam as leis da natureza sem discussão. A não ser a humanidade, com a arrogância perene contestando o que já existia há séculos antes de sua chegada, não hesitando em mudar as coisas como melhor lhe apeteça, causando caos onde havia excelência, trocando normas para satisfazer o próprio ego, tramando contra todos os viventes e contra os outros em nome de uma justiça jamais alcançada, apenas dor e massacre, promessas em diversos níveis que utiliza como matéria prima os desfavorecidos, que servem de lenha para manter a fornalha acesa e o controle do mundo garantido.

Esses estão prontos para causar o caos quando necessário, destruir para permanecer no poder, insensíveis mesmo entre lágrimas que falsamente lamentam o que acabaram de fazer.

Responda, após muito refletir, por favor: o que é tão insignificante que justifique a vida de um homem? É possível advogar por alguém que não conhece sem ter alguma compensação em vista. Como esconder a própria natureza hipócrita quando mergulha em um turbilhão de inveja capaz de querer o mal até de alguém próximo? Existe justiça apenas pela justiça, ou é uma manobra dispersiva para que a humanidade continue existindo?

                  Marcelo Gomes Melo

Uma nesga de luz entre a fresta da alma

O corpo dói inteiro, os músculos sofrem com espasmos constantes, o suor escorre pela testa queimando os olhos, cabelos ensopados como se uma tempestade o tivesse surpreendido.

A tristeza angustiante arranca lágrimas mudas, inacabáveis, encostado a uma parede úmida, no escuro, os joelhos dobrados, as mãos enrijecidas em torno, encontrando-se com uma força quase sobrenatural.

Uma fresta penetrada por uma nesga de luz não chega a abrandar o espaço, um quarto escuro desarrumado, representante de um mundo inteiro pertencente a uma pessoa solitária, magoada por ataques sorrateiros, impossíveis de descobrir; o quarto escuro é o seu castelo. Manejar as dores é importante porque é o que lhe dá esperança, como uma pequena flor que consegue desabrochar em terreno impróprio, provando que nada se limita a um ângulo, e tudo pode acontecer de um momento a outro, libertando a mente, expandindo os horizontes, fazendo sarar os machucados inevitáveis, físicos, morais.

Transformando em alento tudo o que parecia sombrio, a capacidade de virar-se em direção às escadas acima, em contrário ao rumo anterior sem escalas ao porão úmido da alma, frio e cruel, que imobiliza, retira as boas alternativas, e o cérebro se adapta ou resiste, de acordo com o poder de um corpo acabado, unindo coração e alma para retomar o caminho para a luz, independentemente do sofrimento e do carma, aleatório como um bumerangue, surpreendente, mas passível de ser dominado, portanto, surpreendido.

A febre ameaça sumir, escapar pelos poros limpando uma alma envergada, arejando poros envenenados, controlando a tristeza e liberando a passarela da vida para algum amor, felicidade suave, embota tímida, e um ritmo mais firme, pegando velocidade, disparando no caminho do equilíbrio para renascer como ser humano igual aos outros, com vitórias e derrotas, e boa vontade e firmeza para manter-se à tona, até o esperado e inevitável final.

                  Marcelo Gomes Melo

A destruição de tudo como conhecemos

De que maneira você se expressa quando está feliz? Ela fechava a cara, de onde nenhum sorriso jamais escaparia, muito menos através dos reis do stand up comedy, completamente apelativo e sem graça, que achavam que para fazer rir é preciso juntar palavrões com gritaria.

A verdade é que isso só gera constrangimento, e as pessoas riem quando querem esconder o desconforto social. Outros se irritam com a apelação e reclamam, criando aquele clichê de que humor não deve ter limites. O certo é que humor deveria ter bom gosto, sutileza e inteligência. Fina ironia, ou até algum escárnio, o humor negro aceito com reservas.

O fato é que algumas pessoas não alcançam o humor fino, perfeitamente calibrado e com diversos sentidos; os seus cérebros rudimentares só aceitam como engraçado o que é óbvio, escatológico e simplório. Coisas que realmente são mais deprimentes e pobres de espírito do que maravilhosas, que elevem o espírito.

