Sobre como os mistérios são criados

Eu irei profanar a sua tumba na madrugada chuvosa. Com as ferramentas apropriadas invadirei o cemitério particular de sua propriedade, com lama até os tornozelos, relâmpagos cortando o céu, furiosos, e trovões ribombando impiedosamente, me ensurdecendo a cada passo mais próximo do túmulo cinzento, quase que soterrado pela erva daninha, beneficiada pela água da chuva para tomar posse do terreno que, post mortem, lhe cabe nesse latifúndio.

A minha pá de aço não encontrará dificuldades contra a terra molhada, afastando-a do caminho, atirando-a para os lados até desnudar o caixão de madeira boa, pintada de roxo. Nem precisava usar as minhas luvas de couro para proteger as mãos de calos indesejáveis.

Da sacola dos meus pertences puxo um pé-de-cabra eficiente, fincando a pá ao lado do buraco negro, última morada na qual penetro com simplicidade. À luz dos relâmpagos e com os olhos ardendo pelos pingos de chuva estupro a fechadura que mantinha o caixão lacrado, escancarado a tampa ao mesmo tempo em que um trovão explodia assustadoramente; se como reprovação ou alegria, não sei…

O próximo passo foi observar, impassível, o seu corpo gélido, a pele branca coberta por diáfana seda branca, o que lhe dava uma aparência de tranquilidade universal.

A beleza infinita e imóvel que só os conectados com a morte apresentam me deixou sem fôlego. Cuidadosamente abri os seus aveludados olhos, e encontrei um tom violeta claro, vazio, inútil.

Saindo do buraco remexi a sacola, tirando alguns apetrechos importantes, necessários para o meu trabalho de coleta que resultaria em sua imortalização.

Empunhando uma tesoura de cortar frango assado e uma embalagem plástica a vácuo retornei à cova, me posicionando confortavelmente no meio da lama pegajosa, a antítese de sua beleza imaculada, banhada por água e raios.

Eu cortei as suas orelhas cuidadosamente, ensacando com carinho e colocando a salvo em um compartimento da sacola. Você fica maravilhosa sem orelhas! Nova trovoada, dessa vez de aprovação total, tenho certeza!

Agora empunho um bisturi, e talho um enorme X em sua testa. Nada de sangue, é claro, o que eu esperava? Delicadamente extirpei os seus globos oculares, repetindo o procedimento de embalá-los a vácuo. Cautelosamente me apoiei no caixão para delinear seus lindos lábios com o bisturi, extraindo com precisão.

Logo amanheceria, então o meu trabalho tinha que ser mais veloz e preciso do que artístico. Um alicate para os dentes e unhas entrou em ação; um cortador de charutos para os dedos dos pés e das mãos; machadinha, saca-rolhas e ganchos ajudaram e muito!

A chuva diminuíra bastante e a luz do dia ameaçava surgir quando cheguei ao meu porão e espalhei os seus órgãos nos respectivos recipientes, enfeitando as prateleiras. Mais tarde as etiquetarei com preciosismo e arte.

Agora um banho quente, e, no desjejum ler o jornal tranquilamente, saboreando a manchete acompanhada de foto aterrorizante e uma pergunta que instigará medo e curiosidade: “Descoberta vida extraterrestre?”.

Marcelo Gomes Melo

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Castelo assombrado: o ambiente escolar não é mais como era antes

Quem frequentou a escola há um bom par de anos não a reconheceria mais, vendo a forma como está hoje em dia, tanto física e estruturalmente quanto no comportamento de seus usuários.

Aquela aura de templo do saber parece ter se perdido, e as pessoas a enxergam mais como um enorme supermercado ou feira livre, pelo ambiente caótico provocado pela inquietude das pessoas que transitam pelos seus corredores e salas, assombrando castelos.

Inquietude é algo bom para jovens sedentos, à procura de uma fonte incessante de conhecimentos, principalmente em um ambiente supostamente preparado para fomentar a pesquisa. Mas, e a inquietude ruim? Aquela carregada de desmotivação, de quem não sabe a razão de estar ali, a não ser para dar vazão aos instintos nocivos de destruição, autodestruição e desprezo por regras e normas de convivência?

