A fonte de todos os problemas do mundo

Eu tremi. Confesso que tremi como um adolescente em pé de frente para a turma, sabatinado a respeito de uma matéria sobre a qual não havia estudado.

Eu suspirei, quase gemi naquela rua a caminho da praia, sob o sol escaldante e a brisa suave e morna como um beijo no rosto recebido da mulher destinada a ser sua apesar de todas as dificuldades, quando o seu coração aposta tudo na libido exacerbada que ela provoca.

Não há como administrar escolhas no menu do prazer, ficou explícito assim que pousei o olhar sobre ela, bronzeada e apetitosa, ao alcance das mãos, postada entre mim e o muro.

Ela forçou o cruzar dos olhares; o dela contendo uma enorme interrogação provocativa: “E aí, vai fazer o quê?”, que toda mulher que sabe que é desejada faz, mesmo que depois tente recuar e esconder.

Com os lábios secos, minha única alternativa foi passear a língua lentamente, como um gato prestes a saborear uma suculenta porção de atum. Enfrentei-lhe o olhar ao mesmo tempo em que me vi obrigado a avançar mais um passo em direção a ela, liberando o espaço na calçada para os transeuntes, automaticamente roçando na pele dourada e saborosa.

Ela ergueu o olhar, entreabriu os lábios convidativos, prometendo silenciosamente passar a ser a fonte de todos os problemas do mundo…

Então despertei, me afastei rapidamente da vitrine da agência de turismo e de suas fotos do paraíso.

                              Marcelo Gomes Melo

A rainha tem um bebê!

Ela tem um bebê. Um garoto lindo e forte, faminto e curioso, alguém que veio com os seus olhos negros como o oceano à noite para iluminar a vida, anunciando, a partir daquele momento uma vida mais feliz, tranquila e repleta de esperança!

Um bebê de mares tormentosos cercando um ambiente maravilhoso, mas cheio de dificuldades intrínsecas, superadas com tanta simplicidade que enternece a alma de todos os que se dão conta de que o mundo é lindo, uma parte dos seus habitantes é o que atrapalha.

Ela tem um bebê! É uma fada que sabe cuidar com tanto carinho que emociona. O sorriso dela abarca o universo e abençoa o neném, que se sente aconchegado em nuvens de algodão doce; a voz morna de mamãe que encanta e completa o mundo fortalece a criança que devolverá em paixão todo o esforço voluntário para torna-lo feliz e amado incondicionalmente.

Esse bebê lindo sorri para a mamãe, lhe acalma os terrores, faz correr por suas veias novos desejos de se transformar em alguém melhor, saudável, reconhecer o quanto sempre foi amada e que o amor costuma exercer o poder de fazer brilhar, fortalecer e ensinar novos caminhos, antes não percebidos ou não reconhecidos.

Ela tem um bebê! Amor trocado sem dúvidas, canções que embalam o sono reparador, a arte de flutuar pelos locais sem se deixar abalar, mundo próprio que enleva e tudo vira sonho. Ela é linda e tem um bebê! Ambos, em sua caminhada espalharão flores e perfume inebriando aos que a amam incondicionalmente.

Bênçãos ao príncipe que, nos braços de sua rainha passeia impoluto pelo Arco do Triunfo, o amor em forma de gente!

                              Marcelo Gomes Melo

“Cabra do norte não presta”

O pau cantando no boteco do Corrupião e o cara continuava sentado em seu lugarzinho, bebendo a sua cervejinha como se nada estivesse acontecendo.

 De um lado, munidos de faca e garrafas quebradas, aos gritos e ameaças, um grupo defendia o repúdio à discriminação racial, social e regional provocada por uma fala descuidada e ofensiva de um cínico qualquer. Os adversários, com copos vazios e cadeiras empunhadas faziam a resistência, prontos para a briga feroz, argumentando que a frase dita não agredia nem discriminava a ninguém, portanto, lutariam, chegariam às vias de fato contra acusações exageradas e levadas a sério por conta de excesso de sensibilidade, prejudicando a liberdade de expressão.

Era a demonstração cabal de que o mundo polarizado atingia os lugares mais recônditos, e os seres humanos estavam cada vez mais intolerantes, tornando a vida em sociedade um perigo permanente. Qualquer coisa pode ofender. Seria o fim das piadas, dos apelidos, do tratamento amistoso que caracteriza o brasileiro comum?

