O próximo apocalipse (emoções baratas no banco de trás)

Não espere nenhum reconhecimento de quem sequer lhe reconhece, e nem se esforça para isso; melhor, não tem interesse pelos seus pensamentos, prefere coisas mais simples, e você é mais um motivo de curiosidade. É possível se divertir imaginando coisas ou plantando coisas no pensamento da vítima de sua curiosidade, serve para passar o tempo e sorrir das diferenças de mundo, mas é altamente superficial.

Há muito disso por aí, pelo mundo, gente que prefere o que é fácil, mas também o vício pelo risco, buscando experiências diferentes para preencher um vazio imenso que só aumenta, e se torna incapaz de perceber o rastro de mágoa que deixa, preocupada apenas com as próprias mazelas, inocente sobre quem as criou, porque quando se olha no espelho não se enxerga.

Essas pessoas são criações de um século do egoísmo, vivem desconfiadas e apavoradas pelos fantasmas que elas mesmas criaram, e esse é um caminho sem volta. É quase impossível não encontrar alguém assim nesses tempos, e não se deixar envolver por alguém assim nesses tempos…

O importante é não lamentar quando as reconhecer e ao seu modus operandi. Incapazes de honrar sentimentos, inábeis para lidar com verdades, displicentes para reconhecer algo que lhes homenageie, concentradas apenas nos benefícios superficiais que as enganam e ferem, tanto quanto o fazem.

O mundo é escuro e a fome dessas pessoas imprudentes é impossível de saciar! Vivem para experimentar o máximo de emoções que consigam, não importa o que precisem sacrificar. No fim, o vazio no fundo dos seus olhos e as geleiras nos seus sorrisos falsos ajudam apenas a tornar a vida ainda mais artificial e os desejos menos valorosos; tudo o que querem é diversão barata em um banco de trás de um Fiat 147.

Esperar reconhecimento de quem não reconhece nem a si mesmo é perda de tempo, aumento de estresse, desespero adquirido.

E você se pega tentando agradar, viver como um escravo idiota confessando fraquezas que usarão contra você. É assim que as coisas seguem, que o mundo gira e os bons ficam pelo caminho, destroçados. Os ruins, também destroçados, convivem bem com a desgraça, são os demônios apavorantes com aspecto de flor e perfume de amor condenado. Vivem para arrasar e flutuar sobre tudo o que destroem sem emoção, sem compreensão, prontas para o próximo apocalipse.

                    Marcelo Gomes Melo

O inferno é aqui!

Eu mato porque está vivo, porque se já estivesse morto eu enterraria. O antídoto para as dores excruciantes que me acometem é a inevitabilidade dos acontecimentos. Tudo corre como um rio rumo à cachoeira, calmo em determinados pontos, perigoso em outros lugares, letal sob as corredeiras, barulhento a ponto de ensurdecer e enlouquecer. As suas águas parecem facas banhadas por lágrimas de plebeus.

Eu não tenho motivo para perdoar, ferroado constantemente pelas mazelas que me acompanham, com o zumbido irremediável dos que não dormem sendo recitado eternamente como um carma inexorável. Quando me pego lamentando trato de afogar com álcool em grandes quantidades, chegando ao precipício do suicídio, então resisto e resolvo sobreviver por mais um dia, remexendo nas entranhas dos inimigos com a ponta de uma lança poderosa.

Matar não é prazer, nem dever, é como respirar. Algo que se faz inconscientemente, natural como beber água. Não existe prazer, a vida é sinônimo de dor e desespero. Não há cura.

Evitar chegar a essa conclusão é retardar o sofrimento, mas recebe-los em doses homeopáticas não é a melhor escolha. Descobrir a verdade é perder as esperanças e estar preparado para fazer o necessário impiedosamente. Piedade é defeito, destruição é favor.

Mesmo assim, nada acaba após a morte para alguns, os que têm que lidar com as almas rebeldes, tolas e maleáveis. Seguir livrando o espectro, lavando-o com sangue é o único caminho.

Mundo torto, com inquilinos tortos, semimortos, vagando pelas planícies como abutres, destruindo tudo o que encontram, e como hienas, regalando-se com as sobras. Todos devem morrer duas vezes. Dois túmulos para criminosos que nem o sabem. O inferno é aqui!

                    Marcelo Gomes Melo

A verdade a respeito dos corações inquietos

Não acredite em ninguém, não creia em nada. Você está sozinho ao nascer e estará sozinho ao morrer. Não existem amigos, apenas corruptos desalmados tentando se beneficiar de algo que você tenha, ou usá-lo como degrau para subir em uma escala invisível que sacrificaria os bondosos.

Enxergue a todos por trás do que dizem, vá além do que pensam, esteja um passo à frente dos covardes sorridentes dispostos a humilhar-se para conseguir qualquer coisa; venderão os que chamam de amigos e empenharão os que chamam parentes.

Encare a sua vida como um balé à beira do abismo com os olhos vendados. Ouça o que dizem, se apegue aos detalhes, esteja com as defesas preparadas e ofereça sempre um ataque letal, não faça prisioneiros, não demonstre piedade, jamais sorria de volta. É perigoso apegar-se a qualquer pessoa. Qualquer um é um traidor em potencial.

Se quer viver mais, afaste-se das tentações, caminhe para longe e mantenha à distância de uma espada afiada, quem quer que seja. Caso tentem se aproximar mais do que isso, decapite-os sem outro motivo; sem qualquer motivo.

O mundo é cruel e insensível, povoado por canalhas hipócritas que ousam falar em amor sem o sentir, em humildade sem a conhecer, em paixão sem o compromisso. São filhos do dinheiro e seus escravos. Não confie em ninguém. Observe os seus gestos dissimulados, como ficam desconfortáveis quando pegos em flagrante, e satisfeitos com eles mesmos na proteção de seus quartos, no meio do silêncio culpado e seus pecados que se multiplicam.

Não existe bondade! Os bons já foram sacrificados, e os que não morreram é porque aprenderam com o sofrimento, e se tornaram zumbis ou instrumentos mortais. A chuva não lavará os pecados deles, o sol não iluminará os caminhos.

Acredite em si mesmo só até certo ponto. Como saberá se já não foi copiado pelas forças vigentes, o mal que acaricia e promete proteção, a liberdade falsa que habita uma mente vazia.

Destrua, se tiver a chance, antes que seja destruído. Amordace os pensamentos em seu cérebro, utilize o poder dos seus braços, golpeie incansavelmente, jamais perdoe!

A sua existência atual independe desses escrotos degenerados que fingem o tempo todo, cérebros rasteiros à procura de sangue para adquirir confiança, vendedores de mentiras indignos de viver, mas que vivem; nascem, crescem e morrem como ervas daninhas, agora e sempre.

Essa é a verdade sobre os seres humanos e a sua capacidade de contaminar a tudo o que tocam. Isso é o suficiente para que se declare eremita? É razão para que odeie sem conhecer e não deseje conhecer se estiverem vivos?

Acredite, saber é sofrer, conhecer é desacreditar. Não há amor do lado de lá onde os seus olhos confrontam. Tudo é sempre pior do que se imagina, por isso a ignorância é conforto para os corações inquietos.

                    Marcelo Gomes Melo

Apagando-se completamente na terra dos vagalumes

O que pode ser feito para que as coisas caminhem bem é irrisório no que concerne aos malefícios herdados, adquiridos intrinsecamente a partir da concepção. A habilidade inata não pode absolver as culpas nem suplantar as punições, porque não existem heróis.

A sensibilidade e a percepção são cristais desconhecidos, ignorados e imperceptíveis, eis o porquê de tantos desencontros, ignorância e falta de fé. O reino da desconfiança adia tragédias pessoais e coletivas, mas esfria ambientes e gera crueldade barata, sem motivo aparente.

Nada do que se tente fazer, seja alertar, bater na mesma tecla, acusar ou tentar desmascarar o que está visível, mas não claro será um suicídio, mental e literal. A bala que desabará edifícios e soterrará incautos, a doença que se espalha com o vento e aumenta o número de miseráveis é mais forte, poder que encolhe alternativas e procura vendar os fortes, corajosos o suficiente para enfrentar as derrotas e prosseguir incólumes sem olhar para os lados, curando as feridas com fé e saciando a fome com inteligência, sem negligenciar os sinais.

Açoitados pelo tempo, os conhecimentos se arrastarão e correrão do esquecimento, fadados ao pó, mas resistindo com fúria, pois são conhecimento, e, portanto, instrumento único para vencer o ostracismo e queimar a inevitabilidade, quebrando a corrente e tornando a existência de quem os conquiste suportável, blindada.

O que se pode acreditar nas coisas que fazem bem é nada perante a maldade que corrói corações insensatos em corpos insanos. A mudez em tempos de urros talvez não seja suficiente para salvar os covardes, que provavelmente se contentem com a margem, apagando-se totalmente na terra dos vagalumes.

O horror transmutado em cegueira não liberta; ao contrário, incinera os tolos, que serão carvão para aquecer a era das Trevas que os cerca, o ribombar das acusações em seus ouvidos, que os ensurdece, a destruição impossível de conter que os elimina.

Como seria possível discriminar os elementos naturais como se não o fôssemos? Apenas para usufruir e usurpar sem pudor, fingindo não saber até que sejam confrontados e encontrem a punição pela culpa acumulada, o destino de viver para destruir, em vão.

                    Marcelo Gomes Melo

Mil mortes por ciclo, eternamente

“Do que você precisa?”. Ele sempre começava as conversas com os outros assim. “O que você quer?”. Era notório que todos os seres humanos queriam alguma coisa, desejavam alguma coisa e precisavam de algo. Começando uma simples conversa assim já os tinha dominado, pela simples razão de que se colocava na posição de um benfeitor; alguém com o poder de elevar o status de qualquer um.

Quando fazia essa pergunta observava curioso o brilho no olhar deles, a mudança de postura, o tratamento que mudava de cauteloso para respeitoso, ativados pela cobiça.

A partir desse momento os tinha nas mãos. Logo que parassem de negar o óbvio e oferecessem de mão beijada o motivo pelo qual lutavam, por que viviam, ele saberia tudo o que estavam dispostos a fazer para ter concedidos os seus sonhos.

A facilidade para manipular corpos era assim, simples. As almas viriam em seguida, igualmente simples. Quando ele lhes oferecesse migalhas, se satisfariam e se sentiriam reis; logo depois iriam querer mais, exigir mais. Ser rei era insuficiente, lutariam por um status maior: deuses. E para isso se sujeitariam a coisas ainda piores, seriam ainda mais escrotos por terem perdido a razão.

Na busca pela divindade venderiam mais do que as próprias almas, mas as dos filhos e parentes. Os entes queridos estariam comprometidos para sempre, merecendo ou não. Todas as gerações estariam pervertidas em nome da fraqueza deles, que assumindo-se reis, quiseram muito mais e morreriam tragicamente antes de alcançar qualquer divindade, mas levariam milhões com eles. Milhões de pessoas, porque o dinheiro ficaria, as joias ficariam, o poder mudaria de mãos.

Assim era o mundo desde o início, e os que pensam estar no topo da cadeia alimentar se enganam redondamente, pois há sempre alguém acima para jogar com as suas expectativas, os seus medos e sobretudo as suas ganâncias. Fisgados pelo anzol de ouro maciço, suave como nuvens, fortes como couro, desceriam as escadas rumo as profundezas pensando o contrário, que estavam se alçando aos céus, quando a verdade era que o processo os estava transformando em algo menor do que um ser humano, inferior a qualquer ser vivente.

Em qualquer situação a partir dali seriam os causadores do caos, o flagelo do planeta, os marcados para sofrer mil mortes por ciclo, eternamente. E o início era tão suave, tão gentil, tão inocente… Do que você precisa? O que você deseja? O que você quer?

                    Marcelo Gomes Melo

O dilema dos séculos: amar ou odiar?

Amar é doloroso demais. Temer por alguém, não poder sempre estar perto para proteger, alimentar, sorrir e dividir as angústias porque sempre se quer poupar o motivo de sua paixão e assumir todos os problemas. É um erro, entretanto, porque o mesmo desejo vem de ambos, e é impossível conciliar, gerando conflitos.

O amor é o prêmio maior que, assim que alcançado consome os dias dos abençoados por ele com alegria e felicidade capazes de fazer o coração parar; ao mesmo tempo incute um sofrer assassino que corrói por dentro, faz desconfiar das faculdades mentais e cometer as atitudes mais confusas e problemáticas do mundo.

As noites de vigília por uma saúde conturbada, ou por peripécias amorosas que invadam corpo e alma com um prazer incontável torna a vida intensa e espinhosa. As dúvidas causadas do nada, acalentando uma desconfiança que provoca brigas, acusações, ofensas, e depois remorso infinito, difícil de consertar se não houver capacidade plena para o reconhecimento das falhas e a humildade capaz de restaurar a confiança sem mudar as histórias felizes do passado.

Enquanto cura o amor deixa marcas profundas, cicatrizes que sempre voltam a doer, torturar e afetar a relação que estava boa e saudável. As sombras como uma nuvem escura sobrevoam as cabeças dos perdidamente apaixonados, mesmo em dias de sol, à espreita para invadir qualquer fresta no sentimento bonito e causar tempestades, adoecendo e até matando a quem instantes antes se julgava um deus na Terra, iluminado pelo amor imortal em um jardim perfumado lotado de promessas reais e palpáveis.

Assim é o arguto amor, que presenteia e amaldiçoa, incentiva e encaminha para o abismo. Toda a sensação inigualável de sonhos e paixões, todo o estremecer que as melhores sensações eternizam pode ser afogado em um mar de lágrimas e um turbulento oceano de dor da noite para o dia, tirando o juízo e decretando a entrada sem volta no inferno em vida.

Por essa razão odiar provou-se mais fácil, mais sólido e suportável, pois saborear a raiva para degusta-la fria encerra uma ambição alcançável, sem dúvidas e sem o temor de quem pensa apenas em defender e salvar.

Teoricamente quem odeia sofre menos, e quem se vinga alivia o espírito com a calma das águas paradas, e o distante azul do céu sem nuvens. Odiar aparentemente fortalece e dá foco, promete superação constante por apenas um objetivo, que ao ser realizado findará todo o mal que habita o possuidor desse sentimento cruel.

Quando a vingança se completa, a pegadinha aparece, inclemente. O ódio não traz tranquilidade, nem paz, apenas um vazio pior do que a morte, transformando o vingador em algo menor do que um ser humano, um zumbi sem alma e sem rumo.

Tudo isso é o que causa o dilema que se sobrepõe ao homem por séculos: o que é menos ruim, amar ou odiar? Cadáveres apaixonados misturam-se aos mortos hediondos na mesma caminhada rumo a ladeira do julgamento final.

                    Marcelo Gomes Melo

Uma breve história sobre o tempo

Os meus olhos não puderam acreditar naquela vastidão verde, horizonte além de onde a vista alcança, tudo a ser dominado, distribuído e desfrutado pelo povo, com justiça e paz.

Para garantir a paz e a justiça seriam necessárias leis que regulassem a vida em comum, evitando mazelas criadas por ódio e inveja. Hierarquia era o ponto principal. Sendo respeitada haveria proibições e direitos, deveres que garantiram a ordem, e punições exemplares para os que rompessem os regulamentos.

Para que tudo funcione, grupos seriam separados com suas terras, e cada grupo teria um lema e um escudo que os representasse, e um líder que os guiasse ao enriquecimento e conhecimento.

Todos os líderes de todos os grupos deliberariam com um grupo de notáveis, anciãos sábios oriundos de batalhas antigas, que com a sua experiência decidiriam através do voto que tipo de punição ou prêmio seriam distribuídos, de acordo com as honrarias adquiridas ou desonra humilhante. Apenas o líder poderia vetar as decisões, caso apresentasse um argumento convincente. Uma autoridade religiosa, pagã ou eclesiástica teria influência espiritual mantendo-os tementes às entidades superiores, prontos a morrer, se preciso for, por elas e pelo líder.

A hierarquia exigia um poder superior a todos os líderes dos grupos, que exerceria o poder total acima de todos, oferecendo proteção e ajuda em troca de obediência cega, acatando ordens maiorais que superavam às dos grupos e submetiam a todos em nome de um bem comum.

