É o mundo que muda a vida ou a vida é que muda o mundo?

É incrível como os tempos mudam, a vida constantemente se recicla e com ela os conceitos, as regras, o modelo de negociação das pessoas com elas mesmas e com os grupos com os quais se relacionam.

Nada é fato até que o exemplifiquemos, e tais exemplos servirão para demonstrar que as gerações vão envelhecendo, e com isso apresentam dificuldades para entender e aceitar as novas gerações com seus novos estilos, conceitos e ideais. Imutáveis são as perspectivas de cada geração, afirmando que a geração posterior à sua é sempre mais pobre de cultura, mais fraca moralmente e desmotivada por natureza. As coisas são assim, simplesmente. E não é possível perceber antes que se alcance determinada idade.

Eu tinha um amigo mineiro que era o protótipo da região em que vivia; fumando cigarro de palha, acocorando-se à beira de um rio todas as manhãs, observando mais do que falando… E quando se manifestava o fazia baixinho, tranquilo, com prudência. Hoje, o homem não é sombra do diplomata que era. Fala alto e gesticula bastante, estressado e impaciente, opinando até sobre o que não é da sua conta. Mudou com o tempo.

Minha amiga paranaense de olhos azuis e cabelos loiros cortados à moda príncipe Valente, cheia de vida e atirando charme pela janela, a rainha dos bailes estudantis. A mãe queria que ela fosse miss; ela fingia querer ser bailarina, mas sonhava em ser dançarina e atriz. Hoje te quatorze filhos, divorciada seis vezes, e se confessa infeliz. O tempo, de novo.

Um amigo baiano que usava uma peixeira na cintura e batia em qualquer um, bebia o tempo todo e contava cicatrizes como relíquias de guerra, hoje é dançarino de pole dance em um inferninho na Praça da República e atende por um nome feminino estrangeiro complicado. É o mundo que muda a vida ou é a vida que muda o mundo?

Outro amigo paulista, sempre vestido como um mauricinho, esbanjando arrogância yuppie e tendo como único assunto o dinheiro, em qualquer situação, apresentando suas posses como carro e roupas importadas como currículo, exímio jogador na Bolsa de Valores… Hoje, vestindo camisa polo cor de laranja trabalha como vendedor de bolsas femininas no centro da cidade. Sinais do tempo?

Meu brother carioca, sempre de bem com a vida, disposto a tudo sem entregar nada em troca, o popular esperto, se dando bem em qualquer circunstância. Um boa praça, um tanto egoísta, mas, sem fazer coisas muito erradas. Não se levava a sério e nem coisa alguma em torno de si mesmo; no final de tudo um grande solitário com mania de grandeza. Agora, mais velho, mais sofrido, mais solitário e ainda sorridente, aparenta continuar o mesmo. Ainda assim foi mudado. À força. Acabou por descobrir que não é possível se dar bem para sempre usando as pessoas, e cuidar de si mesmo é muito, muito difícil.

Não vale a pena perder tempo pensando em coisas assim, a não ser filosofando com tequila e peixe frito em uma mesinha na calçada. O ritmo dos acontecimentos não mudarão por causa de ninguém. Talvez seja estupidez extrema associar amizade a valores financeiros, bondade a amor infinito, discriminação a status. Tudo isso equivale a comprar todos os números de uma rifa cujo prêmio é o direito de ser hipócrita eternamente, sem descanso.

A vida não vai parar para ninguém descer, então o melhor é ajustar-se a seu modo. Faça com que sua estadia por aqui valha a pena, tire proveito de sua vida sem atrapalhar a dos outros. Sem que atrapalhem a sua. Sem discriminar ou ser discriminado. Talvez seja nisso que se resuma a existência.

 

Marcelo Gomes Melo

Champagne em caso de amor perpétuo

Ela demorou tanto que eu cheguei a confrontar o meu imaginário para questionar se existia de verdade!

Raios! Olhei tanto o relógio que o desgastei, e hoje vejo o horário no celular. Tomei tanto milkshake de diversos sabores que a garçonete começou a me olhar estranho, como se eu fosse algum tipo de criança grande fominha. É que ela, a garçonete, não sabe que só bebo do Porto quando brindo ao que está por vir, estampado nos olhos raros da minha amada imortal.