 Agora as relações humanas estavam esfriando e a dificuldade em fazer amizades, ampliar os círculos de companheirismo, facilitados com o advento das redes sociais agora era um tiro pela culatra, com as posições políticas e opiniões pessoais colocando lenha na fogueira, polarizando a vida e derrubando os posts de flores e frases de autoajuda, hipocritamente alternados com as brigas violentas, ameaças e assassinato de reputações.

O Corrupião, dono do bar, desesperadamente tentava separar a briga e evitar mais prejuízos, arriscando o pescoço para atuar como barreira entre os grupos inflamados. Ele tentava ser eloquente e convencer a todos com o seu linguajar informal permeado de palavras de baixo calão, mas parecia complicado, no momento.

 No auge do terror, alguém se lembrou do cara calmamente sentado em um canto com o seu copo de cerveja e bradou em tom de acusação que ele era o responsável pelo início do ódio mortal! Todos pararam com os insultos e se viraram em direção a ele. Corrupião o interpelou bruscamente:

  – Você começou os insultos e está aí tranquilo. Não tem vergonha na cara?! Foi você quem afirmou em alto e bom som que “cabra do norte não presta”!

  – Sim! O que tem a dizer sobre isso? – perguntaram membros dos dois grupos, irados – Vamos, fale! Por que cabra do norte não presta?!

 E ele respondeu, entre surpreso e irônico:

– Dizem que não dá leite…

                                        Marcelo Gomes Melo

A imagem do amor que tínhamos

Cactos. Com açúcar. Um entardecer perfeito seguido de noite tempestuosa, escuridão completa iluminada por relâmpagos, belos, mas perigosos; e trovões assustadores como pano de fundo.

A afirmação viva de todo paradoxo existente no universo, somadas às sensações naturais, artificiais e passíveis de descobertas.

Uma visão do horizonte árido e seco, a resiliência alimentada por felicidade, corroída pelo ódio causado pela frustração. Ódio letal, mas passageiro, jamais motorista.

Retoques dourados valiosos em objetos toscos, aplicados com mãos piedosas e limpas sem nenhum cuidado, apressados, impiedosos.

E ainda assim sobrevivia. De forma imprevista, uma surpresa em cada curva, sem cobranças audíveis; nada que um toque entre as mãos não resolvesse. Funcionava sem concessões, com ferimentos e machucados curados com vodca e boa vontade. A tristeza adicionava períodos soturnos enquanto durava, sem autopiedade nem acusações infundadas.

Os dias duravam séculos, o sono não nos alcançava, as maratonas eram exaustivas e compensadoras, o ritmo era constante.

Hoje o que se vê são terrenos mortos, vazios, cobertos por um céu pálido. Não há brisa, muito menos ventania; sem férrea determinação, sequer mania…

Olhares cegos para o óbvio, batidas lentas de corações anestesiados. Ausência de presente, inexistência de futuro. Constatação de um passado distante que se esvai a ponto de não deixar certezas. Uma dúvida tão real que tende a desaparecer.

                              Marcelo Gomes Melo

A produção de heróis como meio de expiação

A criação de heróis é uma grande maldade com o eleito para carregar esse peso terrível de aglutinar todas as virtudes em um só, tornando-se quase um deus, alguém sem defeitos, infalível em todos os momentos, o exemplo para todos os mortais.

É possível que a produção de heróis aconteça para que o restante da humanidade possa jogar sobre eles todas as frustrações diárias, as incompetências naturais, as falhas e os pecados, aliviando as próprias mancadas com a desculpa de que apenas os heróis são perfeitos, e portanto são eles que não podem errar ou senão apedrejados sem piedade, pura maldade.

Quando julgam e condenam a quem eles mesmos elegeram como heróis, exercitam a hipocrisia humana em seu mais alto teor, pois nesse momento esquecem os próprios erros mais nojentos, as atitudes mais mesquinhas para execrar a quem foi escolhido para ser perfeito, coisa que não foi solicitada, sequer cogitada pela “vítima”, que acaba refém dos próprios conceitos éticos e respeitosos; um humano mais próximo do ideal de conduta que uma sociedade persegue, embora seja impossível, porque todos são falhos, uns mais, outros menos. A exposição das virtudes de um suposto herói é a intenção clara de encontrar alguém a quem crucificar para justificar e perdoar os próprios pecados. Heróis são criados por políticos e pela mídia, que faturarão enormemente nas duas hipóteses: quando exaltado como um ser superior e depreciado como um ídolo de barro, explorando qualquer falha e a elevando à máxima potência. Tudo por dinheiro. A fama e os lucros justificam qualquer coisa.

Hoje heróis são construídos e destruídos cada vez mais rápido; vivem as esferas do poder e a tristeza do ocaso, acabando de forma horrível e sendo esquecidos sem qualquer constrangimento.

