A paciência deixa de ser virtude e passa a ser caminho para a obtenção de lucro

O professor não tem mais paciência para orientar o aluno. O aluno não tem paciência para ser orientado pelo professor e nem entender a importância de crescer com o aprendizado.

O médico não tem mais paciência para ouvir o paciente. O paciente não tem paciência para entender o atendente, que não tem paciência para realizar nenhum atendimento.

O policial não tem paciência para lidar com os cidadãos de bem porque a maioria das pessoas com quem lidam é de bandidos. Os cidadãos de bem não têm paciência de confiar na polícia porque acreditam que todos são corruptos e mal preparados.

A imprensa não tem paciência para apurar de verdade as notícias. A população não tem paciência para filtrar as informações que lê e assiste, separando o joio do trigo; o que é plantado e inventado do que é verossímil.

Quem é que tem paciência hoje em dia? Além dos budistas, é claro. Além dos discípulos de Ghandi e dos flutuantes experts em meditação transcendental. Além dos indianos que praticam autopunição para espiar os pecados. Além dos monges que ateiam fogo ao próprio corpo num ato de produção de churrasco humano inigualável. Quem?

Muitos profissionais são pacientes! Os vendedores de carros usados, por exemplo. Os vendedores de jazigos; os profissionais que ganham por comissão…

Os mais pacientes de todos, com grande certeza são os gerentes de banco e os candidatos a algum cargo político. Esses são donos dos sorrisos mais largos do mercado, os mais atenciosos, gentis e preocupados seres do planeta. Apertam mãos, beijam, oferecem cafezinho, colocam crianças no colo, fazem promessas sem fim.

Seria o caso pensarmos que a paciência estaria ligada à possibilidade de obtenção de lucro? Às vantagens a serem adquiridas? Isso seria desacreditar em um dos pilares da virtude humana, corrompida irrefutavelmente em tempos de individualismo e pensamento baseado apenas no materialismo e no imediatismo da ascensão social promovida pelo dinheiro conseguido a qualquer custo.

As pessoas já não pensam mais na coletividade, não sentem piedade nem agem apenas pelo bem do coletivo. Toda a demonstração de apoio e comoção com o sofrimento alheio, com as tragédias que ocorrem diariamente é falsa, da boca pra fora, visam apenas elevar a própria imagem pública.

O ser humano de hoje será o autômato inanimado de amanhã?

Marcelo Gomes Melo

 

A maneira mais eficiente de estudar

Como é que se estuda? Quero dizer, qual é a maneira mais eficiente de estudar? Estudar, é claro, é a maneira de agir quando se deseja aprender algo a respeito de alguma coisa, para uso imediato ou em curto prazo. Ninguém, entretanto, parece estudar para adquirir conhecimentos para a vida toda. O imediatismo rege as escolhas e as necessidades das pessoas, então se deduz que estudar é algo extremamente chato e só se estuda quando se quer algum benefício velozmente.

É por isso que muitos irão definir a melhor maneira de estudar como decorar. Decore o que provavelmente lhe será útil e em seguida descarte, logo que o resultado seja positivo às suas expectativas. Outros dirão: acomode-se em um ambiente tranquilo, silencioso, mantenha o foco em suas atividades e mãos à obra. A concentração trará resultados. Mesmo assim, a ideia de que terá que submeter-se a uma ação bastante chata permanece; estudar nessas definições é o mesmo que contornar uma obrigação com objetivos específicos e que serve apenas a determinados momentos da vida. Estude por obrigação. Obrigue-se a estudar. Faça-o apenas quando achar que precisa. Se não puder driblar essa necessidade através de atitudes antiéticas como colar, consultar disfarçadamente, enganar…

Ainda assim a pergunta se repete: como é que se estuda? Qualquer adolescente não hesitará em lhe dar sua receita infalível de estudar; pego meu livro, sento em frente à televisão na sala, com meu prato de arroz com feijão no colo e o fone em um dos ouvidos, porque o outro serve para ouvir a amiga ao celular; o notebook ao meu lado, conectado à rede social, para me certificar de manter contato com o maior número de colegas possível, enquanto assisto vídeos de minha banda favorita, e pronto! Só não funciona quando minha mãe fica gritando da cozinha, atrapalhando minha concentração.

