Então é natal: uma rendição ao tempo

Então é natal! O peru está ferrado. Vamos zoar um pouco as tradições e recheá-lo com pimenta e quiabo. O quiabo para deslizar a pimenta que vai queimar tudo por dentro dos famintos, gafanhotos de ceia que chegam dispostos a devorar as rabanadas, o pernil, os salgados e secar as latas de cerveja, os litros de cachaça, as garrafas de vinho, os litros de uísque e tudo o que possa atear fogo nos pensamentos que retornam todo o ano sobre as suas vidas miseráveis, à beira de um colapso, e aos péssimos relacionamentos familiares recheados de falsidade e reclamações.

Geralmente a véspera é reservada para a troca de presentes idiotas como panos de prato, prendedores de cabelo, meias e pulôveres coloridos. A aparência geral é de tranquilidade, uns garganteiam, outros fazem piadas, alguns relembram a infância… Tudo isso regado a álcool de espécie superior, destrava línguas com uma facilidade incrível, e logo as ironias surgem, as sutilezas ganham corpo, as mulheres lideram no quesito provocação. Alguns homens tendem a defender os argumentos da mulher, por medo ou conveniência. Logo a festa degringola e o que era alegria fingida vira ódio verdadeiro.

Bêbados perto da meia noite acusações são feitas, heranças contestadas e favorecimentos atirados na cara, constrangendo pais e afastando irmãos. Noras, genros e agregados costumam colocar álcool na lenha atiçando o fogo.

As badaladas interrompem o péssimo clima para mais cumprimentos falsos e sorrisos de crocodilo. Em seguida mais bebida, depressão para alguns, crise de raiva para outros, coma alcoólico para os que unem os que estão em pé de guerra para chamar a emergência e socorrer aos alcoólatras. Revezam-se no hospital, abalados e com ressaca, tomando café amargo e evitando voltar aos eternos focos de desavença que incendeiam os momentos de reunião anual, sem que nenhum tenha algum álibi, uma desculpa convincente para não comparecer.

No dia seguinte, o natal propriamente dito, com os alcoólatras liberados de volta à casa, dividem as sobras da ceia, cansados e menos furiosos, conseguindo implantar no momento uma atmosfera familiar comum, com sorrisos, piadas de Papai Noel e filmes repetidos de milagres natalinos.

Despedidas civilizadas, cada um de volta para as suas casas e suas vidas complicadas que insistem em esconder. Uma semana depois, ano novo, não é preciso nova reunião familiar, separam-se em busca de felicidade, diversão e listas de mudanças para o ano novo. Promessas que serão abandonadas em três dias e tudo recomeça como antes, o tempo passando cada vez mais rápido, as coisas ficando cada vez mais aleatórias, o controle não pertence a mais ninguém, e todos parecem perceber ao mesmo tempo. Uma rendição ao tempo do qual somos escravos.

                    Marcelo Gomes Melo

Considerações sobre os segredos

Deixe que a seiva das árvores ancestrais alimente o seu coração gelado e as visões dos detalhes que lhe cercam fiquem mais vívidos, à disposição de sua inteligência natural para desvendá-los.

A partir daí ofereça-nos as pistas necessárias, valiosas para que descubramos os sentimentos mais improváveis que revelarão o motivo de tudo o que acontece através dos tempos, passem eles lentamente, ou montem nas asas dos ventos, voando e causando avalanches que superam imortais.

Os rios caudalosos da paixão carregam muitas coisas até a cachoeira fenomenal que os relegará a pedaços irrecuperáveis. Esses são segredos reais, com os quais não se pode lidar porque pertencem a apenas uma pessoa por vez, portanto não pode ser compartilhado nem descoberto.

Após a queda esmagadora os pedaços seguirão por minha corredeira, misturando-se à novas histórias, crescendo gradualmente até que se tornem novos segredos que jamais serão descobertos, embora perseguidos e estudados por vidas inteiras de pessoas inquietas que dedicarão a própria existência em busca de luz, mesmo desconfiando que o final acaba em morte frustrante, sem descobertas, apenas escuridão.