Ela demorou tanto que as flores de plástico na prateleira da loja de enfeites em frente ao parque desbotaram de tristeza por me verem atarantado. Essas flores não sabem que só tomo conhaque quando o corpo dela se afasta e neva em meu pensamento!

Acho que dei mais de mil passos, de um lado para o outro, mãos nos fundos dos bolsos, o olhar a laser varrendo cada canto possível, esquinas marotas, pregam peças o tempo todo; surgem belas aos montes, sereias dispostas a hipnotizar a qualquer homem. Mas eu não sou um homem qualquer.

Essas delícias quando surgem, cruzando as esquinas, não fazem ideia de que só tomo uísque se o mundo acabar!

Tenho absoluta certeza de que isso é um teste para sentir que o meu coração aguenta. Comi um cachorro quente, um saco de pipocas e li a bula de um remédio! A moça da sorveteria me olhava por baixo dos longos cílios, sorria maliciosamente, pensando quase que em voz alta: “esse cara vai engordar quinze quilos antes que a mulher de sua vida apareça como a lua…”.

Sim, o dia acabava, e eu sentado num banco de madeira, no parque, observando a areia, os brinquedos e os últimos raios de sol, olhos baixos. Foi então que os céus se abriram e os sons de romance brotaram! Vi os sapatos pequenos, azuis como o vestido. Vi o sorriso largo e os quadris rebolando, naquele ritmo suave que me faz apertar os olhos, repleto de expectativa. Ergo meu queixo, arrogante, mordo o lábio inferior, mas ela nem se dá conta. Mantém um sorriso e faz o caminho, sem pressa, sem entender, cada segundo é vital!

Depois de um milênio ficou ao alcance de um beijo, mas sou teimoso e, em pé, a um passo do precipício, silenciei. Deixei meu olhar acariciar-lhe o corpo todinho, de cima em baixo, e sorrindo, deixei que, na ponta dos pés, apoiasse as mãos no peito e beijasse com gosto. Sabia como fazer!

Eu a sentei em meu colo, e meio atrapalhado busquei a caixinha de veludo em meu bolso. Aquele olhar me avaliava, com satisfação em seu lindo rosto?

Os últimos raios de sol refletiram-se nos anéis, quando ela abriu a caixinha. O ar de surpresa fingida continha mais certeza do que a minha apreensão. Não precisava palavra alguma para descrever. Suspiros não têm marca.

E ela sabe que eu só bebo champagne em caso de amor perpétuo.

 

Marcelo Gomes Melo

Eu poderia até lhe contar, mas então teria que…

As mulheres querem sempre saber de tudo, e sempre querem saber a verdade. Será que não imaginam o quão perigoso isso é?

Um homem pode guardar para si grande parte das maldades do mundo sem pestanejar, sem falar por horas reclamando, praguejando e se lamentando. Chorar à toa é deprimente, desconfortável e indigno para um homem. Não se trata de machismo, de forma alguma! Nas cavernas em que habito isso não existe. O problema é atitude e percepção diferente de mundo.

As mulheres querem sempre estar entre os que sabem de tudo. Mesmo que não tenha nenhuma importância e não vá afetar suas vidas, preferem estar pro dentro. “Como assim seu amigo bêbado e fumante está com o fígado e os pulmões avariados e você nem me contou”? Eu sempre disse para você não se envolver com ele, que era má pessoa! Como permitem que ele jogue futebol e baralho com vocês?!

É ele quem está doente, não eu! Eu não fumo e só bebo socialmente, como é que o homem pode ser má influência, você pergunta timidamente, temendo produzir uma série de sermões e brigas desnecessárias.

O melhor exemplo de tudo isso é o daquela mulher que namorou o cara por anos e anos, ficaram noivos e ela sempre insistia em saber o que ele tinha que fazer todas as quartas-feiras entre 21h00 e 24h00, chovesse ou nevasse, desde que se conheceram. Ele, sério, sempre respondia que poderia até contar, mas então teria que matá-la. A moça sorria amarelo, mas não se conformava. Como o noivo podia sumir toda quarta por três horas sem contar a ela, ou pelo menos levá-la como companhia? Afinal esse mundo era tão perigoso… Como se ela fosse uma guarda costas eficiente. Mas não haviam nem se casado ainda; melhor garantir-se primeiro antes de infernizar a vida do rapaz.

