A vida é uma sequência de poemas costurados…

         Todo dia eu componho uma canção diferente em meus pensamentos, com versos que duram apenas o suficiente para controlar as ações extremas que eu poderia tomar, acalmando os meus passos, destruindo as angústias, transformando-as em pó sob os meus sapatos; ficam para trás, carregadas pelo vento.

          A minha mente trabalha vinte e quatro horas por dia em velocidade insana, atropelando a força do meu corpo, me atirando contra o muro da existência a cada vez em que me ergo e resisto. As canções que componho a cada momento, sem mover os lábios salvam a minha vida constantemente, ainda que outras pessoas não as cantem nem as ouçam; que os versos se desfaçam pelo ar assim que imaginados, criados para suavizar as dores auto emuladas e os constrangimentos comuns inerentes à vida em sociedade.

          O certo é que a força motriz por trás dos meus atos é a música que produzo para os meus ouvidos e o meu coração, e mais ninguém. A poesia particular salva muitas vidas, atenua os temores, encanta o cérebro e lhe empurra para o mundo, consciente dos dissabores e preparado para compreender, intuir e saborear a poesia alheia, enriquecendo a si próprio com outras visões, interagindo com o resto do planeta com uma leveza capaz de contribuir social e mentalmente para a evolução.

          A vida é uma sequência de poemas costurados, colados, adesivados uns aos outros. Precisam ser lidos e observados com melhor atenção para transformar e evoluir.

Marcelo Gomes Melo

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“Batendo palmas para louco dançar”

          Estupidez e morte. Essa é a rota da degradação moral e espiritual. A mesquinharia é serventia da casa.

          De que adianta ousar vender uma imagem ao mundo, se essa imagem corresponde, não ao que você realmente é, mas ao que a demanda social ordena?

          Sentir-se excluído por não seguir as determinações da maioria lhe magoa a ponto de abandonar os próprios princípios?

          Ser democrático é curvar-se ao desejo da maioria sem deixar de defender os próprios pontos de vista; respeitar e se fazer respeitar sem usar de falsidade e boicotar ao que foi aprovado nas sombras, covardemente, sem nenhum escrúpulo.

          Buscar fazer parte do bolo de incautos que se deixam levar pela maré por medo de fazer as próprias escolhas é deprimente. A visão atual de viver em sociedade é clara: siga os dominantes, esconda os seus pontos de vista e aceite a promiscuidade, o trato aos idosos, adolescentes, crianças e demais minorias com condescendência e mantenha a cabeça baixa, sempre pronto para aplaudir a loucos dançando.

          A alternativa é badernar, mentir, destruir e sacanear em nome de um posicionamento tosco, mentiroso e cruel.

          Sim, é isso mesmo. Sair do caldeirão para cair na frigideira. A mediocridade está no poder!

                              Marcelo Gomes Melo

Civilização em movimento autodestrutivo

         É estranho para quem, de repente, percebe que tem história para contar, que viveu determinada época que hoje faz parte da história, participou de ações que mudaram a sociedade e criaram novos dogmas que à época pareciam comuns e hoje ditam comportamentos.

          Essa estranheza se dá porque tal percepção equivale a reconhecer que envelhecemos. Citamos acontecimentos de há trinta anos com conhecimento de causa enquanto a juventude que nos cerca apenas ouviu falar. Isso significa que somos mais experientes e sábios ou meros seres ultrapassados?

          Os novos desígnios da juventude nos soam absurdos porque estão calcados na agenda da mídia contaminada que distorce fatos para estender a lavagem cerebral rapidamente, e faz parecer comuns atitudes dantescas, principalmente para nós que envelhecemos.

          Sobreviveremos o suficiente para lutar contra a nova configuração ou sucumbiremos a ela, ficando marginalizados, tratados como a um móvel antigo, superados e ignorados, inclusive desmerecidos por quem segue o enterro sem ter conhecimento adquirido, mas busca cavar um novo túnel para viver segundo as próprias regras, mesmo que sejam toscas e tortas, e, na nossa visão envelhecida os levem a uma derrocada completa, ou venceremos a guerra para manter os velhos hábitos após o nosso desaparecimento físico, como por exemplo modelo familiar, importância religiosa. Noções de convivência, ética e responsabilidade?

          Civilizações somem. Dinossauros e outros animais foram extintos. Dogmas viraram objetos de estudo e controvérsia. Estamos envelhecendo e defendemos a bagagem intelectual adquirida como molde indiscutível para viver com qualidade, no momento em que as novas gerações escolhem maneiras diferentes das nossas, e que aparentam ser nocivas e destrutivas. É assim que caminha o mundo, em potencial força de autodestruição inigualável. Quem viver, verá.

                              Marcelo Gomes Melo

Amores de todas as cores

Amplie o seu modo de pensar. Abandone as definições protocolares sobre o que é o amor e de como é amar. Desenvolva o talento da permissão; permita a si mesmo deixar fluir o pensar, o ser e o pertencer. Conecte-se ao universo partícula por partícula! Desligue-se do que é padronizado, afaste-se dos impulsos de excluir, de discriminar por opiniões diferentes, posicionamentos políticos contrários, opções sexuais divergentes, tom de pele ou linguajar diferenciado… Simplesmente inclua-se. Ouça e entenda, antes de falar. Compartilhe ao invés de dividir; conteste sem afastar. Desfrute das cores, dos sonhos, da vida! Os números são infinitos.

O amor é resiliente, é a cola que une as partículas, a ponte que intermédia as atitudes, é a chama da autoestima e não cobra por isso. Não é preciso nada além de se fazer presente e deixar o amor se apossar, corpo e alma, diluindo decepções, pondo de lado recalques, substituindo tristezas.

