“Da arte de lamber botas”

Os círculos acadêmicos teoricamente existem para abrigar um seleto grupo de pensadores que, banhados pelo saber teórico adquirido através de muitos estudos obtêm uma autorização especial para “passar de fase” e filosofar livremente, criando regras que ajudem a melhorar a vida dos desfavorecidos.

Pense em uma pirâmide, na qual a base é repleta de “comuns”; pessoas sem qualquer dom especial que as diferencie das outras, sem acesso a uma cultura que as permita galgar novos e mais fechados círculos, cada vez menores, com maior qualificação para discutir rumos e rearranjar políticas que decidam a vida dos outros.

Agora imagine que a cada círculo pequeno ao qual se tenha acesso, ganhe com ele maior arrogância e um distanciamento gigantesco em relação à base da pirâmide. Os tais pensadores criam fórmulas sensacionais tendo como ponto de partida o que “acham” que a base deseja, ou o que acreditam que a base quer; se arvoram de leitores do pensamento alheio, afinal adquiriram tais direitos através dos títulos!

Finalmente atingem o topo da pirâmide, e por lá se fecham em suas torres de marfim, o Olimpo dos diferenciados à custa de muita “citação” de superiores que devem ser adorados indiscutivelmente, incondicionalmente como requisito primordial para ser aceito naquele mundinho dos privilegiados intelectuais: para que suas ideias sejam aceitas e sua voz seja ouvida, lamba as botas dos maiorais, adquira apoio através da aquiescência completa e subserviência plena, ajuste o seu modo de ser e de pensar aos moldes do círculo acadêmico principal e só então poderá ditar regras, olhando de binóculos para os seguidores de suas regras, ignorando as necessidades e a realidade em que vivem, e ainda demonstre a certeza plena de que seus moldes funcionarão, mesmo presenciando um caos permanente que apenas dificultará novos membros da base da pirâmide a alcançar espaço em um novo círculo acadêmico.

E a história se repete ad eternum: ditar normas sem conhecer as necessidades de quem irá segui-los, sem presenciar suas dores e seus anseios é como acrescentar pimenta malagueta em doses cavalares ao conteúdo de um caldeirão fervente do qual jamais experimentarão.

 

Marcelo Gomes Melo

Debilidade moral em paralelo à evolução social

A evolução acontece velozmente, basta percebermos quando nos permitimos uma incursão no passado através de conversas, fotos e fatos dos quais participamos ou observamos in loco. A isso chamamos saudosismo, e não resistimos à vontade de comparar a época vivida com a atual, sempre com desvantagem para o momento presente. É comum acontecer, geração após geração.

Esses momentos propiciam com clareza pontuar a evolução ocorrida através dos anos, com citações do tempo em que automóvel era coisa de gente rica, tal como a tevê a cores; refrigerante era chamado de gasosa e terno e gravata a vestimenta oficial masculina para o trabalho, acompanhada de acessórios como chapéu e guarda-chuva.

A formação clássica familiar era composta pelo marido e pai, tido como o provedor por ser o único da casa a trabalhar fora em busca de um salário que sustentasse a esposa, responsável pela criação dos filhos e administração do lar, e os filhos, cuja educação era recebida desde a mais tenra idade, assim como cuidados médicos e cultura, a qual adquiriam na escola.

Hoje há vários tipos de formação familiar; os pais trabalham, as mães idem; não sobra tempo para o cuidado com os filhos, que ficam à mercê da mídia e do governo para receber cuidados físicos, psicológicos, educacionais e culturais. Há modelos de família, inclusive, em que os filhos são os principais responsáveis por prover as necessidades básicas da família, não importa a idade que tenham.

Pais de jogador de futebol e mães de modelos e atrizes não hesitam em cafetinar os filhos à procura da glória, causando um desequilíbrio social feroz, que machuca a todos indiscriminadamente.