É desse ponto que surge o debate, e com ele a discórdia: deveria esse humor sem limites, rude, grosseiro, maldoso ser aceito e replicado? Humor deve ser censurado por algum motivo? E o pior é que a tendência das partes, com pessoas sensíveis além do necessário, fracas, que se permitem derrubar com qualquer coisa. E além disso hipócritas, adeptas do “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”. O que torna o humor extremamente perigoso. E a ausência de humor altamente mortal.

Esses tempos criaram armadilhas sociais, e todos começaram a necessitar de muita atenção com o que dizem, com o que sorriem, com o que demonstram.

Ela fechava a cara quando estava feliz. Não se permitia demonstrar porque poderia lhe render represálias, acusações e punições. Seres ardilosos riam de tudo como hienas, ao ponto de não poderem ser recriminados porque o seu riso frouxo eliminou qualquer valor que pudesse ter.

Uma sociedade repleta de pensadores incapazes de entender e analisar um fato; opinadores livres de coisas que desconhecem completamente; juízes da vida alheia sem noção do perigo que isso causa. Adeptos do “falem mal, mas falem de mim”, vendendo os resquícios da intimidade que restou descaradamente enquanto podem, até serem esmagados pelo rolo compressor das necessidades virtuais. E quando deixam de ser pessoas para virar avatar; quando perdem as emoções e a capacidade de agir sozinhos para seguir em rebanho.

Quando inadvertidamente arriscam o seu livre-arbítrio para mudar de rumo, de genes, de DNA… Quando se transformam em outro ser que não é mais humano. É um rastro da destruição do que sempre houve, do que há e que jamais existirá como a conhecemos.

                    Marcelo Gomes Melo

Do modo deles, quando vier

Os meus tempos são feitos por mim, praticamente. Eu não tenho habilidades especiais para perceber o que gira ao meu redor, então posso ser considerado incapaz, ingênuo, distraído ou burro, dependendo de quem julgue. Atenho-me aos fatos superficialmente, profissional em cuidar de coisas pequenas, sem aparente importância, e jamais ousar me aprofundar na psique humana, pois o mistério assusta, e a cada camada em que se penetra, a filosofia toma conta e lhe escraviza invariavelmente.

Perseguir moinhos de vento, como Dom Quixote, ou descobrir o sentido da vida é a mesma coisa, uma razão para preencher uma vida vazia, buscar ritmo e calor em um mundo que cada vez mais se torna artificial. Vale a pena torturar-se por algo que desconhece, ou ansiar por ilusões sem provas de existência?

O tempo prega peças, faz com que se veja em locais diferentes e acredite em scripts que permeiam a sua existência. De vez em quando, em um deja vu, desconfia estar em local incerto e não sabido, ou até em lugares onde já estiveram e não deveriam ter estado.

Para isso existem as pessoas como eu, lógicas, extremamente distraídas a ponto de ignorar o óbvio e não se meterem nos mistérios amontoados nos cantos dos olhos, no âmago da mente, capazes de fazer alguém presumir coisas sem explicação e mudar uma rotina tranquila para o caminho da loucura. Melhor não arriscar.

A visão estreita causa menos problemas do que as mentalidades abertas, hipocritamente exaltadas, egoístas e aterrorizantes, existentes para acabar com o equilíbrio e destruir padrões, como se fosse virtude, mas carregando com isso inúmeras vidas inocentes, que acreditam morrer por algum ideal viável, mas são apenas patinhos inocentes enganados e fragilizados, banhados com uma ignorância tão grande que julgam ser iluminação. Assim surgem as grandes desgraças, através de fé cega em coisas inexistentes; na perseguição a invenções tão bizarras que beiram o real, e inserem loucuras em cérebros vazios, prontos para revirar o mundo r mudar as regras por pura estupidez.

O tempo não pode ser controlado, a não ser o tempo que lhe pertence, dentro do tempo; isso o fará um estranho no ninho da vida, e um lutador no ringue dos ineptos a seguir as regras predeterminadas para todos.

Viva ao seu modo com isso. Aceite a morte do modo deles, quando vier.

                    Marcelo Gomes Melo

Virgem e brava!

