As noites de fita cassete

“Havia um tempo/Em que eu vivia/Um sentimento quase infantil/Havia o medo e a timidez…” Cantava o vocalista da banda brasileira RPM embalando uma juventude diferente, que não sofria as agruras da violência com a qual as gerações atuais têm que lidar. A tecnologia que domina a vida dos recém-nascidos nesse século não existia, e a grande novidade por aqui era o surgimento das rádios FM, segmentadas, trazendo as novidades europeias e americanas em termos de música com mais facilidade. Começava a se formar uma cultura musical diferente, assim como um comportamento que hoje pareceria pré-histórico e extremamente ingênuo.

Não existiam CDs, muito menos pen drive ou qualquer dispositivo tecnológico de ponta. Nada de computadores pessoais ou música MP4. O que existia era o aparelho de som três em um, com tocador de vinil, rádio e tocador de cassete, primordial para a produção das fitas com 90 minutos de música sem interrupção para ouvir e dançar nos bailinhos de fim de semana, caseiros, que reunia a turma do bairro alternando os locais entre as casas de cada um.

O funcionamento consistia em gravar as canções durante a semana, direto do rádio FM, torcendo para que a rádio não colocasse a vinheta no meio da música e estragasse tudo, ou que os pais invadissem a sala para oferecer lanche justo na hora da gravação, fazendo com que tudo fosse por água abaixo.

A seleção romântica era a mais importante; havia programas noturnos no rádio para isso, com uma hora e meia de canções lentas para dançar e namorar, e isso era encarado com muita seriedade. Uma fita cassete com as melhores canções elevaria as chances de conseguir um par para o restante da noite. Táticas de sedução eram debatidas ao som de Marvin Gaye e até de Bem, do Michael Jackson, sem saber que a letra se referia a um rato.

A bebida era meia de seda, a festa começava com os “balanços” até que chegava a hora das “lentas” e de cada um procurar a garota que despertava os seus instintos românticos mais profundos para curtir durante a sequência de canções. A época era inocente comparada à atual; a garotada tinha uma história de vida e valores extremamente peculiares, viviam como adolescentes e não com adultos. Cresciam sem a maldade interior no DNA que hoje se verifica desde o berço. Como é que essa juventude se tornou adulta e se transformou em pais gerando filhos com valores tão diferentes?

As noites de fitas cassete produziam felicidade e simplicidade, regadas a beijos e sussurros no ouvido, nada além disso. Nostalgia pura de quem está envelhecendo, e com isso comparando diferentes gerações com diferentes propósitos, o que não deixa de ser injusto.

O mundo segue como um trem descarrilado, e os seres humanos são passageiros buscando sobreviver a seu modo, em tempos ruins. O que nos resta é acreditar na ciclotimia da vida, que volte a ser mais tolerante, feliz e rica como em outras épocas. O problema é se, para que isso aconteça seja necessário zerar tudo e recomeçar a semear após terra arrasada.

 

Marcelo Gomes Melo

Entre as chamas e a escuridão

A casa está em chamas, e a rede armada na varanda. A garrafa de cerveja descansando sobre as tábuas antigas e o balanço lento não o fazem pensar no calor iminente, do inferno consistente e consciente.

Os passos de salto alto ecoam como um contrabaixo no ritmo do som do fogo crepitando. De couro negro, botas e roupas, os lábios vermelhos indiferentes se contraem levemente. Deboche, talvez.

Os olhos fixados na rede e nele ignoram a destruição e o caos. A madeira crepitando é um som infernal! Uma ou outra explosão quebra a aparente tranquilidade.

Não há vizinhos que se importem. Na realidade não há vizinhos. A floresta que os cerca está iluminada, refinando o paradoxo entre luz e escuridão.

A luz da vida se encontra na floresta escura, enquanto o fogo espalha rapidamente a destruição. Entre ambos, fogo e escuridão, a rede de quem não se importa, balançando ora para um lado, ora para o outro. E ela. A testemunha do caos em botas pretas e lábios vermelhos, indiferente aos acontecimentos inevitáveis, esdrúxulos.

A cerveja borbulha e a garrafa estoura, cacos estilhaçados por todo o espaço. O fogo alcança a rede, derrubando o homem na varanda de madeira. Por instantes ele parece sair da letargia, os olhos adquirem uma centelha de vida, talvez a última; então se dá conta da presença dela; mas a atenção dele logo se esvai e o homem se levanta sem perceber nem sentir as queimaduras.