A verdade é que estudar não é nada disso. Ou, pelo menos, não deveria ser nada disso. Estudar é um processo muito mais simples e o objetivo vai além do imediatismo, da aquisição de conhecimento descartável e inútil. Estudar é se deixar encantar! É aprender sem perceber que está aprendendo, guardar ao invés de decorar. É saber, após diversos anos, que aquele conhecimento foi conservado e sua utilidade se comprova através dos tempos. Estudar é concentrar-se pelo sorriso, indignar-se com as informações das quais discorda, e que vai lhe ensinar a aprimorar o poder de análise e crítica, utilizando o conteúdo para ajudar a formar a própria opinião. Estudar é aprender a manter a mente e o coração abertos para todas as possibilidades, construindo a própria grandiosidade. Estudar é só isso. Muito disso. Ou tudo isso.

Marcelo Gomes Melo

Inexplicável ausência de entendimento

Oh, montanha secular

Onde as temeridades se acumulam

A neve sob o luar embevece tanto o olhar

Quanto o medo estremece e tira o ar

Em um andaime no trigésimo andar

 

Morro um pouco mais todo dia

Conformado

Por me sentir eternizado

Na poesia

Entre suas coxas

 

Vitimado incessantemente

Pelas mazelas da vida

O homem agradece os bons momentos

Com apenas um gesto cansado

 

Sem você

Para que os arroubos adolescentes

Se a fraqueza é o destino

Dos materialistas condescendentes

 

Não se sabe até onde

As solas dos sapatos aguentarão

Até que o grito dos massacrados

Cessem

 

Luz tardia para os perdidos convictos

É emoção prévia para desvalorizados

Céticos

Uma inexplicável ausência de entendimento

Marcelo Gomes Melo

A inevitabilidade da vida

         “Eu coberto de pele coberta de pano coberto de ar e debaixo do meu pé cimento e debaixo do cimento terra e sob a terra petróleo correndo e o lento apagamento do sol por cima de tudo e depois do sol outras estrelas se apagando mais rapidamente que a chegada de sua luz até aqui”.

 

O poema acima é de Arnaldo Antunes, cantor, antigo participante da banda de rock brasileiro Titãs em seu livro “As coisas”, lançado pela Editora Iluminuras.

Salta aos olhos o estilo particular de Antunes, linguajar rápido indicando uma sequência interminável, num círculo que se repete incansavelmente através dos tempos, e que retrata a rotina que acompanha um ser humano do nascimento ao sumiço.

O ritmo constante, sem quebras pode querer nos mostrar como é a vida: inevitável, sem pontuação que a interrompa por piores que sejam os obstáculos. O homem define suas metas e encara os seus medos de acordo com as próprias escolhas. Isso não lhe garante controle completo de maneira alguma, visto que se submete aos caprichos e comandos da natureza e a liderança tranquila e inexorável do tempo, que se arrasta grandiosamente, infinitamente superior às expectativas de meros mortais.

Somos cristais vagando entre meteoros gelados e potentes, refletindo o brilho de outros planetas, a beleza e os mistérios do universo numa busca incessante de Deus, que habita em toda partícula de cada um de nós e à nossa volta. Nós que o respiramos e compartilhamos sua consciência.

O ser humano é todo fragilidade e questionamentos, envolvido em mistérios e incapaz de alcançar, pela durabilidade curta e sensatez de criança, o infinito que o cerca e rege suas atitudes de forma sutil e suave, como marionetes guiados pelas habilidosas mãos de seus mestres.

O que resta a cada participante nesse teatro divino é cumprir o seu papel com destreza, cientes como poucos da inevitabilidade da vida.

Marcelo Gomes Melo

 

A imagem que as pessoas criam de si mesmas, o amor e a fé cega.

É incrível como funciona a imensa roda do universo, partindo do ponto de vista de nós, seres humanos, aqui no planeta Terra. Nada do que fazemos ou pensamos parece realmente real; existe uma verdade individual, a visão que temos e formamos de nós mesmos, e a maneira que imaginamos como somos vistos pelas outras pessoas.

Essa imagem pública tem mudado através dos tempos. É como as celebridades se comportam ou são induzidos a se comportar para chamarem a atenção do público e conseguir criar polêmica suficiente para que funcione como um coletor interminável de dinheiro e, consequentemente influência social. Poder. Políticos criam uma imagem pública de cordeiros, representantes reais do povo inculto e ingênuo, mas com enormes tendências corruptas, capazes de criticar a maneira como seus eleitos roubam, mas praticam pequenos assaltos diários, desvios de conduta e ética aos quais perdoam descaradamente em si mesmos, embora não nos outros.