Os amores de todas as cores, de todos os sons, de todas as nuances, gratuito, desprovido de impostos, incorruptível, com todos os seus artifícios. O amor paterno. O amor materno. O amor a Deus. O amor sensual, sexual; o amor pela natureza. O amor pelos animais, pela vida, pelo trabalho. O amor pelos esportes, o amor próprio… Enfim, todo amor é instrutivo, é saudável, construtivo e viável. Se não o for, não é amor.

Conscientize-se de que é importante falar, escrever, ler, agir, expressar todo esse amor; como paliativo às dores, alternativa à intolerância e demonstração cabal de que um gesto, um pensamento, uma atitude são essenciais para controlar o universo, particular e coletivo.

Fale de amor, sinta! Ame!

                    Marcelo Gomes Melo

Deixando-se levar pela ambição. Cuidado com o que deseja.

         O delegado estava sob grande pressão, precisando demonstrar resultados para aspirar a um cargo maior; talvez até uma candidatura a vereador, deputado… Subprefeito já servia. Síndico do prédio dos milionários já aceitaria de bom grado, mas não havia nada que lhe indicasse uma chance dessas imediatamente.

          Estava pensativo no balcão do bar, sentado num daqueles bancos altos, o copo de uísque e outro de cerveja ao lado, pensativo, observando os demais frequentadores, a maioria conhecidos da cidade. Que razões teriam para votar nele, aqueles que estavam jogando bilhar, os que degustavam salgadinhos e bebiam seus drinques debatendo assuntos gerais, uns com fervor, outros mansamente?

          Seria preciso acontecer uma hecatombe política em forma de onda para que ele surfasse no topo e virasse o assunto principal, capaz de ser erguido ao status de imprescindível para uma carreira longa e lucrativa. Só que naquela cidade ninguém morria! Nem de atropelamento, muito menos de causas naturais. Então não havia como se destacar se não tivesse nada para investigar, coisa alguma para exigir a sua liderança ou seu lado filosófico de conselheiro.

          Ele esvaziou o copo de uísque e pediu outro com um gesto ao garçom, passando a se ocupar da cerveja na tulipa. Foi quando entrou uma loira exuberante no salão. Todos os olhos se desviaram para ela de imediato, principalmente os masculinos, hipnotizados com a visão. Alta, vestido colado ao corpo, em listras horizontais vermelho e branco, Acabava logo no início das coxas firmes.

          As mulheres pensaram em como ela iria fazer para sentar em um banco daqueles sem deixar nada à mostra, enquanto ela se dirigia sensualmente ao balcão, segurando uma bolsinha pequena. Os homens não pensavam, torciam para que ela sentasse em um daqueles bancos altos, e se arrumaram instintivamente, voltando o olhar para o caminhar da loira.

          O delegado suspirou, apertando os olhos e acendendo um cigarro. Era deslumbrante, a mulher, realmente. Mas em nada poderia ajudá-lo a obter status a ponto de conseguir virar um astro com potencial político. Além do mais, as chances que tinha com uma mulher daquelas era igual a de ser eleito presidente da República naquele momento.

          Quanto mais ela se aproximava, mais podia-se enxergar o contorno do corpo dela. Era como se não vestisse nada por baixo! Ou os camaradas tinham sido abençoados com visão de raios-X de uma hora para outra! Estavam tão concentrados nos vales e montanhas da loira que sequer perceberam sua cara aterrorizada, a maquiagem borrada pelas lágrimas… As mulheres deduzindo que pelo menos era feia de rosto, a vagabunda, e os caras pensando que no escuro todos os gatos são pardos.

          Ela parou bem na frente do delegado, que custou a acreditar que era com ele que a moça falava, em um tom choroso e nervoso. Minuciosamente percorreu a interlocutora, dos cabelos aos dedos dos pés, lenta e incisivamente. Só não pediu que ela virasse porque seria inescrupuloso demais naquele recinto. Ainda não entendera uma palavra do que ela dissera; toda a atenção estava voltada para a observação empírica do objeto.

          Finalmente ela alteou a voz e ele entendeu que a pergunta era se estava falando com o delegado. Engolindo em seco, concordou com a cabeça, já imaginando se tirara a sorte grande e sairia dali com aquele monumento. Isso lhe daria status suficiente para fumar um charuto no dia seguinte lá no clube e insinuar as peripécias da noite anterior, como um cavalheiro o faria. Contando o milagre sem mencionar o santo.

          A loira estava explicando uma coisa que parecia terrível, e se referia ao vestido que usava, pois percorria o corpo todo com as mãos finas enquanto falava, parecendo uma dançarina de strip tease sem muita experiência. Todos os clientes a rodearam para ouvir a história. Os que estava acompanhados fortemente agarrados por suas mulheres, que os observavam com cara de “depois te pego”. Só então o delegado conseguiu manter o foco e prestar atenção ao que ela dizia.

          O fato era sensacional, ele pensou, aprumando-se profissionalmente no banco e afastando o copo de uísque. Aquilo lhe daria exposição suficiente para ser candidato a promotor ou até mais! O vestido que ela usava… Que vestido? A mente dele insistia em refutar. Ali nem tinha vestido algum, dava pra ver até a alma! Aquilo era um novo tipo de tecido em relevo, só podia ser!

          As mulheres reclamaram e demonstraram alguma piedade e horror com o caso contado por ela. Preciso me concentrar de uma vez! Isso pode decolar a minha carreira, essa loira é o trampolim para o meu futuro! Gentilmente pediu silêncio às mulheres e pediu que ela contasse outra vez o que acontecera.