Já dizia Raul Seixas, um sábio em suas viagens alucinógenas e alucinadas que ser comum é o ideal, permanecer invisível é o sinônimo de paz, e essa é a tranquilidade mais difícil de conseguir, tendo em vista que a juventude é instigada para buscar a fama, custe o que custar, por ser o meio mais simples de adquirir dinheiro e conforto com mais facilidade, o que é enganoso porque com dinheiro e fama o postulante precisa vender a alma, cercar-se de gente que vai manipular e usar até que nada reste, e no final ainda lucrarão com a morte e o post mortem. Lucro enquanto restar a mínima possibilidade.

Não há heróis! Os indivíduos devem ter consciência e assumir as falhas e erros que todos cometem, sem escudo, sem alguém para pagar por todos e aliviar as mentes pecadoras e hipócritas sempre prontas a sacrificar um herói para aplacar a ira divina com as sacanagens da maioria.

Sociedades são vítimas de um círculo vicioso, alcançam o apogeu e glória por um certo tempo e depois se autodestroem como em um filme de Tom Cruise; e assim segue a humanidade, imperfeita, se recusando a lidar com as próprias falhas, usando as mesmas receitas, obtendo os mesmos resultados decadentes, e só piora.

Mudar essa configuração é mudar a maneira de pensar de toda uma civilização. Parece possível?

                    Marcelo Gomes Melo

A guerra dos corações dilacerados por amor!

Eu não posso cuidar do seu coração dilacerado de amor que você diz ser por mim! Não tenho como dobrar a carga que suporto carregar assim, e afirmo que é egoísmo de sua parte!

Sequer pensou que também possuo um coração e que sofro da mesma patologia que você, e por você? Não consigo afirmar que o meu coração está mais dilacerado do que o seu, porque confio plenamente que a dor de amor que sinto jamais será superada pela dor de qualquer ser vivo no universo, mas posso entender que amor impossível magoa e tortura, mesmo que em nosso caso seja recíproco, embora complicado pelo impedimento imposto a nós dois pelas nossas consciências, pelas pressões que infiltramos em nós mesmos.

Não existe amor impossível, garota! Existe amor improvável, amor não aconselhável, mas ainda assim são amores indiscutíveis. Assim é o nosso, e discutirmos sobre a dor que cada um sente por não estar junto de forma plena é pura falta de senso, porque o equilíbrio escoa pelo ralo e passamos a debater quem ama mais, e a culpar quem é vítima das dificuldades de repartir a cada segundo esse sentimento puro e letal. O sofrimento vem agregado a essa volúpia que buscamos saciar a cada instante?

Quando nos tocamos a instabilidade termina, nossos mundos se fundem, e não há mais ninguém que pertença a esse nosso novo planeta, que exploramos com cuidado, fartando nossos corpos e pensamentos com experiências maravilhosas, inigualáveis e inesquecíveis. Mesmo assim consideramos insuficientes e estamos aqui tentando convencer um ao outro sobre quem sofre mais, e para quem é mais difícil controlar as impossibilidades e as distâncias, abraçando todo o risco em cada situação que criamos para finalmente ficar juntos.

Eu sei, minha mulher, que cada momento que dividimos é inesquecível, e todas as vezes em que urge nos separarmos, a angústia é indescritível, a ponto de colocarmos para fora como acusação. É por isso que digo sem medo de errar: não posso cuidar do seu coração machucado quando o meu está em frangalhos! Nos limitemos a misturar os nossos prazeres e produzir um bálsamo que, embora passageiro, alivie os nossos corações indelevelmente apaixonados!

                    Marcelo Gomes Melo

A dança dos enamorados

Essa é a dança dos enamorados, na qual todos os envolvidos lançam mão das mais diversificadas armas da paixão, sensualizando da maneira mais eficiente dentro das próprias características com o intuito de encantar e seduzir a potencial parceria.

A dança dos enamorados envolve um certo ridículo para quem está de fora observando os movimentos muitas vezes desajeitados, mas prontos para participar, largando a vassoura imediatamente e se submetendo aos absurdos da conquista. Não há limites de idade, dinheiro, preparo intelectual… Limite de coisa nenhuma! Basta respirar o perfume do amor, se deixar inspirar, enlevar-se e, tresloucados transmitir vibrações de prazer que, devidamente captados serão a cola que une os corações e as mentes.