Os que não são tão fanáticos podem conjecturar que a escuridão sem resposta equivale a descanso eterno e tranquilo em vez de punição permanente no fogo dos infernos. O não dito pode até ser percebido, mas se jamais confirmado, jamais poderá ser tomado como verdadeiro.

Os pensamentos surpreendem repentinamente a qualquer um, e o que os diferencia é o modo como escolhem lidar com eles. Deixando-se assustar podem causar sofrimento e medo, embora a sensação agradável de um prazer iminente cause uns formigamentos quase impossíveis de conter.

Os de coração apostador jogam tudo para descobrir se o prêmio valerá a pena para sempre, por algum tempo ou se tornarão uma maldição inacabável. Ainda assim estarão dispostos a arriscar qualquer coisa em troca de respostas, valorosas ou não.

Por fim os que aguardam que o destino os conduza com segurança, evidenciando as respostas sem que se envolvam, e então tomem a melhor das decisões, acreditando assim passar incólumes sem as agruras da paixão que devasta.

Esses não sabem que é impossível manter a saudade, a saúde e a consciência quando se trata da seiva do conhecimento. Quando se trata das promessas com as quais convivem diariamente como incentivo para uma vida melhor.

Há pistas, há vida, há o patamar do conhecimento e a glória dos momentos felizes, mas não existe maneira de extirpar o que contunde, faz parte do pacote. Sorte, amor e dor misturam-se na mesma cesta, e criaram o natal para que os destinos sejam selados para os próximos anos. Impossível manipular o sorteio, todos convivem com desejos não realizados, vontades guardadas no cofre do coração, e só o cérebro tem a chave, equilibrando as chances de acontecerem ou permanecerem como estão, um fio de esperança abalroado por nevascas constantes que afastam dos objetivos. É assim que acontece. É assim que tem que ser. É?

                    Marcelo Gomes Melo

A hora de morrer pela causa

Você me dá uma arma calibre 45 e eu te devolvo em troca uma flor. Uma linda flor em uma caixa com uma bomba que lhe fará em pedaços, não restará conteúdo sequer para uma análise de DNA. Você estará acabado de uma vez por todas em um ato de profunda bondade de minha parte. Não sentirá dor alguma, em que pese suas partículas jamais possam ser reunidas outra vez, aqui ou no além.

Com a arma do Dirty Harry continuarei com as minhas atitudes bondosas de natal, estourando os miolos da sua família e cortando a cabeça de sua esposa titular, colocando-a em uma embalagem de panettone e enviando à família dela. Os pais morrerão de infarto, e os irmãos, de medo.

Incendiarei a sua casa com o seu papagaio dentro e destruirei todos os documentos que você usava para cobrar dívidas injustas de idiotas tolos os suficientes para pegar empréstimos danosos e desonestos.

Pegarei a chave do seu carro importado e invadirei a mansão do seu sócio, atropelando a todos os seguranças e empregados, jogando-o na piscina antes de subir as escadas para terminar o serviço. O covarde usará a própria mulher como escudo, então não terei alternativa a não ser perfura-la com as balas do 45, matando-a em comunhão com o desgraçado.

Eu tocarei fogo em todos os quadros e destruirei as relíquias. Abrirei os cofres e pegarei dinheiro e joias, envenenando a água que abastece as casas de todos os parentes do seu abominável sócio.

As granadas distribuirei igualmente nos bolsos dos seus parceiros de tramoia, todas sem pino. A cidade estará pintada de uma nova cor quando eu terminar. Reunirei as vísceras e incluirei em uma panela enorme, fervendo com sal para obrigar os que ainda estiverem vivos a se alimentar.

Encherei as suas barrigas com carne humana para depois costurar todos os seus orifícios com linha de pesca. A essa altura todos já saberão a quem pertence a cidade e pagarei para ver que polícia se meterá nos meus negócios.