Foi o momento em que surgiu a política, através da qual líderes negociavam com outros secretamente adquirindo mais poder e riquezas, com isso dominando líderes de grupos mais fracos que se tornavam escravos e vassalos para sobreviver.

O próximo passo da política foi fazer acreditar que os líderes aliados poderiam destituir o líder supremo e dominar a todos os grupos, ascendendo ao poder através de conluios e propinas, repartindo riquezas e oferecendo qualquer poder inferior, mas que satisfaria aos mais fracos.

Assim exércitos foram criados e desejos aumentaram de proporção, com a vontade de conquistar os mares sem fim, descobrindo outras terras, impondo novas regras, aprendendo novos costumes e angariando mais poder e riquezas.

Os mais poderosos, com mais dinheiro e força bélica, além de habilidade política, isolavam-se em castas fechadas, cuja crueldade se tornou a chave para continuarem no poder.

O número de vassalos e escravos aumentou consideravelmente, e os seus deveres também, na mesma medida em que os seus direitos diminuíam até serem esquecidos. Essa imensa massa dominada por poucos não obtinham benefícios como o conhecimento e oportunidades, então eram massacrados sempre que o equilíbrio precisasse ser mantido.

Tem sido assim através dos tempos, e a modernização traz consigo novas formas de dominar e explorar. Também ocasionalmente as massas ameaçam uma revolta, e são esmagadas pela minoria no poder, que em seguida lhes oferece uma compensação ilusória que os fará acreditar ter conseguido uma pequena melhora, um ganho enganoso porque trata-se apenas da diminuição da miséria e da dor.

E assim caminha a humanidade, de olho nas vastidões ainda maiores, como o espaço sideral, em busca da conquista do universo. Menos líderes, mais poderes e riquezas; mais massas enganadas, sofridas, manobradas, levadas ao sacrifício como bois a caminho do abate.

                    Marcelo Gomes Melo

O nosso corrosivo amor universal

Você é a noite cheia de mistérios quanto de perigos, linda e impossível de desvendar, a não ser que haja coragem suficiente para arriscar a vida tentando.

Você é o conjunto de luzes da cidade vistas do topo da montanha mais alta. São os seus olhos de pérolas que prometem incontáveis prazeres, mas que cobram muito caro através de inacabáveis desgraças.

Você é o vento morno que sopra constante trazendo o perfume das flores que inebriam o mais insensível dos homens, destruindo as suas vontades e acabando com todo o controle que ele lutou desde jovem para manter, transformando-o em frangalhos, vítima do álcool e das drogas, um mero resquício de ser humano.

Você é a madrugada voraz que arranca os segredos em meio aos suspiros, que toma posse das almas hipnotizando aos corpos, que desfalecem suados e felizes, embora sugados completamente em seu orgulho e confiança.

O ideal de beleza, de amor e suicídio, de entrega total por uma recompensa irreal, que torna tolos os mais bem-sucedidos intelectualmente e os mais espertos de uma maneira empírica, todos instintos até o último fio de cabelo.

Você é o eclipse que tenta burlar a defesa que eu represento, confundido o dia com a sua sombra poderosa, embora não por muito tempo e durante longos anos de espaço. O seu poder é imenso, e durante esse tempo consegue enganar os meus poderes para arranhar inocentes, destruindo-lhes a vida por amor incontido.

Eu sou o dia, responsável por clarear os pensamentos confusos que você provoca com o meu calor torrencial e iluminação potente, que brilha e encanta tanto quanto você. Os meus poderes recuperam derrotados de amor e os impulsiona a continuar a vida por tanto tempo quanto puderem, sempre tentados por sua chegada matreira, suave e delicada, irresistível.

Até para mim, durante esses eclipses, fica difícil resistir aos seus encantos que formam mártires. Separados somos eficazes, enquanto o meu poder superar a atração intrínseca com a qual devo viver, como um renegado.

Eu sei que um dia nós dois nos unirmos, serão os fins dos tempos! Nada sobrará dos mortais, dos planetas, meteoros e estrelas. Apenas o nosso corrosivo amor universal!

                    Marcelo Gomes Melo

Os guerreiros que mantêm a fé intacta

As poesias são encantadas, não têm como incuti-las em qualquer classificação, gênero ou qualificação que não seja a individual. Assim que registrados em papel, os versos obtêm vidas próprias, e serão entendidos não da maneira que o poeta imaginou, mas da forma como cada pessoa os entendem, de acordo com o seu conhecimento de vida e de suas necessidades pessoais, as angústias pelas quais passaram ou a felicidade que um dia se incrustou em seu peito ficando para sempre.

Os versos não são julgados pela beleza de sua construção, pela correção acadêmica ou riqueza léxico semântica. Não importa como foram escritos, soltos como vagalumes na noite do poeta, para iluminar com sorrisos, jocosos ou tolerantes, aliviando o coração de quem nem sabe o porquê.

Os poemas ingênuos, os sangrentos, os exóticos, os loucos, desprovidos de rimas e de sentido aparente; os inocentemente construídos e os rebuscados, todos alcançam o mesmo status no céu das poesias:  estrelas.

A liga que fortalece os sentimentos, que instiga a revidar dos percalços diários, que são os mais simples, que passam como sombras em todos os ambientes, e influenciam como antes mesmo que atualmente não o sejam reconhecidos ou mesmo convocados. Em conversas sociais para desfrutar filosoficamente dos seus infinitos sentidos, enriquecendo a todos de forma exemplar e eterna.

O mundo mudou, a sociedade mudou, os poetas são rejeitados à margem da sensatez, porque é o que lhes cabe. Mudar o mundo com os seus versos simplórios ou perfeitos garante a imortalidade do pensamento humano e os seus devaneios insanos que acabam por se tornar realidade em meio aos infortúnios e épocas de alegria; os poetas são os guerreiros que mantém a fé intacta, a paixão  em chamas, o coração pulsando e o sangue correndo nas veias. Os seus versos são as molas que impulsionam as mudanças, fortalecem corpo e alma e eternizam as lendas.

A poesia é, e sempre será a fonte de todos os pensamentos, e acontecerão pesar de tudo, informando ao mais prático e descrente dos seres, e manejando-lhes o coração e a mente. Poesia é ópio e é cura, para sempre.

                    Marcelo Gomes Melo

Dublê de corpo

Os facões tilintaram no escuro, como moedas ao se cruzarem, acendendo uma fagulha breve, tempo suficiente para que os olhos demonstrassem o ódio, a concentração, a luta pela vida. Os movimentos velozes anulavam os golpes, mas não todos. Em meio ao silêncio, respiração forçada, dentes rangendo e pancadas letais, destruindo a tudo que estava pelo caminho, mesa, cadeiras, quadros, louças…

Um dos oponentes deixou escapar um gemido ao ser alcançado pela lâmina, corte limpo, não muito fundo, braço esquerdo. Devolveu imediatamente, nas costelas, ao mesmo tempo em que um chute violento causava danos ao lado do joelho.

Desesperado, o atingido jogou o corpo para a frente, sabendo que o facão atingiria o espaço, mas lhe daria a oportunidade de usar o corpo para derrubar com o peso ao adversário. Caíram sobre a mesa de centro, que se espatifou, vidro e madeira para todo o lado, as armas brancas se perdendo na escuridão.

Em vantagem momentânea, posicionando sobre o adversário, iniciou o corpo-a-corpo com pancadas de marreta no rosto do inimigo. A luz de um farol iluminou a cena rapidamente por segundos; um automóvel que passara lá fora, alheio ao combate mortal ninja executado pelo homem de roupas pretas contra o de jaqueta verde oliva. Um crash avisou que o nariz do de jaqueta verde se partira, mas nem deu tempo de comemorar, atingido por um cotovelo nas costelas, onde a faca atingira.

O fôlego sumiu por instantes e o joelho do oponente encostou a sua cintura e o atirou para o lado. Antes que se reequilibrasse encontrou a botina número 44 no meio da cara, um pisão na cabeça e diversos chutes pelo corpo. Procurando encolher-se como podia, tentou pensar rápido e sair daquele desconforto. Encontrou um pedaço de madeira da mesa e acertou a canela com a força que tinha. Um ruído abafado de dor e o adversário estremeceu, um soco na linha da cintura equilibrou a luta e uma cabeçada no peito o afastou, dando-lhe tempo para erguer-se socando o vento diversas vezes. Encontrou o pescoço do homem e agarrou como se esganasse a um frango com garras poderosas.

Quase sem respirar o de jaqueta verde esmurrou o braço que o estrangulava sem efeito. Ergueu o joelho para acertá-lo. Deu resultado, as mãos afrouxaram. Uma porrada entre os olhos com firmeza o fez acreditar que uma cortina de sangue escorria abundantemente pelo rosto do desafeto.

Muitos danos infligidos em ambos, mas não desistiam, um deles deveria apagar permanentemente para que o outro saísse dali com chances de sobreviver por mais um dia. O murro na testa seguido de outro na orelha tornou a sua visão ainda mais turva. Devolveu com um cruzado no queixo que derrubaria a um búfalo. Não funcionou. Em troca uma cotovelada abriu o supercílio e um chute frontal no peito o jogou contra a parede do lado contrário.

Tentou buscar o ar e proteger-se como dava dos golpes que viriam quando as luzes foram acesas, ofuscando ambos os olhares. Com os ouvidos zumbindo ainda escutaram um grito excitado de uma terceira pessoa:

– Corta!

Olharam em volta ofegantes. Estavam cercados. Palmas. O diretor do filme elogiou a cena e eles se cumprimentaram, recebendo uma garrafa com água e uma toalha cada um. Teriam tempo para comer alguma coisa e tomar um banho antes das próximas cenas de luta. Era duro ganhar a vida como dublês.

                    Marcelo Gomes Melo

O emburrecimento das gerações à velocidade da luz

É assustadora a forma como as gerações estão emburrecendo, incapazes de compreender o básico do conhecimento humano que lhes permitiria existir com os seres dignos, e não como sub-humanos que envergonham a si mesmos e à raça sem perceber.

O argumento de habilitar aos desprovidos de condição seria perfeito, não fosse o caminho escolhido para fazê-lo. O discurso de oferecer conhecimento a quem não o tem a qualquer custo acabou por diminuir a qualidade do ensino sensivelmente para que os desqualificados obtivessem o direito formal de se considerar acadêmico. Em vez de treiná-los para aprender com esforço e dificuldade, consideraram aceitar o pouco que ele trazia para exercer profissões importantíssimas completamente despreparados.

Isso faz com que tenhamos professores analfabetos, que não ensinam porque não sabem; médicos que matam pessoas e indicam medicação errada porque mal sabem ler e escrever; enganadores profissionais arrogantes formando idiotas inúteis arrogantes, destruindo o sistema e transformando gerações em anormais incapazes que, construirão prédios frágeis e matarão pessoas; um sistema de tráfego ineficiente que causarão acidentes e muitas e juízes irracionais e incapazes prontos para vender sentenças e prejudicar inocentes por não terem formação familiar, acadêmica e muito menos consciência.

É a devastação da sociedade por falta de cérebros úteis, dominada por imbecis que criam as mais esdrúxulas leis e teses, desarticulando regras que funcionavam bem para manter a hierarquia e o respeito entre as pessoas, tornando um ambiente de desconfianças e mentiras, jogos nos quais todos estão dispostos a passar os outros para trás sem remorso com o único objetivo de adquirir poder, fama e dinheiro.

Um número incontável de imbecis prontos para ser enganados por um número inacreditável de vagabundos sem caráter, dispostos a roubar, matar e enganar tranquilamente, e ainda discursar em favor da ideologia mortal que corrói mentes e assassina os mais fracos para que os maldosos sobrevivam.

As novas castas procuram apagar todas as leis e regras que regeram um mundo que evoluiu por séculos, para entrar em franca decadência sem se preocupar com nada a longo prazo. Prazer imediato, riqueza e aventuras bizarras enquanto puderem existir.

Nada importa a não ser destruir como traças, agir como gafanhotos sem pensar em ninguém além deles mesmos. No fim matando a todos e perecendo por último, felizes por sua imbecilidade congênita.

É assustador observar idiotas discursando com arrogância e determinando rumos inviáveis. Mas o pior é ver que há ainda mais sub-humanos estúpidos prontos para segui-los cegamente até a morte.

                    Marcelo Gomes Melo

A equação da felicidade

A calma com a qual a amo é o oposto da paixão que compartilhamos. De dia somos calmaria iluminada pelos raios dourados do sol na água morna de nossa praia de desejos, e à noite nos transformamos com tempestades furiosas batendo contra as pedras, a espuma branca desnudando nossas almas sob raios e trovões que representavam nossos prazeres sendo satisfeitos violentamente, usando nossos corpos como condutores de toda energia sexual do planeta!

E a tranquilidade como falamos através das mãos dadas, dos olhares ternos e dos silêncios cúmplices eternizava cada segundo que passávamos juntos, atravessando o abismo das dúvidas através de uma velha ponte de madeira prestes a ruir, embora confiantes com a proteção um do outro, a divisão dos medos e a multiplicação da coragem.

Do outro lado o prêmio que nos aguardava era mais do mesmo: o amor que dividíamos sem escolta, sem escudos e sem individualismos. Era a fórmula com a qual resistíamos aos tropeços e vencíamos os piores dias, quando o mundo parecia conspirar contra nós. A força do amor que tínhamos iluminava a neblina espessa do pântano das dores, e mesmo que saíssemos chamuscados, saíamos juntos. E juntos formávamos a equação da felicidade eterna.

                    Marcelo Gomes Melo

Estranho senso de humor

– O fato é que você precisa parecer mais amável com as pessoas, sorrir mais, fazer brincadeiras, contar piadas, conectar-se melhor com os seus subordinados…

– E eu não faço isso?!Você é o homem mais gentil e engraçado que eu conheço, mas a pose de mau que mantém para os outros os torna assustados, com medo do seu olhar frio, a cara fechada, as poucas palavras.

– E isso os assusta?!

– Claro, você tem a compleição física de um lutador de MMA e um rosto se um super-herói dos quadrinhos. Esse seu tom baixo de voz, gutural, tétrico, soa como desconfiança, até como ameaça. Por que não tenta ser mais comunicativo, capitão? Isso irá ajudar bastante.

– Vou tentar, doutora.

– Lembre-se, faça brincadeiras, pregue peças, deixe-os relaxar um pouco. Sem esse medo aterrorizante do chefe eles renderão mais, comandante.

– Está bem, doutora, pode deixar.

A psicóloga se despediu e afastou-se do capitão da unidade de crimes violentos, observada por todos os outros agentes por causa da beleza incomum e confiança que emanava dela.

– Quem é aquela gata maravilhosa, capitão? Que coisa mais linda! – era um agente novato metido a engraçadinho, falastrão, mas sem maldade.

– É a minha mulher. – Foi a resposta seca, voz rascante. Nenhum sorriso.

– Oh! Sinto muito, capitão, não quis ofender, eu não sabia. Pode me perdoar?

– Sim. Mesmo assim você vai morrer.

– O quê?!

– Diga a ele que se despeça dos parentes o mais rápido possível – dirigiu-se ao detetive ao lado do novato – Amanhã ele vai passar dessa para melhor.

Afastou-se com um sorriso frio no rosto, deixando o novato branco e em desespero.

– O que eu faço, detetive, ele vai me matar?

– Eu nunca o vi dizer uma coisa e não cumprir. Se eu fosse você fugia daqui enquanto é tempo. Tem muitos parentes de quem se despedir?

O homem saiu completamente fora de si, tomado pelo medo de morrer por uma brincadeira fora de hora. Ele e a sua grande língua!

Não teve coragem de ir para casa despedir-se da esposa e dos filhos, então foi ao bar encher a cara e pensar em uma forma de escapar. Duas horas depois, duas garrafas de pinga vazias depois, ficou corajoso. Decidiu ir com tudo para se defender; matar antes de morrer.