Os espaços físicos melhoraram. Há mais espaço e qualidade, salas iluminadas, salvo as exceções de praxe e diversas opções extraclasse para que se exerça a ação de aprender, de produzir, formar opinião. Mas, e quando o excesso de ferramentas disponíveis causa ainda mais problemas e confusão, sendo pessimamente utilizadas? O uso simultâneo tira o objetivo central e expõe a falta de limites aos exageros comuns à idade.

O comportamento dos jovens é outro. A noção de rebeldia foi inteiramente modificada para pior, dentro dos parâmetros aceitáveis, fruto, talvez, do caos social vivido atualmente, com o descontrole da mídia produzindo lixo em troca de dinheiro, e a publicidade incitando o consumo a qualquer custo, mesmo sem ter como pagar o que se consome.

O ambiente escolar adquiriu contornos estranhos, com teses radicais se opondo às liberdades e intenções retrógradas atravancando às progressistas. No meio de tudo isso se perdeu o ajuste, a sintonia fina que permitiria alcançar o equilíbrio tão sonhado.

Fala-se em motivação quando se deveria pensar em obrigação; exaltam-se os direitos quando seria imprescindível marcar os deveres. Defende-se que o ensino deve misturar-se às pantomimas e brincadeiras, tornando-se algo lúdico e aparentemente sem valor, quando pantomimas e brincadeiras são apenas acessórios para ensinar e não a definição formal de ensino.

Hoje a visão é de que a escola é um shopping Center que deve oferecer facilidades aos alunos, ao invés de criar obstáculos pertinentes para que sejam transpostos por eles, ajudando a formar o caráter e o conhecimento formal, aprontando-os para a vida em sociedade.

A arte está em alcançar a mistura ideal que possibilite o retorno da respeitabilidade escolar. Que seja novamente um templo dedicado à formação moral e intelectual, e não brinquedo nas mãos de pseudo-políticos educadores irresponsáveis e de mágicos da publicidade, que modificam o cerne do ensinar e do aprender por mero modernismo.

 

                      Marcelo Gomes Melo

Conspiração água no Planeta Terra?

Assistindo a um filme americano intitulado “The Truth”, em português “Em busca pela verdade” com o astro cubano Andy Garcia e Forest Whitaker, que trata de uma conspiração causada por grandes corporações americanas em locais distantes da América do Sul pelo domínio da água. Essas corporações particulares buscando adquirir o controle de um bem natural, pertencente ao planeta e a todos os seres que nele habitam, para taxar o seu uso, assim obtendo mais poder e mais fortuna.

No filme, o personagem de Garcia viaja até um vilarejo no Peru em busca de um cientista engajando em uma luta inglória para salvar a população pobre e expor os planos corruptos dos milionários poderosos. Sua função era levar o cientista de volta à América para acusar os culpados e puni-los, impedindo que o plano bizarro se concretizasse.

Trata-se de um filme nos moldes americanos, vendendo sua disposição heroica de salvar o mundo entre tiros e facadas, sangue e choradeira infinita, mas nessa época de seca no Brasil, em que nos lembramos da existência da água apenas por causa das altas contas que continuam a chegar mensalmente, como se houvéssemos utilizado algo que falta todos os dias, é algo para se pensar.

Realmente grande parte de nós já é taxado para beber água, já que somos obrigados a comprar engarrafada, apesar da conta mensal que deveria nos garantir o recebimento diário. Alguém lucra com essa água engarrafada direto da natureza para a sua residência, e não é a dona e produtora, pode-se garantir. A natureza não cobra. Nós, consumidores também não lucramos nada; o mais próximo de algum lucro pelo engarrafamento de água pura é o trabalhador braçal que carregam as caixas e as entregam nos supermercados.

Ainda é uma piada corrente entre nós, brasileiros, que só não somos taxados ainda pelo ar que respiramos, mas essa piada em breve irá acabar. Quem destrói rios e mares com poluição constante e química nociva quer lucrar até o osso. Com os produtos que fabricam, com os animais que matam, com as pessoas que infectam… Tudo é razão para lucrar.