Para apaziguar o local rezarei uma missa de cada denominação, solicitando que os mortos ganhem espaço no céu, mas na metade da cerimônia acabarei com os covardes que acreditaram ser possível ir para o céu mesmo sendo traidores cruéis que se venderam por ouro. O próprio peso em ouro. Serão mergulhados em ouro derretido e virarão estátuas que habitarão o fundo do mar. Ricos para sempre na escuridão.

Após tocar o terror, missão cumprida, população apaziguada, nova direção eleita, regras duras e sutis ditarão o prosseguimento do sistema, agora sob as rédeas de alguém tão ou mais sanguinário que o antecessor.

Só é conseguida uma mudança radical com revoluções sanguinolentas que estirpe valores antigos e reponha a ordem com novas leis e atitudes.

Logo todos se acostumam e a vida continuará por alguns séculos até que o novo escolhido venha para realizar novas mudanças, não importando o que aconteceu antes. Apenas o cheiro da morte pairando à volta de todos é capaz de realizar tais proezas sem devaneios nem perguntas.

Os senhores das gangues sabem da responsabilidade para com os seus subordinados, inclusive os que estão ainda verdes na profissão. No fundo o que importa é morrer pela causa.

                              Marcelo Gomes Melo

A tristeza não salva os de ouvidos moucos

Os que caminham o teu caminho, e desejam os teus desejos não passam de clones imbecilizados pela falta de ambição e livre-arbítrio. Diminuídos a coisas eles se iludem fanaticamente, lutam por migalhas e resumem a si mesmos como ratos, rastejando pelo submundo, agressivos quando necessário para preservar aquilo a que chamam de vida.

A subida ao topo da montanha é difícil, recheada de armadilhas e perigos, e sobreviver requer força de vontade e alguns truques para sacrificar outros enquanto ganham tempo para fugir, resistir às doenças e aos ferimentos e brigar violentamente por alimentos contra qualquer um que os ameace, ou seja, a vítima perfeita da vez.

As noites sem luz à mercê de predadores que nasceram e viveram naquele ambiente torna a batalha injusta, e aumenta o perigo. Quem conseguir suportar estará cada vez mais próximos do topo, de onde poderão assistir a destruição completa do que foi construído pelo ser humano através de fogo e armamento bélico de alta capacidade.

Estar ali os salvará ou adiará os seus dias de vida, torturando-os diariamente com a dúvida, tentando acreditar que estão mais próximos de um céu acinzentado, arroxeado e escuro por trás, sem nuvens e sem qualquer demonstração de esperança. Todos são culpados por existir!

Os que imploram por um líder são os covardes para assumir as próprias responsabilidades, e querem alguém que decida por eles e assuma a culpa por todos, caso dê errado. Ambicionam livrar a eles próprios apontando o dedo para quem escolheram como líder com o intuito de sacrificar, na hora da retaliação. Ninguém pensa em ninguém e jamais pensará. Não merecem perdão, sequer que se manifestem. Gente nojenta por criação, incapazes de ajudar aos semelhantes, nocivos, desprezíveis e indignos de qualquer pensamento bom.

A tristeza é um resto de consciência nebulosa pairando sobre as mentes doloridas, corroídas e corrosivas. Apertam o coração, mas não oferecem a solução. Não há respostas e nem salvação para ouvidos moucos.

                    Marcelo Gomes Melo

Eclipse de fim de ano

Sem palhaçada, biltre, o fim de ano é uma sucessão de desgraças reunidas durante o ano duro, coalhado de obstáculos e desespero incontável, imensurável. As malditas metas patéticas repetidas ano após ano não passam de hipocrisia nojenta de idiotas sem cérebro que, incapazes de cumprir até a mais simples das promessas, disfarçam embriagando-se para fingir felicidade inexistente e esquecer as bobagens que disseram, as cores das roupas que usaram para cada tipo de sorte e as ceias assombrosas que mastigam sem sentir o gosto, remoendo pequenos dramas familiares que terminam em choro e quebra de clima, piadas que não funcionam para restaurar a paz e ações dantescas para redimir os seus pecados inacabáveis, doando ursinhos de pelúcia, cobertores e sopa, fazendo cara do que seria um santo retratado por uma estátua ou quadro.