Dirigiu-se ao depósito de armas e pegou quatro revólveres carregados, uma espingarda doze cano cerrado, munição, uma faca karambit de luta corpo a corpo, algumas granadas… Estava pronto para defender a própria vida contra o comandante que o havia ameaçado. Alcoolizado e corajoso, planejou espera-lo em uma tocaia no estacionamento. Assim que o visse jogaria duas granadas e descarregaria as armas. Depois, para ter certeza cortaria o corpo em pedaços e dissolveria no ácido. O que sobrasse depositaria em uma urna de ferro e jogaria no fundo do mar.

A madrugada fora longa bebendo e ruminando a estratégia contra o comandante rígido que o mataria por ter elogiado a esposa sem saber. Era matar ou morrer! E o homem não era brincadeira, nunca fora visto com piadas ou gracinhas. Fazia o que tinha que fazer, por isso era o chefe. Morto ele já estava! Para sobreviver valia qualquer coisa.

Todo paramentado, com botas, uniforme camuflado, capacete e luvas resistentes aguardou. Quando, por volta das nove da manhã o capitão chegou, tranquilo, com as mãos nos bolsos, sem armas à vista, imaginou que seria pior do que imaginava. O homem iria estrangulá-lo!

Com a coragem reforçada pelo álcool correu cambaleante em direção ao comandante com a granada na palma da mão, gritando desajeitado; puxou o pino e tentou atirar a granada, mas algo não deu certo. A granada ficou grudada na luva e, antes que desse mais um passo virou massa de tomate espalhado por todo o estacionamento.

Houve uma comoção geral e quando a psicóloga chegou com o detetive que acompanhara a conversa no dia anterior, o capitão tomava um café recostado ao batente da porta observando a bandalheira.

– Capitão, por que o ameaçou de morte?!

– Como assim, doutora?!

– O detetive estava como testemunha. Você o mandou despedir-se da família porque hoje iria mata-lo.

– O quê?! Foi uma brincadeira! Você não recomendou que eu fosse mais maleável com os meus subordinados? Então… Ele perguntou quem era a gata que estava indo embora referindo-se a você, doutora.

– Sim? E o que disse a ele?

– Que era a minha esposa, e ele iria morrer pela falta de respeito. Teria um dia para despedir-se da família e amigos. É lógico que era uma piada! – a dupla o encarou aterrorizada – Não foi boa?!

Moral da história: senso de humor é algo muito pessoal, pode causar mal-entendidos como aquele. O comandante seguiu à risca a sugestão da psicóloga e, mesmo assim deu tudo errado.

                    Marcelo Gomes Melo

Falou que me amava, mas era mentira

Na primeira chance que teve ela já foi dizendo que me amava. Eu tomava banho regularmente, andava bem arrumado e cheiroso, além de ser gentil e educado com as pessoas por natureza. Só que isso não garantia que uma gostosona como aquela se aproximasse de mim toda sorrisos, sentasse ao meu lado no banco da praça em que eu costumava ler um livro para atrapalhar jogando conversa fora, exibindo aquelas pernas de parar o trânsito, fazendo perguntas de todos os tipos, uma atrás da outra sem esperar respostas.

Ela falava sobre os filmes dos quais gostava, das músicas as quais ouvia, o grupo de amigos com o qual saía, sempre repetindo claramente que, no momento estava sozinha, entre relacionamentos. Era do tipo exibido inocente, fingindo não perceber os olhares que recebia, e não entender as cantadas que recebia.

Eu sempre a tratei com respeito, até carinho. Não posso negar tê-la homenageado algumas vezes no pensamento, sob a água morna do chuveiro, mas sabia que era muita areia para o meu caminhão. E nem caminhão eu tinha!

Ela insistia em me fazer companhia, de vez em quando deixando uma interrogação no olhar ostensivamente, porque outros caras com zero atenção por parte dela já teriam colado para conseguir um encontro com ela. Eu, tentado, continuava me fazendo de tonto.

Quando ela encostou as duas mãos no meu peito, ficou na ponta dos pés e me encarou dentro dos olhos, senti o hálito quente sabor cereja daqueles lábios entreabertos oferecidos com tanta devoção que não resisti. Enlacei-lhe a cintura e tomei a sua boca com uma gula inigualável. Como eu pensava, a garota era artista no amor e correspondeu plenamente, me despindo com avidez, tomando o controle sem frescura, me encaminhando ao paraíso sem escalas!

Às horas de prazer intenso, se seguiram as de torpor satisfeito, abraçados, tranquilos, saciados. Pude verifica-la sem disfarces, confirmando a beleza daquela mulher carinhosa e voraz. Enquanto adormecida em meus braços respirava como um anjo, as perguntas inevitáveis de um cara comum vieram à tona. Por que eu? De onde saíra aquele monumento que frequentava o grupo dos ricos e bem-sucedidos direto para os meus braços?

É difícil acreditar em contos de fadas quando se vive em uma realidade muito mais complicada e nada altruísta. Não há amor nas grandes cidades, dizia o poeta, as mulheres como ela sempre guardam um desejo diferente de alcançar os maiores patamares, fama e riqueza através dos dotes físicos com os quais foram agraciadas.

Assim era a vida, não podia fugir disso. Embora lisonjeado com a sua atenção, e mais, com o seu carinho despudorado, pecaminoso, continuava pensativo, não acreditando na sorte grande. Enquanto isso ela me ensinava a praticar todos os tipos de pecado, literalmente. Estar com ela era um passeio do inferno ao paraíso.

Uma semana depois de sexo e encontros, encontros e sexo, ela disse que me amava. Parecia uma santa, de olhos baixos e voz suave, quase tímida, confessando o seu amor por mim incondicionalmente. Com o coração aos saltos eu nem soube o que responder! Emocionados nos atracamos ferozmente para mais carícias e tudo o que fosse permitido. E tudo o era. Eu a possuía insanamente, fora de mim, observando a nós, aos movimentos hipnóticos dela que poderiam desarvorar um homem. Qualquer homem.

Eu já estava abandonando as minhas dúvidas quando casualmente ela me indagou se eu era o filho do produtor musical famoso, diretor de cinema e TV de quem tanto falavam. Sorria, cheia de pudor, e eu, boquiaberto, observava a minha teoria finalmente se concretizando.

Sem me dar chance de responder, como sempre, começou a enumerar os seus talentos artísticos de canto, dança e interpretação, coisas as quais eu já sabia. Havia experimentado muito além. Tomado por uma tristeza incomensurável fiquei pasmo, em silêncio, ela tagarelando sobre uma chance ou algo assim…

O nome. O nome do filho do produtor era o mesmo que o meu! Homônimos! Ela errara o tiro no tigre! Eu não sabia se morria de sorrir por mim ou de chorar por ela. Repetiu que me amava ao perceber a tristeza em mim. Eu tive que contar. Eu não tinha carro, não tinha moto, nem bicicleta eu tinha! Eu não tinha dinheiro e muito menos herança. Eu não tinha nada! O cara por quem ela devia dizer estar apaixonada era outro.

Assim que contei ela esfriou. Afastou-se. Tentando reunir toda a dignidade que restara, levantou-se e foi embora em silêncio. Antes de fechar a porta atrás dela, perguntou suavemente se eu tinha o número do telefone do outro rapaz.

Eu não disse nada além da verdade. Ela falou que me amava, mas era mentira.

                    Marcelo Gomes Melo

Uma mulher para mim, com certeza

Você é desconcertante. De um jeito que raramente as mulheres o são. Tem atitudes naturais e firmes, quebrando o clima com esses olhares atraentes dos quais nem tem consciência.

É desconcertante porque conserva uma independência natural nos modos e na fala, não força um feminismo alterado e arrogante, mas recebe o respeito merecido não por gênero, e sim por capacidade.

Quando me olha nos olhos quer dizer alguma coisa? Nunca me oferece um sorriso, embora eu espere por um, mesmo que não o demonstre. Um cara duro como eu, que não acredita em paixões aleatórias ou qualquer coisa que não seja negociada anteriormente para evitar mágoas desnecessárias, acaba por se ver perdendo muito tempo desconcertado pelo seu foco, capacidade e inteligência. E beleza! Fico constrangido em reconhecer em você uma bela mulher, dessas de verdade, sem artifícios para seduzir nem jogos mentirosos de acalentar. Uma boa mulher que tem vida própria e ainda pode oferecer o melhor de si a um homem que a mereça.

Você não sabe disso, o que a torna ainda mais desconcertante. E não serei eu a lhe dizer, não com palavras. Os nossos caminhos se cruzaram e continuam entrelaçados desde então, o que pareceria destino caso eu não fosse cético. Tanto quanto você.

Ainda não sei o que irá acontecer entre nós, além das brigas bobas interrompidas abruptamente quando algum de nós se machuca levemente, ou demonstra fome e cansaço. O instinto de consertar os pequenos problemas um do outro sobrepuja qualquer discussão, embora finjamos agir com frieza, sem preocupação, culpando um ao outro.

Haverá o momento em que o clima pintará e nos fará desmoronar romanticamente, afogada a paixão sob as estrelas e trocando promessas entre sorrisos felizes?

Talvez isso exista. Talvez apenas nos filmes de amor. No escuro do cinema vidas novas acontecem e encantam corações, que ficarão aliviados por um bom tempo, esquecidos da dura realidade que é viver juntos e equilibrar a balança da vida.

Ser uma mulher desconcertante, diferente das outras faz de você um diamante, porque não está envolvida em modas ou ideologias absurdas. Conquistou o seu lugar no mundo com competência e tenacidade, sem se vitimizar nem querer reconhecimento especial.

Você é desconcertante. Uma mulher para mim, com certeza.

                    Marcelo Gomes Melo

Organizando a justiça a partir da escuridão

Eu me reservo o direito de discordar dos que pensam que fingir é mais seguro do que expressar seja o que for. Esconder atrás de sorrisos o que realmente embasa o pensamento nos momentos importantes do existir, interagindo de maneira correta, honesta por mais dura que seja é validar a atuação como indivíduo, e isso traz à tona o melhor de cada um, porque a verdade expele o veneno que se acumula ao sorrir com banalidade e omitir com exatidão o que seria valioso para manter o corpo aliviado e o cérebro limpo, os pensamentos claros e evidentes para decidir como seguir, mesmo que se escolha o sabor do destino e não a planilha calculista de quem acredita ter o controle por um segundo que seja.

Eu me reservo o direito de lutar contra isso, argumentar objetivamente através de fatos e mostrar que a hipocrisia rege os que criam um personagem para si mesmo, que fala mole, sorri o tempo todo e tenta agradar a todo mundo com falsidades aberrantes, visando sempre o benefício próprio.

Vivem assim, rastejando, buscando restos que consideram status, tentando sobreviver em um mundo depravado como subcelebridades, capazes de qualquer coisa por fama, dinheiro e vantagens vendendo o que não possuem, dignidade, conspurcando o que não lhes pertence, a alma, habitando o subsolo do inferno, enganados e mortos sem ter noção da dívida que precisarão pagar até o fim dos nossos dias.

O direito de desprezar essa gente e persegui-las por todos os recantos, atormentando-lhes a vida de forma que o que imaginem ser felicidade tome o rosto verdadeiro da calamidade e catástrofe.

Não será fácil vencer essa batalha porque a maioria é assim. Os poucos dispostos a destruí-los não têm tanto poder assim. E um bom número de isentos ou não se importam ou são medrosos demais para abraçar qualquer causa que os ponha em suposto perigo e ameace a sua vida pacata e certinha de cegos, surdos e mudos.

Eu me reservo o direito de causar o caos! Eu pretendo fazer ruir as bases dessa sociedade corrompida e expor os grandes bandidos e os pequenos malfeitores que avançam sinais, param em fila dupla, subornam e aceitam suborno. Eu me reservo o direito de ser a espada afiada que trará justiça ao mundo! Só não sei como, ainda…

                    Marcelo Gomes Melo

Ratos podres de esgoto são melhores do que vocês

Políticos são ratos mentirosos. Todos eles, inclusive os que, no início têm boas intenções. Assim que entram na vida pública, ingenuamente apresentam ideias revolucionárias, defendem uma melhor existência para a comunidade, mais segurança, educação, saúde, treinamento paranormal, lazer, prêmios, sorteios… Utilizam os melhores sorrisos e abraçam pobres e criancinhas, escondem o nojo e vão pegando ódio da massa que os elegerá.

Durante uma parte da vida um indivíduo pode ser considerado honesto e excelente caráter, até que decide se tornar candidato a um cargo eletivo. É a partir daí que passa a conviver com a escória da sociedade, a aprender os ardis usados pelos lendários políticos de carreira, e sem perceber vão tendo a sua consciência lavada com lama do esgoto mais fétido, poluída pela total falta de escrúpulos e se inserindo no sistema pernicioso que jamais mudará.

Uma vez vendida a sua consciência, tudo acontece muito rápido: a alma é entregue ao diabo e a visão anterior se apaga como se jamais houvesse existido. Estão prontos para negociatas corruptas e ações que os dominam inteiramente. É quando se olha no espelho e o que vê é um comparsa do poder instituído, com a escolha de abandonar a tudo ou espernear e perder benefícios sedutores para si e toda a família e amigos. A imensa maioria decide pelo mais fácil e enriquecem fechando os olhos, mudando de lado, tratando a ideologia como cifras a serem adquiridas. Quem pagar mais o terá de corpo e alma.

A vida dos ratos nojentos da política não é fácil, envelhecem rápido em troca do poder, então apelam para cirurgias plásticas e Botox, exterminam pessoas friamente através de uma canetada e dormem com o auxílio de comprimidos.

Ao contrário do que se pensa, não há adversários a não ser ilusão, todos estão em concordância e fingem para manter o sistema funcionando; uns comprando a ralé com trocados, outros subornando acadêmicos com cargos e muito dinheiro, cobertura jurídica dentro e fora do país.

Esses ratos decidem aumentar o desemprego e a violência, causam caos na sociedade e prejudicam funcionários públicos inferiores pagando mal, retirando a hierarquia e transformando-os em vilões.

Após anos cumpridos com fé e afinco essas pessoas adoecem, vítimas de seus trabalhos insalubres, e é quando começa o calvário. Locais distantes para realizar uma perícia na qual o paciente não recebe sequer um bom dia, não recebe atenção, e os “peritos” pilotam os seus computadores ignorando-os com asco, sem se interessar pelo que sentem. Em seguida, cinco minutos depois já decidiram negar e os mandam embora, desiludidos, pior do que chegaram. A ideia? Eliminá-los do serviço público de alguma forma, matando ou os fazendo desistir, saindo sem nada, saúde, compensação financeira, dignidade. De qualquer forma prontos para morrer.

Políticos são ratos mentirosos e desonestos por natureza, e necessários como qualquer praga para dizimar populações carentes inteiras aumentando o lucro cada vez mais.

Não há reviravolta sem revolução, nem revolução sem derramamento de sangue, isso é fato. Isso quer dizer que revolucionários podem assumir o poder após uma batalha sangrenta em que todos perdem, principalmente a base da pirâmide pobre e inculta, mas os novos poderosos logo agirão com igual atitude, massacrando para manter o poder, envelhecendo mais rápido e dormindo com dificuldade, assombrado pelos atos repulsivos que cometem.

Políticos quando morrem habitam os porões das profundezas do inferno, sofrendo todo o tipo de tortura pela eternidade. E ainda assim continuam em dívida pelos malefícios que causam, causaram e ainda causarão post mortem.

                    Marcelo Gomes Melo

Chulé!

Aquele maldito chulé determinara o rumo de sua vida. Logo adolescente usando tênis sem meia o dia inteiro e só tirando para dormir, adquirira um odor próprio insuportável até para ele mesmo.

Inquieto e envergonhado com aquele fedor de lama podre com abutres em decomposição, lavava os pés com esmero e aplicava cremes e perfumes, mas não adiantava. Nos lugares públicos evitava ficar próximo a ventiladores pois o odor putrefato se espalhava rapidamente e fazia pessoas passar mal, vomitar e até desmaiar. Tinha que fugir do local antes que descobrissem de onde vinha a fonte dos desprazeres.

Achava os seus pés mergulhados no pântano do inferno, médicos experientes desistiram de trata-lo, outros se recusaram e alguns até sugeriram que os amputasse.