Ela era uma garota virgem e brava. Eles se conheceram na faculdade, e ela tinha uma personalidade fortíssima, dizia o que pensava argumentando com inteligência, cheia de amigos, curtia as festas e se divertia bastante, sem fumar, beber ou fazer qualquer coisa que não quisesse, apenas porque a grande maioria o fazia.

Ela não escondeu que a atração por ele era recíproca desde o início; sorrisos, brincadeiras, olhares, insinuações… Passaram a estudar juntos, sair juntos, inclusive sem a turma, curtindo em um cinema ou em um show, dançavam, se divertiam e se respeitavam.

Quando o clima pintou, mãos dadas, primeiro beijo, carícias, foi muito excitante e novo para ambos; mas para ela do que para ele que já namorara antes, de forma liberal como atualmente costuma ser. Ele a pediu para namorar oficialmente entre beijos no sofá, sozinhos vendo um filme, e ela fez questão de dizer, com seriedade, que também o queria como namorado, entretanto era imprescindível deixar claro que ela adotara uma filosofia de família na qual, tantos irmãos quanto irmãs aguardariam o casamento para experimentar o sexo completamente. Isso significava que, para aceitar o compromisso em nível inicial, ela teria que saber que não haveria negociações quanto a isso, e se ele tentasse avançar os limites poderia haver desentendimentos, mágoas e, consequentemente um rompimento, prejudicando até as chances de continuarem amigos.

Ele topou o desafio, concordou com as regras e assim se tornaram namorados. Viajavam juntos, faziam quase tudo o que um casal jovem faz. Não transavam. O rapaz era gentil, amoroso, atencioso, paciente, apaixonado… Cuidava dela, aceitava os seus períodos de mal humor. Mal brigavam, mas quando o faziam logo se reconciliavam. Dificilmente ficavam longe um do outro, e como eram saudáveis, trocavam carícias, beijos fogosos, as mãos se percorriam, iam até certo ponto e paravam, automaticamente, por mais difícil que fosse a situação.

A braveza da moça foi sumindo no convívio com ele. Era mais compreensiva, doce e carinhosa. Fazia tudo por ele, e era mais feliz das garotas, tanto que não mais ficou conhecida por ser brava em excesso ao defender as suas posições. Zero agressividade.

Hoje estão juntos há oito anos, terminaram a universidade, iniciaram a pós-graduação e ficaram noivos. O amor parece só aumentar. Ela definitivamente, graças a ele, não é mais tão brava. Apenas virgem.

                     Marcelo Gomes Melo

Um reinado entre quatro paredes

E eu era um rei naqueles dias. Nos dias em que ela lavava pacientemente os meus cabelos com xampu e ensaboava o meu corpo suavemente com sabonete líquido cheiroso e percorria com os lábios o labirinto da minha pele, mexendo com os subterrâneos do meu pensamento, linda como uma rainha, fogosa como uma potranca, ágil como uma gata, feroz como uma tigresa.

Como um rei eu permitia que todos os meus sentidos aflorassem e estremecia a cada sopro de vida que ela me deixava sorver, até que fluísse de mim o seu maior prêmio, o que lhe fazia sentir a si mesma a mais poderosa das mulheres, uma amazona incrível que dominava tudo sobre a terra e precisava de um gozo desesperado para lhe fazer completa. O gozo de um rei!

Nada importava além disso. A escolha era dela. Os termos eram ditados silenciosamente por ela, com o seu olhar  cor de pedras, tranquilo até que se percorresse as pupilas, o arfar suave, o crispar das mãos em meu corpo, os músculos retesados, inquietos, um prazer que abalava a manhosa feito uma tormenta cruel.

Esse era o momento der irresponsabilidade de uma amazona, sempre focada no poder, na contenção dos sentidos, no esconder peremptório de sentimentos incomensuráveis, os quais eram sinônimo de fragilidade. E a única a qual ela se permitia era esse momento comigo; mesmo assim com a altivez de uma rainha e a convicção de uma guerreira.