Raciocinemos: se os rios são poluídos, as fábricas produzem material para garantir a evolução da espécie. Que espécie? Os seres humanos que adoecem e morrem, expostos a todo o tipo de doenças causadas pela poluição, que benéfico terão? Ah, mas remédios serão fabricados para os que sobreviverem; só terão que pagar e rezar para que funcionem. E o ar poluído, e os alimentos contaminados? Ora, precisamos privatizar a produção para garantir a qualidade! E se garantirmos a qualidade teremos gastos enormes, então nada mais justo do que taxarmos para que a população se alimente, beba e sobreviva.

Teorias da conspiração pipocam oportunamente de todos os lados, todas com um fundo de razão, e todas criando uma dúvida visceral; serão verdadeiras ou difundidas por oportunistas? Não é possível acreditar que os líderes mundiais sejam assim tão escrotos a ponto de destruir para lucrar indefinidamente; controlar a natalidade ou forçar a procriação da espécie com intenções criminosas e egoístas! Ou é?

Há indivíduos dispostos a fazer qualquer tipo de papel em uma vida cada vez menos valorizada. Os enganados profissionais, os céticos, os fanáticos, os difusores de desgraças, os escravos, os tolos, e o tipo mais nojento: aquele que procura obter prazer através do órgão sexual alheio. Como diria Lobão, “gozam com o pau dos outros”. Vive-se uma época em que o ser humano necessita de muita inspiração, mas tudo o que consegue é transpiração por nada; e conspirações nascem e morrem para que jornalistas lucrem, covardes sobrevivam e fofoqueiras existam. No fim do dia essa é a vida do jeito que a vida é.

Marcelo Gomes Melo

Campos lilases sem oferendas de salvamento

Esse descaso que eu sinto pelas coisas seria a morte dentro de mim? Ensacada, congelada e derretendo constantemente, esvaindo-se gota a gota até a destruição fatal?

A horda de silenciosos com suas malditas trombetas estourando os meus tímpanos sensíveis, a luz branca intensa cega-me os olhos por trás da cortina escura e tonteia a vontade própria, levando-a quase a nocaute?

O mundo perde o sentido a cada passo que ouso dar e me encolho, incomodado. Agora é fácil me pegar odiando sem explicar que a futilidade é nociva para qualquer alma.

Respirar é uma enorme dificuldade. Sorrir é impossível, palavra ausente nos dicionários de quem habita o canto dos portos, sob as lonas molhadas que cobrem as cargas.

O peso nos ombros é quase esmagador, mais cruel do que a consciência da derrocada final; o caminhar mato adentro, o deslizar rampa abaixo…

O limbo é o destino!

Marcelo Gomes Melo

Cobaias humanas do dia-a-dia

Não é novidade o descaso com que são tratados os pacientes sem condições financeiras para frequentar os hospitais e clínicas particulares, das celebridades, o mercado de cura em alto nível com medicina especializada e doutores astros da televisão e reality shows, e dependem da rede governamental de saúde.

O que vemos, portanto, para a alegria suprema dos programas mundo cão da tevê que se esbaldam em faturar alto mostrando a desgraça alheia ao vivo e em cores, com doentes habitando macas nos corredores dos hospitais, semimortos aguardando atendimento dias a fio com esperança de que algum médico apareça; médico esse extremamente mal pago e maltratado, mas que supera as dificuldades para cumprir, apressado e quase indiferente o seu horário destinado aos miseráveis.

Esse atendimento superficial não parece destinado a curar as mazelas; apenas aliviar as dores momentâneas e tornar o horror da vida do paciente um pouco mais leve, sem resolver o problema.

Partindo desse princípio, se aprofundarmos um pouco mais a análise e mergulharmos no ambiente da vítima, quero dizer, do paciente que consegue um quarto para ser internado e enfermeiras para ministrar o tratamento, com médicos residentes para ler o prontuário com as prescrições feitas pelo médico titular. Isso causa alguns pensamentos pertinentes: o modo como essas pessoas são tratadas visam a sua melhora ou prioritariamente o treino dos residentes? Querem tratar e curar o paciente ou testar métodos e remédios novos em cobaias humanas sem alternativa, as quais, caso pereçam entrarão nas estatísticas geladas dos indigentes sem nenhum tipo de importância?

O apoio religioso, a fé que aumenta instintivamente em qualquer cético ateu nesses casos graves em que a pessoa se depara com a própria fragilidade e ausência de opções será suficiente para sustentar ao doente e ao desespero dos familiares ante a inutilidade de quaisquer atitudes por eles tomadas ante a inutilidade e ineficiência do governo e seus programas de apoio, cujos impostos se diluem desviados sem preocupações para contas em paraísos fiscais?