Era impossível namorar porque a proximidade já fazia com que as garotas fugissem traumatizadas. Emprego só como desentupidor de fossas, e a presença dele triplicava o problema.

Pesquisando na internet se dispôs a buscar tratamento no rio sagrado da Índia, mergulhando ao lado de cadáveres; na Antártida congelara os pés a ponto de perde-los, mas o mau cheiro derretera o gelo e mantivera os seus pés intactos.

Na África buscara magia, mas não funcionara. Caminhara sobre brasas em vão, envolvera os pés em placas de concreto… Estava destinado a viver impregnado pelo fedor mortal que afastava moscas, insetos e seres humanos. Infiltrara desodorante nos dedos, esfregara rosas nos pés, já estava desistindo de viver quando um sábio apareceu assegurando a solução para os seus problemas.

Embevecido e emocionado prometeu no homem muito dinheiro caso obtivesse êxito em acabar com aquele chulé indesejável. Depositou metade da quantia prometida e o sábio lhe ofereceu um teste simples. Caso fosse útil garantiria o fim dos maus odores para sempre!

Achou estranho quando recebeu do sábio um pregador de roupas daqueles de madeira. Aquele era o teste?! O homem simplesmente tapou o seu nariz com o pregador por alguns minutos e ele deixou de sentir aquele bafo terrível das fossas do mundo inteiro!

Esperançoso depositou o restante do dinheiro e recebeu uma máscara cirúrgica descartável para utilizar diariamente. Aquele simples gesto resolvera a sua vida! Estava feliz e descuidado sem aquele mau cheiro que o envergonhava. Não percebia mais se as pessoas se afastavam ou despejavam até as tripas para fora na sua presença. Não saberia se o problema estava no seu nariz ou nos seus pés fedorentos. Isso não era mais importante, estava livre para sempre daquele problema aparentemente insuperável e passou a comemorar a própria existência como uma pessoa comum. Soluções simples, eficazes ou psicológicas? Quem dirá?

                    Marcelo Gomes Melo

Las palabras de amor

Venha. Conte-me a sua história, não omita coisa alguma, não é necessário. Porque não entorna o rum, displicente, manchando a beira do copo com esse batom destacado, que faz com que os seus lábios carnudos pareçam partes de uma maçã promissora, que instiga a fome gulosa que começa a ser satisfeita com os olhos.

Sente-se. Não dê importância ao meu olhar para o seu decote, eu continuo imóvel como uma rocha, embora queime como uma fogueira sem que você perceba.

O que lhe move? Quais são os seus desejos? Está realmente preparada para isso? É o que quer? Tanto quanto eu? Hum, engolir em seco é uma resposta ambígua, mas o arfar do seu peito tomarei como um sim.

Aproxime-se. Está com frio? Esses arrepios na pele nua significam alguma coisa? Esse meio sorriso, o que quer dizer? Minha mão… Por que a segurou tão suavemente? Faz parte do jogo pousá-la em seu colo dessa forma?

Juro que posso sentir o calor das suas coxas sob o tecido macio e fino do vestido! Mais perto, quase sobre… Essa é uma história que norteará as nossas vidas, você sabe. Assim, mulher, muito perto, quase dentro!

O meu sorriso? Paz… Tesão. Tranquilidade. Lenda. Imortalidade… Fim.

                    Marcelo Gomes Melo

Um amor completamente criminoso

Toda vez que eu lhe sorria, ela enrubescia. Quando eu me aproximava, ela enrijecia. Os seus olhos, sim, brilhavam, e isso eu via, mas ela escondia, fazia cara de brava e me divertia.

E se eu piscava o olho, ela quase corria. Eu me afastava e no meio da caminhada, virava e sorria, o que a fazia parar, ela se distraía. Toda vez que me falava, frieza ela fingia, no corredor, se eu a encurralava, ela se afligia, com um lindo olhar em chamas, me repreendia. E com os lábios entreabertos, ela nem percebia o quanto isso me abalava, nem sabia que me oferecia.

Para longe me empurrava, e quando me segurava, ela se perdia, o seu olhar no meu firmava, e eu estremecia; com a coxa entre as coxas dela, eu me atrevia. Correndo os riscos a abraçava, e ela não resistia, então a gente se beijava, o mundo não existia!

Se eu era dela, ela era minha, era o que acontecia. Nenhuma palavra se dizia, isso não carecia, ambos fomos atingidos, abalroados, incinerados, destruídos, destinados a um amor completamente criminoso.

                    Marcelo Gomes Melo

O velho intragável da casa 705

Eu sou bom em ser ruim, essa é a verdade. Faço questão de apavorar a todos os que aparecerem no meu caminho, e até os que não apareçam. Para lhe dar uma ideia, vou lhe oferecer alguns exemplos: quando a molecada deixa a bola cair no meu quintal, pego uma faca e estouro sem dó, depois jogo para o lado de fora os restos mortais da bola, gargalhando do ódio dos moleques que jogavam futebol na rua. Deixo o meu pitbull com fome no dia da leitura da luz e da água e o solto quando os caras tentam acessar o relógio para tirar a conta. Eu gosto de colocar uma ratoeira armada dentro da caixa do correio para pegar os dedos do carteiro idiota ao colocar a correspondência.

Eu sou um velho mau que nem um pica-pau. Lambuzo o corrimão de graxa quando as velhas da família vêm visitar; encho as empadas de pimenta malagueta para servir aos convidados e atiro bombinhas de São João no quintal dos vizinhos de madrugada para acordá-los apavorados.

Quando junto as minhas sobrancelhas grossas e olho por baixo delas com um risinho irritante, já sabem que vou contar o final dos filmes. No mercadão mordo as frutas e deixo no meio das outras, sem comprar. Furo as embalagens de iogurte, bebo a metade e largo por lá mesmo.

Eles me chamam de “o velhinho intragável da casa 705”. E eu fico todo orgulhoso. Denuncio festinhas de aniversário de crianças à polícia causando constrangimento aos pais e convidados. Passo trotes para os velhos religiosos quando voltam da igreja aos domingos, blasfemando até desligarem o telefone.

Eu nasci velho e ranzinza. Sempre fui assim, excelente em encher o saco dos outros. Fingia que ia atravessar a rua e voltava, e as pessoas que tentavam me seguir tomavam susto por quase serem atropeladas. Os meus netos fazem terapia desde pequenos por minha causa, de tanto que inventei de histórias de terror para eles, que ficavam sem dormir, com medo. Talvez algum deles se torne um psicopata indomável!

Estou contando isso apenas agora, no leito de morte, como a minha maior maldade. Eu sei que vou para o inferno, então prometo desde já retornar para puxar os seus malditos pés por toda a eternidade! Ra, Ra, ra, ra, ra, ra, ra, ra, ra!

                              Marcelo Gomes Melo

Um motivo para a progressão da humanidade

A ousadia é o principal motivo para a evolução terrestre. Sem pessoas com pensamentos além do senso comum, inicialmente considerados loucos, as descobertas que facilitariam o domínio do homem sobre a Terra, e a consequente sobrevivência não alcançaria estágios tão elevados, porque a maioria tem medo do desconhecido e reage com violência em vez de tentar o entendimento.

Graças aos que ousaram sair do senso comum para testar teorias inovadoras e provar o enorme valor em todas as áreas, uma sociedade foi construída, costumes foram implementados e possibilitaram uma vida em comum com paz e respeito.

Em cada área, gênios criaram regras e hierarquia para que os homens mantivessem a coragem e a motivação de evoluir e dominar as leis da natureza. Ousadia é a chave para que as coisas aconteçam, e coragem é o escudo que permite insistir em uma luta interminável contra seres obscuros e covardes que se sentem seguros com o atraso constante, impedindo que o ser humano cresça e alcance patamares inimagináveis, acreditando ser o destino traçado por Deus  e a vitória dos obstinados sobre os preguiçosos.

Graças aos ousados no amor, a existência se tornou mais suportável e os corações puderam se alegrar fazendo valer a pena construir coisas novas, úteis e gigantescas, enaltecendo a Deus e às forças da natureza, devidamente domadas com a ajuda divina.

Para as mínimas coisas é preciso coragem e ousadia e essas qualidades garantem a diferença entre humanos e outros seres. Que isso seja lembrado através dos tempos e reforçado, e multiplicado, pelo bem da humanidade.

                    Marcelo Gomes Melo                 

Apenas uma questão de negócios

Chegou o dono do boteco. Abaixa a crista, fecha a conta e sai andando reto no caminho de casa. Aqui se bebe, se chora as mágoas e se afoga as dores; com o excesso de álcool se acabam os pudores e tudo é escancarado. Boteco Psicologia, esse aqui. Nome fantasia registrado. Bem mais barato do que um profissional da mente, todos desfrutam do ambiente para enxaguar o ódio ou a alegria com pinga de boa qualidade e petiscos deliciosos.

Camarada felizardo, recém ganhador do jogo do bicho pode comemorar pagando uma rodada para todos os presentes, adquirir endereços de prostíbulos novos e telefones de profissionais liberais sem vínculo com qualquer residência da luz vermelha, agradecer o apoio e o orgulho dos parceiros de cama pela sorte e em seguida sair para o complemento da noite. De manhã chegaria em casa bêbado e sem um centavo, ouviria as reclamações da mulher e tomaria um banho para ir pegar no batente.

Tipos nervosos, sacaneados por todos, podem abrir a garrafa e, soturnos, remoer o chifre, a perda do emprego, a visita da sogra, a queda do andaime e outros males menores, sem serem incomodados por ninguém.

Os sonhadores podem beber sem ter o que comemorar, bradando os benefícios que viriam no futuro, de peito estufado, acreditando como se fosse verdade coisas que não aconteceriam. Eram esses sonhos que os mantinham em pé, com a quantidade certa de cachaça, obviamente.

Aqueles tristonhos, solitários, sem família, bebiam diariamente para esquecer a solidão e lembrar da família distante, que jamais saberia do fracasso que os acometera desde que saíram do buraco em que moravam nos confins do mundo, prometendo enriquecer na cidade grande. Enganados, limitavam-se a trabalhar como burros de carga para beber. A família continuaria sem notícias até que as coisas mudassem e pudessem comprar roupa nova, sapato, um rádio FM, um óculos Ray-ban, um boné…

O dono do boteco era rei no trato com os seus clientes. Observava uns em silêncio, lavando e secando os copos, servindo novas doses. Ouvia atentamente a outros, sorridentes e barulhentos, que deixavam gorjeta quando estavam por cima, e os que, caindo de bêbados choravam, contando as suas tristes histórias de cortar o coração.

O que não permitia era que os valentões, que surgiam de vez em quando, tentassem perturbar o estabelecimento puxando briga com quem estava quieto ou tentando quebrar as coisas do bar. Logo retirava de baixo do balcão um taco de baseball e acalmava o brigão, na pancada ou no ameaço. Nada pessoal, poderiam voltar depois, desde que em paz.

Um profissional precisa realizar a sua função sem raiva, sem lamentação, sem piedade. Ele fazia o que tinha que fazer, protegia o seu negócio e cuidava do bem-estar dos clientes, do jeito que fosse necessário. Eram apenas negócios.

                    Marcelo Gomes Melo

O auge da culpa universal

É a estreia do resto das nossas existências, cão virulento! Como essa visão sombria pode ajudar a reerguer-lhe do chão duro e seco que lhe apara a queda e impele a derrocada em direção às profundezas do inferno particular que habita essa mente frágil e torta?

Um único tiro de aviso raspa-lhe a sensibilidade, é a hora de levantar o corpo pesado por tanta culpa e garantir um lugar na romaria que vaga em uma única direção, abismo de um lado, floresta escura do outro, sem promessas de que o recomeço seja valioso de alguma maneira.

No céu sobre nossas cabeças, raios azuis cruzam o ar anunciando punição inclemente, criatura soturna, desanimada, vítima dos terrores noturnos, culpado dos massacres diurnos. Limpe o seu machado ensanguentado e o utilize como bengala, ser humano inconsequente, ingênuo, maldoso na própria ingenuidade.

À frente o horror se materializa confirmando que a luz é mais veloz do que o som, porque os estrondos espalham corpos e abrem caminho para o retorno de muitos para o abismo, dessa vez sem volta.

Tomemos cuidado, criatura nojenta! Atente para as minas terrestres que vitimizam vários diante da nossa vista, cobrindo de sangue alheio e restos mortais a sua figura ainda mais patética, apesar de aterradora.

É a estreia do resto das nossas vidas, mas não parece melhor do que foi antes! Não lhe faz indagar se vale a pena passar por tais provações para viver mais do mesmo, criatura nefasta?

O mundo é o mesmo, o cenário já existe, como esperar que mudemos? Pelo que observas, não parece pior? Após uma vida de atropelos e violência, interrompida pela justiça poética, embora já esperada e justa, não te faz perguntar se vale a pena o retorno nesses termos, ou é uma outra fase da punição, fingir que há uma chance para dobrar os tormentos, acelerar a tortura e nos fazer reviver todas as ruindades cometidas ou presenciadas, com mais intensidade e destruição?

Caso pensemos direito, rei da culpa em potencial, talvez seja apenas o recomeço como imãs que atraem todas as formas de ódio universal, travestido de estreia para triplicar a dor, pois acompanhado de esperança, sendo falsa, atingirá o auge da punição em todos os tempos!

                    Marcelo Gomes Melo

Medo hétero de amar (A Era dos linchamentos morais)

Abolinácio queria comer Gabriela, mas não tinha coragem nem para dizer-lhe bom dia, quanto mais paquerar, muito menos aplicar uma cantada legal, que não seja patética, arrogante ou ofensiva.

A culpa de Abolinácio esconder os olhares gulosos e os sorrisos tímidos era o malfadado politicamente correto, o qual ele não entendia bem. Será que ele não podia ser homem e gostar de mulher, e declarar-se com suavidade e verdade, prometendo respeitosamente dividir a vida e a cama com ela sem que o acusassem de machismo e o prendessem, levando-o algemado pelas ruas, apedrejado pelos transeuntes enojados porque ele ousou desejar uma fêmea?

Gabriela era moça séria e bonita, gentil e leal, tratava às pessoas muito bem e sorria com facilidade. Era digna de ser amada e desejada, mas ele temia que por trás daquela simpatia houvesse uma garota impiedosa, disposta a acabar com a vida dele caso soubesse de suas intenções românticas, e por que não dizer, sexuais.

Eram tempos confusos, esses, em que os homens não deveriam expressar interesse nem tentar a sorte, e no máximo ouvir um não caridoso, sem ofensa ou diminuição do seu desejo, como funcionava antes.

Por esse motivo Abolinácio vagava pela firma como um sonâmbulo, perto dos colegas e com ela presente não dizia nada, nem bebia ou contava piadas que pudessem ter duplo sentido e estragasse o seu amor platônico que jamais sairia do pensamento para a realidade simplesmente porque os regulamentos sociais mudaram, e radicalizados passaram a assombrar a qualquer homem decente e saudável que desejasse comer uma mulher.

Restava-lhe o sonho mais cruel, que consistia no dia em que Gabriela tomaria a iniciativa e o convidaria para jantar, ir ao cinema e depois esticar para o término da noite em um lugar discreto e agradável, tudo devidamente registrado em vídeo pelo celular, para evitar surpresas pós encontro. Os estatísticos amorosos de plantão nas redes sociais afirmavam que a porcentagem de uma coisa dessas acontecer era baixa, porque as mulheres temiam errar o bote e convidar um cidadão que não gostasse da fruta. Seria constrangedor para todos.

E o impasse estava firmado e reconhecido, devidamente difundido e vorazmente defendido. Heterossexuais estavam com problemas para se dar bem. Livros sobre como reconhecer os sinais positivos e evitar as gafes e os vexames pré-sexuais estavam vendendo bem. Cursos online sobre como se aproximar na certeza sem ser taxado de assediador, idem.

Abolinácio não era nada disso. Em princípio só desejava comer Gabriela, e depois decidir em conjunto possibilidades de prosseguirem juntos respeitosamente, de forma eventual ou fixa, seguindo a cartilha do bem viver, anti-assédio e divisor justo de tarefas e lucros.

