Uma breve história sobre o tempo

Os meus olhos não puderam acreditar naquela vastidão verde, horizonte além de onde a vista alcança, tudo a ser dominado, distribuído e desfrutado pelo povo, com justiça e paz.

Para garantir a paz e a justiça seriam necessárias leis que regulassem a vida em comum, evitando mazelas criadas por ódio e inveja. Hierarquia era o ponto principal. Sendo respeitada haveria proibições e direitos, deveres que garantiram a ordem, e punições exemplares para os que rompessem os regulamentos.

Para que tudo funcione, grupos seriam separados com suas terras, e cada grupo teria um lema e um escudo que os representasse, e um líder que os guiasse ao enriquecimento e conhecimento.

Todos os líderes de todos os grupos deliberariam com um grupo de notáveis, anciãos sábios oriundos de batalhas antigas, que com a sua experiência decidiriam através do voto que tipo de punição ou prêmio seriam distribuídos, de acordo com as honrarias adquiridas ou desonra humilhante. Apenas o líder poderia vetar as decisões, caso apresentasse um argumento convincente. Uma autoridade religiosa, pagã ou eclesiástica teria influência espiritual mantendo-os tementes às entidades superiores, prontos a morrer, se preciso for, por elas e pelo líder.

A hierarquia exigia um poder superior a todos os líderes dos grupos, que exerceria o poder total acima de todos, oferecendo proteção e ajuda em troca de obediência cega, acatando ordens maiorais que superavam às dos grupos e submetiam a todos em nome de um bem comum.

Foi o momento em que surgiu a política, através da qual líderes negociavam com outros secretamente adquirindo mais poder e riquezas, com isso dominando líderes de grupos mais fracos que se tornavam escravos e vassalos para sobreviver.

O próximo passo da política foi fazer acreditar que os líderes aliados poderiam destituir o líder supremo e dominar a todos os grupos, ascendendo ao poder através de conluios e propinas, repartindo riquezas e oferecendo qualquer poder inferior, mas que satisfaria aos mais fracos.

Assim exércitos foram criados e desejos aumentaram de proporção, com a vontade de conquistar os mares sem fim, descobrindo outras terras, impondo novas regras, aprendendo novos costumes e angariando mais poder e riquezas.

Os mais poderosos, com mais dinheiro e força bélica, além de habilidade política, isolavam-se em castas fechadas, cuja crueldade se tornou a chave para continuarem no poder.

O número de vassalos e escravos aumentou consideravelmente, e os seus deveres também, na mesma medida em que os seus direitos diminuíam até serem esquecidos. Essa imensa massa dominada por poucos não obtinham benefícios como o conhecimento e oportunidades, então eram massacrados sempre que o equilíbrio precisasse ser mantido.

Tem sido assim através dos tempos, e a modernização traz consigo novas formas de dominar e explorar. Também ocasionalmente as massas ameaçam uma revolta, e são esmagadas pela minoria no poder, que em seguida lhes oferece uma compensação ilusória que os fará acreditar ter conseguido uma pequena melhora, um ganho enganoso porque trata-se apenas da diminuição da miséria e da dor.

E assim caminha a humanidade, de olho nas vastidões ainda maiores, como o espaço sideral, em busca da conquista do universo. Menos líderes, mais poderes e riquezas; mais massas enganadas, sofridas, manobradas, levadas ao sacrifício como bois a caminho do abate.

                    Marcelo Gomes Melo

O nosso corrosivo amor universal

Você é a noite cheia de mistérios quanto de perigos, linda e impossível de desvendar, a não ser que haja coragem suficiente para arriscar a vida tentando.

Você é o conjunto de luzes da cidade vistas do topo da montanha mais alta. São os seus olhos de pérolas que prometem incontáveis prazeres, mas que cobram muito caro através de inacabáveis desgraças.

Você é o vento morno que sopra constante trazendo o perfume das flores que inebriam o mais insensível dos homens, destruindo as suas vontades e acabando com todo o controle que ele lutou desde jovem para manter, transformando-o em frangalhos, vítima do álcool e das drogas, um mero resquício de ser humano.

Você é a madrugada voraz que arranca os segredos em meio aos suspiros, que toma posse das almas hipnotizando aos corpos, que desfalecem suados e felizes, embora sugados completamente em seu orgulho e confiança.