Ela sabia. E eu sabia. Um de nós se apaixonaria e quebraria como um galho seco de outono, e com quem acontecesse primeiro o transformaria em passageiro em um trem descarrilado rumo ao eterno. Era um riso que ambos corríamos, e que nos excitava até um próximo passo. Sempre um próximo passo no escuro, notando o abismo sem localizá-lo , sentindo prazeres que o medo aguçava, pensando em quando seria o fim.

Ou se jamais haveria fim. Porque nada importava. Nada se comparava ao nosso reinado entre quatro paredes, em um mundo de dois habitantes.

                    Marcelo Gomes Melo

Quando é que realmente se envelhece?

Quando é que se envelhece? É num piscar de olhos que acontece. E jamais se percebe, jamais. O processo é tão natural que você só consegue notar se ficar um bom período de tempo sem ver alguém, e as mudanças que houver na outra pessoa, obrigatoriamente o fará olhar para si mesmo, só aí confrontando o fatal, inevitável envelhecimento.

Uma situação recorrente é o confronto de gerações. A anterior é desprezada como ultrapassada e a posterior é julgada como inútil. Os valores mudam, os gostos mudam, o modo de se comunicar muda, os padrões são contrariados, o senso comum é contestado, a vida vira de ponta cabeça para antigos, atuais e futuros.

Quando realmente se envelhece? Quando continua a curtir as músicas de trinta anos, usar gírias desconhecidas e insistir em roupas fora de moída pode ser um caminho. O ser humano se destaca pela capacidade de se adaptar às mudanças gigantescas a que são acometidos:  temperatura, alimentação, geografia, comunidades… Mesmo assim não consegue deter o envelhecimento, a necessidade de afastar-se para dar lugar às novas gerações, e tentar fazer isso sem desanimar no último terço da vida, abandonando novos projetos e atuações que continuem fazer valer a pena prosseguir, sem observar com mal humor o que está acontecendo, chateando com o excesso de nostalgia, a rabugice tolerada com condescendência irritante…

É desse jeito que se envelhece. Os movimentos se enrijecem, o cérebro funciona com base na experiência, sem velocidade, nada de precipitação, isso é bom. A falta que a impulsividade faz, entretanto!

E os cabelos embranquecem, quando não desaparecem, os medos aumentam, a fragilidade fica evidente… Paciência é um dom, para evitar o excesso de recriminação causado pela ausência de juventude.

Não adianta clichês de que a juventude está no coração. O coração é um órgão, e como tal tende a falhar com o desgaste, os sofrimentos, a força despendida para ousar, para viver e superar as apostas feitas, realizar os próprios objetivos, se deliciar com as conquistas e novos desejos que surgem na sequência.

Não é ruim reconhecer, ficar jovem para sempre seria muito chato, porque a história é cíclica, se repete ad infinitum. Como flores que nascem, brotam, alcançam o seu auge e murcham, seres humanos, como parte da existência de uma infinidade de seres, talvez sejam os únicos indomáveis, que se recusam a seguir o caminho imutável e inevitável definido por Deus para todos.

                              Marcelo Gomes Melo

Dias gloriosos outra vez

Está tudo bem, na verdade. Venha, estou lhe esperando com a minha marreta de bater em louco. Não se assuste, é mais eficiente do que o martelo de Thor, você nem vai sentir nada além do senso de pertencimento imediato ao local para o qual lhe enviarei sem escalas: o inferno.

Não, nada pessoal, garota, nada pessoal. Trata-se de justiça sideral, não lê gibis? Provavelmente esteja pensando na massa ensanguentada na qual se tornará, hein? É uma maneira antinatural de uma beleza se esvair, mas, no seu caso é melhor do que a natural. Como artista você vende o exterior, certo? Envelhecer lhe causaria enormes transtornos.

Tenho quase certeza de que se submeteria aos procedimentos estéticos que os doutores das estrelas oferecem, lhe transformando em uma fêmea Frankenstein sorrindo nos comerciais, aterrorizando criancinhas, vendendo mais do que te imortalizou como uma múmia sem movimentos.

Venha, estou lhe esperando para acabar com a sua dor, eu, o seu fã número um, dos tempos em que você, jovenzinha, tornava os meus dias felizes atuando em novelas de época e nos filmes românticos. Quem diria a lascívia escondida sob aquele olhar tão doce!