A imagem criada para vender ao resto do mundo é sempre perfeita, ou beira à perfeição, ao mesmo tempo em que precisam demonstrar tolerância a aberrações para serem considerados modernos e aptos a liderar uma vanguarda cada vez mais bizarra, valorizando a qualquer coisa que gere e multiplique dinheiro e fama. Os donos dessas imagens plastificadas de si mesmos sabem disso, e utilizam a ajuda de consultores para produzir uma imagem atraente e ideal para fisgar a maioria imensa da população, o que é muito mais simples hoje em dia com a velocidade do alcance das redes sociais. Para influenciar pessoas basta coragem e cara de pau, porque há milhares de imbecis dispostos a seguir qualquer coisa; idolatrar de carrinhos de bebê a pedras preciosas, de drogas alucinógenas a espaçonaves.

Hoje todos sabem e comentam a respeito do que costumam chamar de “fake”, mesmo que não saibam o significado da palavra em seu idioma; não é um problema nem traição utilizar-se de uma imagem pública totalmente oposta ao que se é na realidade. Ou no que se imagina ser.

Além da imagem pública, existe a imagem particular, que corresponde ao que a pessoa acreditar ser e parecer. Quando se olha em um espelho é o que ela vê, e pensa que todas as outras pessoas as veem assim também. Essa imagem é o sonho de cada um tentando se concretizar, e envolve apenas excelentes valores; então todos são lindos, magnânimos, justos, felizes, coerentes, amorosos, ricos, saudáveis, generosos… Quase santos. Os defeitos são esquecidos no fundo do baú. Aliás, ninguém parece reconhecer que têm defeitos, de mau hálito a cleptomania, de mau humor a covardia, de burrice a traição.

É por isso que, quando alguém sente atração por outra pessoa, jamais é pela razão que a outra pessoa imagina. Ela pode tentar exercitar as maiores virtudes que pensa possuir, sorrindo sensualmente, contando as maiores mentiras sobre como se é inteligente e acredita na paz mundial, suprir todas as necessidades materiais, espirituais ou sexuais e apostar que são as razões para ser amado verdadeiramente, e no final das contas não ser nenhuma dessas as razões para ser gostado. Primeiro nunca é possível saber que é realmente amado, a não ser em circunstâncias para lá de especiais, por puro acaso. Nada do que se possa ouvir ou falar, fazer ou demonstrar será suficiente para bater o martelo e acreditar definitivamente. Depois, a motivação da outra pessoa para dividir os momentos com você, bons ou ruins pertence apenas a ela, e é muito provável que ela nunca as divida com você. E vice-versa. É preciso fantasiar para tornar suportável a vida.

Por fim a imagem real. A forma como as pessoas lhe enxergam e julgam. Sim, porque faz parte do ser humano julgar o tempo inteiro, tendo ou não fatos suficientes para isso, ou razão, ou direito. As pessoas julgam. Talvez seja por isso que a existência seja tão etérea e a humanidade esteja disposta a acreditar em qualquer coisa que alivie o fardo de viver.

A decepção é a moeda de troca através dos tempos. Será que vale a pena saber de verdade o motivo de alguém que diz lhe amar? Será que a razão do amor vai lhe satisfazer ou lhe destruir completamente? Ninguém sabe os segredos que a alma dos seres humanos esconde, nem eles mesmos.

Embora o ódio seja mais facilmente explicável, e explicitado sem nenhum constrangimento, é o amor, que todos acham possuir em todos os níveis, o mais difícil de explicar; ou de entender. É o amor, juntamente com a razão de existirmos, que muitas almas inquietas procuram obsessivamente desvendar. Mas o mesmo amor, tão cantado em prosa e verso, tão decantado e confessado através dos tempos é a pedra filosofal, enquanto as pessoas são os alquimistas, em uma busca incessante, instrumento crucial para o conhecimento maior que consolidaria a razão para a existência. O que move essa procura nada mais é do que a fé cega.

