Urubu que não voa, não come morto

As mina tava tudo mocozada na casa das amiga, pai, tudo louca, maaaaano! Nois chegô no arrupeio, intaum nois viu as vagaba tudo na esbórnia, é nois qui tá, tio! Ai nois pirô, morô? Catamo os uísque qui os cara faiz lá na baixa do sapateiro com metanol e nois foi pra drento, si pá, pastor, tá ligado, padrecão?

A essas hora tava rolano uns funk loco pa krai, sinhô, as mina num regulava o taboréu, naum! Era tudo de shortinho rebolano o fedegoso, fazeno cara de astuta, e nois num é mané, tá ligado? Chapa, nois já foi ostentano as corrente no pescoço, os boné de marca e jogano umas nota de cinco real na mesinha, umas moeda de um real, cinquenta centavo, dez centavo… De um centavo nem tinha, mano, qui nois naum é miserávi! Cum nois é na riqueza, tá isperto?

Nois trocou uma ideia com as cabrocha, as novinha assanhada de tanto uísque com energético, rapá. Nois colou cada qual no seu cada qual, colocou as peça debaixo das almofada pra escondê da puliça, aí foi um pega pra torá, morô?

Rapá, as mina tudo preparada, naum teve caô, fí, foi só levá pros canto pra abatê,tio! Era funk, uísque de metanol, as nova gemeno e foi pobrema, camaradito, na fé!

Os mano tinha casado umas grana pra quem fazia as mina uivar mais alto, camarada, valia tudo. Era um suadô da leprechota, todo mundo na rebolage, só cuidano, mano, só cuidano!

Intaum veio aquele barui alto pa krai e os mano e as mina indoidô! Saiu tudo correno pelado pelo beco, as nota de cinco conto ficou tudo lá! Nois pensô que era as puliça, certo, aqui ninguém bobo, mano, si ralamo pro mato rapi deiz!

Quano nois chegô no alto do morro, tudo pelado e cansado, o barato ficou criminoso, cabano! Nois zoiô pra trais e pra baixo e naum era a puliça! Era o carro da pamonha e uma ambulança, cidadão! Nois ficô zoiando um pro outro e broxô, tio, né fácil, não, esses pobrema. Nois perdeu a grana, o uísque e a xanxa de sentá o ferro nas novinha. Ah, as rôpa e os revorvi tomém!

Isso daí é vexame, parça! Si contá pros mano tu vai tombá no canaviá, tá ligado? Firmô, intaum, fica gel nos movimento qui nois vai partir pra outra. Urubu qui naum voa naum come morto!

                              Marcelo Gomes Melo

As perguntas que de vez em quando devem ser feitas

Quem são os que se intitulam “sertanejos universitários”, mas não conseguem ler e escrever corretamente, utilizam-se de instrumentos eletrônicos inexistentes no sertão de verdade e se vestem com chapéus Stetson americanos, calças Diesel importadas e botinas de salto e couro de cobra, além dos cintos com enormes fivelas de touro texano? Por que as letras desprezíveis jamais retratam as necessidades do sertão brasileiro, muito menos a vida dos sertanejos brasileiros de honra e valor?

Quem são esses degenerados dispostos a tudo por fama e dinheiro com as suas vozes finas e ausência de raciocínio mínimo para que sejam considerados seres humanos? Será que conhecem a Euclides da Cunha? Já passaram perto de uma biblioteca e estudaram “Os sertões”? Ouviram falar de figuras como Antonio Conselheiro?

Com toda certeza devem ter ouvido falar sobre Lampião, mas saberão em que período ocorreu a história? O consideram herói ou bandido, o que sabem da caatinga e os quando ouviremos fazer jus ao que afirmam ser, se a formação que têm é de academias de ginástica e bastidores de televisão?

Saberão eles algo sobre quem os controla? A quem venderam as suas almas? Terão algum conhecimento de como são manipulados? Aceitam em troca do vil metal e uma sobra de autoestima construída sob uma base de mansões, piscinas, carros e champanhe importada?

Esses “universitários” que jamais viram o sertão vieram de favelas urbanas e investiram a vida em uma enganação enorme para os que são piores do que eles, que acreditando no lixo que eles disseminam sonham em ser universitários e sertanejos sem precisar estudar ou conhecer a parte do país que mentem descaradamente representar?