Fim de ano de uma gente deprimida e deprimente buscando as luzes de qualquer jeito, dispostas a tudo pelos quinze minutos de fama em uma mídia em decadência, que não é mais aceita pelos energizados que se recusam a compactuar com as teorias de tão abjeta classe que se julga artística propagando o que é nocivo apenas porque os favorece.

Muitos desses ratos se infiltram nas redes sociais tentando criar uma nova imagem e uma nova maneira de continuar faturando através de bandeiras sobre as quais conhecem superficialmente, odiando e se vitimizando por trocados ganhos facilmente.

O ano terminando é um prato cheio para essas patifarias. Tudo continuará na mesma, pior com certeza, e as pragas antinaturais encarregadas de devastar o planeta continuam arrogantemente se julgando no topo da cadeia alimentar e uns acima dos outros da própria espécie, julgando poder  destruir aos que decidem ser inferiores.

Loucos de todas as espécies espalham notícias sobre destruição através do fogo ou da água, ou de raios laser, raios gama e invasão alienígena, com opções: para os ingênuos, salvação em um novo plano espiritual, para os desconfiados, escravidão e trabalhos forçados até a morte, experiências cruéis e destruição incondicional.

A verdade está no eclipse de fim de ano, o que habita as luzes de natal, as caixas de presente, os sorrisos falsos e cumprimentos decorados. O eclipse que habita as taças de champanhe, as drogas que facilitam o esquecimento para quem não é vítima fatal delas mesmas, as destruições acidentais que matam milhares em tragédias inevitáveis lamentadas em cadeia nacional por quem deseja apenas aparecer como abutres sobre a carniça dos fracos.

O grande eclipse que vem e vai em um piscar de olhos, e desaparece por mais trezentos e poucos dias até retornar com mais mortes e desgraças irrefutáveis. Os organismos daninhos, mortais para as outras espécies continuam descendo a ladeira, rumo ao inferno particular de cada um. O último fecha a tampa do porão e será visto como o herói que salvou o planeta de sua presença hostil, pecadora e desprezível.

                 Marcelo Gomes Melo

Stalker?

Acordou de repente, assustado, com aquela sensação de pesadelo, abrindo bastante os olhos, o coração aos saltos. Ela estava ali ao lado da cama, em pé, com um travesseiro entre as mãos, sobrancelhas unidas como uma expressão do ator Jack Black, observando maligna e fixamente.

Vista de onde ele estava, deitado, ela parecia uma estátua de dois metros de altura, com o rosto desmoronando sobre ele, para baixo, ficando ainda mais assustadora. Após segundos de silêncio ela deu um bom dia sombrio, bateu no travesseiro desamassando-o, e colocou-o ao lado dele na cama, anunciando o café da manhã que o estava esperando e se retirando do recinto.

Enquanto tomava banho e cuidava de sua higiene matinal, o seu cérebro latejava sobre a sensação aterrorizante que vivenciara há pouco. Os pensamentos giravam em torno das intenções da mulher. Estaria após 30 anos juntos, ainda admirando o sono dele, que deixara de ser tranquilo faz tempo, e agora era inquieto, com expressões de pavor, suores gelados e pesadelos interiores extremos, ou a intenção era acabar com o seu desespero, sufocando-o com o travesseiro enquanto dormia, comprando-lhe um tíquete sem volta para a cidade dos pés juntos.

De uns tempos a esta parte esse pensamento estava dominando a sua mente, e as atitudes estranhas da mulher colaboravam para que o seu medo de ser assassinado por ela a qualquer instante.

É certo que a sua vida não tinha lá muito valor atualmente, dado o nível de barbaridades das quais tinha sido vítima o modificara para pior como ser humano na última década, o sistema social era feito para matar aos poucos, e isso podia ser uma razão para que ela decidisse aliviar a sua alma enviando-o para o céu de alguma forma.

À mesa do café, o sorriso dela era arrepiante. Ele disfarçou e esperou que ela tomasse um gole de café e mordesse uma torrada primeiro, certificando-se não estar envenenados, depois pediu algo da geladeira para afastá-la e trocou as xícaras e a torrada. Terminou o café da manhã e saiu para o trabalho aliviado. Sobrevivera à primeira parte da manhã.