          Ela era casada. Bem casada, ressaltara. O marido era político famoso e supostamente chefe da máfia naquela cidade. Ele estivera viajando e retornara antes do previsto, pegando-a na companhia inocente de seu ajudante pessoal, um rapaz que era encarregado de pintar-lhe as unhas, fazer-lhe massagem e levar suas camisolas e lingeries para o cesto de roupa suja. Além de tudo, o menino nem era chegado no modelo tradicional de amor; estava juntando dinheiro para trocar de sexo! Mas o marido mafioso não pensou assim quando o pegou com ela dentro da banheira. Segundo a explicação dela, o moço estava apenas fazendo borbulhas dentro da banheira para alegra-la pela falta que sentia do marido.

          Alucinado o mafioso sentou em uma cadeira e mandou que seus capangas pregassem o ajudante dela na banheira, para que ele tomasse um banho permanente e fizesse borbulhas com o próprio sangue. Ela presenciara ao ato ali, em pé, nua e molhada, se encolhendo e cobrindo como podia. O marido se irritara com aquilo, perguntando porque ela estava se cobrindo se usava roupas tão curtas que mostrava até a fiação elétrica! Então ordenara que dois capangas a secassem vigorosamente com toalhas ásperas, e quando ela ficou sequinha, cobriram seu corpo com supercola e enfiaram aquele vestido, para que ficasse vestida para sempre.

          Os homens, gelados, voltaram aos seus lugares pedindo mais uma dose da bebida mais forte, enquanto as mulheres demonstraram uma alegria perversa e sorriram disfarçadamente; algumas hipotecaram solidariedade e olharam para o delegado significativamente, querendo uma solução para o caso.

          Pálido, ele esvaziou o copo de uísque de uma vez e em seguida o de cerveja. Tossiu um pouco e um filme passou por sua cabeça naqueles segundos. Talvez status demais não fosse tão bom assim… Talvez um cargo proeminente exigisse coisas que deixariam pessoas mais poderosas irritadas com ele, e a vida era tão frágil!

          Apagou o cigarro e pagou a conta enquanto instruía a loira sobre o que fazer. A senhora vá até um hospital agora e depois volte pra casa, seu marido deve estar mais calmo e poderão conversar melhor. Amanhã a senhora procura a delegacia e conversa com o delegado de plantão, caso ainda queira registrar alguma queixa. Mas brigas entre casais são assim mesmo, deveria relevar… Levantou-se e se despediu, pedindo licença e saindo o mais depressa que podia em direção à sua casa. Do lado de fora ligou o carro com as mãos tremendo e suspirou de alívio, secando o suor da testa com a manga do paletó: ainda bem que estaria de folga no dia seguinte!

                              Marcelo Gomes Melo

 

Algo que você não sabe o que é

         Escalar a muralha escorregadia com as mãos ensanguentadas, os dedos feridos e quebrados, o vento descaradamente sussurrando propostas indecorosas em meus ouvidos zumbindo, todas elas mortais, enquanto me empurrava impiedosamente para o lado e para o além não foi a parte mais difícil.

          Concluída a tarefa hercúlea após horas de sofrimento, com a testa franzida em concentração inquebrantável, alcançar o topo, a pele do rosto queimada pelo frio, os olhos esgazeados de cansaço e dor, ameaçar um arremedo de sorriso, mais uma careta, um esgar, a expressão mais feia do mundo, mas significando vitória, superação sobre todas as forças, naturais ou extrassensoriais. Vitória sobre os medos pessoais, sobre as indefinições da vida, as visões enganadoras e os terrores intrínsecos à uma alma que vagueia sem rumo em um mundo apocalíptico.

          Um longo olhar embaçado, sem enxergar a vastidão em redor, mas ainda assim superior, provocativo, um quase morto recusando-se a deixar o ambiente rústico dos vivos, por piores que sejam as provações. Um longo e renovado suspiro. Ar gelado magoando os pulmões e relembrando cada escoriação, e em seguida a lembrança de que a descida precisa ser iniciada. A missão concluída ao pisar no chão do lado oposto, a terra dura que equilibra os corpos humanos e permite que o olhar assista aos corpos celestiais em movimento quase imperceptível, brilhantes em seus destinos distantes.

          A descida é bem mais fácil, tentam se convencer os alquebrados, porque aos trambolhões chegam ao final quase sem escolha, empurrados constantemente pelas forças invisíveis que os dominam. E ao tocar finalmente o chão, os joelhos se dobram. As forças se acabam, a breve vitória anterior se transforma em tragédia. O suor escorre pela face pálida e enxerta a terra envenenada, enquanto, sem nem mesmo poder olhar em volta, é possível sentir a zombaria muda do ambiente, perguntando de que valeu tanto esforço, se o resultado era sabido desde o início.

          Não há mais forças quando a cabeça encosta o chão e os braços, inúteis, se deixam cair, completamente vencidos. O cérebro trabalha, entretanto. A vontade permanece. A boa vontade não se extingue ante as agruras. O ar que enche os pulmões permite a recuperação lenta. A natureza que destrói é a mesma que ajuda; não existe almoço grátis. Tudo exige uma troca, em apoio, em sorriso, em dinheiro, em favores… Em agradecimentos, sobretudo.

          Não é preciso ser religioso para ter fé. Não é necessário saber que é fé o que permite crer na ciência. Não é preciso denominar como fé. Basta lembrar que há algo que lhe permite quebrar e consertar, sofrer e superar; algo cujo nome você desconhece. Algo que você não sabe o que é.