Quem antes queria estudar, aprender, aprimorar as habilidades naturais para o uso social, se firmando no mercado de trabalho encontrava as maiores dificuldades por falta de espaço, vagas e recursos tecnológicos; hoje que tais recursos sobram e facilidades brotam de todos os lados são ignorados e desdenhados por quem poderia utilizar de maneira correta para alavancar os próprios conhecimentos e o status no mundo.

Os valores continuam lá, no mesmo lugar, prontos para ser utilizados, colocados em prática; o que parece ter mudado foram as pessoas, que andam sem estímulo, desejando facilidades em vez de conhecimento prático, utilizável para a melhoria constante.

Mesmo assim a vida não para. O tempo parece acelerado e benefícios surgem cada vez mais rápido, sem, no entanto, fazer a diferença para a grande maioria do povo. Seria por que a base, primordial para consolidar o ser humano socialmente, o alicerce formado a partir do nascimento esteja faltando? A fraqueza moral não permite que os avanços sejam desfrutados com coerência pela humanidade inteira?

 

Marcelo Gomes Melo

 

Considerações sobre a sala de aula ideal. Visão estritamente matemática

Argumenta-se sobre a sala de aula ideal para professores e alunos. Da parte dos professores, uma quantidade menor de alunos, que possibilite maior atenção a cada um deles, objetivando sanar ao máximo suas dúvidas e orienta-los na aprendizagem é uma solução bastante cogitada.

Eis que uma série de pequenas aleivosias matemáticas a respeito foram informalmente debatida entre representantes do raciocínio exato durante simpósio de quinze minutos na sala dos professores. Vamos a elas:

Com cinquenta alunos por sala de aula, e cinquenta minutos de duração para cada aula, haveria, teoricamente, um minuto de atenção individual por aluno. Durante esse minuto o aluno exporia sinteticamente as suas dúvidas e inquietações sobre o conteúdo e receberia as valiosas observações do professor, facilitando o seu caminhar rumo ao desenvolvimento das atividades pelo restante da aula.

É óbvio que outras variáveis devem ser levadas em conta até alcançarmos um resultado; por exemplo, retire dos cinquenta minutos iniciais uns três para a locomoção do professor pelos corredores e blocos até a sala de aula, com passos constantes, sem interrupções pelo caminho. E mais dois para que todos se ajeitem em seus lugares e foquem a atenção no mestre, tornando possível o início da aula. Subtraia mais cinco minutos do total para a realização da chamada e mais cinco de interrupções para advertências a brincadeiras inadequadas, discussões por causa de material, pedidos para ir ao banheiro e perguntas fora de hora. Perde-se, portanto quinze minutos dos cinquenta. Mas não faça a conta ainda, porque há mais variáveis, embora todas não sejam levadas em consideração, ou transcenderia o tempo limite.

As instruções iniciais e colocação do conteúdo na lousa, através do uso do data show, computador ou qualquer outro tipo de tecnologia, mais abertura de cadernos, livros, e orientação quanto às atividades consomem cerca de vinte e cinco minutos, acrescentando mais cinco para que o professor aplique uma breve reprimenda aos que “esqueceram” intencionalmente ou não o material em casa, ou o perderam, ou destruíram.

Sensacionalmente é possível ainda calcular o tempo de orientação individual que o aluno receberia por aula. Dos cinquenta minutos restam ainda preciosos cinco, que divididos igualmente entre os cinquenta daria… Seis segundos para cada um! Excelente!

Esse tempo aumenta eventualmente em caso de ausência de alunos, mas, querendo acelerar o desempenho, basta adquirir o espetacular “governamental turbo teacher”, ensinando mais com menos, multiplicando os segundos de atenção individual e assegurando a perfeição. Brincadeirinha…Tocou o sinal e acabou o intervalo.

 

Marcelo Gomes Melo

 

Cantos de morrer e de matar (Presunção vivente)

A morte mata. Mata uma morte morrida ou mata uma morte matada, à escolha do cliente. Mata devagar, de forma torturante ou mata repentinamente, subitamente; transforma o morto em baunilha, sem uma gota de sangue, ou em cinzas, espalhando-o distante, soprado pelo vento para os quatro cantos do inferno.