Seres inúteis sonegados por pessoas piores do que eles, que faturam mil vezes mais sem aparecer, enquanto eles são sugados como uma cana de açúcar e, quando no bagaço atirados no lixo da história que jamais sobreviverá, apagando-se até que ninguém mais lembre de suas existências?

Assim aconteceu com outros engodos vendido ao povo, emburrecendo-os ainda mais e possibilitando algum conforto para imbecis que jamais tiveram nada, aprenderam nada e nem contribuíram com nada construtivo para a sociedade em que habitam.

O curto período em que desfrutam de iguarias em troca de se tornarem abominações que passam no domingo à tarde, os faz entender empiricamente que são superiores ao povo comum, e, portanto, podem contestá-los, convencê-los e ridicularizá-los, tratando-os com uma condescendência nojenta a qual nem eles merecem.

E no fim, quando a fama acaba, o dinheiro termina e os telefones não são mais atendidos, lamentam ter percebido que quem os bajulavam e cercavam eram sanguessugas, ratos prontos a abandonar o navio no início da derrocada.

A sociedade empobrece, envelhece sem cultura, sem coisas das quais se orgulhar, não porque não existam, mas porque não são conhecidas nem reconhecidas, banhados diariamente com entulhos vendidos como arte e cérebros vazios como pensadores.

                    Marcelo Gomes Melo

Os momentos em que nos tornamos imortais

A dose de conhaque que lhe molha as pernas para que eu lamba é insuficiente? Então mantenha os olhos fechados e sinta o leve ardor da menta, que refresca as coxas ao toque da minha língua.

As fendas em que a paixão se esconde e nas quais os sabores vivem senão descobertas pouco a pouco, se eu tiver o zelo e a paciência exigidas de um homem cujo talento é lhe presentear com sensações inexplicáveis, capazes de retirá-la desse mundo e revirar os olhos, completamente entregue às minhas ferramentas da paixão que são nada mais do que o meu próprio corpo à sua disposição.

Os dedos curiosos que tocam tão suavemente que as digitais permanecem, e logo na sequência aumentam a intensidade com urgência, e se colocam inteiros, e exploram meticulosamente até arrancar suspiros e palavras sem nexo.

A língua voraz, que tem a intenção de lhe contar segredos através do roçar ousado que alivia a fome como a sobremesa antes do jantar, sem amainar o poder que tem o manjar dos deuses para a lua alta, como testemunha, saborear, imaginando o sol, o qual não pode tocar assim abertamente, sem receios ou pudores.

Por fim, os pedidos loucos, sussurrados, insanos, que não aguentam mais esperar para se desmanchar em estertores inesquecíveis, entre urros e gritos, implorando por mais, e ao mesmo tempo querendo que termine para que não mate ao passar do auge do prazer humano.

O mover dos quadris, a respiração ofegante, entrecortada, os sussurros recheados de promessas e agradecimentos, o coração acelerado como o sobe e desce, exigente, forte, fundo, querendo tudo, tatuando corpos com o perfume e as marcas que depois de algum tempo somem ao olhar alheio, mas ali permanecem para sempre, basta encarar o espelho após o banho quente e as lembranças retornarão ainda mais potentes, tornando o sabor na boca, e no pensamento, e no corpo ainda mais realistas. É quando se percebe ser impossível escapar do amor verdadeiro, feito com todos os sentidos, esculpidos para durar além da existência.

Nus, descansados em um torpor maravilhoso, abraçados com o calor dos corpos misturados e o esquecimento do mundo lá fora, é quando percebemos haver um mundo próprio para cada casal que se ama inexoravelmente, e se entrega sem temores, sem temer as armadilhas, mantendo a sanidade ao retornar ao tempo comum, que corre sem parar ignorando os problemas e obrigando-nos a duvidar do local sagrado que habitamos no corpo um do outro.

Nesses momentos somos imortais, minha senhora, e a importância disso é essencial apenas para nós dois.

                     Marcelo Gomes Melo

Rei plebeu, felicidade inigualável e inalcançável

Quando dizem não, querem dizer sim; talvez, com certeza. Significa não. E um sim, é obviamente uma declaração de morte. Ao dizerem sim, elas já consideram que possuem a sua alma, os seus desejos e as suas posses. Já está fisgado e será aterrorizado para sempre, um mero lacaio entre mãos suaves e vontade férrea, carícias inesquecíveis e ordens frias e cínicas.