O que é mais importante? Tratar e curar esses pacientes pobres cuja outra opção é entregar-se a Deus, ou utilizá-los como cobaias para aperfeiçoar novos médicos, que podem errar e sacrificar seres humanos sem importância, sem nenhum problema de consciência, porque há muitos à beira da morte todos os dias, o que talvez os desvalorize como pessoas e justifique o atendimento mal dado.

Resta-nos afirmar sem medo de erro: o povo está num mato sem cachorro!

 

Marcelo Gomes Melo

Conjugação da vida. Poço de falibilidades.

          Eu errei quando achei que as diferenças sociais de um povo não seriam pessoais, e que as necessidades de melhoria, por serem gerais, causaria uma mobilização conjunta, mesmo com visões opostas e acirramento natural dos ânimos. A compreensão do que significa ser democrático triunfaria, apesar dos pesares.

Tu erraste quando, ao defender o ponto de vista do teu lado, exageraste nas ações difamatórias, violentas e reprováveis, quando o que estava em jogo era bem maior, e as prioridades de um todo superam em muito as vaidades de uma parte.

Ele errou quando aceitou os termos da disputa, transformando-a em guerra e agindo como se o mundo fosse acabar caso a vitória não viesse; ou agindo como se fosse eliminar da face da terra os vencidos, caso eleito vencedor.

Nós erramos ao evitarmos debater as falhas do país na totalidade, em vez de destacar a corrupção alheia de forma obsessiva, alijando os corruptores do processo, sem nos darmos conta de que tudo é corrupção e atitude danosa, que atinge a todos indiscriminadamente, então estamos cercados por corruptores e corruptos em todos os níveis e de todos os lados, o que é perigoso e fatal.

Vós errastes quando esquecestes de que a corrupção envenena e prejudica a qualquer dos lados. Trocar acusações tentando varrer os próprios atos desonestos para debaixo do tapete, como se inexistissem, em nada ajudará a limpeza de que tanto o país precisa. Toda a excrescência precisa ser lavada para começarmos de novo, valorizando coisas que deveriam ser intrínsecas ao ser humano, principalmente àqueles que exercem atividades públicas: ética, honestidade, probidade, transparência, respeito às ideias contrárias…

Eles erraram quando se permitiram afastar do mar de lama e observar do alto de suas torres de marfim, inatingíveis, sem querer se sujar nem se envolver, abdicando de participar do processo de mudança pelo qual todos bradam em uníssono, há tempos. Respingos da lama sobrarão aos que não se manifestaram, e todos no mesmo barco remando metade para cada lado apenas rachará o navio em dois, e o afogamento se tornará inevitável, sem sobrar ninguém para contar a história.

Essa é a conjugação simples da vida no perfeito do indicativo, porque no princípio era o verbo, garantindo as ações que permitem uma comunicação perfeita, coesa, coerente, clara e eficiente.

Uma comunicação perfeita, dentro das regras de convivência, diminui as chances da instalação do caos, que permitiria o surgimento de ditadores malucos prontos para devastar sociedades, destruir convicções e criar uma história obscura em uma derrocada infinita.

 

Marcelo Gomes Melo

Cabra macho metropolitano cumpridor

Virgulino Wayne era paulista, filho de Lindoswaldo Wladimir, um nordestino que veio para a cidade grande em busca de sucesso profissional e pessoal numa época em que São Paulo era considerada a terra da promessa, o paraíso dos empregos… E tinha até água!

O pai de Virgulino viera em um pau de arara e vivera em pensões por vários anos até se acertar na vida. Aprendera coisas importantes para a sobrevivência, por exemplo, assaltar lata de goiabada sem que o dono percebesse. Bastava abrir a lata pelo lado inferior e ir comendo aos poucos, deixando a lata na mesma posição para que o dono percebesse que já estava aberta.