A morte elimina a vida silenciosamente ou de maneira barulhenta, enviando o agraciado como um porco ao matadouro. E só quem morre morrido, ou quem capitula matado é capaz de dizer do susto, capaz de falar do selo de passagem final para a terra dos pés juntos, trajando paletó de madeira, nos verdes campos de caça (provavelmente para ser a caça).

Ninguém, nem o encarregado de despachar a alma dessa para melhor, muito menos quem carrega o peso inútil do corpo rumo à putrefação, saberá da felicidade ou do término da ansiedade, das dores a conta-gotas cessadas em troca de um vazio enorme e eterno, a brecha da via láctea, do desconhecido irremediável, a luz engolida pelo vácuo, a escuridão fria e feroz no âmago de sua mudez.

E para que os viventes, atormentados por cores, ideias, vida, flores, futilidades e hipocrisia do dia-a-dia viessem em algum momento a saber, precisariam de coragem para reabrir o caixote contendo a carne morta e pútrida para reconectar-se com o momento exato da passagem do problema permanente para a indiferença impressionante, estado que nunca acaba, solução em si mesma.

Filosoficamente criaria novos focos de pura imaginação; nem empirismo nem objetividade científica: que ser vivente corajoso continuaria intacto após contato imediato com o domínio dos mortos?

É paz, é horror eterno, é resolução para o sofrer contínuo, covardia perene, cotidiana? Heresia consciente, falta do que fazer…

Seria valorizar a vida pensar em como é morrer?

 

Marcelo Gomes Melo

Bang! Bang! Bang! Está morto!

Eu agarro a minha arma e saio atirando a esmo, até ser detido por armas maiores que me atingem o peito diversas vezes.

Saio de peito aberto como Butch Cassidy e Sundance Kid, disposto a tudo, sem temor algum, para me tornar vítima de um grupo de heróis do dia, que em seguida comemorarão com pizza grátis terem livrado a sociedade de mais um malfeitor que não merecia viver.

Na sarjeta, o sangue que antes corria por minhas veias agora escorre lentamente bueiro abaixo. Vai alimentar os ratos que ali habitam, e tornam seu domínio tão escuro e fétido quanto a mente dos que se consideram superiores.

O corpo, largado, sem vida, perfurado como um queijo suíço; os olhos vidrados fitam a lugar nenhum. Enxergam os seres diáfanos que observam misturados à multidão sedenta por morte que cercam o meu cadáver, felizes, murmurando teorias, dando graças por não estar no meu lugar.

Tragam os abutres! Deixem que comam. Que façam o seu trabalho de livrar a natureza dos que são por ela excluídos, gratuitamente.

Ah! Mas que ingenuidade, a minha. Isso não será possível, pois afetará o mercado oficial dos coletores de mortos que movimenta fortunas, mantém milhares empregados e alguns milionários. Não é possível  esquecer-se do valioso mercado dos cemitérios e seus acessórios, que torna uns poucos influentes muito cheios da grana, gerando impostos e, com isso, mais vida.

O conhecido mercado do entretenimento também não pode ser

esquecido; sim, hoje informação, jornalismo e notícias são sinônimos de entretenimento! A ideia é faturar horrores reproduzindo a desgraça alheia enquanto vendem creme contra rugas, rejuvenescedores, nos intervalos.

Todos precisam ver, ouvir, comentar, bradar contra o mundo em nome uma suposta melhora social, patrocinados pelos melhores produtos de limpeza.

O que eu fiz? Pouco importa! Eu não matei, nem feri a ninguém, isso é certo. Não usei drogas, não bebi. Eu só peguei a minha arma e saí atirando a esmo, num dia nublado e frio, para provar um ponto de vista.

Marcelo Gomes Melo

Breve relatório sobre os esquemas individuais para lidar com o amor

Simone ama menos nos dias chuvosos, porque ela acredita que o amor que lhe cabe será diluído e levado pela enxurrada para longe demais, e assim demorará a voltar.