Eu sei, eu sei, hoje o tempo passou, a idade chegou e está mais difícil ganhar dinheiro, manter o nível de ostentação, gastar como se não houvesse amanhã. Não mais papéis principais, não mais convites para as festas e orgias nas ilhas dos famosos.

Entendo por que precisa se submeter aos programas de barracos, às participações nas mesas redondas da tarde sobre cirurgias estéticas, soft pornô para idosos… Eu realmente entendo. Como está pagando os seus vícios? Bebida, cigarro, marijuana e droga mais… Categorizadas e periculosas, as que matam em segundos?

Você se derrama em prantos ao encarar o espelho, sozinha em seu quarto? Procura um velho maníaco milionário para o golpe do baú final, ou paga aos garotos de programa para se sentir jovem de novo?

Venha! Um golpe e estará tudo certo, eu prometo. Não pense muito, morrerá como a musa que sempre foi e entrará para a história. E eu, o seu salvador, cairei em suas graças para sempre nos pântanos de fogo nos quais nos encontrare…

Tiro certeiro! O sniper explodiu o cérebro do doido que ameaçava a atriz decadente que parecia feliz por estar novamente na ordem do dia, colaborando com a polícia ao vivo para todo o mundo, ouvindo as palavras do fã degenerado que acabara de ser abatido, ao fone de ouvido. Estava salva! Iria ser convidada para vários programas policiais na TV! Quem sabe o convite para uma ponta em alguma novela… Dias gloriosos viriam!

Marcelo Gomes Melo

Eu não gosto de ninguém

Eu não gosto de crianças. Não gosto de adolescentes. Não suporto velhos, abomino jovens e odeio adultos. Eu não gosto de ninguém! Nenhum que seja da minha espécie.

Rotineiramente sou comum como qualquer outra pessoa, invisível aos olhos de qualquer um que caminha perdido nos próprios pensamentos, remoendo os próprios problemas e os de familiares próximos, com os quais não pode deixar de se envolver.

Invisível para os inocentes que sonham acordados fitando o céu no espaço entre os edifícios, acreditando em uma chance que mudará suas vidas, mas jamais acontecerá.

Eu conheço todos os da minha espécie, através de estudo sociológico amador. Os devedores, os presos às promessas que não podem cumprir, os invejosos que desejam o que imaginam que outros possuem, e sofrem sem ter a certeza.

Eu desprezo os possuidores, desconfiados com todos os que os cercam achando que querem rouba-los de alguma forma, por isso agem com rudeza e distanciamento. Acreditam que podem comprar qualquer um e descartar como lixo não-reciclável. Quero distância desses bandidos fúteis, corruptos sedentos por poder, assinando centenas de mortes por dia antes de almoçar, acabando com famílias antes do happy hour, saboreando uísque enquanto moradores de rua aumentam.

Detesto covardes. Os que se curvam ao destino e lamentam-se como velhas agourentas, transmitindo a culpa para o mundo. Ou os que entregam até o que não têm em nome de uma prosperidade unilateral que só chega aos palestrantes, religiosos ou de autoajuda, que só ajudam a eles mesmos sem nenhum remorso.

De vez em quando eu penso que se Papai Noel existisse o meu pedido seria um arsenal destrutivo para acabar indiscriminadamente com o sofrimento de todos. E então restaria apenas eu, sem ter a quem odiar, até que encontrasse um espelho.

                    Marcelo Gomes Melo

Um mundo morto em funcionamento

O ano é 3.057, pandemias surgem como chuchu cresce à beira de cercas. A geografia do mundo mudou bastante, e suas configurações redefiniram poderes, clima, leis e tipos de sociedades. Tribos criam dialetos de um idioma central, e por menores que sejam o utilizam, confundindo pequenas regiões em vez de países.

A liderança central é formada por doze líderes universais, com uma única coisa em comum: poder financeiro e força destruidora. A função de cada um é manter um equilíbrio que impeça que apenas um domine por completo, ou grupos menores. Há uma constante guerra tática nos bastidores, desconhecidas pela maioria dos seres viventes, agora todos desprovidos de livre-arbítrio e consciência individual.