Ela sorri gentilmente e saca um cigarro do bolso da jaqueta de couro, mas ele a ignora, entrando com passos arrastados na casa em chamas.

Nem sequer ouviu a voz sussurrada que escapou dos lábios vermelhos com olhos felinos apertados cinicamente. Colocando o cigarro apagado entre os lábios sensuais, ela perguntou:

– Tem fogo?

Marcelo Gomes Melo

Dia das mães no inferno!

Nesse domingo do ano é assim, Roswanilssa reclamou entredentes, olhar carregado, cuspindo perdigotos de ódio. Multidões chegando como se o fizessem rotineiramente, sorrindo, falsas e trazendo os netos, os namorados e namoradas dos netos, agregados malditos e suas piadas sem graça para o almoço mais concorrido do ano.

Esses desalmados nojentos passam o ano inteiro sem dar sequer um telefonema, sem perguntar se precisamos de alguma coisa e sem oferecer porcaria nenhuma! Agora abraçam e repetem as baboseiras de sempre, que escutam nos comerciais melosos e mentirosos da televisão. Trazem flores, os sacanas! Quem diabos quer flores?! Flores o cacete! Guardem essas flores para o dia do enterro!

Uma balbúrdia desgraçada o dia inteiro; crianças mal educadas correndo e gritando, mexendo no que não devem e quebrando coisas que não lhes pertencem ante o olhar benevolente e conivente dos pais. Será que esses bananas não conseguem dar um jeito nesses capetas? E se nós, os avós resolvermos colocar ordem na pocilga, ficarão ofendidos, os imbecis. Afinal estão quebrando nossos pertences, não os deles.

Passam o dia todo no ócio, os homens enchendo a cara de cerveja e comendo gordura em nossa homenagem, para depois se esparramarem no sofá roncando como porcos, enquanto as mulheres se aglomeram em torno da mesa da cozinha, fofocando sem deixar de beliscar guloseimas como se fossem ratos, ao mesmo tempo em que falam sobre dieta e como o corpo deve ser um templo. Só se for um templo de pecados infernais!

No fim do dia, felizes com eles mesmos pegam seus rebentos e dão o fora sem olhar para trás, certos de que cumpriram bem o seu dever ditado pela mídia, satisfeitos pela comemoração que visou apenas o bem deles próprios. Agora retornarão apenas no ano que vem, para realizar a mesma pantomima que visa repetir o mesmo.

A louça suja ninguém vai lavar. As latas de cerveja vazias espalhadas pelo quintal ninguém vai recolher. As manchas de gordura e de doces no sofá e os enfeites quebrados ninguém vai repor nem solucionar. Cada domingo desse é um inferno, ainda bem que só inventaram um por ano! A única certeza que tenho de vingança é que tal ritual se repetirá em breve, e eles serão vítimas desse terror com os próprios filhos malcriados!

Roswanilssa! Vamos, mulher, para de ficar olhando a festa do vizinho através da brecha no muro e trate de se apressar. Hoje a visita na cadeia é complicada, você sabe que estará lotada de pais como nós. Os meninos estão esperando para comemorar, vamos!

Roswanilssa não diz nada. Ajeita o xale, dá um olhar assassino para o marido, que, distraído colocava quitutes no banco de trás do carro e encaminha-se para o presídio local.

Marcelo Gomes Melo

Como um pecador deve argumentar com Jesus Cristo

O padre Antonio Vieira foi um dos religiosos portugueses que aportaram na terra brazilis com o propósito de catequizar aos seres que, segundo a arrogância predominante e à fé cega, não tinha alma, pois não serviam ou conheciam o deus europeu. Os brasileiros. Índios. Índios brasileiros donos das terras e de toda a riqueza que sustentou Portugal, procrastinando sua decadência financeira.

Vieira era um excepcional pregador, conhecedor dos escritos bíblicos e possuidor de uma verve exemplar; uma capacidade incrível de convencer através de argumentos astutos e irrefutáveis, tendo como símbolo maior da veracidade de seus discursos, nada mais, nada menos do que o próprio Deus, Todo Poderoso.

Em sua obra “O sermão da sexagésima”, realizou um trabalho genial de teor religioso, que transcendeu as Eras e marcou o estilo literário com magnífica qualidade, versando metalinguisticamente sobre a arte de pregar em quinze volumes. A clareza, a coesão e a coerência, bem como o pensamento lógico, transbordam como principais características do texto.