                              Marcelo Gomes Melo

 

…Assim falou o psicopata canibal

       “- Os olhos dela reviraram!” – Disse ele esfregando as mãos numa alegria quase juvenil, os dentões brancos à mostra – Isso é bom! Isso é muito bom! Ha, ha, ha, ha, ha! Quer dizer que atingi o famigerado ponto G!

          Seus olhos demonstravam uma alegria quase febril enquanto percorria aquele quarto, sorrindo e respirando fundo para absorver aquele odor acre, para ele tão sensual. A adrenalina sacudia suas veias e o fazia quase estrebuchar de um prazer contido.

          – Minha querida, vamos tentar outra coisa, em minutos, me deixa apenas recuperar o fôlego, não seja cruel! A juventude abandona a um homem aos poucos, mas a experiência consome suas incertezas e faz dele um experimentador melhor.

          Realmente se assemelhava a um cientista ou a um Indiana Jones qualquer, com antebraços musculosos e uma tatuagem no rosto, ao lado do nariz, entre muitas outras pelo corpo. Contava que aquele corvo fora tatuado às costas com tinta de caneta preta e pregos de construção; isso causava  certa atração rústica por parte das mulheres. Os cabelos compridos e sem corte definido estavam espalhados displicentemente e as manchas vermelhas na camisa branca e no jeans azul sugeriam ser algum pintor; não de paredes, de telas. Um artista plástico. Isso ajudava bastante em suas conquistas. Além de sorrir sempre. Sorria para todos: mulheres, crianças, idosos… Isso era uma virtude para o seu ramo de trabalho. Considerava-se um político sem partido; um ator de monólogos teatrais que conseguia facilmente transformar-se em um mestre dos diálogos, quando encontrava companhia.

          – Querida, querida, você permanece se contorcendo como um peixe fora d’água! Que energia fenomenal! Eu adoro essa resistência feminina volátil como uma bomba em contagem regressiva! – ele murmurava uma canção qualquer enquanto manipulava um pote de vidro com um conteúdo branco, tentando abri-lo. Falava olhando-a com o canto dos olhos, concentrado no vidro. – Pronto, meu amor, abri! Esses caras inventam esses potes com tampas quase impossíveis de abrir. Vê? Machuquei meu dedo! – vira-se para a cama e mostra as gotas de sangue escorrendo dos dois últimos dedos. Faz uma careta que julgava engraçada e aproxima-se da cama, sentando-se ao lado dela com o pote aberto.

          – Minha querida, por que não fica de lado, um pouquinho? Assim! – empurra gentilmente, colocando-a de ladinho – Hummmm, esse gemido foi cruel! – sorri enquanto derrama parte do conteúdo na palma da mão machucada – Sabe o que farei agora? Não? – sorri com os enormes dentes brancos, embora ela estivesse de costas para ele e não pudesse ver o que considerava seu mais sexy atributo – Vou untar você com esse preparado.

          Começa a esfregar o conteúdo pelas costelas da moça, cantarolando a mesma canção de antes – Ohhh, pode gemer mais baixo um pouco, querida? Não queremos atrair a atenção dos vizinhos, queremos? Quer saber o que é isso? Sal, principalmente; iodo. Bom para contusões – espalhava o preparado pelo lado do corpo da moça, enquanto conversava gentilmente – Não remexa tanto! Vai se sentir muito mais relaxada com esse meu preparo maravilhoso… Como uma costela gaúcha pronta para ser admirada por todos os seres carnívoros antes de uma refeição memorável!

          Terminando de untá-la, afastou-se até um canto do quarto em que havia uma bancada de madeira com diversos objetos e escolheu um espeto de um metro e meio, afiado como a língua de uma fofoqueira, com empunhadura de madeira cilíndrica e ponta em forma de flecha em aço reluzente.

          – E agora, meu amor, o grand finale! Terei que amordaçá-la para isso, querida, mas assim que estiver devidamente espetada, deixarei que sua voz excitante seja ouvida por todo o quarteirão vazio! – o sorriso aumentou de tom e os olhos avermelhados ganharam contornos assustadores. Arrancou a camisa branca completamente manchada de sangue e a pele repleta de símbolos demoníacos ficaram à mostra. Empunhando o espeto de churrasco gaúcho aproximou-se lentamente da moça imobilizada sobre a cama, bastante ferida e sem forças para qualquer reação. Na ponta da cama ergueu o espeto, arregalando os olhos e soltando um urro de satisfação antecipada.

          A porta foi derrubada com um golpe poderoso e seu corpo passou a sofrer espasmos contínuos, balançando freneticamente enquanto fitava os policiais armados até os dentes disparando sem piedade contra cada parte de seu corpo amalucado. Soltou o espeto, que lhe escorreu pelo lado do corpo e fincou-se no chão de madeira que receberia seu corpo ensanguentado segundos depois.

          – Tudo bem, fique calma, somos do resgate especial, você está salva! – disse uma policial enquanto soltava as amarras da moça com um corte feio nas costelas cobertos de sal e iodo. Outro solicitava uma ambulância e um rabecão.

          Na rua, jornalistas de programas sensacionalistas já se acotovelavam tentando buscar as melhores imagens para o noticiário noturno; moças bonitas, vestidas com terninhos bem cortados ajeitavam os cabelos e empunhavam microfones, prontinhas para mais um show.

                              Marcelo Gomes Melo

Conjugação da vida. Poço de falibilidades.