Marcelo Gomes Melo

A hora do Tapitinguá

Hanestésio é macho bomba, é garoto sepulcral, é modinha plural, o homem das baladas epidemiológicas. Gosta de se vestir de forma inequívoca, tornando claro que está antenado com as tendências delimitadas pelo mundo em todas as áreas, principalmente as artísticas.

Artísticas na óptica dele, diga-se de passagem. E o gosto de Hanestésio, homem do amor e da flor, tiozinho Sukita sem noção, não era lá essas coisas, pendendo mais para o péssimo do que para o razoável. Mas gosto é algo bastante subjetivo, dizem os que vivem em cima do muro, sem querer se comprometer com nada que lhes traga antagonismo.

Hanestésio empurrava aquele boné na pequena cabeça de melancia, uma calça daquelas retalhadas que custam uma fortuna mesmo que faltem pedaços, um tênis de jogador de basquete americano, coloridão com cadarços desamarrados, uma camisa polo de marca dois tamanhos maior e um óculos escuros utilizado como “arquinho”, resquício da mania do pagode que ele mantinha sem perceber. Ah, cabe ressaltar que os óculos ficavam sobre o boné, o que era ainda mais bizarro!

E assim ia ele às baladas mais exóticas, batalhando as novinhas como se não houvesse amanhã, tentando se acomodar em uma tribo que não parecia ser a dele em nome da felicidade. Hanestésio era homem de cidade pequena, distante dos grandes movimentos da moda universal, mas desde que inventaram o computador, as informações se encurtaram, chegavam mais rápido ao local em que ele se escondia, isso era estarrecedor. As notícias chegavam, mas distorcidas como na antiga brincadeira do telefone sem fio, que existia na Era da pedra lascada ou coisa assim.

Para ele a sexta feira era a “hora do Tapitinguá”, era quando a onça bebia água, e a “onça” era ele; saía para a caçada semanal por sexo, cerveja e funk carioca, não necessariamente nessa ordem. Esses elementos acalmavam o âmago tumultuado de Hanestésio, o desespero silencioso que o massacrava, a solidão tática que se espalhava por todo o seu ser e o fazia tentar eternamente manter o pescoço acima do lamaçal que era a vida para um ser humano como ele.

Pode ser triste, mas é assim com milhares de indivíduos, e talvez o apego às futilidades salve diversas pessoas do ostracismo e da morte; então, já filosofando sem querer filosofar, nada é tão sem categoria que não se possa absorver alguma coisa em proveito próprio. Isso faz de muita gente uma recicladora ambulante de lixo.

A hora do Tapitinguá pode ser um engano solene ou uma salvação sensacional, dependendo de como cada um encara a sorte, ou a falta dela. Levando isso em consideração, todos deveriam agir como Hanestésio em 50%, pelo menos; criar a própria hora, seja em que dia for, seja em que local estiver. Sem esquecer que a ausência de preconceito também pode se tornar um preconceito, metalinguisticamente falando.

Marcelo Gomes Melo

“A fome e o fim do mundo”

Cada vez mais Organizações sem fins lucrativos são criadas com o intuito de aliviar a pressão social sofrida pelo número cada vez maior de pessoas desprovidas de condições mínimas para sobreviver nas cidades grandes. Gente sem moradia, sem emprego, sem alimentação, sem qualquer esperança de se igualar aos chamados seres humanos. Sim! Essas pessoas não consideram a si mesmas, e não são consideradas por muitos, seres humanos!

Como aborda em seu mais recente thriller, “Inferno”, editora Arqueiro, o escritor Dan Brown, a superpopulação ameaça a sobrevivência do mundo como o conhecemos, levando em consideração a precisão da OMS de que logo haverá mais pessoas do que alimentos na Terra desencadeando uma série de problemas que impediriam a natureza de reciclar-se sem o surgimento de catástrofes que, supostamente diminuiriam drasticamente a população, facilitando a sobrevivência do planeta.

Trata-se de fantasia? Talvez. Mas, voltemos ao início: ONGs no Brasil, mais especificamente em São Paulo, trabalham há anos tentando introduzir uma alternativa de desenvolvimento sustentável, oferecendo projetos de relevância social, econômica e ambiental, como por exemplo, a “Organização Cidades sem Fome”, www.cidadessemfome.com.br, que desenvolve um sistema de hortas comunitárias com o objetivo de, utilizando-se de áreas públicas ou privadas sem uso específico, proporcionar trabalho e capacidade de produzir, comercializar e utilizar-se dos produtos às comunidades carentes. Partindo desse principio, diversas outras possibilidades surgem. O combate à desnutrição e à violência e o benefício ao meio ambiente urbano através da educação e conscientização dos indivíduos.