Nesse período Lindoswaldo trabalhara como auxiliar de pedreiro em obras grandiosas que os políticos construíam com o intuito de entrar para a história. Era um homem sortudo com a mulherada nos forrós do nordeste; dançava muito e fazia subir o poeirão, jamais voltava para casa sozinho, e sempre tinha uma garrafa de pinga e uma rapadura para adoçar a boca das amantes. Na cidade grande achou que manteria a sorte, só que se decepcionou. Nenhuma lhe dava bola; era ignorado pelas beldades mal vestidas da capital paulista. Sofreu sem amigos, sem mulheres e teve vontade muitas vezes de retornar para a sua terrinha, mas resistiu firmemente. Cabra macho nunca dá o braço a torcer.

Essa resiliência garantiu ao pai de Virgulino Wayne uma série de ganhos futuros em sua vida. Conheceu o CTN, Centro de Tradições Nordestinas, local maravilhoso em que migrantes do nordeste se reuniam para matar saudade da terra comendo pratos típicos como buchada de bode, dobradinha, sarapatel, bebendo cachaça nordestina e conhecendo conterrâneos, caindo no forró como se fosse o último da terra. Lá, Lindoswaldo conheceu Givanilda, o amor de sua vida.

Eles se casaram em um mutirão de casamentos organizado pelo governo em um estádio de futebol e foram morar em uma invasão de terras que anos depois foi legalizada, podendo construir uma verdadeira mansão de tijolos aparentes. Mudou de profissão e alcançou novo status passando a ser amolador de facas e tesouras em domicílio. Para isso investiu em uma bicicleta com cestinho reforçado no qual levava as ferramentas.

Lindoswaldo Wladimir se deu muito bem! Um empreendedor e tanto, vindo da terra seca longínqua no interior do nordeste, bem distante da civilização das cidades praianas, para alcançar seus sonhos na selva de pedra.

Ia sempre com Givanilda assistir aos filmes de Charles Bronson, Bruce Lee e Van Damme nas tardes de domingo, ambos felizes. Quando soube que a esposa estava grávida, exultou! Tomou duas garrafas de Pitu em comemoração, e assim que descobriu que seria um menino, batizou com o nome dos seus maiores ídolos: Lampião e John Wayne.

Seu rebento foi criado com leite de égua, farinha e culhões de bode assados. Treinado para ser macho maxixe doce. Paulistano com alma nordestina, herdeiro da força que ajudou, com muitos outros migrantes e imigrantes a construir o desvario do mundo, a maior cidade da América Latina, os arranha céus mais deslumbrantes de uma terra cosmopolita, misturas de raças e culturas que a torna mais poderosa e acima de conflitos mesquinhos. A sombra de Deus.

Virgulino Wayne foi ensinado a ter sempre a última palavra em sua residência, como o pai. Nada de abdicar dos direitos de chefe da família! Tanto que agora, adulto e empresário influente, dono de milhões em propriedades, apalavra final em sua casa estava sempre na ponta da língua: “Sim, querida!”.

 

Marcelo Gomes Melo

Cenas da vida no Planeta Terra em um futuro distante

Pacatos cidadãos da civilização pós-nuclear do nosso altaneiro país, venho hoje aqui, despido de orgulho e repleto de humildade ante a vossa valorosa e digníssima presença, atrapalhar a vossa importante concentração matinal a caminho de seus trabalhos honestos que lhes garante a sobrevivência tranquila acima da linha da pobreza atual, o que lhes coloca hierarquicamente em posição dominante sobre a casta dos miseráveis excluídos sem razão de viver, à qual me incluo.

Irmãos da bondade infinita, é confiando nessa característica especial inerente às vossas pessoas que me coloco aqui, nesse aerotrem especial, em pé em frente às vossas pacíficas e inteligentes faces, sem vestimenta especial e muito menos aparelho para reposição de oxigênio reserva, para o caso de alguma falha no casco da nave colidindo com algum meteorito nessa viagem matinal à lua, local em que vocês, com tanta capacidade realizam seus portentosos trabalhos, de importância vital para a colonização do satélite, possibilitando que mais planetas sejam descobertos, colonizados e mais moradias para os mal aventurados como eu.