Só que o casamento veio. E com ele todas as garantias financeiras, afetivas e legais que cobriam o seu direito à cobrança sobre os atos do marido. Então começou a aterrorizar logo na lua de mel, insistindo para que ele contasse o que ia fazer todas as quartas sozinho e aonde ia. A resposta, gentil, mas fria era a mesma: até podia contar, só que teria que matá-la.

Com o passar dos tempos o sorriso amarelo de conformismo e aceitação foi se tornando um rosnado ameaçador, mostrando unhas e dentes, acelerando a voz esganiçada sem parar n os ouvidos do homem, cuja calma estava sendo minada e a tolerância abalada.

Até que, em uma quarta-feira, ao chegar do compromisso noturno foi abordado pela esposa de forma mais insistente e desagradável, repetindo as mesmas cobranças e perguntas, cada vez mais agressivas e difíceis de suportar. A madrugada já ia alta quando a resistência estoica do marido ruiu. Sentando-se na cama, curvou-se e com os lábios alcançou a orelha da esposa. Atenta, ela sorveu cada palavra que ele contou em voz baixa e tranquila. Arregalou os olhos, abriu a boca em forma de zero, demonstrou todas as características femininas de satisfação por descobrir um segredo alheio. Fez expressões de reprovação, balançou a cabeça positiva e negativamente a seu tempo, até que suspirou por longos minutos, ciente de tudo, de cabo a rabo. Quase um orgasmo; não, melhor do que um orgasmo! Logo viriam os questionamentos intermináveis, a pressão para saber mais detalhes…

O marido vestiu o roupão, impassível, e foi até a cozinha, deixando-a na cama, pensativa, vitoriosa, degustando o segredo. Quando ele retornou ao quarto ela já estava preparada para iniciar o terror pelos detalhes. Abriu a boca e olhou para o marido em pé ao lado da cama. Deparou-se com o cano escuro de uma arma de fogo apontada para ela. A voz sumiu de sua boca e o sangue de seu rosto. Só teve tempo para lembrar o que ele sempre lhe dissera desde o tempo de namoro.

A polícia a encontrou morta com dois tiros no peito e um na cabeça, execução profissional. Assassinato limpo, rápido e frio. O marido havia sumido sem deixar vestígios ou impressões digitais em lugar algum. Jamais o encontrariam.

No inferno, o diabo já pensava em transferi-la para a solitária, pois não aguentava mais tanta pergunta sobre o marido que a detonara!

Marcelo Gomes Melo

É assim que são forjadas as almas mais fortes?

Em janeiro recusei, disse que não iria nem a pau porque era muito caro. Onde já se viu! Um roubo daqueles desgraçados que vivem para dissecar as pessoas, vertendo dinheiro para o próprio bolso às custas do último naco de carne arrancado do osso. Não vou, não vou e não vou! E não fui.

Isso gerou um tremendo mal estar porque ela retrucou, ameaçou, chiou, regulou, fez greve e maldisse a mim e à minha centésima geração a partir dali. Dias de muxoxos, cara feia, refeições fast food e ironias contra a minha impávida figura. Mas não fui. Venci ao sistema.

Em fevereiro brinquei, fiz cena, argumentei matematicamente, difamei, proibi e fiquei. Sozinho. Todos os outros foram. Mesmo assim, ignorado e atropelado fiquei para trás. Não fui corrompido.

Em março e abril chutei lata, briguei, citei analistas econômicos, excomunguei políticos, religiosos e comerciantes, culpei os illuminatti, previ o final do mundo, assustei até aos animais de estimação e consegui barrar o êxodo. Isso me custou algumas regalias, uns investimentos em presentes para acalmar a fúria coletiva, mas permaneci firme por aqui.