No meio do dia, chegando em casa para o almoço, ela estava em pé na cozinha sorrindo para ele como Mr. Bean, com um cutelo e um espeto na mão. Enquanto pendurava o paletó, tremendo como vara verde, afrouxando a gravata para disfarçar o medo, ela apontou o lugar para ele com o espeto. Sentou-se prontamente com um sorriso amarelo. Mal conseguia sentir o cheiro da comida, a refeição estava sem gosto. Todas as vezes em que ela empunhava a faca para fatiar a carne, ele quase engasgava; chegou a erguer meio corpo para correr, caso necessário, mas ela não dava sinais de entender o pavor na cara dele.

Mal se alimentou; olhou para o relógio mais vezes do que mastigou. Assim que conseguiu alegou muito trabalho e saiu correndo, mandando beijos de longe; desceu pelas escadas, não aguentou esperar o elevador de costas para a porta do apartamento.

A sensação iminente de ser assassinado pela esposa aumentou o estresse a tal ponto que ele comprou uma passagem de ônibus para o Acre e fugiu, abandonando o serviço e a família para o lugar mais distante que pôde imaginar.

Seis meses depois, vivendo na mata, ele faleceu picado por uma cobra venenosa, caindo no rio e sendo devorado por piranhas. A mulher até hoje lamenta o seu sumiço. Sempre pensa nele amolando o facão na cozinha, todas as tardes.

                    Marcelo Gomes Melo

Ninguém iria acreditar…

Todas as minhas ações pecaminosas, por mais tortuosas que pareçam, são como frutas agridoces derretendo na língua, causando diferentes sensações, sabores distintos, sentimentos rumorosos… A neve sob a visão de quem está com o corpo quente, e na sequência sob o toque gelado dos flocos.

Todos os meus olhares mal intencionados, cheios de tesão e exigências são maremotos distantes na escuridão da noite em alto mar, que ninguém vê, mas percebe por instinto, por mais leve que o seja, e de alguma forma aquelas borboletas no estômago inquietarão mais do que incomodarão, e misteriosamente passarão a fazer parte do dia-a-dia, nos intervalos em que, do nada, se sente observada, ou cuidada, ou…

As minhas ações intempestivas que lhe encurralam contra a parede e lhe obrigam a olhar em meus olhos, sei que lhe ruborizam levemente, e a expectativa faz uma mulher virar uma fera. Imagina o que está por vir, mas não sabe se quer ou se vai resistir; imagina se tentar escapar lhe fará infantil e medrosa, ou se ficar dará a entender que era o que esperava há tempos e eu levei muito tempo a tomar a decisão de lhe espremer como a um pote de mostarda e me deliciar com o seu sabor viciante misturado a todos os outros sabores que se acoplam inexplicavelmente e transcendem todos os prazeres possíveis.

Estou enrolado para dizer que a razão para tudo isso é você. Sou movido a você, e amo os seus movimentos; você é a causa de todas as coisas gostosas que eu quero e procuro; a razão dos meus sonhos confusos, adolescentes, dos quais relembro pedaços, como em um quebra-cabeças, e me estimulam a passear os olhos pelo seu corpo vorazmente, com um meio sorriso vampiresco, faminto, que deveria lhe intimidar, mas não causa nenhuma reação.

Até que você, um dia de sol cujo fim de tarde enterneceria a um urso, me observando em pé, mãos nos bolsos das calças, olhar através da janela, o pensamento distante… E vem até mim, virando-me de frente, pendurando-se em meu pescoço, enroscando as pernas em torno da minha cintura, me beijando como se o mundo estivesse acabando, devolvendo na prática tudo o que eu imaginava dividir com você, assim de uma vez, como uma enxurrada ladeira abaixo, arrastando tudo o que encontrava, roupas, sapatos, suspiros, pedidos com vozes entrecortadas.