Um dia Gabriela caminhou inocentemente em sua direção com aquele sorriso perfeito e com uma garrafa térmica na mão, e usando aquela voz encantadora e maravilhosa de atendente do antigo serviço de sexo por telefone, perguntou para Abolinácio na lata:

– Abolinácio, aceita um café quentinho? Acabei de passar.

Abolinácio ficou verde, espumou pela boca e, sem conseguir pronunciar uma palavra, infartou, ali, na frente dela.

Foi inaugurada, então, a possibilidade de processo por “contra-assédio sexual desprovido de intenção”. Novos militantes, novas leis, novos advogados, novas atitudes políticas… Fim dos tempos.

                    Marcelo Gomes Melo

Sobre os quinhões de reflexão

Sob os cabelos empapados em sangue há um cérebro, e nesse cérebro há arquivos obscuros, perigosos, acumulados durante uma vida intensa a serviço de pessoas pouco confiáveis, inescrupulosas, dispostas a qualquer coisa pela manutenção do poder. Sempre atrás de um biombo blindado, é claro. Esses, os dos arquivos mais profundos em um cérebro aberto literalmente, não agem diretamente. Eles nunca colocam a si mesmos sob riscos, embora saibam que esse é o sobrenome que escolheram, abandonando a tudo o que pareça honesto, ético, humano.

Estranhamente são esses os valores que pregam descaradamente, ao mesmo tempo em que matam, cegam, destroem, inutilizam, determinam o modo como a maioria vive, ou quando morrem. Sorriem com facilidade e oferecem vantagens como objeto de sedução. Quando não o conseguem, torturam, ameaçam, causam problemas e maldades, sequer piscam os olhos.

Os arquivos profundos naquele cérebro em plena decadência, contém listas e instrumentos mortais, físicos e escritos, instrumentos que corretamente sussurrados acarretarão tribulações e sacrifícios humanos, tragédias vendidas como naturais, mas provocadas artificialmente com um único propósito: a manutenção do poder.

O sangue que escorre pelos olhos, também escapam dos cabelos e atingem o cérebro, apagando com o vermelho as lembranças mais perigosas para os mandantes, os que se serviram da coragem insana e falta de inteligência total de quem não se considera digno o suficiente para ter ideias próprias. Nasceram para servir, e quando a validade acabar, serem atirados em uma vala qualquer à beira de uma estrada de terra, no meio do mato.

Ninguém chorará por eles, nem se lembrará de sua existência nociva, ilegal, vergonhosa. O sangue empapado esfriará e coagulará, expelindo da vida o seu dono, envenenado por natureza, sem a benção divina.

Os restos mortais não serão encontrados; predadores já estarão à espreita para devorar o que puderem. O que restar será corroído por vermes inclementes e indiferentes, que não discriminam os cadáveres que porventura surjam.

A vida segue, quase ninguém fica sabendo. Na verdade, quase ninguém quer saber, só os que terão, cedo ou tarde, o mesmo destino, comentarão brevemente antes de seguir com os próprios pensamentos. Essa é toda a reflexão que são dotados a ter.

                              Marcelo Gomes Melo

Paixão que arrasa, noção que se perde

Paulina diz que me ama e que está se tocando enquanto falamos ao telefone, com a voz trêmula e ofegante, encharcada como um pântano mantendo as pernas entreabertas e uma das mãos entre elas, estimulando suavemente incentivada pelas minhas palavras ousadas, pela minha descrição vívida e a rouquidão exigente fazendo-lhe bambear as pernas, os seios subindo e descendo em um ritmo doido.

Estamos distantes, mas ela vê cada centímetro, de olhos fechados. Ela sente. Enxerga o suor no meu rosto, o meu olhar em chamas e a minha mão pesada manuseando como um adolescente todo o tesão que Paulina causa, acesa como uma tocha no meio de uma floresta.

Repetir que me ama aos choramingos é a senha para os meus urros roucos, fora de prumo, êxtase puro e fome voraz, da qual não pretende escapar. Os ruídos de amor fazem parte do jogo. O pensamento violado transforma paixão virtual em realidade sincronizada, sem riscos, sem medos, sem hesitação que impeça que todos os desejos se realizem.

A determinação toma conta e não impede que o instinto de preservação limite o alcance. Tudo é possível e depois sorriremos cansados, só restam lembranças reais, que aceleram o sangue à mera lembrança, e desperta quereres que antes seriam imprudentes.

Tudo é amor, Paulina, quando usamos todos os sentidos disponíveis e criamos alguns outros impensáveis até outro dia, durante a rotina infindável e chata, que obriga pessoas a criar receitas e segui-las alucinadamente tentando satisfazer corpo e alma.

Muitas dessas receitas, senão todas, causarão dependência e tristeza, produzindo robôs que automaticamente se enganam quanto à aurora do amor. Sequer conseguem o mínimo de prazer e o vazio só aumenta, encaminhando corpos sem alma para a beirada do abismo onde tombarão um a um, enganados até o fim.

Paulina diz que me ama, as pernas fortemente trançadas, as mãos sobre os seios com força e os sussurros desesperados, correspondidos à mesma medida rumo a uma explosão incontida jorrando naturalmente, retirando toda a tensão acumulada, fazendo relaxar com um cansaço possível, necessário. E sorrisos, e palavras de amor que jamais farão sentido, se comparadas ao prazer alcançado através da energia dos corpos imantados, que se procuram sem barreiras e se encontram aonde quer que estejam.

                    Marcelo Gomes Melo

Um brinde ao final dos tempos

– Utilizando crianças para realizar a sua política suja, imbecil?

– Todas as artimanhas valem a pena perto do final do mundo. Não é você quem impedirá tentando ser o oposto.

– Não há ninguém fora do barco. Nenhum 100% oposto. É isso o que eu quero defender.

– Menos cínico do que imaginei, querendo se aproximar da verdade.

– Não existem verdades. Existem tolos manipuláveis.

– Não ouse me culpar por saber como utilizar isso!

– O poder alcançado é medido pela quantidade de atrocidades que se é capaz de fazer.

– Pensar que crianças de hoje são como as de trinta ou quarenta anos atrás é um erro. São pequenas víboras. Lidar com elas é perigoso, pois caso se voltem contra você será um enorme problema de sobrevivência.

– Está ciente disso, mas… Não são todas as crianças assim.

– Ingenuidade sua. Estão sendo formatadas assim desde o berço. A ganância se manifesta desde o berço.

– A indolência é um obstáculo salvador para a ganância, embora inutilizem completamente os portadores.

– É disso que estamos falando! A política necessita dos gananciosos para controlar os indolentes. Quem está no meio, procurando algo parecido com justiça, como você, será completamente atropelado.

– A guerra nunca termina. Vivemos de batalhas. E posso ganhar algumas.

– Mesmo assim, durante a sua vitória temporária terá que lidar com as minhas cargas depreciativas, a burocracia criada para interromper ideias toscas como as suas que não trarão vantagem alguma aos grupos pequenos acostumados ao controle de tudo.

– Desistir de uma sociedade menos desigual é desistir de viver.

– Viver para quê? Produzimos zumbis preguiçosos, adoradores de migalhas para que o equilíbrio seja de acordo com as nossas normas.

– Essas normas são genocidas!

– É necessário descartar lotes de inúteis de tempos em tempos! É para isso que existem doenças incuráveis, desastres supostamente naturais, líderes re ligiosos assassinos… As coisas funcionam desse jeito. Acostume-se.

– Nunca irei me acostumar. Envelhecerei e experimentarei a humilhação de ser taxado como tolo pela maioria sacrificável, aqueles por quem tento lutar, a quem tento defender.

– Sinto muito por você. Os livros ensinam século após século, mas há cada vez menos quem os leia. Acreditam em coisas insanas, mas não enxergam a verdade a um palmo dos seus narizes, clara como um dia de verão!

– O que me resta fazer, nesse cenário apocalíptico?

– Pegue o seu copo, encha de uísque. Brindemos ao final dos tempos!

                              Marcelo Gomes Melo

Loira libidinosa e os enganos da vida

Loira libidinosa mostrando as coxas displicentemente. O decote no umbigo não era sequer um convite, era uma exigência! Mascava chiclete como se fosse uma cabra, fones de ouvido e celular nas mãos finas e eficientes. Era a imagem da inocência usurpada, sem pensar em nada que fizesse o seu cérebro vazio soltar fumaça.

Ela queria pouco da vida, e não se importava com os pequenos sofrimentos, entretida com os pequenos presentes que recebia para realizar coisinhas simples que lhe pediam para fazer nos cantos escuros, e que outras vezes se oferecia para fazer.

O mundo dela era assim, pequeno, como um quarto de paredes descascadas, sem janela, sem móveis. Um colchão e um pequeno fogão de acampamento. Pequena loira libidinosa, provocando os santos e os comuns, sendo utilizada pelos espertos e pelos maus.

Um dia aconteceria com ela o que ouvia naquelas canções românticas, sarcásticas e pervertidas. Era fato e ela jamais contestaria, porque o mundo paralelo no qual vivia não lhe oferecia opções de raciocínio, e as pessoas com quem interagia eram todas como ela, sem perspectivas e sem conhecimento.

Loiras libidinosas só o são na aparência, para os que as observam de longe, sonhando em tirar uma casquinha sem envolvimento, em segredo, para depois retornar para o outro lado do muro fingindo manter a compostura e uma dignidade inexistentes.

A vida prega peças em todos os que se aventuram por ela, sem fazer concessões. Existir exige consequências, vistosas ou aterrorizantes. Ou aterrorizantes mesmo que vistosas.

                     Marcelo Gomes Melo

Negócios do século XXI

Quatro tiros de frente para o arrombado, errei todos. Após uma leve hesitação de ambas as partes ele disparou ladeira abaixo, correndo mais rápido do que notícia ruim. Segundos depois parti atrás, segurando a “máquina” para baixo ao lado do corpo, o dedo fora do gatilho como aprendi nos filmes de gangues.

Aquela ladeira estava asfaltada, mas não era assim na minha infância. Descíamos de carrinho de rolimã até embaixo, sobre terra e pedregulhos, esgoto aberto na sarjeta de ambos os lados. Hoje havia iluminação, e eu enxergava o vagabundo 30 metros à frente, cambaleando para um lado e para o outro, tentando dificultar a minha mira e escapar dos tiros.

Se eu parasse para acertar o tiro ele se distanciaria ainda mais, então decidi queimar o desgraçado atirando em movimento, enquanto corria, mais dois balaços. Não era como nos filmes, errei feio, passou longe. Pelo menos manteria o medo vivo no coração do sem vergonha.

Enfiei a mão no bolso, peguei mais balas; respirando com dificuldade recarreguei. O peão virou a esquina à direita onde havia um campinho de futebol, agora substituído por uma série de casas geminadas, de cores iguais. Continuei a perseguição madrugada adentro sabendo que havia perdido a chance de enviar o sacana para a cidade dos pés juntos nas profundezas dos infernos.

Logo amanheceria. Guardei a arma no bolso da jaqueta, ajeitei o boné e continuei andando, agora calmamente, atento a tudo, permitindo que a respiração se estabilizasse. O meu plano era parar na padaria e esperar que abrisse, sentado na calçada. Se a sorte me sorrisse poderia encontrar o sujo, e então realizaria a minha tarefa.

Ele correra por instinto, não deveria saber o porquê dos tiros. Nem eu sabia. Não se pergunta ao contratante o motivo da tarefa. Você apenas a realiza.

Aquela noite não fora de sorte para mim, para ele sim. Deveria estar em uma igreja ou duas no bairro, mas não ficavam abertas dia e noite. Agora temiam assaltos. Ninguém era inatacável mais. Mesmo assim passaria por elas, desencargo de consciência.

Algumas horas depois, na padaria com um pãozinho na chapa e um pingado eu já sabia que a dificuldade aumentaria, agora. O tapado se manteria escondido, isso se não tentasse fugir do bairro! Liguei para o contratante e o coloquei ciente dos acontecimentos. Informei que iria demorar um pouco mais. Ele praguejou, mas aceitou, não havia outro jeito.

Eu fui para casa, guardei a minha “peça”, coloquei o macacão e fui para a mecânica trabalhar. A próxima noite seria melhor, com toda certeza. Não estava fácil para ninguém.

                    Marcelo Gomes Melo

Inevitabilidades

Tire os seus olhos dos meus olhos, agora

Não é brincadeira de criança, garota

É provocação perigosa que gera drama

Afaste o olhar do meu nesse instante

É uma afronta que acabará na cama

Você é confiante, domadora de homens

Não conhece caras como eu

Que não se envolvem com muitas

Tudo acaba em amor e sexo selvagem

E no fim alguém se machuca

Obedeça e afaste os seus olhos

Não me apetece reconhecer o brilho neles

As promessas que virão e que serão correspondidas

Tem coragem suficiente para isso?

Não seja arrogante, menina!

Caso se apaixone não haverá volta

Mantenha os olhos em seus pés

Na cor do esmalte escolhido

Permita que eu me afaste com dignidade

Para passar a noite com uma garrafa de conhaque

Até adormecer entorpecido

Amanhã carregarei a eterna dúvida

De como teria sido

                    Marcelo Gomes Melo

Todos querem conhecer o céu, mas ninguém quer morrer

O amor em excesso pode gerar efeitos aleatórios no coração e na alma, alterando o ritmo do entorno, a conexão com o que é real e palpável, enquanto uma possível conjunção com a natureza aumentando todos os sentidos propiciam uma nova visão, diferente da visão das pessoas comuns, que se envolvem em paixões enganosas e desnecessárias, as que compelem a tomar atitudes tresloucadas e fogem ao padrão por algum tempo, mas terminam logo, devastam e ferem também por um período; depois recomeçam do zero, mudando só o parceiro, e as mesmas sensações acontecem novamente.

O amor em excesso difere das paixões porque não acaba bem, sobrevivem às tragédias e machucam para sempre, não sendo possível superá-lo. Não acontecem duas vezes e os atores são sempre os mesmos. Eles cometem as mais inocentes loucuras e sacrificam até o que não têm em nome do outro; morrer por isso não soa absurdo, e não para o amor jamais, apenas caminham para um nível além e são revividos de formas estranhas, incompreensíveis para os não agraciados.

Os simplesmente apaixonados se divertem e sofrem, e continuam assim até que encontrem novas paixões que não são imortais nem duradouras.

Trata-se do número da sorte com o qual nasceram, e que determinam o seu destino amoroso que afetarão a todos com quem interajam e o ambiente no qual vivem, sem que percebam a interligação que faz a vida inexplicável e os sonhos inconclusivos, envoltos em uma neblina misteriosa, embora não literal.

Os outros, os que vivem abaixo da linha dos amores e paixões contentam-se com uma existência simplificada, na qual tomam decisões previsíveis baseadas na lógica e não amam jamais, muito menos são tomados por paixões arrasadoras; acabam por cumprir prazos, realizar tarefas simplórias e dividir suas vidas como famílias sem grandes emoções, complementando as grandes civilizações que existem por um tempo e são arrasadas e destruídas, substituídas por outras com as mesmas bases, alguns resquícios do que eram antes, e que, dependendo de como forem interpretados influirão nos novos acontecimentos.

A base de tudo será sempre o amor em excesso, as paixões arrasadoras, e as combinações lógicas, sem prazeres inesquecíveis nem grandes sofrimentos. É a parte que equilibra a balança do universo, mantém os mistérios e garantem o mínimo motivo para constante renovação.

Fora disso tudo é escuridão. Há um limbo programado para que todos acreditem em um poder maior, seja qual for, e os que busquem desvendá-los sejam os causadores dos tumultos que levarão as civilizações ao ocaso e sumiço, até que uma nova ressurja e mantenha girando a grande engrenagem sem nome, indefinida e inevitável. A imortalidade se inicia com a inexistência física. Jamais saberemos ao certo, porque todos querem conhecer o céu, mas ninguém está disposto a morrer.