O ideal de beleza, de amor e suicídio, de entrega total por uma recompensa irreal, que torna tolos os mais bem-sucedidos intelectualmente e os mais espertos de uma maneira empírica, todos instintos até o último fio de cabelo.

Você é o eclipse que tenta burlar a defesa que eu represento, confundido o dia com a sua sombra poderosa, embora não por muito tempo e durante longos anos de espaço. O seu poder é imenso, e durante esse tempo consegue enganar os meus poderes para arranhar inocentes, destruindo-lhes a vida por amor incontido.

Eu sou o dia, responsável por clarear os pensamentos confusos que você provoca com o meu calor torrencial e iluminação potente, que brilha e encanta tanto quanto você. Os meus poderes recuperam derrotados de amor e os impulsiona a continuar a vida por tanto tempo quanto puderem, sempre tentados por sua chegada matreira, suave e delicada, irresistível.

Até para mim, durante esses eclipses, fica difícil resistir aos seus encantos que formam mártires. Separados somos eficazes, enquanto o meu poder superar a atração intrínseca com a qual devo viver, como um renegado.

Eu sei que um dia nós dois nos unirmos, serão os fins dos tempos! Nada sobrará dos mortais, dos planetas, meteoros e estrelas. Apenas o nosso corrosivo amor universal!

                    Marcelo Gomes Melo

Os guerreiros que mantêm a fé intacta

As poesias são encantadas, não têm como incuti-las em qualquer classificação, gênero ou qualificação que não seja a individual. Assim que registrados em papel, os versos obtêm vidas próprias, e serão entendidos não da maneira que o poeta imaginou, mas da forma como cada pessoa os entendem, de acordo com o seu conhecimento de vida e de suas necessidades pessoais, as angústias pelas quais passaram ou a felicidade que um dia se incrustou em seu peito ficando para sempre.

Os versos não são julgados pela beleza de sua construção, pela correção acadêmica ou riqueza léxico semântica. Não importa como foram escritos, soltos como vagalumes na noite do poeta, para iluminar com sorrisos, jocosos ou tolerantes, aliviando o coração de quem nem sabe o porquê.

Os poemas ingênuos, os sangrentos, os exóticos, os loucos, desprovidos de rimas e de sentido aparente; os inocentemente construídos e os rebuscados, todos alcançam o mesmo status no céu das poesias:  estrelas.

A liga que fortalece os sentimentos, que instiga a revidar dos percalços diários, que são os mais simples, que passam como sombras em todos os ambientes, e influenciam como antes mesmo que atualmente não o sejam reconhecidos ou mesmo convocados. Em conversas sociais para desfrutar filosoficamente dos seus infinitos sentidos, enriquecendo a todos de forma exemplar e eterna.

O mundo mudou, a sociedade mudou, os poetas são rejeitados à margem da sensatez, porque é o que lhes cabe. Mudar o mundo com os seus versos simplórios ou perfeitos garante a imortalidade do pensamento humano e os seus devaneios insanos que acabam por se tornar realidade em meio aos infortúnios e épocas de alegria; os poetas são os guerreiros que mantém a fé intacta, a paixão  em chamas, o coração pulsando e o sangue correndo nas veias. Os seus versos são as molas que impulsionam as mudanças, fortalecem corpo e alma e eternizam as lendas.

A poesia é, e sempre será a fonte de todos os pensamentos, e acontecerão pesar de tudo, informando ao mais prático e descrente dos seres, e manejando-lhes o coração e a mente. Poesia é ópio e é cura, para sempre.

                    Marcelo Gomes Melo

Dublê de corpo

Os facões tilintaram no escuro, como moedas ao se cruzarem, acendendo uma fagulha breve, tempo suficiente para que os olhos demonstrassem o ódio, a concentração, a luta pela vida. Os movimentos velozes anulavam os golpes, mas não todos. Em meio ao silêncio, respiração forçada, dentes rangendo e pancadas letais, destruindo a tudo que estava pelo caminho, mesa, cadeiras, quadros, louças…

Um dos oponentes deixou escapar um gemido ao ser alcançado pela lâmina, corte limpo, não muito fundo, braço esquerdo. Devolveu imediatamente, nas costelas, ao mesmo tempo em que um chute violento causava danos ao lado do joelho.