José tira a camisa e se atira no chão de sua propriedade de terra batida sob a chuva torrencial, porque acredita que será encharcado de amor, com gotas maravilhosas lavando a sua alma por todos os poros, então abre os braços e sorri largamente, deixando-se açoitar por amor líquido e certo.

Tariq restringe o seu amor à sombra nos dias quentíssimos sob o sol imperioso. Ele crê que será ressecado e seu amor, trincado como um solo sem água, caso se descuide.

Georgina confia mais no escuro da noite, nas luzes difusas e odores saudáveis, que inspiram e incutem o sentido da coragem eterna para atos incontáveis e indizíveis. Fora isso ela se recolhe com pudor e se finge de pedra.

Raul tem coragem e, com a faca entre os dentes adora a floresta que o cerca e sufoca, tomando-lhe o amor à força, vencendo-o em seu próprio jogo. Depois, cansado, esgotado, se arrasta de volta à fogueira, para esperar, com o senso de sobrevivência aguçado, um alívio completo e um medo persistente no fundo do seu ser.

Elena bebe. Ela acha que o álcool a manterá entorpecida quando o amor se dispersar e aposta nisso para esquecer. Elena é cética e prefere o palpável ao inconsistente, embora deseje o estado alterado da percepção para lhe proteger do que inexiste. Caso inexista.

Arthur e Serena não amam.

Marcelo Gomes Melo

Crianças ou adultos em miniatura?

Uma professora agredida por uma criança de oito anos, violentamente, com uma mesa, fazendo-a parecer um personagem de filmes de terror americanos, a testa aberta e o rosto se esvaindo em sangue. A suposta explicação: o garoto era extremamente agressivo e apresentava problemas psicológicos há tempos, e fazia parte da proposta de inclusão, porque assim se afirma que seu comportamento se tornará melhor. Esperem aí! Isso não é patologia encontrada em, no máximo adolescentes? Argumentando como leigo, é claro, me pergunto se tais comportamentos agora infestam crianças; e se logo, logo os recém-nascidos, nos berçários apresentarão distúrbios comportamentais tão sérios que as enfermeiras passarão a andar armadas com escudos e cassetetes da tropa de choque.

A partir desses acontecimentos bizarros surgem diversas hipóteses, tendo em vista a formatação da sociedade atual, guiada pela televisão, que molda o comportamento da grande maioria das pessoas e, ao que parece, sempre para pior.

Primeiro surgiram os pais  cafetões, radicalizando o que antes era mais light com as mães de misses, ou as mães empresárias que obrigavam as meninas a se tornar bailarinas, realizando os sonhos que elas, mães, não conseguiram realizar. Esses pais modernos obrigam os filhos a vestir terno e gravata, beber ovo cru e fazer enormes sacrifícios para encher o bolso de dinheiro. Fama é tudo, ser tratado e respeitado como um ser humano é nada. Mesmo sendo o próprio filho, criança ou adolescente.

Surge uma indústria inteira, mobilizando muito dinheiro, de crianças se vestindo e falando como adultos, treinados a usar maquiagem, shortinhos e roupas inadequadas para a idade, pensar como se fossem adultos ávidos pelos quinze minutos de fama, ignorando fases importantes de desenvolvimento pessoal, de vida e de educação. Não brincam como crianças normais, não realizam os afazeres importantes a crianças normais e abdicam dos prazeres infantis extremamente necessários a todas as crianças normais.

A produção de adultos em miniatura está em pleno desenvolvimento, e com ela, todos os malefícios que se escancaram e chocam aos que tiveram infância e aprenderam a respeitar todas as etapas necessárias à formação de um ser humano útil e saudável.

O que presenciamos hoje em dia são cenas estarrecedoras que se repetem em diversos lugares e situações, e que sugerem que a fôrma de psicóticos aceita candidatos cada vez mais jovens, como maior capacidade destrutiva a cada momento. E os responsáveis? Quem são os responsáveis? Como os faremos pagar e como essa situação trágica vai mudar? Para melhor, quero dizer. Como? Como?