          Eu errei quando achei que as diferenças sociais de um povo não seriam pessoais, e que as necessidades de melhoria, por serem gerais, causaria uma mobilização conjunta, mesmo com visões opostas e acirramento natural dos ânimos. A compreensão do que significa ser democrático triunfaria, apesar dos pesares.

          Tu erraste quando, ao defender o ponto de vista do teu lado, exageraste nas ações difamatórias, violentas e reprováveis, quando o que estava em jogo era bem maior, e as prioridades de um todo superam em muito as vaidades de uma parte.

          Ele errou quando aceitou os termos da disputa, transformando-a em guerra e agindo como se o mundo fosse acabar caso a vitória não viesse; ou agindo como se fosse eliminar da face da terra os vencidos, caso eleito vencedor.

          Nós erramos ao evitarmos debater as falhas do país na totalidade, em vez de destacar a corrupção alheia de forma obsessiva, alijando os corruptores do processo, sem nos darmos conta de que tudo é corrupção e atitude danosa, que atinge a todos indiscriminadamente, então estamos cercados por corruptores e corruptos em todos os níveis e de todos os lados, o que é perigoso e fatal.

          Vós errastes quando esquecestes de que a corrupção envenena e prejudica a qualquer dos lados. Trocar acusações tentando varrer os próprios atos desonestos para debaixo do tapete, como se inexistissem, em nada ajudará a limpeza de que tanto o país precisa. Toda a excrescência precisa ser lavada para começarmos de novo, valorizando coisas que deveriam ser intrínsecas ao ser humano, principalmente àqueles que exercem atividades públicas: ética, honestidade, probidade, transparência, respeito às ideias contrárias…

          Eles erraram quando se permitiram afastar do mar de lama e observar do alto de suas torres de marfim, inatingíveis, sem querer se sujar nem se envolver, abdicando de participar do processo de mudança pelo qual todos bradam em uníssono, há tempos. Respingos da lama sobrarão aos que não se manifestaram, e todos no mesmo barco remando metade para cada lado apenas rachará o navio em dois, e o afogamento se tornará inevitável, sem sobrar ninguém para contar a história.

          Essa é a conjugação simples da vida no perfeito do indicativo, porque no princípio era o verbo, garantindo as ações que permitem uma comunicação perfeita, coesa, coerente, clara e eficiente.

          Uma comunicação perfeita, dentro das regras de convivência, diminui as chances da instalação do caos, que permitiria o surgimento de ditadores malucos prontos para devastar sociedades, destruir convicções e criar uma história obscura em uma derrocada infinita.

                                       Marcelo Gomes Melo

Canções antigas que refletem o presente

            Canções que há trinta anos pareciam banais, criadas por uma juventude relapsa em relação aos problemas político-sociais do país à época, ainda mais se comparados aos supostos ícones da resistência artística de duas gerações anteriores, incensados até hoje como deuses da luta política brasileira, embora seja desaconselhável que um idealista lucre com os seus ideais, parecem mais atuais do que nunca quando as ouvimos.

          Os criadores de uma música criticada por ser mera cópia estrangeira, sem consistência e até mesmo ingênua, produziram letras que refletiram, e ainda hoje refletem os momentos vividos por um povo sofrido e enganado com enorme frequência, embora hoje em dia a violência e a ausência de tolerância gerem atitudes escatológicas absurdas e nojentas como forma de expressão, talvez pela falta de conteúdo intelectual ou capacidade educacional.

Ultraje a Rigor – “Inútil”

“A gente não sabemos escolher presidente/Tem gringo pensando/Que nós é indigente/Inútil!/A gente somos inútil!”

Plebe Rude – “Até quando esperar”

“Até quando esperar/A plebe ajoelhar/Esperando a ajuda de Deus/Posso, vigiar teu carro/Te pedir trocados/Engraxar seus sapatos”

Biquini Cavadão – “Zé Ninguém”

“Eu sou do povo/Eu sou um Zé Ninguém/Aqui embaixo as leis são diferentes”

Capital Inicial – “Psicopata”

“Papai morreu, mamãe também/Estou sozinho/Eu não tenho ninguém/Sempre assisto a Rede Globo com uma arma na mão/Se aparece o Gianechinni/Adeus televisão”

Legião Urbana – “Geração Coca Cola”

“Quando nascemos fomos programados/A receber o que vocês/Nos empurraram com os enlatados/Dos USA, das nove as seis/Desde pequenos nós comemos lixo/Comercial, industrial/Mas agora chegou nossa vez/Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês”

          Agora resta-nos descobrir, daqui a trinta anos mais, se o país ainda será “baile de favela”.

                              Marcelo Gomes Melo

Comi!

 

          Eu mordi. Sentei os dentes sem piedade porque era gostosa demais para deixar passar. A minha imagem diante daquele suculento acepipe, macio e maravilhoso era a de um lobo salivando, os enormes dentes à mostra, pronto para dar o bote e degustar instantaneamente, saciando a minha voracidade.

          Não poderia renegar a minha espécie, fugir ao meu destino de apreciador das delícias inesgotáveis, inexplicáveis, inefáveis… Mesmo Não me sendo oferecido aquele regalo arredondado, cheiroso, quente e atraente, os meus músculos tremeram de prazer ante à mera possibilidade de comer. E agora, lambuzado e satisfeito posso garantir que comi.

          Eu faturei e foi muito bom; comeria de novo, devo ressaltar. A fome cumpre diversos estágios, que instigam a coragem de um homem e o transformam em uma arma pronta para atirar.

          O primeiro estágio é o cheiro. Você inspira e flutua, sendo guiado ao jardim dos prazeres mesmo sem saber a forma e o sabor, desejando assim mesmo através da imaginação.