Desesperado, o atingido jogou o corpo para a frente, sabendo que o facão atingiria o espaço, mas lhe daria a oportunidade de usar o corpo para derrubar com o peso ao adversário. Caíram sobre a mesa de centro, que se espatifou, vidro e madeira para todo o lado, as armas brancas se perdendo na escuridão.

Em vantagem momentânea, posicionando sobre o adversário, iniciou o corpo-a-corpo com pancadas de marreta no rosto do inimigo. A luz de um farol iluminou a cena rapidamente por segundos; um automóvel que passara lá fora, alheio ao combate mortal ninja executado pelo homem de roupas pretas contra o de jaqueta verde oliva. Um crash avisou que o nariz do de jaqueta verde se partira, mas nem deu tempo de comemorar, atingido por um cotovelo nas costelas, onde a faca atingira.

O fôlego sumiu por instantes e o joelho do oponente encostou a sua cintura e o atirou para o lado. Antes que se reequilibrasse encontrou a botina número 44 no meio da cara, um pisão na cabeça e diversos chutes pelo corpo. Procurando encolher-se como podia, tentou pensar rápido e sair daquele desconforto. Encontrou um pedaço de madeira da mesa e acertou a canela com a força que tinha. Um ruído abafado de dor e o adversário estremeceu, um soco na linha da cintura equilibrou a luta e uma cabeçada no peito o afastou, dando-lhe tempo para erguer-se socando o vento diversas vezes. Encontrou o pescoço do homem e agarrou como se esganasse a um frango com garras poderosas.

Quase sem respirar o de jaqueta verde esmurrou o braço que o estrangulava sem efeito. Ergueu o joelho para acertá-lo. Deu resultado, as mãos afrouxaram. Uma porrada entre os olhos com firmeza o fez acreditar que uma cortina de sangue escorria abundantemente pelo rosto do desafeto.

Muitos danos infligidos em ambos, mas não desistiam, um deles deveria apagar permanentemente para que o outro saísse dali com chances de sobreviver por mais um dia. O murro na testa seguido de outro na orelha tornou a sua visão ainda mais turva. Devolveu com um cruzado no queixo que derrubaria a um búfalo. Não funcionou. Em troca uma cotovelada abriu o supercílio e um chute frontal no peito o jogou contra a parede do lado contrário.

Tentou buscar o ar e proteger-se como dava dos golpes que viriam quando as luzes foram acesas, ofuscando ambos os olhares. Com os ouvidos zumbindo ainda escutaram um grito excitado de uma terceira pessoa:

– Corta!

Olharam em volta ofegantes. Estavam cercados. Palmas. O diretor do filme elogiou a cena e eles se cumprimentaram, recebendo uma garrafa com água e uma toalha cada um. Teriam tempo para comer alguma coisa e tomar um banho antes das próximas cenas de luta. Era duro ganhar a vida como dublês.

                    Marcelo Gomes Melo

O emburrecimento das gerações à velocidade da luz

É assustadora a forma como as gerações estão emburrecendo, incapazes de compreender o básico do conhecimento humano que lhes permitiria existir com os seres dignos, e não como sub-humanos que envergonham a si mesmos e à raça sem perceber.

O argumento de habilitar aos desprovidos de condição seria perfeito, não fosse o caminho escolhido para fazê-lo. O discurso de oferecer conhecimento a quem não o tem a qualquer custo acabou por diminuir a qualidade do ensino sensivelmente para que os desqualificados obtivessem o direito formal de se considerar acadêmico. Em vez de treiná-los para aprender com esforço e dificuldade, consideraram aceitar o pouco que ele trazia para exercer profissões importantíssimas completamente despreparados.

Isso faz com que tenhamos professores analfabetos, que não ensinam porque não sabem; médicos que matam pessoas e indicam medicação errada porque mal sabem ler e escrever; enganadores profissionais arrogantes formando idiotas inúteis arrogantes, destruindo o sistema e transformando gerações em anormais incapazes que, construirão prédios frágeis e matarão pessoas; um sistema de tráfego ineficiente que causarão acidentes e muitas e juízes irracionais e incapazes prontos para vender sentenças e prejudicar inocentes por não terem formação familiar, acadêmica e muito menos consciência.