Caros terráqueos de família milenar como a minha, mas que conseguiram adequar vossas capacidades às novas necessidades com destreza e merecimento nesse século XXXVI, pós Era dos pastores dignitários presidentes, ao contrário de mim, pobre coitado de casta inferior a quem a sorte não bafejou e hoje apela para vossos corações de titânio de última geração, que lhes proporciona viver bem mais e melhor, por bombear pelos seus corpos saudáveis sangue e micro-organismos de regeneração constante das células, que me ouçam por mais alguns macro segundos lunares, o que nessa órbita equivale a uns sete minutos na contagem antiga de tempo.

Senhoras e senhores da diretoria plasmática sensorial, pretendo afirmar aqui, tocando com a palma da mão direita no aparelho detector de mentiras espacial instalado em cada um desses trens espaciais por nosso amado governo, entendido na arte de mentir e na de detectar a mentira alheia, que sou honesto, trabalhador, pai amoroso e marido colaborador; caridoso e fanático doador de Poá percentagem do que cosigo amealhar como prova de fé e camaradagem.

Eu sou engenheiro de formação. Desempregado ainda antes da Quarta Guerra Mundial, após curtir o seguro desemprego do nosso amado governo tentei formar minha microempresa de carrinhos de cachorro quente, mas fali quando o governo proibiu o uso de proteína animal e derivados, bem como o glúten; além disso, os carrinhos não podiam atrapalhar a circulação pela calçada dos três trilhões de habitantes da Terra à época. Entendi, e falido, durante a guerra fui motorista de ambulância no front, carregando soldados vitimados pelos gases venenosos inimigos, usando apenas luvas de boxe e uma máscara de gaze. Eis a razão pela qual tenho uma perna paralisada, perdi o olho e minha voz soa ligeiramente metálica, graças ao dispositivo que recebi do INSS para instalar na garganta e recuperar parcialmente as cordas vocais.

Pois bem, irmãos amigos, nada disso me parou, e hoje estou aqui dignamente lhes pedindo uma valiosa colaboração e ajuda para sustentar minha família, adquirindo essas balas e chicletes de legumes frescos, sem açúcar ou sal, maléficos à saúde, contendo o elemento magma 12, retirado dos vulcões do planeta Vênus e que ajudam a polir os dentes de ossos de brontossauros jovens inquebráveis da lua de Saturno que todos vocês usam e que os fazem tão belos! Tenho também chocolate azul sem cacau ou aditivos que prejudiquem a visão, com flocos de jiló puro. Aceito cartão de crédito e dinheiro vivo. Tenho gaiolas para manter o dinheiro vivo confortável em meu bolso, não se preocupem.

Quem puder me ajudar, Deus abençoe; quem não puder, abençoe da mesma forma. Saibam que lhes desejo em dobro tudo o que tão gentilmente me desejarem. Logo, logo serei ejetado para o próximo meteoro terminal de trens, então me despeço emocionado com a vossa contribuição. Fui!

 

Marcelo Gomes Melo

Criptografando com a sequência Fibonacci

A Sequência Fibonacci é uma sucessão de números que, misteriosamente, aparece em muitos fenômenos da natureza. Descrita no final do século 12 pelo italiano Leonardo Fibonacci, ela é infinita e começa com zero e um. Os números seguintes são sempre a soma dos dois números anteriores. Portanto, depois de zero e um, vêm 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21, 34…

Ao transformar esses números em quadrados e dispô-los de maneira geométrica, é possível traçar uma espiral perfeita, que também aparece em diversos organismos vivos. Outra curiosidade é que os termos da sequência também estabelecem a chamada “proporção áurea”, muito usada na arte, na arquitetura e no design por ser considerada agradável aos olhos. Seu valor é de 1,618 e, quanto mais você avança na sequência de Fibonacci, mais a divisão entre um termo e seu antecessor se aproxima desse número.

No livro O código da Vinci, de Dan Brown, a sequência é utilizada para criptografar uma mensagem por parte de um cientista para o personagem principal, vivido no cinema pelo ator Tom Hanks, o que, de certa forma chamou a atenção para o seu uso.

A sequência ou a espiral de Fibonacci pode ser exemplificada de diversas formas:

CONCHA DO CARAMUJO

Cada novo pedacinho tem a dimensão da soma dos dois antecessores

CAMALEÃO

Contraído, seu rabo é uma das representações mais perfeitas da espiral de Fibonacci.

ELEFANTE

Se suas presas de marfim crescessem sem parar, ao final do processo, adivinhe qual seria o formato?