Maio, junho e julho foram meses de tensão contra mim. Fui encostado contra a parede, com uma faca no pescoço. Luzes fortes de um abajur em meus olhos, privação do sono, axé music, pagode, funk e tomateiro caipira songs em alto volume me torturaram dia e noite, até que, diagnosticado com esgotamento nervoso tive um tempo de paz na UTI de um hospital grandioso; escapando da morte fiquei à base de gelatina e sopa sem sal por mais uns tempos, então não pude mesmo ir, e me deixaram em paz, mesmo que condicionassem a minha melhora à ida para aqueles locais aos quais eu ainda resistia.

Agosto, mês de cachorro louco, foi mais fácil para assombrar a todos e tive um bom motivo para ficar. Setembro e outubro foram meses em que apelei à superstição alheia, contando e recontando casos de abdução alienígena, profecias para o final dos tempos e a periculosidade do ser humano em estradas, armados com seus carros velozes e ausência total de escrúpulos. Fiquei sorrindo como o coringa e apertando as mãos, cantando vitória sentado em uma cadeira de balanço num canto escuro da sala, como um vilão de história em quadrinhos. Não fui a lugar algum. Estava goleando os guias turísticos e agências de viagem; massacrando a economia corrupta de lugares paradisíacos e mantendo a mim mesmo afastado do assalto teleguiado que nos torna miseráveis sem que percebamos. Eu percebia! Os meus olhos não perdiam nada, movendo-se ansiosamente de um lado para o outro, observando as mudanças naturais, geográficas e até emocionais ao meu redor. O meu sorriso era um artigo raro e só aparecia para brindar a mim mesmo, saindo meio retorcido, parecendo mais um tipo de choro angustiado do que uma demonstração de felicidade.

Em novembro os dias se tornaram mais longos e o cansaço caiu sobre os meus ombros como um caminhão de melancia. Já não tinha forças para argumentar contra o malfadado sistema que carregava humanos para a rampa engraxada em direção às profundezas dos infernos coloridos e abundantes em opções de todos os tipos. Era eu quem estava apagando, murchando como uma flor a quem negaram água pura, me autodestruindo como um viciado com as faculdades mentais corroídas pelas drogas.

Agora é dezembro, fim de ano, período de tristeza e depressão, balanço individual de vidas vazias que nada fizeram a não ser se curvar aos atrativos empurrados garganta abaixo para comandá-los mais facilmente e dominá-los completamente. Dezembro é período de meditação e de bondade suprema, pagamento dos pecados anuais e novas promessas para o próximo ano. Os pecadores fingem que se importam e os que se julgam santos fingem que acreditam no que vendem; os que são como eu, resistentes, escravos, desconhecedores do poder da resiliência, o que fazem? Morrem mais um pouco, da mesma forma que o fazem mês após mês?

Eu não, canastrão! Eu não! Acabo de decidir me rebelar contra mim mesmo. Tudo o que deixei de fazer com os que me amavam durante o ano, tentarei recuperar agora, nos dois últimos dias do ano. Vou beber a viagem de janeiro às dunas maravilhosas; encharcarei os dias perdidos de carnaval em um local maravilhoso, em que poderia ter pescado e vivido. Comerei cachaça com farinha para os meses de março e abril, sorvendo prazer a cada gole em que poderia ter estão com todos numa praia iluminada e deliciosa, expurgando o cansaço e a tensão. Para maio, junho e julho, champagne, cerveja, vodca aos montes! Só o coma alcoólico me deterá! Em recuperação a agosto, setembro e outubro, tragam-me uísque, Martini, caipirinha! Para novembro todas as batidas calientes, pisco, tequila e saquê.

Para dezembro, com a voz engrolada, a pressão nas alturas e o coração batendo lentamente, ouçam as instruções finais! Injetem álcool e gasolina no soro, assim que eu estiver acomodado em meu leito de transição, no hospital, cercado de fantasmas de branco, esperando a carruagem escura que me guiará até o aterro, meu apartamento final. Sob a terra molhada estarei tranquilo pela tentativa desesperada de recuperar uma vida em dois dias por meio do álcool. Festejem o dia do meu esclarecimento final! Não sou mais quem eu fui, sou outro. Superei a mim mesmo e às convicções turvas que me carregaram por uma vida quase que inteira, se tirarmos os últimos dois dias. É assim que se forjam os fortes? Ou que os trouxas se deixam levar às mortes?