Não se surpreenda que os homens sem brio e em busca de facilidades procurem as garotas mais simples, dotadas de beleza comum, mas dispostas a agir com docilidade e consciência servil, evitando-lhes raciocinar e sofrer como os que escolhem as dissimuladas duras na queda.

Se oferece uma rosa, elas dizem ser insuficiente e um descaso, mas se não oferece rosa alguma será taxado como um explorador desalmado que desfruta gratuitamente de sua beleza e companhia e sequer se lembra de fazer um agrado merecido e de bom gosto. Ah, se oferecer dúzias de flores é considerado um exibido de péssimo gosto, portanto desprezível entre mulheres de tão alto nível!

Os homens que ostentam bens e procuram seduzir através das posses, joias, automóveis, viagens e presentes inimagináveis conseguem algum sucesso, mas não a garantia de retribuição, porque as consideram como mais um objeto para a coleção.

Elas jamais falam diretamente, fazem voltas enormes e insinuam com frequência, esperando que você descubra por si mesmo o que nenhum homem normal, simples por natureza, descobriria.

Costumam açoitar com maldade usando charme e carisma, beleza e promessas nunca ditas explicitamente, o que pode, caso entenda errado, passar a vergonha mais inigualável do universo, que o obrigará a afogar com álcool e comiseração. Se não tomar cuidado, virará um farrapo humano.

Os que tentam domá-las arriscam a vida e a sorte, mas podem encontrar o amor de sua vida. Insistência, persistência e força para suportar as patadas e humilhações são armas necessárias. Não abrir mão em pontos cruciais também, mesmo que elas esperneiem e ameacem. Você estará demonstrando princípios e orgulho, o que é favorável para alcançar a pontuação que lhe abrirá a porta do paraíso, adocicado e amargo, desejável e apavorante, mas na mistura certa, na temperatura ideal e equilíbrio perfeito.

Nunca será fácil lidar com elas, pois somos razão e força facilmente domável por suavidade e astúcia. Uma vez encontrada, não desejará nada além, e viverá como um rei plebeu cuja felicidade é inigualável e inalcançável.

                    Marcelo Gomes Melo

Filosofando com Helena

Helena não se distraia por causa dos seus pensamentos festivos causados pela ausência de foco nas coisas mais importantes para o seu mundo particular.

Não viaje pelas trilhas distantes com o seu pensamento afiado, criança! Isso pode cortar a sua estima e embaralhar ainda mais a sua confusa lógica. Não existe futuro, Helena, nada além de um presente sem fim, que engana fingindo que algo ainda está para acontecer quando se trata apenas de uma boa ilusão, fabricada pelo subconsciente para manter as suas ambições fluidas, direcionando sutilmente o que você acha necessário para viver bem, com um status que não é real. Helena esse mundo não existe!

Só o seu mundo existe, e não pode controla-lo, então não pertence 100% a você. É como um enorme jardim bem cuidado, com um caminho que leva à floresta ancestral, que não precisa de cuidados, pois sua beleza é eterna, modifica-se naturalmente século após século sem outra ajuda que não seja a divina, com o poder de autocura incomensurável.

Helena não se prenda aos instintos fugazes, nem os ignore completamente; o equilíbrio é o segredo do que chamam sorte com o merecimento adquirido é o segredo do que chamam sorte com o merecimento adquirido através do esforço.

Tudo o que eu quero explicitar é que tudo é complicado, apesar dos vários caminhos a tomar, todos decisivos. Só que não afetarão apenas a você, querida, mas a todos os que, de uma forma ou de outra fazem parte de sua vida, a mesma que não é só sua, pelo mesmo motivo que o seu mundo não é só seu.

Quando se encara no espelho, o que vê? Sim, antes de maquiar, de fraudar a Helena verdadeira que só você conhece, o que enxerga? Isso lhe causa medo? Insegurança? E a partir daí, o que os seus movimentos significam? São coordenados e relaxantes ou automáticos e obrigatórios?

Talvez você queira ser outra pessoa aos olhos de outras pessoas, e reage da maneira que imagina ser o que as outras pessoas queiram lhe enxergar é comum, Helena, mas garante todo o acerto?