O ritmo da dança dos enamorados varia conforme as afinidades, é atemporal e funciona sempre. Está no ar inebriando, influenciando nas ações e reações, permanecendo pelo tempo que os iniciados permitam, espalhando sensações de alegria, felicidade e prazer. As doses cavalares causam atitudes devastadoras, perigosas, porque tudo em excesso é mortal, e dançar permanentemente pode fragilizar ao ponto de partir os dançarinos. Corações partidos são efeitos colaterais inevitáveis, e podem descambar para os fins mais desesperadores.

A recomendação aos dançarinos é para que curtam as loucuras, as delícias até lamber os dedos, porque o momento passado não retorna, então é melhor relembrar o que foi vivido a lamentar o que foi perdido por medo, covardia ou falta de sensibilidade para perceber o que pode ser inesquecível.

Os enamorados mais experientes procuram mudar os ritmos e o roteiro de suas danças anteriores que terminaram por cansaço, ou abruptamente, sem nenhum sinal de que aconteceria. Mudar os passos não garante maior eficiência, mas novas emoções com certeza, o que não significa delícias garantidas, e pode terminar em decepções e tristeza.

A fórmula de qualquer coisa no universo não garante apenas delícias; com a luz vem a escuridão, com a alegria caminha a tristeza, com o calor vem o frio enregelante. Manejar bem as emoções para adquirir mais uns do que outros cabe ao usuário, e o que vai definir as suas vitórias são as próprias escolhas em conjunto com o improvável, o maravilhoso e o inominável.

A dança dos enamorados continua, os dançarinos do amor ajustam os passos, movimentam os corpos, retiram o biscoito da sorte, que está lançada. O melhor sempre estará por vir!

                                       Marcelo Gomes Melo

A ocupação

A ocupação começou há anos, tanto que nem lembro ao certo como aconteceu, o que provocou e como se deu. Foi um redemoinho de emoções inexplicáveis de ações inconclusivas gerando frustrações absurdamente inquietantes.

Uma ocupação assim, silenciosa é ainda mais surpreendente, invasão alien dos filmes de ficção, porque invade sem estardalhaço, e quando se percebe já era, irmão. Perdeu, playboy!

Aí é uma sequência de olhares furtivos, de mão roçando-se descuidadas, troca de palavras provocativas, sorrisos nervosos… E uma vontade torturante crescendo, dominando, instigando e fazendo ofegar. Transformando quase toda a razão em instinto puro.

E quando se olha em torno tudo o que você vê faz referência ao desejo, à necessidade e ao prazer.

Nesse momento alucinante imagine que a corrente se quebre. A distância se torne dolorosa e tudo o que transcorria para uma memorável conclusão amorosa imensurável se modifique sem acordo, apenas a sequência natural das coisas em um mundo ferino, cruel, insensível.

Mesmo essa distância, entretanto, não apaga sentimentos nem desejos, apenas os conserva em fogo baixo, sem queimar, mas, mantendo brutalmente aquecido, provocando visões espantosas de amor pleno e satisfação gigantesca que faz deitar sobre nuvens e observar o universo do lado de fora.

Finalmente, inesperadamente, um reencontro. Tranquilo, feito com atitudes superficiais, a cordialidade escondendo a selvageria de se apertar, amassar e misturar totalmente, com um “dane-se o mundo” engatilhado para tudo o que não disser respeito aos dois.

Duas almas eletrificadas pelo desejo milenar, sorrindo quase friamente, usando palavras sem sabor, recriminando-se internamente porque não é o que queriam, é apenas o que o politicamente correto exige.

A ocupação, meus senhores, ocorreu há tempos! Não há mais o que conquistar, já está tudo dominado. Em uma hora ou outra essa bomba relógio vai explodir e o tesão se concretizará, pleno, arrogante, atropelando como um trator os anos passados de vontade contida.

Isso é o mais próximo da felicidade? Não, não o é. Haverá longas conversas tentando entender, entremeadas por momentos de carinho, por horas de prazer, por dúvidas incontáveis e até desentendimentos prováveis.

A busca da felicidade completa é eterna. É a felicidade em si, difícil descobrir algo assim. Tempero.

                              Marcelo Gomes Melo

Os escolhidos éramos nós

A manifestação lasciva daquela mulher sensacional, que sussurrou docemente em meus ouvidos todas as iguarias que a mim aguardavam ao final do dia. As promessas elencadas invadiram o meu pensamento, dominaram todas as sensações e determinaram durante o restante do dia o rumo das minhas atitudes, o ritmo das batidas do meu coração.