                    Marcelo Gomes Melo

Fé, não sapiência

A água, o sangue, a lama do mangue

A lava do vulcão, o gol da seleção

A correnteza do rio, o calor, o frio

Os dias de loucura, as noites de reflexão

O que de você será, o que eles todos serão

Como vivenciar sem se envolver por completo

Como experimentar sem viciar-se de afeto

Os rumores, os ditos, os sussurros, os gritos

As almas em reunião, as garças e o gavião

O poder de quem observa, o gestual de quem preserva

As minúcias únicas de cada homem

Das mulheres, dos lobisomens

O soro da vida eterna, o ouro da fé materna

O crime, o castigo, o que escondo, o que digo

As pazes subentendidas, as luzes mal-entendidas

Isso tudo é fé, da cabeça ao pé

Não sapiência

                    Marcelo Gomes Melo

Carta alienígena retaliada por brasileiros

Kjar zhar potrekmarr kqxuastwar ipnotylj tabhahh! Okhmerishorr orr dassau tarr ikyiobap tdor kurwmubrzw atxwt rrall briocl tarr na kcloppkq warwvosk ptoryanisopcomnpak yyk hi tetkkx aahlit ohmnikarr gorr ahhr tthermerhosty wewh tirinkslayy podoptowskii arioslikatri pell.

Cooxente bixinho! Derrepentemente tu veim da bubônica dum planeta no meio do céu cum essas falas com um zovo na garganta quereno assustambrar um macho maxixe doce do Nordeste, rapai! Aqui eu rô pra adadonde eu quiser, siminini homi, tu rai tomem? Intaum ramo nessa peste bubônica, qui eu tô cum facão na cinta pra mata vagabundo cum cara de porco e assá cum farinha. O planeta é nosso, sinhozinho! Só pruquê tu é gigante e forte como um touro num mete medo ni quem come cacto cum rapadura debaixo do sol que enruga a pele e queima os miolo todo dia.

Ara, o sinhô tá sum essa conversa estranha pra daná, que trem é esse, sô? Qué sentá e toma uma pinguinha chegue mais, qui nois até serve uns pão-de-queijo, mais num veim falano grosso quinós naum teim medo naum. Deve di sê arguma invenção de Sum Paulo ou do Ri di Janeiro, uns home di ropa de prasco cum cara feia urrano feito javali. Aqui não, violão, larga do meu pé, chulé. Ocis vão sentá na graxa, uai!

O que diacho é isso, guri? Não tá morto quem peleia e aqui no sul nós matamo a cobra emostramo o pau, pra tiver. Tu vai dança o vanerão e tomar um chimarrão que aqui a banca paga e recebe, tchê. Terra de macho que vai se libertar do Brasil e depois dos outros planetas, véio, é melhor tu dares o fora do nosso território, tchê!

Comandante, essas foram as gravações que interceptamos dos alienígenas ameaçando invadir o Brasil, pelo menos foi o que eles entenderam e responderam com coragem. Parece que deu certo. A nave deixou o planeta assim que recebeu as respostas.

Nossas defesas orais são convincentes, nem precisamos pegar em armas. Palavras mais ameaçadoras do que a deles, pelo jeito!

                    Marcelo Gomes Melo

Vítima da crueldade das fêmeas

Ele estava bêbado quando a conheceu, e curtia o pior momento de sua vida amorosa, ou do término traumatizante dela, e procurava esquecimento através de uísque, tequila, cerveja fosse lá o que fosse, esparramado no bar, parecendo um bagaço humano. E foi assim que a conheceu, oferecendo a pior primeira impressão que alguém pode dar de um homem com alguma dignidade.

Ela tinha aquele aspecto bondoso no olhar, e uma voz firme e tranquila, nada surpresa com o estado em que ele se encontrava quando puxou assunto e sentou-se com ele, aceitando um suco de laranja.

Bonita do seu jeito simples, cabelos escuros e lisos sem adornos e nada de maquiagem, a face real de quem não teme a chegada dos anos, impiedosa com mulheres e homens. Conversando banalidades até que eu tomasse coragem para falar do amor perdido que me causava tanto sofrimento, a ponto de morrer por coma alcoólico.

Resignada, não disse que não o fizesse, apenas ponderou sobre algumas coisas que poderiam ser importantes para ele manter, como a alegria de viver, o sol e a praia, refeições exóticas e sexo bom e sem compromisso, por que não?

O modo como ela colocou aquelas coisas, sem incutir responsabilidades nas minhas costas, sem julgar a minha franqueza, me sensibilizou enormemente. Os meus olhos começaram a enxerga-la, mesmo embaçados, como uma possível rampa de salvamento.

Olhou em seus olhos e tentou seduzi-la descaradamente. Estava bêbado, então parecia mais ridículo do que sedutor, mas ela nem se importou. Sorria de tempos em tempos, entre um gole e outro no suco de laranja.

O cara ainda não ainda não havia se dado conta de que estava tratando com uma freira, até que ela lhe disse, sem nenhuma mágoa ou surpresa por ter sido convidada para o apartamento dele para transar loucamente até afastar os fantasmas de sua vida desolada.

Agora fazia sentido o vestido preto sem decote, cobrindo até os pés, e o crucifixo no peito, além do colar de contas na mão direita. Além de triste ele era burro. Já ia iniciando o processo humilhante de implorar por desculpas quando ela o surpreendeu aceitando o convite, desde que ele permitisse que ela dirigisse até lá, devido ao seu estado deplorável.

Confuso e excitado pagou a conta e entregou a ela as chaves do carro. Comprou outra garrafa de vodca para viagem e a seguiu cambaleando, tentando descobrir algumas curvas no corpo completamente coberto da freira. Seria a sua primeira vez com uma noiva de outro, e o pior era que o outro era Jesus, o Próprio! Ele estava certo que o seu caminho seria o inferno por isso.

No caminho continuou a beber para sufocar perguntas adolescentes que poderiam ofendê-la: se era virgem e ele seria o primeiro homem dela, ou se costumava servir como marmita para os padres sacanas, pois sempre existe um.

Muito calma, quase indiferente, estacionou o carro fora do prédio e pegou a chave do apartamento. Quando ele indagou por que não usar a vaga que tinha no estacionamento, mencionou algo como praticidade e fazê-lo andar para recuperar a consciência e a condição física para possuí-la selvagemente. Ficou louco de alegria, não havia nada mais importante para ele do que conhecer no sentido bíblico aquela madre tão diferente e especial.

No apartamento o levou para a cama e o ajudou a usar a garrafa de vodca como uma mamadeira. Só acordou no dia seguinte por volta do meio dia, sem saber por certo onde estava.

Aos poucos percebeu que estava em casa, e apesar da enorme dor de cabeça relembrou o xaveco na freira, que deu certo. Olhou em volta procurando por ela inutilmente. As roupas de freira jogadas no chão do banheiro lhe arrancaram um sorriso de felicidade, junto com uma dor lancinante. Ele ainda achava que havia se dado bem e teria história para contar aos amigos, gabando-se por ser um sedutor.

Então percebeu que estava na banheira, com muito gelo em torno de si. Será que enchera a banheira de uísque e fizera uma farra regada a bebidas?! Em seguida notou um curativo na região abdominal e um bilhete embaixo do celular no chão do banheiro.

“Ligue para um hospital imediatamente e solicite uma ambulância, diga que perdeu um rim e o fígado. Boa sorte”.

Na cozinha faltava a cafeteira, o fogão de seis bocas, o micro-ondas; na sala não havia mais televisão. A carteira continha os documentos, mas os cheques, o dinheiro, os cartões de crédito… Os relógios e as correntes de ouro, anéis haviam sumido.

Uma gigantesca sensação de perda se apossou dele. Não que estivesse apaixonado, mas enganado assim tão facilmente!

Quando os policiais chegaram junto com a ambulância, contaram da falsa freira que aplicava o boa noite cinderela nos trouxas e levava tudo o que pudesse carregar enquanto o idiota apagado achava estar no paraíso sem comer ninguém.

O delegado o aconselhou a deixar para lá e evitar a humilhação de ter caído no golpe; os paramédicos disseram que viveria com apenas um rim e que o fígado já não prestava para nada mesmo. Mais detonado do que antes fui para o hospital pensando em comprar mais quatro garrafas de vodca e quatro de uísque. Ter sido feito de bobo por uma mulher vestida de freira o enfio na mais profunda das depressões.

O golpe da freira foi marcante para um homem experiente como ele. As cicatrizes aumentaram e ela terá que se adaptar ao fato de que sou um eterno imbecil, destinado a ser vítima das mulheres cruéis pelo resto da vida.

                              Marcelo Gomes Melo

Sezefreda do xibiu doce

Sezefreda do xibiu doce era a rapariga mais maravilhosa da caatinga. E a mais caridosa também, sim, senhor! Mulher da gota serena, a Sezefreda. Dura como uma rapadura, espinhosa como um cacto, mas delicada como uma flor temporã no meio daquela seca maldita.

Era ela a responsável por aliviar o desespero daqueles caboclos brutos sedentos de água e de prazer nas noites de quarenta graus e um céu azul marinho, banhado por um mar de estrelas, ironicamente.

Sezefreda tomava pinga como um macho cabra da peste, e fazia com que aquelas mãos calosas e ressequidas passassem por sua pele morena como um esmeril. Ela apreciava mãos grandes como raquetes de tênis, dedos grossos de unhas sujas contrastando com aquele xibiu enorme, macio como uma rosa em flor, que ficava úmido ao primeiro toque, inchado, rosado, e se abria instintivamente quando acariciado. Sezefreda suspirava antecipando o tesão que aqueles dedos causavam, roçando com uma suavidade sacra, o oposto do que aqueles ogros aparentavam no dia-a-dia.

Largada em uma rede na varanda da casa mal iluminada por candeeiros, ela sentia a penetração dos dedos tranquilos, o carinho que faziam, experientes e eficientes como um vibrador. Enterravam-se nela e ficavam maravilhados com os seus suspiros atormentados, sua boca entreaberta e o olhar perdido.

A rede rangia e Sezefreda reagia imediatamente, movendo-se com a paixão de quem se entregava aos afagos dos ogros, homens de verdade que idolatravam quase como crianças abandonadas. Muitas vezes ela chorava sentindo as línguas ásperas em seus mamilos generosos, e os dedos explorando com urgência aquela gruta em lodaçal, pronta para estocadas potentes. Muitos deles não o faziam, gozavam se masturbando entre suas coxas, enlouquecidos pela beleza rústica e resistente de uma mulher do cangaço.

Rainha das meretrizes, Sezefreda, bondosa, delirava na ponta da língua dos boiadeiros que a saboreavam suculenta como a mais doce compota de figo desmanchando-se entre os dentes de ouro dos pobres trabalhadores que de dia sonhavam com a riqueza.

O apelido ganhara força e era um mantra, aceito pelas outras mulheres e pelos adolescentes prestes a iniciar o caminho misterioso do sexo. Mesmo desajeitados conseguiam enlevar Sezefreda a ponto de fazê-la rugir tal tigresa no cio, proporcionando uma primeira experiência inesquecível a quem, dali em diante teria uma vida difícil, permeada por perdas, envelhecendo rápido, fortes como touros, cheirando a fumo de corda e cachaça de cana de açúcar.

O xibiu doce lendário de Sezefreda virou ponto de turismo na pequena cidade, e autoridades das cidades vizinhas não hesitavam em ir provar a valiosa precheca de creme, e os uivos de loba faminta que Sezefreda oferecia de bom grado. Se houvesse uma igreja ela seria alçada a autoridade eclesiástica; se houvesse prefeito, com certeza a honra seria dela.

Para homens que viverão pouco e intensamente, o xibiu de Sezefreda era sagrado. O maior prêmio de uma vida enganosa e cruel. Sezefreda era o mel que os animava a acordar para um novo dia terrível de dores e lamentos. Fariam tudo por ela.

                    Marcelo Gomes Melo

O modo como agem os heróis

Não é pelo fato de gostar dela que eu vou retroceder nos meus princípios. Não é pela falta de oportunidades que deixarei de abrir o meu caminho, à força, se preciso for.

Os dias passam lentos sob o sol escaldante do deserto de possibilidades, no qual me incluo e fico arranjando desculpas para não declarar meu amor por ela. Prefiro manter a pose de mau e a ignorância dos fracos de coração, criando uma muralha intransponível, impenetrável, e jamais seria magoado por algum tipo de rejeição.

É interessante ser a estátua de gelo que não pode ser destruída e ter que suportar o peso dos desgostos alheios, que jamais pensarão que há uma mera possibilidade, bem distante, de conter sentimentos sob a aparência impassível e as poucas palavras.

Eis a razão pela qual não retrocederei. Com os passos firmes o olhar no horizonte sacrificarei todos os meus sonhos em troca do status de indestrutível. Quem toma as decisões mais difíceis e arca com as consequências merece estar no comando. Quem não tem a coragem necessária passa a vida reclamando, aos brados, e se escondem como ratos sob qualquer dificuldade. E ainda lhes resta a capacidade de culpar aos outros pelos seus próprios defeitos, descaradamente.

Culpam a Instituição em vez de sua falta de decoro e esforço, acusam prédios, inanimados, por não terem sido preparados corretamente, mas nunca olham para os seus inúmeros defeitos. Sempre que encaram um espelho enxergam a alguém melhor do que jamais serão.

Nenhuma recompensa individual tem qualquer valor, porque amor não correspondido é folha seca flutuando ao sabor do vento; amizade irretocável nem sempre é reconhecida, porque a maioria sempre tem algo material em mente, então ela perde o sentido.

Não retrocederei! Recusarei qualquer benefício sentimental e não oferecerei nada a ninguém, nem a ela, a quem amo. Farei o meu trabalho com honra e violência, tanta quanto necessária; perguntar é impróprio, adivinhar é estúpido. Apenas realizar o que pode ser realizado e seguir adiante, chamuscado e coberto pelo sangue dos outros, curando os próprios ferimentos através do tempo.

Um homem coberto de cicatrizes invisíveis, mentais, não pode provar as consequências dos seus atos. Julgadores improváveis são os que mais proliferam no mundo como baratas que sobrevivem a tudo para devastar o local no qual vivem, rápidos como uma praga de gafanhotos.

A espada afiada deve cair sobre essas nulidades sem dó, mesmo que se reproduzam mais rápido do que são eliminadas. Nada de piedade, soldado, não pense nela e nem em si mesmo, muito menos nos dois juntos. Não é assim que agem os heróis?

                    Marcelo Gomes Melo

Amores distintos, inegociáveis

Se me amar não faça escândalo. Arrume o futon, aqueça o quarto, coloque snacks em uma mesinha de madeira e algumas cervejas, vinho de arroz, soju…

O ambiente silencioso, em comunhão com os deuses nos permitirão meditar lado a lado, de mãos dadas e olhares furtivos.

Logo mais, com as luzes apagadas, trocaremos carícias não totalmente despidos, contendo os gemidos, prendendo a respiração, transparecendo os sabores através dos olhares agoniados e respiração entrecortada.

Com a lua cheia iluminando nosso quarto através da janela, testemunhando momentos secretos que jamais serão discutidos, porque menos é mais, e não ousamos sequer pensar entre as outras pessoas.

Me ama, então cuide dos meus silêncios e aceite os meus sorrisos e toques tímidos com prova do amor inesgotável que surge depois, muito depois, porque nos conhecemos e convivemos no princípio como totais estranhos, e nem sempre a sorte sorri unindo o casal ajustado, que se entenda sem que um se sobreponha ao outro em termos de status.

A bebida nos deixará relaxados, menos tímidos, o que facilitará nosso amor discreto, escondido do mundo, para um sono tranquilo, abraçados, casados com a vida.

Difícil se acostumar com culturas diferentes, encontrar um meio-termo que garanta honra e dignidade sem perder a lascívia justa para qualquer casal verdadeiro.

Me ama, não diga em palavras, eu sei. Aprendi a conter a minha volúpia de gritar aos quatro cantos e guardar para nós dois apenas entre as quatro paredes.

Amores distintos, inabaláveis, impossíveis de entender por quem reconhece apenas o que é imediato.

                    Marcelo Gomes Melo

Entre a esperança e o ódio

Parta-se do pressuposto de que não há mudança em larga escala sem revolução, e que não existe revolução sem sangue derramado, sem mártires forjados em batalha e heróis que se sacrifiquem pela causa.