É a devastação da sociedade por falta de cérebros úteis, dominada por imbecis que criam as mais esdrúxulas leis e teses, desarticulando regras que funcionavam bem para manter a hierarquia e o respeito entre as pessoas, tornando um ambiente de desconfianças e mentiras, jogos nos quais todos estão dispostos a passar os outros para trás sem remorso com o único objetivo de adquirir poder, fama e dinheiro.

Um número incontável de imbecis prontos para ser enganados por um número inacreditável de vagabundos sem caráter, dispostos a roubar, matar e enganar tranquilamente, e ainda discursar em favor da ideologia mortal que corrói mentes e assassina os mais fracos para que os maldosos sobrevivam.

As novas castas procuram apagar todas as leis e regras que regeram um mundo que evoluiu por séculos, para entrar em franca decadência sem se preocupar com nada a longo prazo. Prazer imediato, riqueza e aventuras bizarras enquanto puderem existir.

Nada importa a não ser destruir como traças, agir como gafanhotos sem pensar em ninguém além deles mesmos. No fim matando a todos e perecendo por último, felizes por sua imbecilidade congênita.

É assustador observar idiotas discursando com arrogância e determinando rumos inviáveis. Mas o pior é ver que há ainda mais sub-humanos estúpidos prontos para segui-los cegamente até a morte.

                    Marcelo Gomes Melo

A equação da felicidade

A calma com a qual a amo é o oposto da paixão que compartilhamos. De dia somos calmaria iluminada pelos raios dourados do sol na água morna de nossa praia de desejos, e à noite nos transformamos com tempestades furiosas batendo contra as pedras, a espuma branca desnudando nossas almas sob raios e trovões que representavam nossos prazeres sendo satisfeitos violentamente, usando nossos corpos como condutores de toda energia sexual do planeta!

E a tranquilidade como falamos através das mãos dadas, dos olhares ternos e dos silêncios cúmplices eternizava cada segundo que passávamos juntos, atravessando o abismo das dúvidas através de uma velha ponte de madeira prestes a ruir, embora confiantes com a proteção um do outro, a divisão dos medos e a multiplicação da coragem.

Do outro lado o prêmio que nos aguardava era mais do mesmo: o amor que dividíamos sem escolta, sem escudos e sem individualismos. Era a fórmula com a qual resistíamos aos tropeços e vencíamos os piores dias, quando o mundo parecia conspirar contra nós. A força do amor que tínhamos iluminava a neblina espessa do pântano das dores, e mesmo que saíssemos chamuscados, saíamos juntos. E juntos formávamos a equação da felicidade eterna.

                    Marcelo Gomes Melo

Estranho senso de humor

– O fato é que você precisa parecer mais amável com as pessoas, sorrir mais, fazer brincadeiras, contar piadas, conectar-se melhor com os seus subordinados…

– E eu não faço isso?!Você é o homem mais gentil e engraçado que eu conheço, mas a pose de mau que mantém para os outros os torna assustados, com medo do seu olhar frio, a cara fechada, as poucas palavras.

– E isso os assusta?!

– Claro, você tem a compleição física de um lutador de MMA e um rosto se um super-herói dos quadrinhos. Esse seu tom baixo de voz, gutural, tétrico, soa como desconfiança, até como ameaça. Por que não tenta ser mais comunicativo, capitão? Isso irá ajudar bastante.

– Vou tentar, doutora.

– Lembre-se, faça brincadeiras, pregue peças, deixe-os relaxar um pouco. Sem esse medo aterrorizante do chefe eles renderão mais, comandante.

– Está bem, doutora, pode deixar.

A psicóloga se despediu e afastou-se do capitão da unidade de crimes violentos, observada por todos os outros agentes por causa da beleza incomum e confiança que emanava dela.

– Quem é aquela gata maravilhosa, capitão? Que coisa mais linda! – era um agente novato metido a engraçadinho, falastrão, mas sem maldade.

– É a minha mulher. – Foi a resposta seca, voz rascante. Nenhum sorriso.

– Oh! Sinto muito, capitão, não quis ofender, eu não sabia. Pode me perdoar?

– Sim. Mesmo assim você vai morrer.

– O quê?!

– Diga a ele que se despeça dos parentes o mais rápido possível – dirigiu-se ao detetive ao lado do novato – Amanhã ele vai passar dessa para melhor.