E terminamos o dia no sofá do escritório, abajur aceso, sorrisos incontidos, latinhas de cerveja nas mãos, tendo certeza de que a noite seria longa e inesquecível, para ambos. O amanhecer viria, e com ele os trabalhadores da empresa. Só aí pensaríamos em algo para dizer. Entre sorrisos, sabendo que ninguém iria acreditar.

                    Marcelo Gomes Melo

Surfando na subjetividade

Um dia todos os nossos planos serão realizados, e concluídos os mais importantes passos para a melhoria de todos nesse vasto mundo, é certo que alcançaremos a perfeição?

Em determinado dia ensolarado alcançaremos a iluminação, e os espíritos livres vagarão pela Terra espalhando tranquilidade e paz como velas acesas para exterminar a escuridão das almas de uma vez por todas. Isso será algo dramático e denominado com certeza como perfeição?

Os ombros estarão prontos para apoiar os necessitados sem hesitação, elevando a um novo nível o status do ser humano no universo? Sem falhas seremos os mesmos, ou seremos melhores, ou perderemos a utilidade que hoje parecemos ter para um equilíbrio necessário ao nosso redor, ainda que caótico e pessimamente compreendido?

Por quanto tempo mais viveremos por acreditar em algo que pode ser impossível e inviável, apenas manter alguma centelha de esperança que não nos faça botar tudo a perder em um arroubo de realismo?

Se não há personalidades iguais, apenas parecidas, e os opostos se atraem, não seria para produzir novas vias de personalidades que seriam responsáveis pelas reviravoltas radicais que através dos séculos se repetem, mudando geograficamente, quimicamente e fisicamente através de novos DNA’s que guiarão o planeta a novas aventuras, conhecimentos diferentes e necessidades terminantemente opostas ao que se seguiu por anos e anos?

Há períodos em que determinadas civilizações são sorteadas para fazer a mudança, e toda mudança implica em dor, desconhecimento e morte, até que o novo rumo se estabeleça e os remanescentes, acostumados e criadores do novo estilo de viver herdem o planeta como será pelos próximos milênios até que nova reestruturação aconteça?

Sendo assim, o conceito de perfeição se perde nos alfarrábios universais, e as civilizações cresçam, evoluam e transformem tudo em desastre por um bem ainda maior?

Os conceitos mudam sem que se perceba, e as definições consideradas são as vencedoras dentre milhares propostas, e é assim que a roda gira, invisível, causando sensações sutis para que não provoquem reações exageradas que nem sempre funcionam, daí o surgimento dos denominados loucos, estranhos e lotados de ideias estranhas que fogem ao senso comum.

Tudo é real? O real é irreal? O irreal é certeza, e o real é incerto? “O passado é uma foto na parede, o presente é a visão de um automóvel se afastando e o futuro é um nome apagado em uma lápide”, já dizia uma canção ancestral taiwanesa. O que sobra é subjetividade. Nada mais é preciso.

                    Marcelo Gomes Melo

Ações irrevogáveis e sem controle

Um humanoide cujo destino será cair de um penhasco algum dia, direcionará a própria vida para o momento em que tal previsão ocorrerá, desde que informado sobre o futuro.

Ele não questionará a informação da maneira correta, o que o levará para diversos caminhos e possibilidades, todos em função do fim, que será cair de um penhasco.

Quando acontecerá? Como acontecerá? Um acidente automobilístico, uma escalada malsucedida, a queda de um avião bimotor… Estará ele acordado, saudável, ou fora de si, desajustado mentalmente?

Essas perguntas estarão permanentemente em seus pensamentos, caso esteja ciente. Durante todo o tempo evitará locais montanhosos e campestres. Nada de fazendas ou praias, a cidade será o seu refúgio. O humanoide se sentirá seguro entre as multidões, em solo firme, locais fechados, cercado por concreto. O máximo de natureza a que se permitirá serão quadros. E flores. De plástico.

A segurança urbana lhe tornará um amante da noite e das festas, um rei das baladas, sempre disposto a tudo para alimentar as sensações. Aos poucos a arrogância tomará conta do seu espírito e se julgará eterno, capaz de enganar as previsões, recusar o exercício futurológico ao qual foi submetido, porque é esperto demais para cair na armadilha que conheceu previamente.