Apoiar e divulgar trabalhos como esse, que forma técnicos em agropecuária e se alia à escolas, públicas e privadas, é um gigantesco passo para colaborar com o futuro das gerações famintas, ou mal alimentadas, tanto de corpo quanto de espírito. Porque almas com fome não podem exercer o dever e o direito de cidadania.

                          Marcelo Gomes Melo

A ferramenta mais poderosa da face da Terra

Hoje em dia ninguém faz mais nada sem a prodigiosa ajuda da mídia. Ninguém compra uma tevê que não lhe proporcione status, nem compra um automóvel que pessoas importantes não tenham nem recomendem; ninguém assiste a um filme que não seja aclamado pela crítica ou curtido por trilhões de desconhecidos nas redes sociais.

Será que o ser humano perdeu a capacidade de analisar as coisas por si mesmo? São todos incapazes de gostar de algo que não seja abonado por uma grande maioria? É mais confortável ser parte da maioria, escondendo convicções em nome de fazer parte de uma maioria zumbi, cega para os detalhes que possam ser de maior utilidade em determinados casos e lhe tiraria da imensa base da pirâmide de seguidores sem opinião própria?

Pessoas que votam no candidato que acham que vai vencer a eleição, mesmo que não acreditem nele nem em suas propostas têm apenas um objetivo, que é dizer com orgulho que faz parte do lado vencedor. Não interessa que isso lhes custe a opinião própria, os ideais ou até algum lucro, moral ou financeiro.

Quem é que compra um produto sem esperar que milhares de rostos sorridentes o convençam na televisão, tomando os seus comentários como verdadeiros além do próprio julgamento?

E as atividades culturais? Só se assiste a uma peça teatral se os atores aparecerem em novelas, só se compra uma música se ela for cantada eternamente em todos os lugares da moda, mesmo que seja de qualidade duvidosa, só se compra um livro se o autor for alguém que cause polêmica suficiente para torná-lo celebridade, porque o status social deve ser mais importante do que a obra para essas pessoas; o conteúdo não é muito importante, afinal, na maioria das vezes nem será lido mesmo, servirá como peso para segurar a porta.

Por que cada vez mais as pessoas sentem enorme desconforto em tomar as próprias decisões, sem seguir a boiada? Autonomia vale ouro! Livre arbítrio é essencial!

Tomar as próprias decisões é a última barreira que impede que se faça parte da população dominada e direcionada pelas opiniões alheias sem fundamento e importância pessoal, porque vão de encontro às convicções enraizadas na alma. E são essas convicções que impulsionam e mudam o mundo!

Marcelo Gomes Melo

A falta de atitude também parece atitude

Existem os que não votam por ideologia; muito menos por conhecer e acreditar nas propostas, honestidade e competência do candidato. Votam apenas porque desejam estar com a maioria, para considerar a si mesmos vencedores, sem se importar com o quão nocivo será para eles mesmos tal decisão.

Existem os que estão sempre prontos para seguir, concordar com o que a maioria diz sem questionar, sem dar a si mesmos o direito de formar a própria opinião, mesmo que seja contrária à opinião da maioria. Pertencer à maioria sugere maior segurança; esconder-se atrás das linhas de frente, dos que morrerão por um ideal, isentando-se caso algo dê errado pode ser a decisão mais inteligente a tomar.

E os que engrossam o caldo da sopa de desgraçados formam uma imagem corajosa em um quadro mais amplo; fotografam como uma força a mais quando estão sorrindo no meio de outros seguidores que não sabem nem o que estão seguindo ou defendendo, achando-se protegidos pelos enganados que os ladeiam.

É assim que são feitos os grandes conchavos que decidem a vida de populações inteiras. É desse jeito que a história é escrita, pelas pessoas que sequer leem com discernimento. É assim, como diria o poeta, que caminha a humanidade.

Marcelo Gomes Melo

A escola que temos e a escola que queremos

“Às vezes, por prazer, os homens de equipagem
Pegam um albatroz, enorme ave marinha,
Que segue, companheiro indolente de viagem,
O navio que sobre os abismos caminha.