          O segundo estágio é a observação. Você vê aquela maravilha saltitante, palpitante, aparentemente à sua disposição, prontinha para ser tomada e comida com um gosto especial. Você devora com os olhos.

          O terceiro é o toque. Suas mãos tateiam, exploram, apertam, espremem, mapeiam… É uma loucura até o momento em que você prepara o ataque fatal, olhos esbugalhados, suando gelado frente a expectativa maioral de saciar o desejo.

          Não precisa receber permissão, não aguenta esperar um oferecimento. Você sabe que dará um enorme problema e será julgado pelo excesso de desejo que gerou essa atitude antissocial e odiosa de sua parte.

          Eu comi! E afirmo que foi bom, embora ela tenha ficado surpresa com a minha ação veloz, chegando, pegando e me deliciando sem me importar em pedir antes, pelo menos.

          Ela ficou paralisada e estática, sem saber o que dizer ou fazer, na frente de todos. O fato é que tomei o sonho enorme das mãos dela e comi sem dó nem piedade. Depois, satisfeito, um tanto envergonhado, informei: “Eu pago outro”.

                              Marcelo Gomes Melo

 

 

As noites de fita cassete

      “Havia um tempo/Em que eu vivia/Um sentimento quase infantil/Havia o medo e a timidez…” Cantava o vocalista da banda brasileira RPM embalando uma juventude diferente, que não sofria as agruras da violência com a qual as gerações atuais têm que lidar. A tecnologia que domina a vida dos recém-nascidos nesse século não existia, e a grande novidade por aqui era o surgimento das rádios FM, segmentadas, trazendo as novidades europeias e americanas em termos de música com mais facilidade. Começava a se formar uma cultura musical diferente, assim como um comportamento que hoje pareceria pré-histórico e extremamente ingênuo.

          Não existiam CDs, muito menos pen drive ou qualquer dispositivo tecnológico de ponta. Nada de computadores pessoais ou música MP4. O que existia era o aparelho de som três em um, com tocador de vinil, rádio e tocador de cassete, primordial para a produção das fitas com 90 minutos de música sem interrupção para ouvir e dançar nos bailinhos de fim de semana, caseiros, que reunia a turma do bairro alternando os locais entre as casas de cada um.

          O funcionamento consistia em gravar as canções durante a semana, direto do rádio FM, torcendo para que a rádio não colocasse a vinheta no meio da música e estragasse tudo, ou que os pais invadissem a sala para oferecer lanche justo na hora da gravação, fazendo com que tudo fosse por água abaixo.

          A seleção romântica era a mais importante; havia programas noturnos no rádio para isso, com uma hora e meia de canções lentas para dançar e namorar, e isso era encarado com muita seriedade. Uma fita cassete com as melhores canções elevaria as chances de conseguir um par para o restante da noite. Táticas de sedução eram debatidas ao som de Marvin Gaye e até de Bem, do Michael Jackson, sem saber que a letra se referia a um rato.

          A bebida era meia de seda, a festa começava com os “balanços” até que chegava a hora das “lentas” e de cada um procurar a garota que despertava os seus instintos românticos mais profundos para curtir durante a sequência de canções. A época era inocente comparada à atual; a garotada tinha uma história de vida e valores extremamente peculiares, viviam como adolescentes e não com adultos. Cresciam sem a maldade interior no DNA que hoje se verifica desde o berço. Como é que essa juventude se tornou adulta e se transformou em pais gerando filhos com valores tão diferentes?

          As noites de fitas cassete produziam felicidade e simplicidade, regadas a beijos e sussurros no ouvido, nada além disso. Nostalgia pura de quem está envelhecendo, e com isso comparando diferentes gerações com diferentes propósitos, o que não deixa de ser injusto.

          O mundo segue como um trem descarrilado, e os seres humanos são passageiros buscando sobreviver a seu modo, em tempos ruins. O que nos resta é acreditar na ciclotimia da vida, que volte a ser mais tolerante, feliz e rica como em outras épocas. O problema é se, para que isso aconteça seja necessário zerar tudo e recomeçar a semear após terra arrasada.

                              Marcelo Gomes Melo

As palavras de amor

          As palavras de amor nunca foram tão usadas fora de contexto! Banalizando o sentimento por trás da voz que as pronuncia com intenções mesquinhas, inúteis, tornando-as mortais.

          Ignorantes todos os que proclamavam inconscientemente o que desconhecem, em nome de coisas fúteis e sem substância, que os enganam mais do que pensam enganar.

          As palavras são agulha e linha delineando o que o pensamento constrói e destrói instantaneamente. Se mal-usadas imobilizam a cadeia da vida individual prejudicando a coletiva. E o que é pior: matando a palavra, destituindo-lhe todo o poder que lhe é devido em nome da total falta de inteligência afetiva, sem contar o intelecto machucado.

          A população cresce afetada pelos dissabores inerentes ao círculo no qual convivem, decaindo vertiginosamente em termos de qualidade e sensibilidade.

          A luta, portanto, centra-se na recuperação das máquinas internas que consertam a dificuldade de viver, aguçando a percepção para o relacionamento humano tome um rumo correto, e o cérebro construa um vocabulário compatível com as situações, respeitoso e eficaz, que mantenha todas as palavras de amor em uma redoma especial para que sejam usadas com significância, apenas quando necessário, valorizando-as ao máximo. Desse jeito elas não se diluem, não mais são usadas como mera formalidade nem com intenções vagas e desonestas.

          Como alcançar a esse objetivo é outra coisa.