No exemplo a seguir, versos de um poema do padre Antonio, no qual um ser humano simples, pecador, e ciente dos seus pecados, argumenta com Jesus Cristo através da oração, reconhecendo as próprias falhas e, inteligentemente solicitando o perdão de forma a não deixar espaços para que seu pedido seja negado.

No poema, Vieira faz referência à parábola do filho pródigo, comparando a si mesmo a uma ovelha desgarrada, e apresenta a noção de proporcionalidade, insinuando que, de acordo com os desígnios divinos, quanto mais o homem peca, desde que se arrependa, mais Deus é compelido a perdoá-lo, oferecendo-lhe uma nova chance.

 

 

A Jesus Cristo nosso Senhor

                                            (Padre Antonio Vieira)          

 

Pequei, Senhor; mas não porque hei pecado

Da vossa alta clemência me despido.

Porque quanto mais tenho delinquido,

Vos tenho a perdoar mais empenhado.

 

Se basta a vos irar tanto pecado,

A abrandar-vos sobeja um só gemido;

Que a mesma culpa que vos há ofendido

Vos tem o perdão lisonjeado.

 

Se uma ovelha perdida já é cobrada

Glória tal e prazer tão repentino

Vos deu, como afirmais na sacra história

 

Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada;

Cobrai-a, e não queirais, pastor divino.

Perder na vossa ovelha a vossa glória.

 

 

Marcelo Gomes Melo

É tétrico. E continua.

Morreram. Felizes e ignorando o valor das informações que carregaram em seus cérebros tortuosos.

Faleceram. Não sem antes espalhar pelo mundo os dogmas fúteis que lhes instigaram a crer como um zumbido constante em seus ouvidos que logo ficaram moucos. E os fez aprender a comunicação não verbal mesmo que estivessem de costas, comandados pelo tremor da terra quando se aproximavam sorrateiramente. Um trem descarrilado abalando as estruturas de aço dos grandes edifícios que guardam carneiros vestidos como lobos, agindo como lobos, destroçando a carne uns dos outros e massacrando ovelhas, fazendo-as acreditar que um dia chegariam ao status de lobos.

Daí a traição. A falsidade explícita e as atitudes covardes proliferaram por culpa deles, e assim continua até hoje. Lucrar com a desgraça é mais importante do que acabar com a desgraça. Uma multidão de desgraçados nojentos caminhando a esmo, ouvindo e multiplicando bobagens e canalhices, deixando um rastro inacabável de sangue por onde suas teorias nocivas e informações malditas passam.

Lugares inóspitos, hospitais sem médicos e sem macas, salas de aula vazias, sem alunos e sem professores, igrejas destruídas e cultos inexistentes por falta de fiéis e de guias espirituais verdadeiros… Apenas os shows de axé e sertanejo americanizado lotados por tolos que expõem seus corpos, enquanto se distanciam cada vez mais de suas almas escuras.

Morreram. Isso nada significa. Logo surgirão outros, piores dos que os que se foram porque sabem ainda menos e creem ainda mais. Há uma névoa escura em torno do planeta. A culpa não é do planeta.

Não há espaço para reles destruidores, não há como salvar miseráveis nem com toda a expiação que os acometesse em três vidas!

Tudo é tétrico. E continua.

 

          Marcelo Gomes Melo

Frases entalhadas; paixões inúteis.

Estava quieto fitando o copo de pinga metade vazio, hipnotizado, com cenho franzido, as mãos crispadas em torno do objeto não voador identificado modelo americano. Tratava-se de um filósofo do povo afogado pelas suas ondas gigantescas de problemas e horror. Migalhas de pão com mortadela grudavam em seus antebraços encostados na mesa antiga de madeira com nomes e datas entalhados à canivete por tantas outras pessoas antes dele.

Alheio ao mundo em seu redor, olhos esgazeados e avermelhados, sentia-se derrotado, e isso triplicava o seu ódio pela incapacidade dele próprio de manter as coisas sob o seu controle. Estendeu a mão esquerda sobre a mesa, alargando os dedos, deixando-os separados. Puxou da cintura uma faca peixeira de quarenta centímetros, afiada como a língua de sua saudosa sogra fofoqueira, que o diabo a tenha carregado.

A loucura era individual, sempre; os outros não enxergavam com clareza a verdade das coisas. Não havia milhares de loucos, mas loucos pontuais, e esses eram sacrificados por pensar diferente, por pensar fora da caixa, coisa que só os homens de negócios modernos aceitavam e promoviam, imitando a forma americana de agir.