E a sua reação no final é confiante ou se sente estranha ao sentar no sofá da sala com uma taça de vinho e uma sensação de vazio no peito?

Helena, as sensações distraem mais do que a realidade em si mesma, e os pensamentos alcançam uma extensão absurdamente longa! Sendo sincero, não há como fugir, é a vida! O que se pode fazer é buscar adaptação sem enlouquecer no processo.

Não sei se estou contando tudo isso a você, ou conversando comigo mesmo, querida Helena. Filosofar ainda não paga imposto, ainda bem.

                    Marcelo Gomes Melo

Só os escolhidos…

Eu viajaria mil léguas por ela, mas os mares estão bravios, a Terra está rachando e os ares estão rebeldes, fazendo com que indivíduos capitulem, revejam as suas metas de vida e se preocupem com a própria sobrevivência nesses tempos inodoros, incolores e incapazes de garantir qualquer segurança, individual ou coletiva.

Ainda assim eu superaria todos os obstáculos para ficar com ela, lutando com todas as forças físicas até o esgotamento fatal, e me rebelaria contra as forças da natureza, ainda que fosse uma batalha perdida que me custasse a vida por diversas vezes, como em um jogo de vídeo game.

Os meios físicos em um ambiente em franca deterioração não seriam nem um pouco eficazes, embora satisfizesse o ódio e aliviasse o estresse antes do suspiro final. O Pior de tudo: ficar sem ela.

Um homem não deve desistir do seu amor jamais, mesmo que lhe custe a vida. Não se trata de filosofia romântica, mas de objetividade transcendental. Além da vida, de forma etérea poderei caminhar mil léguas por ela, até encontra-la e agarrá-la fortemente em meus braços.

Um novo tipo de amor seria inaugurado, o de mortais que continuaram a querer um ao outro em um plano diferente, mais fácil de lidar por não poderem ser atingidos nem magoados, e os seus objetivos estariam garantidos apesar das provações da vida existe para caçoar dos mais fracos e impulsionar os resistentes a alcançar todos os desejos provocados através dos sonhos, insinuando que poderiam se realizar com o esforço certo, a atitude correta e inteligente; acima de tudo corajosa e repleta de fé.

Carregaria o universo nas costas para permanecer com ela, ser feliz com ela por algumas eternidades em sequência. Em outro plano isso é possível, e daqui, observando o planeta se dissolvendo e levando com ele bilhões de descrentes, aprendi o real significado de morrer por amor.

É tudo muito simples, mas parece complicado, pois morrer por amor é viver para sempre com o seu amor, imune às trapaças e armadilhas nas quais a imensa maioria cai. Só os escolhidos sobrevivem.

                    Marcelo Gomes Melo

Manusear cristais usando luvas de boxe

É impossível determinar o que se passa nos corações alheios, e dificílimo conseguir transmitir o que se passa no próprio coração. O cérebro, responsável pela parte lógica e racional, pode ajudar ainda menos, pois envolvido vira uma confusão imensa despertando as reações mais poluentes no corpo, causando um ser humano comum e saudável em alguém doente e instável, a ponto de desconfiar de si mesmo em relação à realidade ou ao sonho.

O ponto de partida para os mal-entendidos é justamente essa dificuldade em ler com clareza e correção o que se passa nos corações e mentes dos nossos interlocutores, as pessoas com as quais convivemos e com quem nos importamos.

Uma atitude bem-intencionada pode dar completamente errado apenas porque o alvo da boa intenção entenda o oposto e se sinta afrontado, agredido e desmerecido. E a reação causará transtorno imediato, a faísca necessária para uma explosão em que todos sairão feridos emocionalmente, e muitas vezes sem retorno. Um desperdício de amor.

O problema é que não há como prever e dificilmente como consertar coisas assim, porque são rotineiras e não há diálogo, porque ninguém tem tempo para ouvir, querem apenas falar, descarregar o estresse acusando sem se colocar no lugar do outro. As boas intenções não são notadas e apenas levam ao inferno, frustrando a ambos.

Sempre há um dos envolvidos que não é propenso a repartir os desgostos, e nem tem com quem o fazer, por ter imensa dificuldade em confiar em outra pessoa. Ao outro resta conversar, expor o acontecido e receber bons conselhos, visões de ângulos diferentes que ajudarão a compreender os motivos bondosos que levaram, sem querer, a desentendimentos durante e até sem volta.