Marcelo Gomes Melo                                        

Das necessidades de um povo que deseja evoluir intelectualmente

O que dizer dos anúncios comerciais veiculados atualmente na televisão brasileira? Os mestres da propaganda estão conseguindo se superar na arte de vender, de criar consumidores vorazes e desvairados alimentando sua sanha insaciável por gastar cada vez mais e além das próprias possibilidades financeiras.

O que precisamos perguntar é se nessa guerra desenfreada há comerciais de extremo mau gosto e de entendimento dúbio por puro nonsense ou desespero em chamar a atenção de compradores em potencial.

Quando comerciais de automóveis focam em sentimentos como a inveja, determinando ser isso o que move determinada classe social consumidora e tornando claro que aquele que não possui o modelo da moda é inferior social, financeira e intelectualmente; ou mostram amigos se corroendo de ódio porque um deles possui um automóvel melhor, com mais acessórios, a ponto de prejudicar a amizade. Que mensagem é enviada à sociedade através de tais anúncios?

Em casos ainda mais confusos, quando tentam demonstrar que o motor é o mais silencioso da categoria e para isso utilizam uma aparentemente adolescente, com visual entre treze e quinze anos de idade fugindo de casa, enquanto um locutor lista todos os benefícios de possuir um carro daqueles. A menina entra no automóvel e vai para a balada largando um pai desesperado, cheio de preocupação em sua sala, impotente; e com o passar das horas roncando com um livro sobre o peito, altas horas da madrugada, quando a menina retorna feliz e insensível, e faz uma cara de desprezo ao vê-lo ali, prostrado, como se o pai fosse um idiota qualquer, fácil de enganar, e sem condições de tomar qualquer atitude, porque adolescentes, de acordo com as leis atuais têm apenas direito e nenhum dever, recaindo sobre os pais o ônus e a culpa pelos erros cometidos.

Vale a pena passar esse tipo de mensagem para uma sociedade já degradada pela falta de respeito, ética e sem leis que não sejam unilaterais, apenas para vender automóveis?

E quanto aos comerciais que se utilizam de linguajar chulo intencionalmente, ou incentivam à juventude o desrespeito às pessoas, principalmente às idosas?

Uma sociedade deveria ter como princípios bases sólidas de respeito às leis, conhecimento dos deveres e direitos e uma clara noção de certo e errado, legal e ilegal que norteasse as atitudes da população, facilitando o entendimento, proporcionando a capacidade de discernir para apresentar um comportamento saudável e condizente com as necessidades humanas. Só então seriam capazes de manter a mente aberta para respeitar as diferenças e conviver de forma pacífica, num ambiente de colaboração que eleve a qualidade de vida para todos.

Marcelo Gomes Melo

 

Em nome de quem?

Em nome de quem você fala de amor? Em nome de quem você age como se fosse o ser humano mais ético da face da Terra? Em nome de quem você vem do além para assombrar à própria sombra com discursos manjados, expressões conhecidas no rosto impassível, desprovido de raiva e de felicidade, uma máscara emborrachada que se contorce de acordo com as manifestações que faz, sem nenhuma realidade, sem nenhuma verdade transmitida. Nada que comova a quem lê as camadas interiores e não se concentra apenas na superfície viciada e preparada para as câmeras e convivência social.

Em nome de quem você finge estrebuchar e, com lágrimas nos olhos lamenta as piores bizarrices, desculpando atitudes macabras, não por que acredite, mas porque pode lhe retornar rendimentos futuros, e essa é a sua razão de viver!

Em nome de quem você sorri descaradamente e realiza tudo e ainda mais das coisas que critica em outras pessoas? Em nome de quem você insiste em ganhar a qualquer preço, massacrando ideais, destruindo rivais, ignorando as necessidades mais simples dos que lhe rodeiam diariamente, enquanto segue com o olhar frio sempre à frente, imune aos rastros de sangue que deixa no chão sob os sapatos envernizados.