Emborcou o restante da branquela azeda de uma vez, fazendo uma leve careta e imediatamente um sinal ao dono do bar solicitando outra dose pura de “rala sogra piranha”. Empunhando com firmeza gelatinosa a enorme e poderosa faca, começou a golpear entre os dedos, tirando finas da carne, sem espetar nenhum dos dedos, por enquanto. Quando a cachaça chegou desconcentrou-se por segundos e cortou o lado interno de um dos dedos, que começou a sangrar na mesa sobre um dos nomes entalhados há anos.

O dono não se manifestou. Pareceu nem perceber o corte no dedo do tabaréu. Serviu a pinga, enchendo o copo até à boca e limpou a mão no avental, afastando-se. Deixando a mão estendida, os dedos entreabertos, ele largou a faca e segurou o copo com mais firmeza e decisão. Cheirou a pinga como um conhecedor. Inspirou como se fosse o perfume de um cangote feminino, enquanto o sangue continuava a pingar pacientemente do dedo cortado, preenchendo os sulcos da palavra entalhada. Fechou os olhos como se fizesse um pedido ou até uma rápida oração e entornou metade da cachaça.

Olhos, orelhas e maçãs do rosto totalmente vermelhos, os lábios em um curva descendente astronômica e as rugas ao lado dos olhos, que já tinham deixado de ser pés de galinha e viraram pés de peru de tão proeminentes o faziam parecer uma máscara mortuária. Depositou o copo ao lado da faca e passou a observá-los, tentando determinar qual era mais importante para um ser humano como ele: o líquido entorpecedor de mentes ou o elemento doutrinador de bestas humanas.

Os olhos se apertaram em direção a ponto nenhum e os dentes se trincaram, relembrando detalhes desagradáveis da derrota. Se tivesse uma bomba…

Respirou fundo e secou ao néctar transparente que restava no copo sem pestanejar. Do fundo de sua garganta um bramido rouco e breve. Levantou a mão e pediu outra dose. Enquanto a esperava retomou a faca e reiniciou o jogo, fincando a lâmina entre os próprios dedos em velocidade cada vez maior. Outros erros leves e novos cortes pequenos em outros dedos. Mais sangue derramado.

A palavra entalhada, a essa altura já estava completamente preenchida com sangue. Aliás, uma frase estava preenchida com o seu sangue impuro no tampo da velha mesa de madeira. Ele a leria, se o soubesse. Mas não sabia. Não conhecia filósofos antigos, nem modernos. A vida era dura e ilógica para ele de maneira empírica. Nova dose.

Na mesa, a frase ensanguentada destacava-se para ninguém: * “O ser humano é uma paixão inútil”.

*Jean Paul Sartre

                              Marcelo Gomes Melo

Diretor do Departamento de Proteção às saias

Eu segurei na barra da saia dela, na ponta do vestido, quero dizer. Ela me olhou como se eu fosse de outro mundo, saquei com o canto dos olhos, confiando na visão periférica, já que me mantive focado no horizonte através da janela.

Possivelmente encarou a minha atitude como a mais ousada do mundo em tempos de processos judiciais por assédio sexual, ofensas machistas desrespeitosas e mais hipocrisia que servem mais como epítetos do que palavras de ordem. Tempos ruins, de inimigos cordiais em vez de homens e mulheres dividindo o mesmo espaço na natureza.

Aquele olhar surpreso era límpido, e poderia se transformar em ameaçador, era só questão de tempo. Mas não larguei a saia dela. Em vez disso fiquei imaginando o que se passava pela cabeça dela naquele momento.

Certa irritação, pensando que eu era arrogante o suficiente para me declarar dono dela. Certo medo por imaginar a probabilidade de lidar com um maluco perigoso. Um determinado alívio por acreditar se tratar apenas de um lunático idiota inofensivo.

Eu juro que gostei do controle emocional dela, instantâneo; sem gritos, sem agressões, sem escândalos. Manteve os olhos em mim, e depois para o local em que eu olhava, através da janela enorme, por onde entrava um ar quente que refletia o calor terrível lá fora.

Olhou de mim para a minha mão na barra de sua saia, e depois fez o caminho de volta. Deixou claro, através da postura corporal, que esperava uma explicação assim que eu olhasse na direção dela. Mas eu não olhava, apenas a observava discretamente.

– Com licença, senhor… – a voz era linda e cálida, contendo um fiapo de indignação. Agora eu teria que olhar para ela, não era possível ignorá-la com a mão na barra da saia dela.