É espetacular dominar o tempo e controlar os próprios movimentos ao ponto de superar a má sorte. Nada de penhascos! E a partir de certo período irá questionar-se sobre o porquê dessa previsão e de ele ter sido o escolhido, o beneficiado para, tendo noção do que aconteceria driblar a morte, adiar o fim a todo custo.

Seria justo ou apenas um truque para testar a sua coragem? Não deveria provar a sua superioridade e autocontrole buscando o penhasco e vencendo-o em seu próprio jogo, provando que não cairá de maneira alguma, por que domina as possibilidades?

Eis um humanoide com a síndrome de Deus! Convencido de que pode vencer às forças da natureza e a qualquer outra força porque comanda o próprio destino!

Um dia, pega o elevador do prédio mais alto da cidade e sobe até o último andar. Sem saber exatamente a razão, aproxima-se da borda onde pode ver os automóveis lá embaixo do tamanho de formigas.

Penhasco poderia ter sido realmente uma metáfora para queda profunda e mortal, causada pelo vazio da alma e não por qualquer acidente? Suicídio não é acidente, não existe futuro, as coisas acontecem no presente e ninguém tem o poder para evitar o destino. Último pensamento, porque durante a queda, a não-existência já está em irrevogável ação.

                    Marcelo Gomes Melo

… Para o céu azul além das nuvens

Era uma canção feita para uma pessoa; então se tornou em uma canção para duas pessoas. Os versos falavam do que uma pessoa sentia pela outra, que ao ouvir, aquiesceu, era recíproco. Versos que combinavam com os sentimentos, matematicamente, até nos ressentimentos que causavam melancolia, e em seguida, alegria na superação do que era depois descrito como bobagens, que só aconteciam com os amantes mais fervorosos.

E a canção se espalhou pelo mundo, alcançou outros casais, que encontraram semelhanças em seus versos com o que lhes passava no coração, e os uniu e separou, os fez sofrer e querer mais…

Era uma música simples, de versos incompreensíveis para quem não entendia física nuclear, e os fazia implodir de quando em quando, e desacreditar no amor por uns tempos, sem deixar que os versos os acompanhassem, em seus ipods, em seus fones de ouvido, em seu caminho para o trabalho.

Essa letra casada com os sons certos juntaram seres de diferentes espectros, ensinaram o significado de carinho e prazer ao mesmo tempo em que plantava suspeitas em suas mentes frágeis pelas ações do coração.

O autor da canção, o primeiro a sentir o amor original, que foi plenamente correspondido… Dele nada se sabe, nem do motivo do seu amor, dos versos e da canção. Tudo é obsoleto, menos os sentimentos passados pela música através dos tempos. Nada permanece igual, nem os pensamentos de quem retratou tão bem no início.

Durante o período em que a canção se espalhou e conquistou corações e pensamentos, os sentimentos iniciais do poeta mudaram, a sua musa não resistiu e o rejeitou, escolhendo algo mais realista do que algo que se desfaz em um cansaço gostoso após algum tempo, virando memórias. Algumas jamais substituídas por outras, embora deixadas de lado, no cofre do coração, defendido fortemente pelo cérebro frio.

Uma canção de amor como um vírus disseminando-se livremente por todos os cantos, levando alegria e tristeza, prazer e dor, contaminado de diversas maneiras, mantendo o que é rico sob diversas camadas até que a solidão, como um cobertor muito quente os proteja de retornar, e lhe faça acreditar no frio que é amar inconclusivamente.

Não se deixe enganar, a canção é imortal, sobreviverá às Eras e alcançará a jovens e velhos. Uns morrerão sob o efeito da paixão. Outros desenganados pelo engano, e outros anestesiados, jamais pensarão na verdadeira causa.

Não há milagres aqui, a canção é um corvo sobre uma cruz, uma cobra sobre uma lápide e um cachorro feroz treinado para matar. A não ser que você se digne a olhar para o céu azul, além das nuvens.

                    Marcelo Gomes Melo