Em nome de quem você ergue a voz contra todos, acusando a gregos e troianos, ao mesmo tempo em que seca o suor que escorre de sua testa com um lenço de linho, de uma forma que a pureza do acessório arrancasse, metaforicamente, a hipocrisia e maldade de suas ações, lhe tornando um escolhido por ninguém para fazer nada. Apenas um escolhido em sua mente cavernosa e desproporcional à sanidade esperada de qualquer um, principalmente a quem se considera um deus.

Em nome de quem você diz lutar, se não beneficia a outra pessoa que não a si mesmo? Você não tem os joelhos esfolados como os coitados os quais você julga apalermados por depositarem todas as parcas fichas que possuem em algo superior, quando para si mesmo o superior é você?

Em nome de quem você mente e furta, rouba e perdoa a si mesmo com as desculpas mais esfarrapadas, surreais, inacreditáveis? Em nome de quem você vem do além, futurista de ideias retrógradas, modernista de modas ultrapassadas, construtor de destruição, delator das impropriedades pessoais, engenheiro do que já foi feito, defensor do indefensável…

Em nome de quem?! De quem?! Você é tão comum entre a maioria de tolos…

Marcelo Gomes Melo

Da arte para a vida (ou o contrário)

Retire-se do seu corpo e sublime as emoções, viajando no tempo por diferentes mundos, fazendo coisas que normalmente não o faria, aprendendo coisas que necessariamente não aprenderia, imiscuindo-se em vidas sem poder explicar a razão, conectando-se sensorialmente a outros indivíduos e partilhando memórias, problemas e felicidades.

O que se argumenta não é sobre super-heróis, como os de Stan Lee, com os superpoderes aflorados de alguma forma inusitada, mas do homo sensorius, um talento manipulado geneticamente, talvez. A chance de, em diferentes pontos do planeta pessoas desconhecidas entre si e vivendo realidades opostas, conseguem comunicar-se em um nível jamais imaginado.

Haverá realmente essa possibilidade? Já existirão seres capazes dessa interação entre os viventes? Sendo isso possível, as relações humanas sofrerão uma mudança radical, física e intelectualmente?

Essa é a premissa da aclamada série Sense 8, que faz bastante sucesso na Netflix e atrai espectadores que se importam com as transições que existem desde sempre da arte para a vida real, tanto ou mais do que o contrário.

Marcelo Gomes Melo

 

Em busca de lírios

Cavoucando em busca de lírios encontrei terrores que me enlamearam as mãos.

Descobri segredos dourados que me enriqueceram materialmente e me puxaram de uma vida torpe para outra vida torpe, fantástica, além do cemitério.

A visão que se tem do palácio é miserável de horizonte a horizonte. Enfiado em sedas respirando o ar dos jardins, chega a ser inacreditável o horror que causa toda a natureza morta espalhada à distância das mãos, mas intrínseca ao coração.

Quem vive como escolhido perde a noção do que acontece sob a triste realidade, protegido em seus castelos dourados e torres de marfim, filosofam a respeito de jogadas que jamais fizeram, por serem apenas mecenas dos verdadeiros enxadristas, os manipuladores que desenvolvem as queimas e controlam o caos friamente, sem lamentar os efeitos colaterais, as vítimas, a matéria prima para a produção de benefícios e delícias.

O prazer dos nascidos em berços marcados não atinge todos os sentidos, pois não conseguem afastar a escuridão quando miram, inocentes, as amplas janelas. É isso que lhes gela o sangue e os obriga a pensar num futuro sombrio. Só essa possibilidade já os envelhece em mil anos!

O que se enxerga dos campos vermelhos é promessa de amor e imortalidade, vitalidade sem escrúpulos e sorrisos constantes. Mas sempre há um ponto em que todos descobrem inapelavelmente que só os lírios vivem para sempre.

 

Marcelo Gomes Melo

Em qualquer situação, o sofrimento é igual

Enquanto ela namorava o caixa do Banco em que tinha conta, tudo andava bem. O rio fazia o seu caminho incólume, sensato e previsível como um rio deve ser. E parecer.

Havia jantares à luz de velas em que o caixa cozinhava, servia e lavava as louças antes de abrir outra garrafa de vinho e se acomodar junto dela para assistir a um filme de terror.