Afastou-se com um sorriso frio no rosto, deixando o novato branco e em desespero.

– O que eu faço, detetive, ele vai me matar?

– Eu nunca o vi dizer uma coisa e não cumprir. Se eu fosse você fugia daqui enquanto é tempo. Tem muitos parentes de quem se despedir?

O homem saiu completamente fora de si, tomado pelo medo de morrer por uma brincadeira fora de hora. Ele e a sua grande língua!

Não teve coragem de ir para casa despedir-se da esposa e dos filhos, então foi ao bar encher a cara e pensar em uma forma de escapar. Duas horas depois, duas garrafas de pinga vazias depois, ficou corajoso. Decidiu ir com tudo para se defender; matar antes de morrer.

Dirigiu-se ao depósito de armas e pegou quatro revólveres carregados, uma espingarda doze cano cerrado, munição, uma faca karambit de luta corpo a corpo, algumas granadas… Estava pronto para defender a própria vida contra o comandante que o havia ameaçado. Alcoolizado e corajoso, planejou espera-lo em uma tocaia no estacionamento. Assim que o visse jogaria duas granadas e descarregaria as armas. Depois, para ter certeza cortaria o corpo em pedaços e dissolveria no ácido. O que sobrasse depositaria em uma urna de ferro e jogaria no fundo do mar.

A madrugada fora longa bebendo e ruminando a estratégia contra o comandante rígido que o mataria por ter elogiado a esposa sem saber. Era matar ou morrer! E o homem não era brincadeira, nunca fora visto com piadas ou gracinhas. Fazia o que tinha que fazer, por isso era o chefe. Morto ele já estava! Para sobreviver valia qualquer coisa.

Todo paramentado, com botas, uniforme camuflado, capacete e luvas resistentes aguardou. Quando, por volta das nove da manhã o capitão chegou, tranquilo, com as mãos nos bolsos, sem armas à vista, imaginou que seria pior do que imaginava. O homem iria estrangulá-lo!

Com a coragem reforçada pelo álcool correu cambaleante em direção ao comandante com a granada na palma da mão, gritando desajeitado; puxou o pino e tentou atirar a granada, mas algo não deu certo. A granada ficou grudada na luva e, antes que desse mais um passo virou massa de tomate espalhado por todo o estacionamento.

Houve uma comoção geral e quando a psicóloga chegou com o detetive que acompanhara a conversa no dia anterior, o capitão tomava um café recostado ao batente da porta observando a bandalheira.

– Capitão, por que o ameaçou de morte?!

– Como assim, doutora?!

– O detetive estava como testemunha. Você o mandou despedir-se da família porque hoje iria mata-lo.

– O quê?! Foi uma brincadeira! Você não recomendou que eu fosse mais maleável com os meus subordinados? Então… Ele perguntou quem era a gata que estava indo embora referindo-se a você, doutora.

– Sim? E o que disse a ele?

– Que era a minha esposa, e ele iria morrer pela falta de respeito. Teria um dia para despedir-se da família e amigos. É lógico que era uma piada! – a dupla o encarou aterrorizada – Não foi boa?!

Moral da história: senso de humor é algo muito pessoal, pode causar mal-entendidos como aquele. O comandante seguiu à risca a sugestão da psicóloga e, mesmo assim deu tudo errado.

                    Marcelo Gomes Melo

Falou que me amava, mas era mentira

Na primeira chance que teve ela já foi dizendo que me amava. Eu tomava banho regularmente, andava bem arrumado e cheiroso, além de ser gentil e educado com as pessoas por natureza. Só que isso não garantia que uma gostosona como aquela se aproximasse de mim toda sorrisos, sentasse ao meu lado no banco da praça em que eu costumava ler um livro para atrapalhar jogando conversa fora, exibindo aquelas pernas de parar o trânsito, fazendo perguntas de todos os tipos, uma atrás da outra sem esperar respostas.

Ela falava sobre os filmes dos quais gostava, das músicas as quais ouvia, o grupo de amigos com o qual saía, sempre repetindo claramente que, no momento estava sozinha, entre relacionamentos. Era do tipo exibido inocente, fingindo não perceber os olhares que recebia, e não entender as cantadas que recebia.

Eu sempre a tratei com respeito, até carinho. Não posso negar tê-la homenageado algumas vezes no pensamento, sob a água morna do chuveiro, mas sabia que era muita areia para o meu caminhão. E nem caminhão eu tinha!