Em uma democracia, há que ficar claro a obrigatoriedade de que as decisões da maioria serão as acolhidas, e que as minorias têm o direito de exercer a sua cidadania tendo em mente o cumprimento dos deveres e a preservação de todos os direitos.

Caso seja essa a ideia de uma sociedade, minorias não dominam, opinam, e caso a sua reivindicação seja rejeitada pela ampla maioria, agir como crianças birrentas desrespeitando as regras e as leis não funcionará, apenas criará balbúrdia e focos de violência.

A política não é compreendida pela maioria do povo; isso acontece porque deve ser assim para que uma maioria comande milhões e roubem, legislem em causa própria, vendam a própria alma para manter o poder. Não existe lado bom! Todos são corruptos, todos agirão para acobertar uns aos outros e fingir para que a grande maioria se divida entre a esperança e o ódio.

Jamais essa imensa maioria exercerá poder algum, se formarão em grupos para ser comprados e dividir o espólio com outros que se conformarão com um quinhão ainda menor, e a vida continua a mesma, com a mídia reivindicando o quarto poder, trabalhando para o lado que lhes ofereça mais vantagens, assim como os sindicalistas, os artistas e outros corruptos em potencial.

Essa é uma razão consciente para que os partidos políticos se revezem no poder, que nenhum consiga instalar um esquema perfeito para perpetuar-se no poder doando migalhas, esmolas, distribuindo humilhações e morte contabilizada matematicamente para manter o poder através do número de viventes que forma a população.

Mudar periodicamente de ideologia atua como um bálsamo para as costas chicoteadas, a ausência de cultura cultivada para evitar o entendimento do que está acontecendo. Então forma-se mais acadêmicos diminuindo as exigências, criando profissionais despreparados com um diploma superior, que funciona nas estatísticas, mas destrói o núcleo social mais necessitado com falsa pompa, e arrogantes, destroem o ensinamento do idioma, matam pacientes receitando remédio para virose quando não sabem que se trata de câncer…

A política sempre será assim, os que estiverem no comando negociarão com os adversários atrás das cortinas e todos sairão beneficiados. O povo? O povo é dispensável, gente para levar a culpa, sofrer, acreditar ingenuamente, receber trocados e bater palmas, se tornando violentos uns contra os outros em nome dos seus donos e morrer sem nada.

Sempre foi assim e sempre será. Sem revolução radical não há mudança; sem o sacrifício impiedoso dos líderes, as coisas se ajeitam, e os pseudo-adversários discursam odiosamente, e bebem champagne do alto dos seus edifícios.

                    Marcelo Gomes Melo

O final dos tempos e a tentativa de alcançar um plano superior

A cada dia as coisas ficam mais confusas. As pessoas parecem estar sob o efeito de diversas coisas, drogas, emoções contraditórias, fé cega, impaciência crônica, cinismo em altas doses, descrédito sobre a existência de coisas positivas e atitudes cívicas, éticas, morais e bondosas, incluindo cada uma delas.

Então as teorias da conspiração dominam uma boa fatia da sociedade, debatendo teorias absurdas, mas com resquícios de possibilidade, e isso causa uma enorme polêmica, principalmente em uma época em que as distâncias inexistem e as informações surgem como um piscar de olhos, sendo aperfeiçoadas antes de serem passadas à frente, lembrando a antiga brincadeira adolescente do telefone sem fio.

Hoje ninguém com menos de trinta anos faz ideia de que brincadeira é essa, concentram-se em difundir coisas mais perigosas e próximas da realidade, através da tecnologia que veio para modificar as pessoas física e mentalmente. Atualmente os protocolos mudaram, e a forma dos pensamentos e atitudes também. O que era regra geral e crença total, agora é contestado brutalmente, polarizando lados, e possibilitando guerras frias, civis, estudantis, inclusive infantis.

A confusão contribui para as teorias religiosas, extra-sensoriais e universais, produzindo fanáticos para todo o tipo de necessidade, com hipocrisia em massa e vitimização como arma para vencer a batalha do fim do mundo.

O que se vê em torno, dia e noite, pode ser comparado ao que foi previsto na Bíblia, adivinhado por videntes, previsto por todo o tipo de privilegiados com linha direta para os céus. Em comum, a facilidade em angariar fundos financeiros de todas as formas, com as promessas mais bizarras e intragáveis, mas que funcionam, pois há uma imensidão de cordeiros dispostos a se deixar abater em troca de um lucro maior oferecido pelos seus líderes.

As pessoas escolhem acreditar no que quer que seja com a esperança de salvação, de vida melhor, de sobreviver com algo bom para acreditar.

O final dos tempos vem acontecendo claramente, principalmente para os milhões que, de alguma forma são abatidos pelo caminho levando consigo as crenças que aliviaram a consciência de que perderiam para ganhar um nível maior, alcançando um plano superior que seja perfeito para quem sofreu bastante durante a estadia nesse planeta em caos.

                              Marcelo Gomes Melo

Amor hediondo

Aqui, em pé sobre o seu sepulcro, observo o ambiente arejado entre as montanhas de pedras centenárias e árvores milenares, por entre as quais correm as águas límpidas do rio essencial, frio e audaz, superando obstáculos com a sua força estupenda despencando em cachoeiras monumentais, as que celebram todas as dores e jamais questionam os porquês.

As flores ao redor parecem assistir, maravilhadas, o local de sua queda, tão glamurosas o quanto podem até murchar. Assim que acontecer, naturalmente darão lugar a outras belas flores que em seu tempo de existência, embevecidas, servirão de escolta ao seu túmulo gelado e sombrio, habitação sinistra para alguém tão vivaz quanto vossa magnificência, senhora dos pecadores, o imã que atraiu os mais valentes e ferozes cavaleiros para a morte, com um balançar de quadris equivalente ao canto das sereias.

Apoiado na empunhadura de minha espada, com a ponta equilibrada sobre a pedra antiga de sua sepultura, deixo a mente vagar em busca de esquecimento, senhora dos amores profundos, comandante do juízo dos homens, produtora contumaz de insensatez suficiente para alijar tropas inteiras do combate, as enviando para um deserto de sentimentos, transformando homens em bestas feras.

Como é fugaz a paixão, imperdoável quando usada como uma lâmina afiada nas mãos de um profissional insensato e cruel. Deslindar os seus segredos me foi ordenado, senhora os seios fartos e olhares cálidos. Preparado tanto quanto um ser humano de pedra, com o pensamento treinado por tempos e tempos para não se atingido por nada perfumado e suave, macio e quente, concentrado apenas no objetivo a mim confiado durante os treinos nas masmorras santas da colina dos imortais, sob os umbrais dos anjos muitas vezes imaginei como seria, mas passou longe do melhor que pude fazer! Não se imagina a beleza insana de uma mulher fenomenal e selvagem, quase uma divindade.

Quase nada pude fazer, atingido pelo primeiro sussurro que era sua voz como um dardo tranquilizante, ao mesmo tempo em que fazia formigar todo o meu corpo por um desejo incapaz de conter-se!

A minha respiração se alterou e a força das minhas convicções se abalaram instantaneamente, senhora dos pensamentos impuros de todos os pecadores e santos. Como um boneco me vi sob o seu encanto, que imediatamente produziu borboletas em meu estômago. Por cem dias e cem noites vivi como presa entre os braços de uma caçadora fulminante! Amar e amar virou um mantra ordenado pelos seus desejos, que realizados quase me assassinavam de prazer! Eu, o cavaleiro melhor preparado, o mais forte e inabalável, virei um a mais de seus súditos. Em determinado momento, no meio dos seus beijos, com o seu corpo em minha posse cheguei a duvidar da razão!

Tremendo como uma criança sob a neve quase abandonei o propósito de salvaguardar o mundo como o último templo, devorado deliciosamente pela sua gula suave e falsamente gentil.

No último momento, entretanto, senhora dos enganos mortais, busquei no fundo da alma toda a determinação a qual um homem pode ter com os seus deveres, e com os dentes trincados finquei o punhal prateado em seu peito a centímetros do meu.

Não há arrependimento no homem destinado a se tornar uma lenda, senhora das paixões permanentes. Hoje, em pé sobre o seu túmulo, sei disso mais do que os que por você pereceram, vítimas do seu hediondo amor. Você foi, mas permanecerá para sempre em mim.

                    Marcelo Gomes Melo

Sobre peras maduras e corpos insaciáveis

Ofereceu os lábios como se fossem as mais puras pétalas da rosa mais macia, suculenta e doce, assim, em um gesto de desprendimento e coragem dignos da heroína de um filme de época, os imensos olhos negros, misteriosos como o conteúdo se um frasco de veneno escuro como a noite no interior de uma floresta.

Olhando daquele modo acelera os meus batimentos e desestabilizou a base da minha vida, formada por terreno sólido, paredes seguras e céu claro, sem nuvens. O calor que emanava do corpo dela encontrava o meu no meio do caminho, um metro de distância e um vulcão antes adormecido gerando força suficiente para erupções abaladoras, constantes, eternas.

No limiar da perda de consciência, quando o restante do mundo desabaria e seríamos transportados para outro mundo, o dos prazeres infindáveis, nos conhecendo intimamente, suavemente, até que a velocidade aumente gradativamente, pronta para atingir a rapidez da luz, que chega antes do som como o relâmpago antes do trovão.

As mãos antes inquietas, sem ter aonde ir além dos bolsos, nervosamente, agora buscavam os corpos sem obediência às regras sociais; se tocavam e exploravam cada milímetro, e os lábios por ela oferecidos como favos de mel e chocolate amargo foram aceitos e tomados com fúria incontida.

Não havia vozes audíveis, nem frases coerentes, apenas sussurros desconexos e gemidos desesperados, exclamações abafadas, a busca pelo encaixe perfeito através de ações desajeitadas, adolescentes.

Arrancar a roupa apressados, em meio a beijos e carícias pode ser mais complicado do que parece! Roupas femininas podem ser destruídas, foram feitas para isso; logo tomará a camisa como posse, porque as roupas masculinas são mais simples e resistentes. É a natureza confabulando em nosso favor.

O local. Uma mesa, um tapete, um sofá… Elementos criados estrategicamente para quem tem urgência! Chaves na porta, um rádio tocando alto qualquer canção da Sade, os sorrisos nervosos, os movimentos ritmados que vão se tornando concentrados… O fôlego que some e volta, os olhos que se reviram, os cabelos que se espalham, o combate que se intensifica e as marcas que permanecem como lembranças para depois…

Os pensamentos que martelam incessantemente nos horários mais indiscretos, nos fazendo sorrir como bobos, sem poder explicar a razão aos presentes atônitos…

A espera do fim do dia para mais um encontro, de início contido, na tentativa inútil de parecerem colegas insuspeitos, com os toques acidentais e os sorrisos cúmplices dando a maior bandeira aos mais distraídos do mundo!

E no final um novo começo, com aqueles lábios macios e vermelhos oferecidos sem possibilidade de recusa, e as mãos… Ah, as mãos!

                    Marcelo Gomes Melo

O anjo exterminador

Eu sou o único da minha espécie e o primeiro do meu Tempo. Trago como instrução única abdicar de todos os prazeres e conflitos apenas para me concentrar na tarefa vital de julgar, com letalidade impiedosa, após observar o comportamento das outras espécies.

Não cabe a mim arbitrar ou demonstrar qualquer sentimento que turve os meus julgamentos. É tudo muito simples, observar, analisar e destruir. A mínima falha será punida, não há salvação nesse ramo. Todos perecerão sob a minha arma, sem o direito a uma palavra de arrependimento ou aceitação.

A surpresa em suas faces será a última imagem que ficará em minha mente. Na deles, nada. Irão para o além sem paradas no caminho. Uns sofrerão a tortura de relembrar a própria história para sempre, em um looping interminável. Outros habitarão o limbo, sem saber a razão, o motivo da culpa que os machuca ferozmente sem descanso.

Eu sou o primeiro do meu Tempo, não carrego paixões, nem qualquer coisa além de armas. O único da minha espécie, criado para restituir a glória através do extermínio cruel e indispensável dos seres cujas falhas são intrínsecas e milenares.

Esse caminho de mão única não tem distrações, nada dos lados, destruição à frente. Conduzir os incapazes é o meu dever; o meu signo é a paz imperdoável, sou o silenciador dos bramidos vulgares que acalentam os nocivos à luz.

Cérebros queimarão e o odor liberado embalsamará os ridículos para que sejam atropelados pela parte insana que correrá a esmo tentando encontrar salvação sem alcançar êxito.

Cada um exercerá o seu papel nesse final de tempos em que a limpeza se faz necessária. A chuva ácida corroerá a tudo e em meu redor apenas escuridão.

A lenda que me tornarei para os novos durará milênios, e os fará temer tudo o que foi feito até o tempo antes deles, portanto nada será repetido por séculos, até que se esqueçam e retomem o caminho de mão única, ameaçando o equilíbrio universal.

Nessa época, então, eu, o único da minha espécie e o primeiro do meu Tempo retornarei, com mais armas, mais impiedoso, para cumprir o meu destino que é observar, analisar, julgar, punir.

O rastro de destruição, como um cometa, se afastará das galáxias até desaparecer por completo. E serei conclamado e temido de boca em boca e nos registros escritos e digitais. Eu sou o anjo exterminador.

                              Marcelo Gomes Melo

Outras belezas em um mar de fraquezas

Já parou para pensar que o que se considera feiura são outras belezas, do tipo não compreendido por quem está acostumado a seguir os rótulos, aceitando participar da ditadura do que pode ou não ser perfeito.

Quando criaram a moda, cuidaram em espalhar para todas as coisas, inclusive pessoas, inventando meios para convencê-las a mudar por causa do que consideram estilo, assim as marcas se tornaram famosas e sonho de consumo dos que acreditam que o status das poses materiais superam a saúde intelectual e o comportamento racional.

O ser perdeu importância e o ter conquistou enorme espaço no mundo, fazendo as ideias coletivas constrangedoras, a não ser que sejam as defendidas pelos inúmeros grupos que se vestem igual, falam igual, parasitas inúteis prontos para seguir os líderes que vendem o absurdo como algo a ser conquistado e desprezando os que não têm chance alguma de alcançar os mesmos cosméticos para parecer de forma a ser considerado belo, instituindo a ditadura do que é feito.

E as pessoas com autoestima avariada não só acreditam como se submetem, adorando a beleza da moda definida por uns idiotas ambiciosos e se atolando na lama da miséria e tristeza, incapazes de se considerarem úteis, diferentes e capazes. Apenas outras belezas, que não precisam seguir normas e regras para enfeitar esse mundo de meu Deus.

Quem, em sã consciência teria a cara de pau de acreditar que podem determinar o que é belo e o que é feio? Quem, em sã consciência confiaria tanto nessas bobagens a ponto de destruir a própria vida procurando as sombras para se esconder sem nenhuma necessidade?

As inúmeras belezas habitam todo espaço, diferente entre si, seja material ou humana. Não existe feiura física, apenas a falta de beleza da alma, o horror que habita a mente e envenena o coração. Essas armadilhas diferem pessoas, as colocam em outras prateleiras de acordo com as regras que criaram, e assim a hierarquia impede que quem se julgue fora dos moldes definidos do que é bonito se coloquem à margem sem questionamentos.

A farsa que move o mundo não importa para nada, e mesmo assim domina as ações e enriquece os abençoados com o que os outros não nasceram.

Fica cada vez mais difícil sobreviver em um mundo tão fútil com pessoas tão vazias e toscas, sem chance alguma de contribuir com a evolução humana. Vivem rastejando por coisas inválidas e através dos dias perdem o direito de serem considerados racionais.

                    Marcelo Gomes Melo

Surtos fabricados para vidas descartáveis

Ele estava em uma dessas enormes lojas de eletrodomésticos, roupas, tecnologia, e tudo o que se possa imaginar, parado na seção de televisões de última geração, gigantescas e eficientes, que só faltam falar. Uma delas, de 75 polegadas estava ligada a um aparelho home theater com som estrondoso, apresentando uma luta de MMA, dessas sangrentas e ultraviolentas.