 

                              Marcelo Gomes Melo

Aranha!

A noite ferve. A temperatura é tão densa que eu poderia mordê-la. Recostado a um travesseiro macio, na semi escuridão, mantenho o corpo esticado, os músculos tensos, os olhos semicerrados. Gotas de suor deslizam por minha fronte, causando arrepios. Mantenho a respiração lenta o quanto posso. Ofegante quando não dá mais para controlar. No silêncio que antecede ao trovão, o meu respirar é como o vento através das frestas nas cavernas pedregosas, desviando de estalactites.

O roçar no lençol me desestabiliza a ponto de meus olhos se desviarem do ponto qualquer no teto e buscar, no reduzido campo de visão horizontal a sua chegada iminente. Nada. Lábios secos, pensamentos embaralhados. Posso molhar os pensamentos e desembaralhar a língua. Ou ao contrário. Tanto faz.

Imagino suas formas anatômicas, eficientes e econômicas nos movimentos, lindas de ver, melhores de tocar, apavorante de sentir! Adrenalina pura sendo contida pela vontade férrea, como um dique prestes a explodir e inundar toda uma cidade, tranquilizando uma civilização inteira no fim, ansiedades destruídas pelo prazer irrevogável que encaminha à outra dimensão.

Enfim o toque. Sedoso, no peito do meu pé; lentamente subindo, saboreando toda a área. Macia, algo aveludada, eu sinto. Mordo os lábios por instantes, mas não irei reagir, como prometi. Os pelos, sedosos em minha pele, se esfregam, molhados. Meu pé molhado. Uma textura em camadas se encaixando em meus poros…

Agora subindo, alternando minhas pernas, num zigue-zague erótico para a mente, que envia sinais intermitentes ao corpo, intensos. Minhas mãos se fecham e se apertam, contrariando a vontade de reagir e tocar, pegar, dominar. À altura dos joelhos uma curvatura sexy e uma leve pressão que enrijece meus pés. Respiração presa em flagrante e contida em regime de solitária. Um esgar de luz na janela fechada não permite descobrir o horário. Tampouco importa.

Sobre minhas coxas. Sinto os sensores atentos, experimentando o calor, se apoiando com leveza, roçando e conquistando. Espalhando os odores de sua presença sem pudor, como se carregasse uma placa de “cuidado, em altas doses posso matar”. Os movimentos sugerem sorrisos de degustação em minha mente inóspita de pensamentos comuns!

No meu colo, como um balanço, sobe e desce oferecendo todo o perigo que o mais corajoso homem poderia aguentar, cortando o meu silêncio treinado com um gemido atormentado, interrompido pelos estertores inquietos de um corpo quase em convulsão.

No umbigo mergulha, me molha, se esfrega e continua, indolente e constante, sem se importar com o estômago que se contorce. Sobe mais, pelo meu peito e pelos meus braços. Nos meus ombros, em busca de encaixar-se em meu pescoço. Vai-se todo o ar. Permanece toda a expectativa. Estou sobrevivendo! Sobrevivendo para requisitar o meu prêmio! Alcança o meu queixo, meus lábios, que já não param, se recusam a manter o selo. Fecho os olhos e o tempo congela, as sensações perdem qualquer adjetivo, somos sujeito e verbo.

Não tenho como pensar em nada e não existo sozinho nesse momento. É medo, é querer, é o quê? Desespero que leva à morte! Sobrevida que dá aos fortes. Penso em não me afogar, em subir para respirar sem sair da caverna que me mantém sob estreita vigilância. Sobrevivo! Eu sei que é agora que começa o caminho que leva ao paraíso!

 

Marcelo Gomes Melo

Camarada cabisbaixo

Com as mãos dentro dos bolsos, a cabeça abaixada, o queixo colado ao peito. Cidadão jovem, magrelo, cabelos cortados rente, ombros encolhidos fazendo o pescoço sumir indubitavelmente.