                              Marcelo Gomes Melo

A ocupação

         A ocupação começou há anos, tanto que nem lembro ao certo como aconteceu, o que provocou e como se deu. Foi um redemoinho de emoções inexplicáveis de ações inconclusivas gerando frustrações absurdamente inquietantes.

          Uma ocupação assim, silenciosa é ainda mais surpreendente, invasão alien dos filmes de ficção, porque invade sem estardalhaço, e quando se percebe já era, irmão. Perdeu, playboy!

          Aí é uma sequência de olhares furtivos, de mão roçando-se descuidadas, troca de palavras provocativas, sorrisos nervosos… E uma vontade torturante crescendo, dominando, instigando e fazendo ofegar. Transformando quase toda a razão em instinto puro.

          E quando se olha em torno tudo o que você vê faz referência ao desejo, à necessidade e ao prazer.

          Nesse momento alucinante imagine que a corrente se quebre. A distância se torne dolorosa e tudo o que transcorria para uma memorável conclusão amorosa imensurável se modifique sem acordo, apenas a sequência natural das coisas em um mundo ferino, cruel, insensível.

          Mesmo essa distância, entretanto, não apaga sentimentos nem desejos, apenas os conserva em fogo baixo, sem queimar, mas, mantendo brutalmente aquecido, provocando visões espantosas de amor pleno e satisfação gigantesca que faz deitar sobre nuvens e observar o universo do lado de fora.

          Finalmente, inesperadamente, um reencontro. Tranquilo, feito com atitudes superficiais, a cordialidade escondendo a selvageria de se apertar, amassar e misturar totalmente, com um “dane-se o mundo” engatilhado para tudo o que não disser respeito aos dois.

          Duas almas eletrificadas pelo desejo milenar, sorrindo quase friamente, usando palavras sem sabor, recriminando-se internamente porque não é o que queriam, é apenas o que o politicamente correto exige.

          A ocupação, meus senhores, ocorreu há tempos! Não há mais o que conquistar, já está tudo dominado. Em uma hora ou outra essa bomba relógio vai explodir e o tesão se concretizará, pleno, arrogante, atropelando como um trator os anos passados de vontade contida.

          Isso é o mais próximo da felicidade? Não, não o é. Haverá longas conversas tentando entender, entremeadas por momentos de carinho, por horas de prazer, por dúvidas incontáveis e até desentendimentos prováveis.

          A busca da felicidade completa é eterna. É a felicidade em si, difícil descobrir algo assim. Tempero.

                              Marcelo Gomes Melo

Breve relatório sobre os esquemas individuais para lidar com o amor

         Simone ama menos nos dias chuvosos, porque ela acredita que o amor que lhe cabe será diluído e levado pela enxurrada para longe demais, e assim demorará a voltar.

          José tira a camisa e se atira no chão de sua propriedade de terra batida sob a chuva torrencial, porque acredita que será encharcado de amor, com gotas maravilhosas lavando a sua alma por todos os poros, então abre os braços e sorri largamente, deixando-se açoitar por amor líquido e certo.

          Tariq restringe o seu amor à sombra nos dias quentíssimos sob o sol imperioso. Ele crê que será ressecado e seu amor, trincado como um solo sem água, caso se descuide.

          Georgina confia mais no escuro da noite, nas luzes difusas e odores saudáveis, que inspiram e incutem o sentido da coragem eterna para atos incontáveis e indizíveis. Fora isso ela se recolhe com pudor e se finge de pedra.

          Raul tem coragem e, com a faca entre os dentes adora a floresta que o cerca e sufoca, tomando-lhe o amor à força, vencendo-o em seu próprio jogo. Depois, cansado, esgotado, se arrasta de volta à fogueira, para esperar, com o senso de sobrevivência aguçado, um alívio completo e um medo persistente no fundo do seu ser.

          Elena bebe. Ela acha que o álcool a manterá entorpecida quando o amor se dispersar e aposta nisso para esquecer. Elena é cética e prefere o palpável ao inconsistente, embora deseje o estado alterado da percepção para lhe proteger do que inexiste. Caso inexista.

          Arthur e Serena não amam.

                              Marcelo Gomes Melo

A arte de comunicar (se)

“Mineirim”

          “Sapassado era sessetembro. Táveu na cuzinha tumano uma pincumel e cuzinhanu um kidicarne cum mastumate pra fazê uma macarronada cum galinhassada.

          Quascaí de susto quano ouvi um barui didenduforno, parecenu tidiguerra. A receita mandopô midipipoca denda galinha prassá. O forno isquentô, umistorô e o fiofó da galinha ispludiu. Nossinhora! Fiquei branquinem lidileite.

          Foi um treim doidimais, sô! Quascaí dendapia. Fiquei sensabê doncovim, proncovô, oncotô. Oi procevê quilocura! Grazadeus ninguém simaxucô”.

          O texto acima é a transposição literal da manifestação de alguém que desconhece a forma culta do idioma, conseguindo tranquilamente através da maneira informal de utilização da língua expor os seus pensamentos, baseando-se em seus conhecimentos pessoais e experiência de vida.

          A linguagem oral é diferente da modalidade culta, dependendo do conhecimento do indivíduo falante, o que não inabilita a ação comunicativa. A obtenção da capacidade de utilizar a norma culta da língua portuguesa é primordial para que todos os falantes se incluam socialmente em igualdade de condições, de compreender e argumentar com riqueza de detalhes, participando ativamente do crescimento da sociedade.

          Aproveite para exercitar o seu conhecimento culto da língua, transpondo o texto acima, encontrado na internet, para a forma gramaticalmente correta. Divirta-se!