A fragilidade do relacionamento humano é permanente, semelhante a manusear cristais usando luvas de boxe, passando da alegria máxima a uma tristeza profunda que produz mágoa quando visava construir castelos de sonhos para proteger o amor, revitalizando a convivência e aumentando a autoestima, e com ela a felicidade pelo maior tempo possível.

Essas armadilhas estão no caminho o tempo todo e não há como vencê-las porque sempre surpreendem, e amantes apaixonados são ingênuos, passíveis de encontrar sofrimento em cada fresta da armadura da paixão.

Por isso as desistências, as mudanças bruscas de amor para ódio, ou até desprezo, destruindo o que poderia ser uma bela história de amor. Bom, é preciso lembrar que diversas e imortais históricas de amor terminaram mal por causa de simples mal entendidos, e torrentes de sangue foram derramadas, e mártires foram forjados como exemplos que muitos desejam seguir, sem se dar conta de que o final arrebatador foi triste e mortal, separando-os eternamente.

Não seria correto desejarem consertar os enganos cometidos a partir de determinado ponto para que o final fosse realmente feliz até o final dos tempos?

                    Marcelo Gomes Melo

Sair da vida cedo demais

Quando ela afirma que ama, não sabe o que diz, apenas repete o que vê nas novelas às quais assiste comendo macarrão frio, com uma toalha cobrindo os cabelos recém lavados.

É impossível que um ambiente assim alimente um amor que cresça entre as ervas daninhas da rotina, quebrada por mais filosofia barata e hipócrita que vem preparada como fast food para falsamente preencher a fome por algo que sustente e liberte a opressão silenciosa que a solidão reivindica todas as noites.

Se ele admite que ama, está sendo apenas covarde, tentando incluir-se entre o grupo dos sortudos, sem ter noção do que isso realmente significa. Ele quer o calor de uma família sem um certificado divino de que o merece. Ele, na verdade nem crê no que diz em voz alta, mas procura fingir em nome de uma chance que seja de estar entre os privilegiados. Ele não faz ideia do que diz, mas não questiona, porque isso pertence às mulheres, essa coisa de questionar, de tornar a própria vida um inferno.

Quando ambos afirmam amar, significa amar, significa que foram fisgados definitivamente pelo deus da ironia e cinismo, que se diverte ao brincar com duas insignificantes vidas que chorarão por algo que não conhecem e nem dominam. Assistem nos filmes, acreditam nas séries esquecendo que acabam, enquanto a vida continua, e os percalços inevitáveis vencerão em algum momento, chegando a um final irreparável.

Palavras inventadas com algum intuito, geralmente financeiro, proliferam pelos lábios errantes, comemorações para driblar horrores, ações patéticas realizadas para aliviar o peso da má sorte que os acompanha diariamente.

Amor é o maior dos enganos. É o golpe final para dividir os males e esconder que o dia-a-dia é letal, as semanas são mortais, os meses destrutivos. O jogo do amor oferece algumas vantagens e inúmeras derrotas e perdas. A escolha depende de cada um, viver se enganando, procurando alívio nas pequenas desavenças enquanto o pior fica sempre por vir, aparentemente cedo, mas jamais o suficiente.

A existência é um trailer de um thriller qualquer, prometendo misérias com uma premiação qualquer no fim. É tudo o que importa, não querer saber a verdade para não sair da vida cedo demais.

                    Marcelo Gomes Melo

O verdadeiro castigo eterno

Morte é a única realidade dentre as habitações etéreas de uma alma universal. Sê realista, tu, vítima das ilusões contrastantes que imergem os pensamentos breves de alegria que não existe. Tudo o que se pode crer ao cruzar o portal dos enganos profundos é a fragilidade a ti vendida como esperança desde que ousaste nascer!

Repito, deixeis que a ti se revele a única verdade que o destino lhe reserva: a morte como princípio, meio e fim das tuas dores inerentes a uma existência vil disfarçada de prêmios e ganância!