O estranho é que o que o fazia à beira da praia. No calçadão ao lado do passeio das bicicletas, alheio aos barulhos das ondas quebrando nas pedras molhadas, espumas brilhantes sob os raios solares, irascíveis, atraindo a atenção dos banhistas sorridentes, enjaulados em suas teorias comuns, satisfeitos com o que as cápsulas de felicidade lhes ofereciam.

Tanta gente aparentemente saudável e feliz, demonstrando o resultado artificial das academias, todo o investimento feito em status, todos filhos de deuses tatuados em seus corpos munidos de borrachas que apagam todo o bom senso de seus cérebros toscos.

Ninguém parece notar o cabisbaixo, rubicundo como um tomate, os olhos escuros como a tempestade que se anuncia suavemente no horizonte, logo antes de surgir aterrorizante com seus relâmpagos, rugindo com seus trovões como um pastor na Praça da Sé, que atira a Bíblia com força contra o solo e, urrando desvairadamente prevê a chegada do juízo final, sem perceber que está no meio dele há tempos, citando os mais agonizantes destinos aos que corajosamente o escutam.

A grande maioria ignora, finge que não se importa e foge, sorrindo ironicamente tentando provar que não o temem; muito menos ao futuro aterrorizante atirado em seus rostos.

Os banhistas felizes, caso o notassem, franziriam as testas, desconfortáveis; se encolheriam com asco, se afastariam de imediato. Mas em quase sua totalidade preferem ignorar.

O homem, cabisbaixo, silencioso, continua o seu caminho, imune a tudo e a todos. Não muda por eles; não vive por eles. Esse homem sabe que carrega o peso do mundo em suas costas.

Marcelo Gomes Melo             

Brasil, fábrica de leis!

Vivemos em um país em que não se cumpre as leis. Não que elas não existam; elas existem, sim, mas não são cumpridas porque o povo se orgulha do famoso “jeitinho brasileiro”, que envolve burlar as leis em proveito próprio na maior cara de pau.

Há lei que proíbe o uso de aparelhos sonoros dentro de coletivos; é respeitada? Não! O próprio motorista liga o rádio em altura inacreditável, obrigando os passageiros pagantes a compartilhar o seu (péssimo) gosto musical. Quando não é o motorista é o cobrador, ou os próprios passageiros, ansiosos por acionar seus aparelhos celulares no modo cancioneiro popular, ou mesmo programas de televisão, ignorando o direito alheio e a lei. A lei? Ora, a lei!

Não é permitido fumar em dependências públicas, mas mesmo assim é comum vermos funcionários, sejam vigias, médicos, enfermeiros ou políticos esgueirando-se atrás de uma pilastra qualquer, denunciados pateticamente pela fumaça tóxica, prejudicando a si mesmos e aos outros, desrespeitando a lei impavidamente.

A utilização do aparelho celular enquanto se dirige é proibido, mas visto constantemente nas avenidas, o que piora ainda mais o já terrível e temível desempenho dos motoristas causadores de todo o tipo de infração de trânsito. Cabe citar que as montadoras de automóveis já estão ajudando a contornar a lei por uma módica quantia, inserindo viva voz nos carros, para que os celulares repousem fora da vista dos ávidos policiais, treinados para multar.

As leis brasileiras surgem como mágica, a cada dia, prontas a saciar a crítica feroz à inércia dos políticos.  Então criam leis para provar que trabalham.  Não importa o quão sejam absurdas, e sabendo que jamais serão cumpridas. Há mais leis no país do que consciência, ética e honestidade!

Cria-se lei proibindo os pais de educar seus próprios filhos através de punições; cria-se lei para decidir a guarda dos animais de estimação em caso de separação judicial de seus donos; cria-se lei propositalmente com mais buracos do que queijo suíço, apenas para possibilitar aos advogados dos seus criadores explorarem as brechas que os permita utilizá-las em vantagem própria. O que importa é fabricar leis, e não ajustá-las e cumpri-las, visando o aumento da qualidade de vida das pessoas, e regida pela justiça social.

Logo criarão leis para burlar a justiça divina. Aí, salve-se quem puder!

 

Marcelo Gomes Melo