GIRASSOL

Suas sementes preenchem o miolo dispostas em dois conjuntos de espirais: geralmente, 21 no sentido horário e 34 no anti-horário.

PINHA

As sementes crescem e se organizam em duas espirais que lembram a de Fibonacci: oito irradiando no sentido horário e 13 no anti-horário.

POEMA CONTADINHO

Acharam o “número de ouro” até na razão entre as estrofes maiores e menores da Ilíada, épico de Homero sobre os últimos dias da Guerra de Troia.

A BELEZA DESCRITA EM NÚMEROS

A “Proporção de ouro” aparece tanto em seres vivos quanto em criações humanas. Na matemática, a razão dourada é representada pela letra grega phi: φ.

PARTENON

Os gregos já conheciam a proporção, embora não a fórmula para defini-la. A largura e a altura da fachada deste templo do século V A.C. estão na proporção de 1 para 1,618

ARTES

Esse recurso matemático também foi uma das principais marcas do Renascimento. A Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, usa a razão na relação entre tronco e cabeça e entre elementos do rosto.

AS GRANDES PIRÂMIDES

Mais um mistério: cada bloco é 1,618 vezes maior que o bloco do nível imediatamente acima. Em algumas, as câmaras internas têm comprimento 1,618 vezes maior que sua largura.

OBJETOS DO COTIDIANO

Vários formatos de cartão de crédito já foram testados. O que se sagrou favorito do público têm laterais na razão de ouro. Fotos e jornais também costumam adotá-la.

ROSTO

Dizem que, nas faces consideradas mais harmoniosas, a divisão da distância entre o centro da boca e o “terceiro olho” pela distância entre esse ponto e uma das pupilas bate no 1,618.

CORPO

Se um humano “mediano” dividir sua altura pela distância entre o umbigo e a cabeça, o resultado será algo em torno de 1,618.

MÃOS

Com exceção do dedão, em todos os outros dedos as articulações se relacionam na razão áurea.

A brincadeira abaixo é decodificar a mensagem que utiliza a sequência Fibonacci, identificando-a. Para isso basta atribuir um número para cada letra do alfabeto, começando do 1(um); feito isso, basta substituir os números por letras até descobrir todas as frases. Exemplo:

A=1, B=2, C=3…

Ah, para tornar a brincadeira um pouco menos fácil, a frase estará em inglês e deverá ser traduzida assim que descoberta. Uma dica importante que tornará a transcrição ainda mais tranquila: são versos de uma canção de uma famosa banda de rock and roll dos anos 70, conhecida em todo o mundo. Prontos? Lá vai:

4391
8
55
6765
1
8
34
10.946

 

610
8
28.657
1
8
34
987
10.946
111.933
1
46.368
9.181
55
1
10.946
6.765
1
21
610
55
111.393
17.711
2
6.765
55
8
34
6.765
5
610
1
233
5
987
21
6.765
55
8
4.181
233
10.946
55
10.946
21
10.946
1
34
10.946
1
233
233
8
4.181
17.711
6765
6765
55
987
34
46.368
233
1
5
111.393

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Alfabeto:  

A-1 B-2 C-3 D-5 E-8 F-13 G-21 H-34 I-55… 

Perceba que a próxima letra será a soma dos dois números anteriores.

Marcelo Gomes Melo                                                       

Com uma arma entre as flores

Ela caminha entre flores

Com uma lâmina em cada mão

E o sangue que derrama

Confunde-se com a cor de seu esmalte

 

Ela caminha entre árvores

Com uma arma de fogo em cada mão

E apesar de se encolher com o barulho

É incapaz de conter uma expressão de prazer

Cada corpo que tomba aos seus pés

 

O odor de pólvora a seduz

Mas não tanto quanto o sangue dos mortos

Que mancha seus pés cadavéricos

Ela mal toca o chão enquanto caminha

Entre as lúgubres rosas

 

Observa de relance os espinhos

Cravados nos corpos ensanguentados

Segue adiante distraidamente

Deixando a reboque centenas de vítimas

 

Ela caminha entre lírios

Carregando uma espada em cada mão

Exterminar é o seu destino

Não sentir é o seu prêmio

Destruição será eternamente

O seu mundo feliz.

 

Marcelo Gomes Melo