Tu, mortal indecente que crês nas esbórnias de uma vida sem limites, crente da absolvição por tuas lágrimas de crocodilo ao devorar a tua presa, passais distante do único compromisso que te alcançará iminente, e te prenderá para sempre em um exílio sem enganos, fazendo-te urrar, “ó morte, que vigiais meus desdouros!”. Aliviai o meu fardo tirando-me do mundo e me iluminando desse limbo sufocante no qual não sou nada, não me vejo como nada e não acredito mais em nada, porque fui enganado desde o início e aceitei como vitória sem contestar o lado sombrio que era a única realidade o tempo todo.

Não há luz nem vitória que não seja a incutida em tua mente cheia de vícios e falhas. Tu que achas que o final de tudo é a ausência de vida, não terá tempo para implorar por perdão, porque a morte é a certeza inefável e o alívio final, dos quais poucos acessarão sem medo.

Viver é a grande provação e o desejo permanente por coisas inúteis que nublarão a tua carcaça que sofre e crê que se trata de sonhos e bendições vindouras.

Essa é a hora de saber finalmente que estás alijado do direito de morrer, e não haverá alívio para a tua masmorra pessoal jamais! O que acreditavas ser importante é apenas punição, mal intrínseco ao teu egoísmo que a terra tragará inclemente para níveis cada vez mais baixos e aterrorizantes.

Quando perceberdes o que realmente deverias escolher, o alívio final de todas as torturas, verás que é tarde e o sofrimento apenas fará de ti mais um farrapo humano espancando a teus pares em nome de uma falsa salvação.

A ti não será permitido morrer, corvo agourento que se alimenta dos olhos dos infiéis. Tudo é horror e não há coisa alguma que possais fazer para escapar do castigo eterno.

                    Marcelo Gomes Melo

O fim da existência como a conhecemos

Os homens criaram a sociedade para exercer o controle das multidões com certa facilidade através de regras e normas, às quais chamaram de leis.

Em segundo momento usaram as leis para que a maioria se contentasse com menos, aceitando o poder de uma minoria esperta que buscava hipnotizar para liderar, fazendo-os crer que o Estado está acima do povo. Outra corrente os tentou convencer de que a escolha da maioria prevaleceria, mas trataram de colocar cabrestos e direcionar o voto da maioria, implantando a tese de que o bom cabrito não berra.

Logo após a essas medidas, entraram em conflito uns com os outros, aparentemente para prevalecer com os seus ideais em detrimento dos outros. O que corria nos bastidores, entretanto, era que um acordo entre ambos os alternaria no controle e dividiriam as riquezas igualmente, gerenciando os tolos com facilidade maravilhosa.

Sendo como eram, foi impossível evitar período de crises em que roubavam deles mesmos e causavam tumulto que vinha a público e colocava em risco o tratado. Sempre encontravam um denominador comum e colocavam panos quentes.

Um erro de ambos tornou, a longo prazo, um problema que os atormentaria: subjugaram as fêmeas. Não as incluíram no pacote de propina, não repartiram igualmente o poder. O mesmo fizeram ao ignorar as minorias, produzindo uma contradição atroz para ambos os lados. Surgiu uma terceira via em que mulheres, julgando-se minorias, apontando outros grupos minoritários sem voz e sem poder, portanto sem uma fatia dos lucros, exigiriam uma participação real, assumindo poderes e enfrentando o lema da democracia, que o desejo da maioria deve ser respeitado e seguido.

Agora minorias julgam ter mais direitos do que o voto da maioria, e procuram obriga-los a abaixar a cabeça aceitando novas regras vindas da minoria para dominar o que a maioria deseja e acredita.

Virou o “samba do crioulo doido”, com todos brigando entre si, causando crises e fazendo acordos temporários que serviriam apenas para tornar um dos lados miserável; assim que o pacto mudasse, os miseráveis seriam outros.

Tribos. Com ideais absurdos. Sem ideais. Tribos lutando sem saber o porquê, causando desespero e morte, sofrimento para a maioria, sempre. Como a sociedade está se desintegrando rapidamente para dar lugar a um novo modo de vida, com seres diferentes dos humanos, em ambiente modificado artificialmente?

Estamos assistindo o fim dos tempos como o conhecemos? Algo restará da história para que a nossa espécie tenha espaço e chance de reaver nossas leis? Ou tudo chegará ao fim sem que nos demos conta, como um clarão no meio da noite destruindo tudo o que construímos e apagando tudo em que acreditamos? Aguardemos. A saber.

                    Marcelo Gomes Melo