As consciências coletivas limitam as suas atuações como seres únicos, brecando capacidades diferentes, inteligências naturais, armas perigosas como poder de persuasão e sentimentos de injustiça, desejos de evolução e diversão que envolva disputas em que haja vitoriosos de qualquer forma.

A vida é linear e os seres vivem como bois pastando com o olhar vazio, treinados para funções necessárias para manter a grande roda do tempo girando sem participação alguma.

Alimentam-se igual, não há resistência ou discordância, pois, foram palavras abolidas do novo dicionário. Não existem questões, escolhas ou pequenos prazeres, apenas existência fútil e desnecessária. Se e quando alguém morre é varrido como lixo para um grande local de reciclagem, como objetos. Nada de lamentos, choro, tristeza ou sofrimento. Treinados para aceitar o fim e substituir o que terminou por outro igual, sem perguntas.

Festas, calendários, datas de nascimento inexistem. Os nomes pouco importam, poderiam ser números, já que se dirigem uns aos outros por uma única palavra, como um apelido igual. Não há famílias, todos circulam livremente pela única residência geral. Como sentimentos não existem, procriam por instinto sem importar com quem, apenas para manter a roda girando e o trabalho compartilhado de forma equânime, com gerações piores.

Entre os líderes não existe mudança. Quando um morre é reconstruído quantas vezes seja possível, com as mesmas qualidades para exercer o mesmo trabalho. Quando essa possibilidade se esgota, alguém da casta o substituirá, portanto é imprescindível que os líderes mantenham as suas castas e procriem regularmente entre os seus, destruindo os que forem falhos em algum aspecto em nome do equilíbrio.

Impactos naturais os afetam e assustam, pois podem mudar a geografia, e com ela o poder. Por isso cuidam para que leis rígidas entre eles evitem que algum exerça mais poder do que o outro sequer por pouco tempo. Isso envolve negociatas em que parte da população pode ser eliminada ou trocada, até mesmo afastadas do convívio por anos, até que possam retornar.

É um mundo morto, fadado a repetir-se eternamente.

                    Marcelo Gomes Melo

Como se fosse o último dia de nossas vidas

Algo acontece quando nos apaixonamos por uma mulher em particular. A razão para que isso aconteça sempre é peculiar, não envolve beleza interior nem ideais político-filosóficos, surge de forma surpreendente com milhões de intenções espalhadas como estrelas ou vaga-lumes em noite escura, mas promissora.

Uma mulher surge como um sonho em meio a toneladas de concreto cinza, uma flor rara e independente com o controle remoto do seu coração, segura como um bunker e radiante como energia elétrica, agindo com uma indiferença fingida que beira a crueldade e nos faz querer revidar. E vira um redemoinho de emoções, boas, ótimas e… Incrivelmente infantis, toscas, que geram incômodos que tiram o sono e se transformam em uma batalha inacabável, suspensa para momentos inesquecíveis de amor antes de retornarmos às lutas. Ciúmes. Teimosia. Criancice. Tudo como sempre aconteceu e continuará a acontecer até o final do mundo como o conhecemos.

Uma mulher assim, especial, é única no universo para quem a merecer, e essa glória precisa ser eternizada através de pequenos gestos, como água para uma planta; algo que suavize os termos em tempos de batalha e mantenha no pensamento de que o aborrecimento vai passar, e o amor continuará.

Paixões causam clamores. De sofrimentos advindos de amores. Eis a razão para que paixão e amor sejam diferenciados por blogueiros, cantores, poetas, peões de rodeio… Entretanto, trata-se de variações sobre o mesmo tema, e a mulher pela qual se está apaixonado mantém o controle remoto.

Agora, a reciprocidade é o átomo que liga as coisas no planeta dos casais. A fogueira que permanece acesa, o conhaque que aquece os corpos e sugere ações imediatas, é o relógio que faz com que a humanidade funcione, torta, do seu jeito, consertando pequenos defeitos, se perdendo inevitavelmente nos maiores, e nesse ínterim, vivendo perigosamente como se fosse o último dia de nossas vidas.

                 Marcelo Gomes Melo