Mal o põem no convés por sobre as pranchas rasas,
Esse senhor do azul, sem jeito e envergonhado,
Deixa doridamente as grandes e alvas asas
Como remos cair e arrastar-se a seu lado.

Que sem graça é o viajor alado sem seu nimbo!
Ave tão bela, como está cômica e feia!
Um o irrita chegando ao seu bico um cachimbo,
Outro se põe a imitar o enfermo que coxeia!

O Poeta é semelhante ao príncipe da altura
Que busca a tempestade e ri da flecha no ar;
Exilado no chão, em meio à corja impura,
As asas de gigante impedem-no de andar.”

O Albatroz (Charles Baudelaire, Flores do mal)

Já dizia o velho e bom poeta francês Baudelaire, como citado acima em “O Albatroz”: em meio à corja impura, exilado de seus dotes e dons, até o mais preparado dos príncipes se vê impedido de evoluir.

É claro que ele se referia aos defeitos imperceptíveis da ave, admirada à distância por sua destreza fenomenal pelos céus azuis e entre as nuvens de algodão; defeitos que o impediam de se destacar fora de seu habitat natural que o ajudava a chegar ainda mais longe, parecendo mais eficiente e mais belo. Transportando a ideia para os dias atuais, façamos uma analogia tomando por base a juventude em pleno desenvolvimento intelectual. Como fazê-los evoluir e desenvolver o talento pessoal, que é único em cada um, sem reconhecer neles qualquer talento?

E como proceder para reconhecer qualquer talento numa situação de extrema rebeldia, em que jovens com talentos perceptíveis, e a maioria nem tanto, se misturam e convivem num ambiente no qual se destaca sempre o pior de cada um, como se estivessem alheios ao seu habitat, sendo repudiados pelas atitudes bizarras e taxados como incompetentes por natureza, entre tantos outros adjetivos pouco lisonjeiros?

Talvez seja necessário um pouco de tolerância para perceber neles alguma fagulha de talento, algum sentimento bom que seja usado para transformá-los; algo que se multiplique e consiga sobrepujar todos os problemas que carregam consigo desde o início das vidas, herdadas dos parentes e do ambiente em que vivem. Talvez.

Quem sabe respeitando o parco, mas importante conhecimento de mundo que trazem com eles? Parco por causa do curto tempo de vida. É esse conhecimento que lhes serve de base para equilibrar suas mentes ainda dominadas pelos instintos básicos, mentes abertas para o que é bom e para o que é ruim, indiscriminadamente, mas que, como ímãs, seguem o rumo mais fácil por estarem à vista, seduzindo através de imagens e sons, e tudo à volta deles. Seu modo de falar, de ler, de se comunicar é tudo o que eles possuem! Para que virem albatrozes no ar é preciso que descubram seus próprios talentos e decolem; mas isso é extremamente complicado sem a orientação, sem a ajuda de profissionais da educação comprometidos e competentes, dispostos a realizar essa etapa na vida deles.

E para que seja possível que os jovens recebam tal ajuda, esses profissionais da educação necessitam que sua autoridade seja restaurada! Que a confiança em seus serviços seja plena e que haja uma hierarquia definida e clara, algo que sempre houve em tempos idos e hoje não mais existe, fruto das políticas idiotizantes sugerindo atitudes ridículas para chamar a atenção e motivar a juventude, como se estudar, adquirir cultura e construir o próprio caráter para contribuir socialmente durante o restante da vida precisasse de motivação!

Unir métodos novos, mídias diversas para incentivar e tornar o acesso a mais conhecimento, devidamente filtrado é essencial, desde que no mesmo pacote esteja noção de hierarquia, capacidade de reconhecer e respeitar aos profissionais e às pessoas mais velhas da mesma forma que a si mesmos, isso não perde a validade nunca.

Sem a noção da importância intrínseca da educação e de seus profissionais para o restante de suas vidas, algo que anda nebuloso dada a tendência de misturar educação a política partidária, e até desmerecer a real importância do ensino, estaremos produzindo apenas lutadores. Lutadores na arena da morte nos estádios de futebol, alheios a todo o benefício que estão à sua disposição, gratuitamente. O paradoxal é que, quando as pessoas se interessavam em educar-se, o acesso era mínimo e restrito.

Poetas são como albatrozes, já dizia Baudelaire. Jovens e educadores, também.

Marcelo Gomes Melo