A moça não fizera nenhum movimento para afastar a minha mão a milímetros de sua coxa, acho que estava curiosa por respostas. O que faria um cara como eu segurar a saia de uma mulher como ela daquele jeito, em público, sem razão aparente, completos estranhos.

Virei o rosto o mais lentamente que pude, até mergulhar o castanho dos meus olhos profundamente no verde dos olhos dela. A minha voz teria que ser ouvida, e a explicação teria que vir através dela, imediatamente.

Foi exatamente quando aconteceu. O avião taxiando na pista passou à distância suficiente da janela para provocar uma enorme ventania. Papéis voaram, canetas caíram, cabelos se espalharam, pessoas sorriram e gritaram, tentando recolher tudo o que caía. Apenas uma coisa não se moveu. A saia dela.

Uma sombra de sorriso deixou claro de que agora ela entendia o motivo. Parecia agradecida. Soltei-lhe a saia. A mantive presa em meus olhos.

– Nos conhecemos…? – ela insistiu, com o mesmo tom de curiosidade misturada com simpatia, no momento.

– Agora sim. – respondi, olhando a parte descoberta abaixo da saia. Vestido. Acho que era vestido. Vi joelhos. Panturrilhas. Movi a cabeça de um lado para outro vigorosamente para retomar o foco.

– E você, quem é? – mais sorrisos, mais brilhos nos olhos e mais curiosidade. Mulheres…

– Eu sou o diretor do departamento de proteção à saias. – saboreei a expressão que ela deixou escapar – Fui designado para você.

Pronto, estava explicado. Acho que pisquei como um canalha estúpido e me afastei, entrando em meu pequeno escritório.

Uma hora ou outra ela viria até mim. E a minha função mudaria. Passaria a desproteger saias.

Marcelo Gomes Melo

Diário das incertezas de um número

Mantenha a calma e observe a cena que lhe cerca sem perder o mínimo detalhe. Disso deve depender o sucesso do seu trabalho.

Resista à vontade de deixar a mente se dispersar, pois vai perder algum detalhe e esse detalhe irá significar bastante na sua linha do tempo.

Informações claras, precisas e reais compõem o pacote que representam a você durante a sua participação, e a sua inserção no grupo é imprescindível.

Não se deixe apavorar com atitudes que pareçam hostis, elas tendem a se repetir e caso lhe incomodem, sua percepção aguçada se tornará ainda mais sensível, afastando-o do objetivo principal.

Agora não assuste aos hostis com a sua carranca de guerra, despeje ações sublimes pelo ar e aguarde o retorno, que pode até demorar, mas quando chegar lhe fará parte dessa enorme e desolada família dos que procuram algo sem ter certeza do que se trata.

Não se preocupe com algum nome, identificação, apelido carinhoso; todos o conhecerão pelo número. Qual? Você se acostumará quando o usarem, perceberá que se trata de você. Será nesse momento que a correnteza o arrastará e não haverá como se segurar. Repito, não resista. Tudo vai, de alguma forma, ficar bem.

Marcelo Gomes Melo

Desafios da vida contemporânea para as práticas de ensino da língua portuguesa

O ensino da língua portuguesa na sociedade contemporânea tem apresentado inúmeras dificuldades e desafios por conta da evolução constante dos indivíduos e do surgimento de novas maneiras de pensar e agir individual e coletivamente, da quantidade de informação obtida e da velocidade com que ocorre, alcançando automaticamente a um número maior de pessoas e exigindo ações eficazes com o intuito de facilitar a decodificação e produzir seres capazes, reflexivos e críticos, que formem opiniões e participem diretamente da vida em sociedade.

O impacto decisivo causado pela globalização nos meios educacionais, principalmente motivados pelas novas tecnologias, possibilitou maior acesso aos chamados letramentos extraescolares, que mostraram ser necessários além dos gêneros escolares na capacitação de alunos competentes. As práticas de ensino-aprendizagem, então, requerem novas estratégias e ações que visem superar os desafios surgidos ao mesmo tempo, adequando a língua portuguesa às necessidades prementes do educando desejoso de inserir-se ativamente no mundo social.