A acordava com café na cama e uma rosa vermelha para alegrar o dia, antes de colocar o paletó azul, ajeitar a gravata e sair assoviando um samba patético dessas rádios FM direcionadas a determinado público.

Eram dias rotineiros e sem medo de coisa alguma. Uma vidinha tranquila, sem sal, sem surpresas. O que a maioria dos viventes deveriam desejar em um mundo ideal.

Então surgiu uma pedra no meio do caminho, maior do que a pedra do famoso poeta para atrapalhar a rotina modorrenta com a qual ela estava acostumada.

Uma troca se fez necessária e nossa heroína aplicou um bico na parte traseira da anatomia do pobre caixa, passando a relacionar-se com um gerentão da mesma agência. A partir desse instante houve mudanças sutis que em pouco tempo se tornaram radicais.

O caixa, apalermado pelo tombo passou a cometer dezenas de falhas, culminando com um desfalque que o fez perder o emprego e puxar alguns anos de cadeia, com o coração partido e sem perspectiva de recuperação.

O gerentão chegou arrebentando na ostentação, oferecendo regalias nunca antes por ela conhecidas; passeios de carro importado, flores às dúzias, das mais exóticas e caras entregues sempre por um funcionário da floricultura… Gabou-se do quanto faturava para a empresa e para si mesmo, falou de ações e investimentos, valorizou os contatos para escolher as festas mais lucrativas, lotadas de pessoal influente em vez de momentos íntimos de diversão. Nada de amigos, apenas parceiros de negócios.

Em pouco tempo ela começou a enxergar a si mesma como a esposa-troféu, alimentada, vestida e treinada como a um rato de estimação, para ser exibida convenientemente de tempos e tempos.

A vida financeira bem resolvida suplantou a vida amorosa saudável e tranquila.

Hoje ela se pergunta se a decisão tomada foi a correta, abandonando o caixa pelo conteúdo da caixa, a dádiva de um amor tranquilo pela classe de um amor ao dinheiro.

No final das contas chegou à conclusão de que existe um empate no que diz respeito a ambos meios de “amar”, e diz respeito ao sofrimento. É igual em qualquer das situações.

Marcelo Gomes Melo

Da ironia das coisas (música para velórios)

Era linda, a danada. Elogiada por toda a família desde bebê, deixava a mãe enlouquecida de felicidade. A mamãe representava o tipo que, reprimido, não alcançara êxito em realizar os próprios sonhos; casara cedo e logo tivera filhos, então elegera a mais nova como a joia da coroa. Decidira realizar tudo o que não conseguira na pele da filha maravilhosa e linda que tivera, e nada nem ninguém a impediria.

Desde pequena alardeava aos quatro ventos que a criança seria bailarina. Na missa de domingo ficava com a menina, de mãos dadas em pé à porta da igreja, com todos os dentes à mostra exibindo a filha como animalzinho, toda inflada de orgulho com os elogios, até que o padre a tocava pra casa. O marido nada dizia; de vez em quando a olhava de esguelha, fungava e voltava a atenção aos seus afazeres.

A mãe sem noção logo decidiu que, além de bailarina, a filha teria que ser pianista, obrigando-a a estudar desde muito cedo. A menina foi crescendo sem direito a brincar como as outras crianças; a mãe a obrigando a estudar canto, dança, piano e se apresentar nas quermesses da igreja, na escola e em casa, para as visitas.

Logo passou a ser levada a programas de calouros, palanques de candidatos políticos, concursos de misses… Com dezesseis anos fez o teste do sofá para conseguir um lugar de figurante em uma novela. A mãe quase a doou para o diretor de elencos, esperando que fosse um pequeno preço a pagar pela fama.

Deu tudo errado. A garota participou como figurante. No meio de umas das cem mil pessoas em um massacre de um filme de época. A mãe mostrava a cena para todos, mas nem ela conseguia enxergar a filha no meio do pó, do sangue e dos gritos daquela gente. Isso não foi o pior. A filha da velha engravidou. Quando soube, o pai teve um infarto. A mãe correu para o estúdio em busca do diretor de elencos, suposto pai, mas o homem havia viajado para o Quirguistão sem plano de volta.