 Todas as imagens daquela mulher vestida lindamente, caminhando de forma sensual naturalmente, para mim eram um banquete inacabável que gerava superpoderes àqueles que a observavam mover-se com tanto carisma, praticamente flutuando entre os meros mortais, enfeitiçando com o seu perfume, hipnotizando ao molhar os lábios generosamente, distribuindo mistérios ao sabor dos ventos, embaralhando o discernimento de um homem completamente entregue à existência dela, desejando obter cada um dos prêmios descritos por ela tão casualmente, em tom cálido finalizando com um leve toque no ombro com aquelas mãos macias e carinhosas, extensão de um maravilho corpo gerenciando por uma mente nobre e brilhante, a perfeição em forma de espécime humano.

O arrepio que percorria o meu corpo era constante e em diferentes intensidades, a cada promessa relembrada que me levou às nuvens e transformou o meu dia em um doloroso arrastar de horas que jamais chegavam ao fim, para que eu pudesse correr em direção ao prazer que ela representava e já estava em plena ação a partir das palavras emitidas por ela.

 Não havia mais possibilidade de concentração em qualquer coisa que não ela; era um dia perdido profissionalmente e um dia ganho de forma pessoal, inexoravelmente.

 Aquela mulher declarara definitivamente que eu era dela e ela era minha! Pertencíamos um ao outro e confirmaríamos in loco em breve, embora em meu âmago parecesse séculos.

Aquela mulher, com a sua respiração morna e lábios de açúcar, sexy por destino universal expressara com extrema realidade cada detalhe pecaminoso e particular, reservado apenas aos escolhidos para degustar inteiramente, intensamente prazeres indizíveis, incontáveis e inesquecíveis. E os escolhidos somos nós.

                                        Marcelo Gomes Melo

Entrevista com um condenado interestelar

– Eu mato porque está vivo, porque se estivesse morto apenas enterraria.

– Essa é a sua explicação para ceifar vidas?

– Esse é o mantra que, em caso de recepção positiva, se tornará uma verdade universal, justificando a eliminação dos contrários.

– Esse mantra foi criado por você mesmo?

– Não, eu tenho um treinamento especial para executar o que a minha organização determina como vital para a nossa ascensão ao poder. O mantra vem deles, eu não possuo esses talentos. O meu corpo e a minha mente pertencem ao partido.

– E a alma?

– Alma? Não cremos em alma, somos frutos da simples divisão de células. É irrevogável, inegável, impossível de conter.

– Não há crenças, justiça?

– A única crença é no todo comandado por uns poucos. Justiça é tudo aquilo que nos favorece.

– Em caso de prisão pela parte inimiga, quais os procedimentos?

– Negar. Infiltrar os nossos mantras. Negar mais. Acusar. Negar vitimizando. Tentar correr. Destruir… Por fim, como última possibilidade, se autodestruir. Antes que enviem outros para nos destruir.

 – A eficácia desse método é garantida?

 – Para quem comanda, sim. Para quem sofre a lavagem cerebral, tanto faz. Para quem tenta mudar de lado… Sofrimento eterno pelo que pode acontecer.

– A luta é válida?

– A luta é a única forma de prazer. A razão para existir. Quem não luta é inútil. Quem luta é dispensável, uma ferramenta para alcançar um fim.

 – E o que se ganha com isso, algum tipo de glória?

 – Não existe glória individual. Não existe glória para acessórios. O todo é a glória, exercida pelos poucos que comandam o todo.

– Amor?

– Ouro de tolos. A emoção mais útil é a raiva. Fomente o ódio por qualquer coisa, inclusive o que desconhece e se tornará uma arma mais eficaz. Amor é fraqueza para justificar a existência do ódio e sua utilização por parte dos inimigos.

– A causa vale o esforço.

– O esforço é o que faz merecer a causa. Sem esforço pela causa você está morto.

– Qual é a causa?

– Ser contrário a qualquer coisa. O favorecimento da causa se reflete nos benefícios dos poucos que atuam no comando.

– Como funciona esse comando?

– Como uma pirâmide. Na base os fanáticos esfomeados; na faixa acima, os controladores, vigias; logo depois os responsáveis pela mídia e garantia de fixação da mensagem, lavagem cerebral. Os líderes dos matadores; e na ponta da pirâmide os responsáveis pelo funcionamento.

 – Como chegam ao comando?

 – Há requisitos desconhecidos. Obscuros. Os conhecidos são: crueldade, frieza, determinação para a maldade, egocentrismo…

 – Obrigado pela entrevista. Ah, uma última pergunta. Acredita em vida após a morte?

– Só se for no inferno. Com licença, a cadeira elétrica me aguarda.

                              Marcelo Gomes Melo