As dificuldades, entretanto, surgem exatamente no acesso da grande massa de alunos não pertencentes à elite, ao encontrarmos indivíduos distanciados da norma culta da língua, com a sensação de que a mesma é desnecessária porque jamais a utilizarão. O fato de os profissionais lidarem com uma língua bastante complexa e assustadora pode aparentar que é arcaica e ultrapassada; em contrapartida, as dificuldades de uso das ferramentas tecnológicas por parte dos professores colaboram para que os problemas aumentem e afastem os educandos de um mergulho mais proveitoso e sem traumas.

A resistência do corpo docente às mudanças é outro desafio a ser superado, assim como uma maior participação da família na educação dos filhos; família essa que hoje apresenta moldes bem diferentes dos originais, tornando-se mais uma dificuldade a transpor para encaixar um ensino que demonstre eficácia.

Antigamente a vida cotidiana não fazia parte da cultura escolar, e os saberes ensinados pela escola diferiam dos saberes cotidianos, coisa que hoje em dia é impossível separar. A utilização dos recursos tecnológicos para produzir conhecimento, desde que devidamente dominados pelos profissionais, fatalmente diminuirá a distância entre escola e dia-a-dia, modernizando a aprendizagem, tornando-a atraente e prazerosa, despertando um interesse natural sem táticas de motivação artificiais ineficientes.

Cabe à escola reconhecer que não mais detém o monopólio, passando a utilizar novas linguagens e saberes além dos já consagrados, favorecendo o desenvolvimento de uma juventude até bem pouco tempo ausente dos benefícios da educação formal por diversos motivos.

A democratização do ensino em geral favorecerá ao ensino da língua portuguesa, desde que tais desafios sejam percebidos e superados por uma ação coletiva e consciente.

 

Marcelo Gomes Melo

A hora do Tapitinguá

Hanestésio é macho bomba, é garoto sepulcral, é modinha plural, o homem das baladas epidemiológicas. Gosta de se vestir de forma inequívoca, tornando claro que está antenado com as tendências delimitadas pelo mundo em todas as áreas, principalmente as artísticas.

Artísticas na óptica dele, diga-se de passagem. E o gosto de Hanestésio, homem do amor e da flor, tiozinho Sukita sem noção, não era lá essas coisas, pendendo mais para o péssimo do que para o razoável. Mas gosto é algo bastante subjetivo, dizem os que vivem em cima do muro, sem querer se comprometer com nada que lhes traga antagonismo.

Hanestésio empurrava aquele boné na pequena cabeça de melancia, uma calça daquelas retalhadas que custam uma fortuna mesmo que faltem pedaços, um tênis de jogador de basquete americano, coloridão com cadarços desamarrados, uma camisa polo de marca dois tamanhos maior e um óculos escuros utilizado como “arquinho”, resquício da mania do pagode que ele mantinha sem perceber. Ah, cabe ressaltar que os óculos ficavam sobre o boné, o que era ainda mais bizarro!

E assim ia ele às baladas mais exóticas, batalhando as novinhas como se não houvesse amanhã, tentando se acomodar em uma tribo que não parecia ser a dele em nome da felicidade. Hanestésio era homem de cidade pequena, distante dos grandes movimentos da moda universal, mas desde que inventaram o computador, as informações se encurtaram, chegavam mais rápido ao local em que ele se escondia, isso era estarrecedor. As notícias chegavam, mas distorcidas como na antiga brincadeira do telefone sem fio, que existia na Era da pedra lascada ou coisa assim.

Para ele a sexta feira era a “hora do Tapitinguá”, era quando a onça bebia água, e a “onça” era ele; saía para a caçada semanal por sexo, cerveja e funk carioca, não necessariamente nessa ordem. Esses elementos acalmavam o âmago tumultuado de Hanestésio, o desespero silencioso que o massacrava, a solidão tática que se espalhava por todo o seu ser e o fazia tentar eternamente manter o pescoço acima do lamaçal que era a vida para um ser humano como ele.

Pode ser triste, mas é assim com milhares de indivíduos, e talvez o apego às futilidades salve diversas pessoas do ostracismo e da morte; então, já filosofando sem querer filosofar, nada é tão sem categoria que não se possa absorver alguma coisa em proveito próprio. Isso faz de muita gente uma recicladora ambulante de lixo.

A hora do Tapitinguá pode ser um engano solene ou uma salvação sensacional, dependendo de como cada um encara a sorte, ou a falta dela. Levando isso em consideração, todos deveriam agir como Hanestésio em 50%, pelo menos; criar a própria hora, seja em que dia for, seja em que local estiver. Sem esquecer que a ausência de preconceito também pode se tornar um preconceito, metalinguisticamente falando.

Marcelo Gomes Melo