Hipnotizado observa os golpes massacrantes, chutes na cabeça, joelhadas que esmigalham narizes, olhos cobertos de sangue e supercílios inchados. Pernas arroxeadas não intimidavam os gladiadores corajosos e acostumados a lutar pela sobrevivência. A bolsa, que é a quantia recebida por cada um, iria sustentar ambas as famílias por um bom tempo, enquanto tentariam se recuperar no hospital, cada vez mais emendados como Frankensteins funcionários de um esporte doloroso, mas atraente aos sádicos que deliram vendo sangue e ossos partidos em nome da honra.

A cada golpe ele associava à sua vida. Soco cruzado no queixo: ele destruíra o despertador de manhã, forçando-se a levantar para o trabalho, ambiente maldito que odiava a cada dia, escravizado pela necessidade de sobreviver.

Joelhada no abdome: recebera da esposa a notícia de que estava grávida, em breve outra boca para alimentar, mais horas extras para implorar ao chefa, mais falta de sono e preocupação com o período de cuidados da mulher até o nascimento.

Cotovelada na testa, chute na panturrilha: nervoso ao chegar no trabalho recebera antes do bom dia a notícia de que o patrão queria falar com ele urgentemente. Mais recriminações, broncas e ameaças de demissão, o que era corriqueiro, pensou, descobrindo que o café era de ontem e estava frio.

Chuva de socos e antebraço na cara: notícia de que os negócios da semana deram errado e perdera clientes. Trincava os dentes e arregalava os olhos, os músculos dos braços retesados, os cabelos da nuca eriçados.

Chave de braço, esticando a ponto de quebrar: o chefe chegara e bruscamente lhe dera bilhete azul aos gritos, desrespeitando um funcionário de muito tempo de casa que estava em má fase. Todos ficaram sabendo imediatamente, então retirara-se totalmente humilhado, com o ódio do mundo e de todos os egoístas que não se importavam com nada nem com ninguém!

A desistência de um dos lutadores com o braço partido foi uma chave que ligou nele aquela vontade impossível de superar de devolver ao mundo as maldades das quais estava sendo vítima. A loucura começou como um furacão, assustando a todos os presentes. Sacando da mochila um taco de baseball partiu furiosamente destruindo as tevês com golpes violentos, varrendo prateleiras e quebrando vitrines.

A raiva o tirou da sensatez, o único caminho era vingar-se quebrando a tudo e a todos. Os vigilantes que tentaram se aproximar foram atingidos sem piedade, cortes e pancadas desferidas aleatoriamente. A rotina de um homem pode destruí-lo a qualquer momento, ele é uma vítima de si mesmo e do entorno que têm significância em sua vida. Tudo pode piorar a ponto de não ter retorno.

Os policiais, ao chegar usaram armas de choque, derrubando-o através dos choques, fazendo-o tremer no solo como se sofresse uma crise de epilepsia.

Preso, algemado, apareceria no jornal da noite como mais um louco e ninguém jamais consideraria os motivos que o levaram ao surto. A imprensa, feliz, arrancaria o que pudesse do fato, torcendo, distorcendo e aumentando para manter o público hipnotizado em frente à tevê, horrorizados e dispostos a comprar tudo o que os patrocinadores seduzem nos intervalos, sem tempo para raciocinar. As coisas estão entrelaçadas, as vítimas, os espectadores devidamente fisgados, nem imaginam que em breve poderão se transformar em notícia para alimentar a mídia sedenta de poder e dinheiro.

                              Marcelo Gomes Melo

Imortais refletidos no espelho do teto

Eu te amo enquanto os nossos corpos desfilam nus pelo quarto à meia-luz, nessa atmosfera densa que espalha expectativas no ar, nos fazendo respirar paixão através dos olhares que trocamos, com promessas que em breve serão cumpridas.

O amor que sinto por você nesse instante é capaz de mover montanhas e chacoalhar prédios com o mesmo furor, mas delicado como uma pétala de outono ao sabor do vento frio no final de tarde, transpondo dificuldades para realizar desejos instalados em corações frágeis, preparados exatamente para tal propósito.

Querer desse modo requer método. Os passos que damos ao encontro um do outro são lentos, mas, como na superfície lunar sem atmosfera, nos conduzem rapidamente aos braços pelos quais ansiamos. A liberdade tem um jeito estranho de se manifestar, atando-nos fortemente, movendo os nossos corpos em um ritmo alucinante e indescritível!

Os seus cabelos caindo em cachos sobre os olhos em câmera lenta, o brilho no rosto contrastando com o fosco dos olhos distantes do mundo real, nesse exato segundo a beleza ideal para um homem em êxtase transcende a poesia inevitável de viver!

Esse prazer recíproco acelera o meu coração e é por isso que amo você ainda mais. É preciso mostrar com ações esse amor, cada palmo do seu corpo macio explorado avidamente, sem pudores ou resistência; lençóis amarfanhados em clima tórrido, sensações à flor da pele determinando pensamentos de eternidade.

O amor reflete imortais no espelho do teto, inebria com o aroma de flores e sabores ardentes do roçar de pele com pele. Essa é a declaração incontestável, tatuada nos corpos em manchas roxas e marcas avermelhadas, suspiros de desespero no caminho à linha de chegada, batimentos incontáveis e sussurros deliciados, sem hora marcada para amainar, o instinto tomando conta, alijando a razão para realizar apenas o que queremos, além do que precisamos, surpresas que ficam para depois nos corações e nos pensamentos, para sorrir e relembrar, e querer mais e pedir, e receber e desfrutar. É assim que é amar você. E poder declarar sem necessariamente dizer, apenas realizar, possuir e desenvolver o fruto inviolável que persistirá através dos séculos e além.

Eu amo você para além das palavras, dispensando qualquer compreensão, imiscuindo por todos os poros a energia divina que clareia e enobrece, enaltecendo o sentimento e transformando-o em lenda. E lendas são imortais.

                    Marcelo Gomes Melo

Cruzar o pântano carregando as flores do conhecimento

Tente escapar da vala comum na qual a grande parte das mulheres desse mundo se esconde, dê uma chance aos seus desejos mais furiosos, guardados no fundo da sua mente confusa. É a hora para o grito primal libertar o seu corpo das correntes morais impostas por uma sociedade pobre de espírito, permitindo que a sua alma flutue entre o vulcão e as cinzas, intocada pela lava destruidora.

Talvez seja a hora de submeter-se aos pecados plurais que lhe cutucam diariamente há anos sem resposta, rechaçados pela força imortal intrínseca ao ser humano que é hoje em dia. Reflita a respeito do que lhe incomoda realmente, descubra se é a opinião alheia ou o medo de espantar os fantasmas afastando as teias de aranha, infiltrando-se em um novo nível, corrompendo os seus princípios antiquados e aceitando a adrenalina que faz o seu sangue correr, o perigo da iminente descoberta lhe tirar o fôlego… Ansiar por isso mais vezes, reconhecer-se como a vencedora do concurso de sonhos realizados!

A partir de hoje sinta mais, não se abstenha de nada, experimente tudo com um olhar de curiosidade e a mente aberta, uma sombra de sorriso no rosto como uma Monalisa depravada, aprendendo e aperfeiçoando tudo o que está destinada a desfrutar, graças ao meu convite bem-intencionado. Inesperado, eu sei, mas, o melhor que já lhe aconteceu em todo esse tempo, musa das inspirações contidas em um pequeno frasco de perfume.

Venha comigo, mulher preciosa, acredite no que eu digo e no que lhe direi, mais tarde. Um mar de sabores percorrerá seus lábios, relâmpagos de prazer sacudirão o seu corpo e trovões assinarão com os seus gritos a tempestade de amor e a crença de que tudo a partir dali irá melhorar. Você será o algodão doce mais puro produzido para o paladar dos anjos, que cantarão enlevados em um coro perfeito que lhe conduzirá à luz eterna.

Os seus medos ficarão para trás, querida, contanto que prefira abandoná-los! As suas dúvidas se dissiparão em nuvens, caindo em seguida como chuva que emprenharão a terra, e ela, molhada, úmida, estará preparada para prover alimento ao mundo com fartura para sempre.

A mim restará arar, e plantar. Prometo que sou habilitado a fazer isso com doçura e profissionalismo, é o meu dom ancestral. Aceite o convite, me acompanhe esta noite, vamos, irmã, orar por todos os dias de conluio macabro pela falta de religião em você! Eu serei o seu pastor, o padre leal que lhe preparará a hóstia sagrada. O vinho será por sua conta.

                              Marcelo Gomes Melo

Antes que percebam

À revelia dos meus erros insisto em cometer o máximo de acertos que posso, para adquirir um tíquete em direção ao paraíso. E entendo as dificuldades envolvidas nessa jornada porque o mundo é gélido e o sol se distancia cada vez mais de mim, visivelmente.

Não há o que lamentar. Uma respiração profunda seguida de várias outras estabilizadas, ajuda a encontrar o centro das emoções; pelo menos é o que dizem os treinadores emocionais que recebem para determinar o nível de estresse das pessoas e calcular a potência de suas auras em consonância com o universo.

Toda a tristeza e as decepções acumuladas um dia precisarão escapar da represa na qual se encontram, é irreversível e irremediável. Pensar em qualquer tipo de fuga é tolice e covardia, não existe escapatória. Os que morrem antes retornam para assombrar os vivos, que se recusam a reconhecer a verdade e passam a vida atormentados, inebriados ou ambos.

As caminhadas prometem coisas semelhantes a auto reconhecimento, sem autopiedade e luz calmante no final. Só esquecem de avisar de que há desvios, pedras no caminho. Ainda bem que o poeta não esqueceu. Mesmo assim seria mais fácil encarar aquelas filosofias de filmes de kung fu, com paisagens, maravilhosas e enigmas para decifrar. O cinismo em mim é maior do que eu imaginava!

Não quero ser aquele que vai revelar a realidade ao mundo, muito menos outro com ideias radicais pré-concebidas, bradando um cajado de lágrimas e lamúrias contra os que discordam do que digo. Prefiro a paz que prometem aos domingos de manhã, mesmo que eu ainda esteja dormindo e não esteja apto a alcança-la. Seria essa uma dádiva ou punição?

É muita divagação para um só momento, é preciso muito mais esforço e ação para fazer valer a pena, portanto, é melhor seguir o passeio em silêncio, antes que notem que estou conversando comigo mesmo. Em voz alta.

                              Marcelo Gomes Melo

A ingenuidade como força motriz da existência

Chega um momento na vida em que se percebe o quão ingênuos se tem sido, durante todo o tempo. Em relação a todas as coisas! Ingenuidade a respeito das pessoas com as quais se convive, sobre os sonhos, sobre a sociedade em que se vive…

E essa ingenuidade gera um monte de clichês a respeito da vida perfeita, do trabalho perfeito, do status necessário, do amor que se deve ter e como deve ser! E todo mundo se esconde atrás desses ritos tolos, tornando suportável o fato de existir. As tristezas, quando se equilibram com a felicidade causam a sensação de bem-estar ideal, porque a balança mental permite olhar o horizonte e encontrar um ponto de apoio, um farol para guiar os tormentos e os prazeres.

Nesse instante um clique faz perceber a utilidade de ser ingênuo e procurar acreditar nas coisas que sequer sem admitir contestação, nem de si mesmo. A bendita ingenuidade com a qual se é brindado desde o nascimento e nos protege da realidade crua, por isso as inúmeras teorias da conspiração, aliens, fanatismo político, religioso, agnóstico, não importa, qualquer uma!

A matrix que incentiva inúmeros grupos a viver com alguma coisa em comum, que estimule a continuar pelo tempo necessário a ser útil para alguma coisa ou para alguém. Depois disso, terminada a importância, a morte é o prêmio final, talvez o mais desejado. As alternativas são todas piores: insignificância, inutilidade física, incapacidade intelectual.

A ignorância é uma mãe bondosa e gentil que impede que a imensa maioria deixe a escuridão durante todo o seu período de permanência no planeta, sobre a Terra e não embaixo dela. À medida em que se vai sendo amaldiçoado com algum conhecimento a alegria some, a amargura toma conta e o sentido de viver desaparece rapidamente.

Pessoas amargas sobrevivem, o propósito varia entre se achar dominante, calculista e cruel, e se achar dominado, injustiçado, usando como desculpa para o masoquismo que os move inexoravelmente; os alimenta como idosos no parque dando migalhas aos pardais.

A ameaça de conhecer as coisas como são é maior do que se pode acreditar, é a razão para seitas ou grupos estranhos de adoradores de qualquer coisa proliferarem livremente disseminando confusão e destruição. Isso é necessário para que o curso se mantenha durante alguns séculos antes de serem rompidos irreparavelmente através de uma sucessão de tragédias monstruosas que eliminarão grande parte da população para que recomecem do zero, com novas regras, novos ambientes e novas necessidades. Quem sabe o segredo do universo seja esse? Aliás, seja o segredo menos necessário de ser descoberto. Para que as coisas não se quebrem e a razão de existir jamais se renove.

A iluminação seria apenas livramento. Só isso, nada mais.

                              Marcelo Gomes Melo

Sombras de um futuro nefasto

O ano é 2078, os seres híbridos povoam a Terra, 80% máquinas, ou outras espécies orgânicas, 20% humanos. Os seres humanos puros restantes são absoluta minoria, velhos e incapazes de pensar. Não fazem parte da lista de seres vivos de primeira classe. Não estão mais o topo da cadeia alimentar e não mais se reproduzem, o que significa que logo estarão extintos e não são considerados um risco à unidade social, que é como são denominados os antros de convivência, monitorado por robôs. As máquinas estão no comando e implementaram uma guerra sangrenta e impiedosa contra os humanos, a quem consideram uma praga capaz de devastar o planeta.

Eles são uma raça maldita, abaixo dos gafanhotos e ratos, e tão duráveis quanto as baratas, resistentes a qualquer situação, adaptando-se rapidamente e implementando protocolos nocivos a qualquer outro tipo de vida. Incivilizados.

Essa foi a razão pela qual, ao vencerem a batalha pelo controle, as máquinas se asseguraram de que os humanos restantes terminariam exterminados naturalmente, através de assepsia total, e os tornaram inférteis no processo. Pelo bem dos antros, e para demonstrar algum tipo de piedade, emoção a qual não entendiam, mas que fazia parte dos seus registros programados nos primórdios pelos seus imperfeitos criadores, os permitiam esgueirar-se como roedores pelas esquinas escuras, desde que não ameaçassem à vida de nenhum outro animal ou máquina.

A configuração do planeta é completamente diferente agora. Visto do espaço a cor é cinza por causa da maioria de artefatos metálicos sólidos e gigantescos na superfície, ausência de verde, pois não existem florestas, e de azul, porque os mares infectados são da cor de petróleo, com uma consistência parecida.

As nuvens são negras e o céu grafite, cortado por raios frequentes. A chuva foi substituída por som de estática, como as antigas televisões fora do ar, com um barulho agonizante. As leis são simples e diretas, não há negociatas, as coisas são como são para todos, independente de sua espécie. As espécies diferentes devem respeitar as diferenças sem questionamento; qualquer deslize implica em eliminação direta.

Não é permitido ter humanos de estimação, nem os alimentar diretamente. Eles podem viver desde que consigam encontrar uma forma sem ofender aos outros. Como não são mais capazes de raciocinar, instinto é tudo o que lhes restou. Não sabem ler, escrever e nem falar mais, portanto se comunicam através de sinais, que estão esquecendo rapidamente e logo não conseguirão interagir sequer entre eles mesmos.

Um triste fim garantido pelos delírios de grandeza da época em que criavam outros seres arrogantemente, e massacravam o ambiente com uma crueldade tão abjeta que logo se voltaria contra eles. Todos os seus escritos e feitos, denominados cultura foram destruídos pelas máquinas como conteúdo ofensivo a quem quer que seja. Em breve não restará um traço de que um dia existiram sobre a Terra e se julgaram deuses. Puseram fim em sua raça porque eram indignos desde o começo. Não Há volta.

                              Marcelo Gomes Melo