Ela insistia em me fazer companhia, de vez em quando deixando uma interrogação no olhar ostensivamente, porque outros caras com zero atenção por parte dela já teriam colado para conseguir um encontro com ela. Eu, tentado, continuava me fazendo de tonto.

Quando ela encostou as duas mãos no meu peito, ficou na ponta dos pés e me encarou dentro dos olhos, senti o hálito quente sabor cereja daqueles lábios entreabertos oferecidos com tanta devoção que não resisti. Enlacei-lhe a cintura e tomei a sua boca com uma gula inigualável. Como eu pensava, a garota era artista no amor e correspondeu plenamente, me despindo com avidez, tomando o controle sem frescura, me encaminhando ao paraíso sem escalas!

Às horas de prazer intenso, se seguiram as de torpor satisfeito, abraçados, tranquilos, saciados. Pude verifica-la sem disfarces, confirmando a beleza daquela mulher carinhosa e voraz. Enquanto adormecida em meus braços respirava como um anjo, as perguntas inevitáveis de um cara comum vieram à tona. Por que eu? De onde saíra aquele monumento que frequentava o grupo dos ricos e bem-sucedidos direto para os meus braços?

É difícil acreditar em contos de fadas quando se vive em uma realidade muito mais complicada e nada altruísta. Não há amor nas grandes cidades, dizia o poeta, as mulheres como ela sempre guardam um desejo diferente de alcançar os maiores patamares, fama e riqueza através dos dotes físicos com os quais foram agraciadas.

Assim era a vida, não podia fugir disso. Embora lisonjeado com a sua atenção, e mais, com o seu carinho despudorado, pecaminoso, continuava pensativo, não acreditando na sorte grande. Enquanto isso ela me ensinava a praticar todos os tipos de pecado, literalmente. Estar com ela era um passeio do inferno ao paraíso.

Uma semana depois de sexo e encontros, encontros e sexo, ela disse que me amava. Parecia uma santa, de olhos baixos e voz suave, quase tímida, confessando o seu amor por mim incondicionalmente. Com o coração aos saltos eu nem soube o que responder! Emocionados nos atracamos ferozmente para mais carícias e tudo o que fosse permitido. E tudo o era. Eu a possuía insanamente, fora de mim, observando a nós, aos movimentos hipnóticos dela que poderiam desarvorar um homem. Qualquer homem.

Eu já estava abandonando as minhas dúvidas quando casualmente ela me indagou se eu era o filho do produtor musical famoso, diretor de cinema e TV de quem tanto falavam. Sorria, cheia de pudor, e eu, boquiaberto, observava a minha teoria finalmente se concretizando.

Sem me dar chance de responder, como sempre, começou a enumerar os seus talentos artísticos de canto, dança e interpretação, coisas as quais eu já sabia. Havia experimentado muito além. Tomado por uma tristeza incomensurável fiquei pasmo, em silêncio, ela tagarelando sobre uma chance ou algo assim…

O nome. O nome do filho do produtor era o mesmo que o meu! Homônimos! Ela errara o tiro no tigre! Eu não sabia se morria de sorrir por mim ou de chorar por ela. Repetiu que me amava ao perceber a tristeza em mim. Eu tive que contar. Eu não tinha carro, não tinha moto, nem bicicleta eu tinha! Eu não tinha dinheiro e muito menos herança. Eu não tinha nada! O cara por quem ela devia dizer estar apaixonada era outro.

Assim que contei ela esfriou. Afastou-se. Tentando reunir toda a dignidade que restara, levantou-se e foi embora em silêncio. Antes de fechar a porta atrás dela, perguntou suavemente se eu tinha o número do telefone do outro rapaz.

Eu não disse nada além da verdade. Ela falou que me amava, mas era mentira.

                    Marcelo Gomes Melo

Uma mulher para mim, com certeza

Você é desconcertante. De um jeito que raramente as mulheres o são. Tem atitudes naturais e firmes, quebrando o clima com esses olhares atraentes dos quais nem tem consciência.

É desconcertante porque conserva uma independência natural nos modos e na fala, não força um feminismo alterado e arrogante, mas recebe o respeito merecido não por gênero, e sim por capacidade.