   Marcelo Gomes Melo

Esbagaçada: Jantares & Molecagens

       Éramos três casais reunidos em um desses restaurantes especializados em frutos do mar elegantes, em nossa tradicional reunião social entre amigos, há muito consolidada. A ideia era conversar, sorrir e, além de diversão, degustar boa comida e bebida. Mais ou menos. Isso porque tínhamos um combinado antigo: o rodízio de quem escolhia a refeição nesses encontros. A cada reunião, um de nós recebia esse privilégio e sua escolha não podia ser contestada pelos outros, por isso a pressão era enorme; nada de escolhas exóticas, por conta dos paladares delicados principalmente das mulheres.

          Essa era a minha vez de fazer a escolha. Isso causava uma leve apreensão… Terror, mesmo, de que eu os fizesse comer algo terrível e assustador. As minhas escolhas eram consideradas por muitos como alternativas, embora o meu gosto fosse extremamente simples. A ideia que carregavam era de que eu poderia fugir ao padrão apenas para rir do desespero deles (longe de mim fazer algo desse naipe!).

          Então me observaram fazer a escolha prendendo a respiração, olhos atentos para a reação do garçom e ouvidos ligados para tentar decifrar alguma coisa de minha voz quase inaudível. O garçom não demonstrou nenhuma surpresa ao anotar o pedido, o que para eles era um bom prenúncio. Logo chegaram uns drinques para aguardarmos o prato principal e todos começaram a conversar tranquilamente; o medo de ter que comer sopa de olhos de peixe passara.

          Pediram-me que comentasse a respeito do prato e respondi misteriosamente se tratar de um caldo bastante afrodisíaco e delicioso.  E o melhor era que cada um teria a liberdade de construir o que queria comer, tornando a refeição mais forte ou light, a seu desejo pessoal. Isso arrancou sorrisos eufóricos de todos, felizes com a margem de manobra caso não gostassem da escolha. Restaurante de frutos do mar, caldo… Só poderia ser caldo de peixe, pensaram.

          A refeição chega. Um vasilhame exótico em forma de cunha com conteúdo fumegante e cheiro maravilhoso. O acompanhamento: farofa, cogumelos, pimenta, azeitonas sem caroço, verdes e escuras, alcaparras… O vinho era branco, para acompanhar as iguarias. Os comentários foram os melhores, apesar de as mulheres se entreolharem ao ver o caldo vermelho escuro.

          O garçom explicou que a ideia era fazer um pirão com a farofa, acrescentando os acompanhamentos conforme a própria vontade; a consistência do pirão era também pessoal. Ele fez a primeira vez, para que aprendêssemos, serviu o vinho e afastou-se. O relaxamento foi total. A refeição estava deliciosa, o vinho, idem; a conversa melhor ainda!

          O tempo foi passando, todos repetiram, fazendo misturas personalizadas e outra garrafa de vinho foi esvaziada. Então um deles resolveu perguntar mais a respeito da comida:

          – Que delícia! Onde você ouviu falar desse prato, não conhecíamos!

          – Qual é o nome? Só é servido nesse restaurante?

          – O nome é “esbagaçada”. – Respondi suavemente.

          – Nossa! Por que esse nome surreal? Do que é feito esse caldo maravilhoso?!

          – Bem… É caldo de tartaruga fêmea.

          Um silêncio mortal em torno da mesa. Olhares incrédulos procurando em meu rosto algum resquício de brincadeira.

          – E por que o nome, “esbagaçada”?

          – É a forma como é feito. Deve ser algum prato típico de uma das ilhas caribenhas, não tenho certeza.

          – E… Como é feito esse caldo, você sabe?

          – Não é proibido matar tartarugas?!

          – Por acaso, sim, tenho uma vaga noção de como é feito o caldo. – Saboreei os olhares apreensivos antes de continuar – Dizem que as tartarugas precisam ser caçadas com uma arma especial.

          – Que arma é essa? Um taco de baseball?!

          – Não, metralhadoras. – Mulheres pálidas. Um dos homens não conteve o tremor das mãos – É preciso esbagaçar as tartarugas, antes de colocar em um liquidificador e…

          Fui interrompido por uma corrida de saltos altos e mãos segurando as bocas em direção ao toalete feminino, quebrando aquele clima de elegância e assombrando os demais frequentadores. Acho que um dos caras não correu também por vergonha, mas estava esverdeado e esvaziou a taça de vinho. Ficamos bebendo em silêncio e arremedos de riso, até que, meia hora depois elas voltaram, recompostas. Pálidas, mas recompostas. A mesa havia sido retirada e havia mais uma garrafa de vinho no lugar; encheram as taças sem nenhuma delicadeza e beberam como se fosse água, tentando matar o sabor do que comeram com tanto gosto.

          Eu tive que, meio sorrindo, meio envergonhado, desmentir, afirmando que era brincadeira. Pedi desculpas e disse que não era caldo de tartaruga, e que muito menos foram detonadas por metralhadoras, que ficassem tranquilos. O desconforto foi melhorando aos poucos, enquanto observavam meu sorriso e iam se convencendo de fora apenas uma mera molecagem.

          – Eu jamais os faria comer tartaruga metralhada! Ora bolas! – e brindamos a isso. Agora já falavam pelos cotovelos, e me recriminavam pelo terror que causei.

          A conta chegou, pagamos, e o garçom, sempre solícito, agradeceu a nossa estadia, perguntando gentilmente enquanto nos levantávamos:

          – Vocês querem que eu mande aprontar o casco para viagem? Muitos levam como recordação da casa!

          E provocou desmaios em série.

                              Marcelo Gomes Melo