A moça, agora grávida, deixou aflorar o ódio que carregava encubado desde pequena quando a mãe surgiu com umas ervas malditas e uma folha de instruções de como agir para praticar o aborto. Com o pai internado, aproveitou para colocar um plano em ação: colocou veneno de rato na comida da mãe e livrou-se do tormento de toda uma vida.

Quando soube da morte da esposa, o pai deu um arremedo de sorriso, um suspiro longo, e em seguida infartou novamente, dessa vez foi fatal. O seu último pensamento foi se iria encontrá-la no inferno ou ainda teria chances no céu.

No velório dos pais ela cantou. Tocou piano e cantou. Todos se emocionaram e aplaudiram tresloucadamente, no final. Ela fora a estrela do velório. Todos os presentes se esqueceram dos mortos e passaram a homenageá-la, pedindo até autógrafos. Nunca se sentira tão contente e confiante! Agora sim, se achava uma estrela. Sozinha, esperando um bebê, mas uma estrela!

Ela teve que vender a casa dos pais para sustentar-se, e ao filho, enquanto tentava conseguir emprego como artista. Nada. Tudo o que conseguia era dançar em shows de forró universitário e fazer coreografia em bailes de peão de boiadeiro em troca de cachês que variavam de meio a um salário mínimo.

O menino foi crescendo nesses ambientes, vendo a mãe desesperada em busca da fama, sem conseguir, e prometeu a ela que seria famoso e rico para comprar uma mansão e viverem em festa. Emocionada, comprou para o rapaz um tênis de basquete americano, uma camiseta regata dois tamanhos maiores do que ele, uma calça de cintura baixa tão larga que o fazia desaparecer dentro dela e ficava caindo, deixando a cueca à mostra. Para completar, uns óculos escuros e garoto sentiu-se pronto para tentar a vida como rapper.

O que a mãe não contava é que nesse caminho o garoto se envolveu com gangues, adquiriu vício em drogas e virou assaltante, batedor de carteiras, político principiante. Alucinado, o garoto roubou todas as economias da mãe, que eram para colocar silicone e aplicar botox. Gastou tudo com drogas e, vítima de overdose, morreu.

Novamente apavorada, ela se culpava pela morte do filho, achando que era castigo por ter assassinado a própria mãe. Agora, em plena meia idade, sem ter alcançado sucesso algum decidira enterrar o filho e trabalhar como garçonete ou auxiliar de limpeza. O sucesso não era para todos, ficara óbvio finalmente.

O enterro do filho foi tão lindo quanto o dos pais. Ela resolveu cantar pela última vez em homenagem ao filho. E o fez de maneira brilhante, misturando guaranias com rimas de rap, música sacra com sertanejo, forró com funk carioca. Foi uma apresentação fenomenal! Um dos amigos do filho morto gravou a tudo no celular; as pessoas chorando, aplaudindo, dançando… Na hora do reggae caipira até acenderam cigarros de maconha. Era o enterro que entraria para a história!

O vídeo postado no youtube tornou-se viral, e a mãe do morto, ainda de vestido preto e com a maquiagem borrada foi contactada pelo diretor de uma gravadora internacional com a oferta para lançar imediatamente um disco chamado “Até os mortos dançam”. Ao chegar em casa o telefone tocou. Um convite para estrelar a novela das onze da noite “O defunto palrador”. E empresas funerárias aos montes oferecendo cachês de seis dígitos para que ela se apresentasse em velórios de famosos, com vídeo clipe e divulgação.

A outrora menina prodígio da mãe, assassina problemática e sem sorte agora era capa de revistas de celebridades, com seu vestido roxo agarradinho combinando com a Ferrari da mesma cor; saiu nua em revistas masculinas com poses fantásticas em cemitérios. Gravou vídeos para a internet nos quais saía nua de um caixão, com o corpo coberto por mel de abelhas, cantando o hit do momento “veneno de mãe”.

Esse caso fantástico foi eternizado em uma autobiografia intitulada “Da tragédia à glória”. Em seu túmulo nas profundezas dos infernos, a mãe dela se revirava, tentando mostrar os dentes de felicidade para o capeta.

 

Marcelo Gomes Melo