Quando me olha nos olhos quer dizer alguma coisa? Nunca me oferece um sorriso, embora eu espere por um, mesmo que não o demonstre. Um cara duro como eu, que não acredita em paixões aleatórias ou qualquer coisa que não seja negociada anteriormente para evitar mágoas desnecessárias, acaba por se ver perdendo muito tempo desconcertado pelo seu foco, capacidade e inteligência. E beleza! Fico constrangido em reconhecer em você uma bela mulher, dessas de verdade, sem artifícios para seduzir nem jogos mentirosos de acalentar. Uma boa mulher que tem vida própria e ainda pode oferecer o melhor de si a um homem que a mereça.

Você não sabe disso, o que a torna ainda mais desconcertante. E não serei eu a lhe dizer, não com palavras. Os nossos caminhos se cruzaram e continuam entrelaçados desde então, o que pareceria destino caso eu não fosse cético. Tanto quanto você.

Ainda não sei o que irá acontecer entre nós, além das brigas bobas interrompidas abruptamente quando algum de nós se machuca levemente, ou demonstra fome e cansaço. O instinto de consertar os pequenos problemas um do outro sobrepuja qualquer discussão, embora finjamos agir com frieza, sem preocupação, culpando um ao outro.

Haverá o momento em que o clima pintará e nos fará desmoronar romanticamente, afogada a paixão sob as estrelas e trocando promessas entre sorrisos felizes?

Talvez isso exista. Talvez apenas nos filmes de amor. No escuro do cinema vidas novas acontecem e encantam corações, que ficarão aliviados por um bom tempo, esquecidos da dura realidade que é viver juntos e equilibrar a balança da vida.

Ser uma mulher desconcertante, diferente das outras faz de você um diamante, porque não está envolvida em modas ou ideologias absurdas. Conquistou o seu lugar no mundo com competência e tenacidade, sem se vitimizar nem querer reconhecimento especial.

Você é desconcertante. Uma mulher para mim, com certeza.

                    Marcelo Gomes Melo

Organizando a justiça a partir da escuridão

Eu me reservo o direito de discordar dos que pensam que fingir é mais seguro do que expressar seja o que for. Esconder atrás de sorrisos o que realmente embasa o pensamento nos momentos importantes do existir, interagindo de maneira correta, honesta por mais dura que seja é validar a atuação como indivíduo, e isso traz à tona o melhor de cada um, porque a verdade expele o veneno que se acumula ao sorrir com banalidade e omitir com exatidão o que seria valioso para manter o corpo aliviado e o cérebro limpo, os pensamentos claros e evidentes para decidir como seguir, mesmo que se escolha o sabor do destino e não a planilha calculista de quem acredita ter o controle por um segundo que seja.

Eu me reservo o direito de lutar contra isso, argumentar objetivamente através de fatos e mostrar que a hipocrisia rege os que criam um personagem para si mesmo, que fala mole, sorri o tempo todo e tenta agradar a todo mundo com falsidades aberrantes, visando sempre o benefício próprio.

Vivem assim, rastejando, buscando restos que consideram status, tentando sobreviver em um mundo depravado como subcelebridades, capazes de qualquer coisa por fama, dinheiro e vantagens vendendo o que não possuem, dignidade, conspurcando o que não lhes pertence, a alma, habitando o subsolo do inferno, enganados e mortos sem ter noção da dívida que precisarão pagar até o fim dos nossos dias.

O direito de desprezar essa gente e persegui-las por todos os recantos, atormentando-lhes a vida de forma que o que imaginem ser felicidade tome o rosto verdadeiro da calamidade e catástrofe.

Não será fácil vencer essa batalha porque a maioria é assim. Os poucos dispostos a destruí-los não têm tanto poder assim. E um bom número de isentos ou não se importam ou são medrosos demais para abraçar qualquer causa que os ponha em suposto perigo e ameace a sua vida pacata e certinha de cegos, surdos e mudos.

Eu me reservo o direito de causar o caos! Eu pretendo fazer ruir as bases dessa sociedade corrompida e expor os grandes bandidos e os pequenos malfeitores que avançam sinais, param em fila dupla, subornam e aceitam suborno. Eu me reservo o direito de ser a espada afiada que trará justiça ao mundo! Só não sei como, ainda…

                    Marcelo Gomes Melo