Memento Mori

Do pó vieste e ao pó voltarás, deves relembrar e insistir na lembrança, vós que possuis o poder de alterar o destino das massas. Tu que instigais o medo para garantir o respeito dos fracos que se apegam a ti como rêmoras ao tubarão e dependem de ti para sobreviver das migalhas que atirai com arrogância, o suficiente para mantê-los sob o cabresto, servis e dominados, destinados a uma vida inferior e nojenta, e ainda assim agradecer-te com uma servidão abjeta.

És mortal, tanto quanto os seres aos quais escravizai! Acabarás como pó e serás espalhado pelos quatro ventos, tendo cada grão de tua vida ditatorial separada, misturada à lama dos derrotados que iniciaste ao teu bel prazer, manipulando-os com maldade e em seguida oferecendo migalhas pelas quais ficarão gratos e te fará sentir-se um deus.

As tuas falhas são as piores, pois acreditaste que eras superior e, convencido pela maldita inferioridade preguiçosa e covarde da maioria sem perspectiva, começaste a decidir as suas vidas e a dispor delas como um jogo devastador, sem parar para refletir que o teu momento chegará tanto quanto o de todos, e o fim é certo.

Não escaparás do destino de todos os teus pares, criados para existir por tempo definido, longo dentro das próprias expectativas, curto, se comparado a determinados outros que demoram mais tempo, mas sofrem mais, se desencantam e, exaustos, imploram por redenção e um fim digno no final das contas.

O teu momento de morrer chegará, com certeza, como um pacote surpresa, e o poder que julgais emanar de tua ilustre pessoa de nada valerá. Pagarás as tuas dívidas, seja por inocência, por maldade ou ego exacerbado. Porque ninguém escapará do julgamento final, então deverias refletir se vale a pena exercer qualquer tipo de poder, com a responsabilidade de decidir e se tornar o único culpado por parte de uma maioria incapacitada, feliz em viver de migalhas, reclamando e chorando até serem punidos ou receber um quinhão um pouco maior, o qual exibirão com orgulho por menor que seja, importantes dentro de sua insignificância, irrisórios, números que existem para cumprir as suas funções desprezíveis, desaparecendo sem deixar vestígios e nem memória.

Lembra-te, és mortal e ao pó voltarás! Em nada te diferenciais dos que julgais menores. Guardai para o final alguma dignidade, e ajoelhai humildemente para resguardar alguma hora pedindo perdão por uma existência tão desproporcional, violenta, vazia.

                    Marcelo Gomes Melo

Febre por contato

O sol, belíssimo espalha-se pela Terra, generoso, aquecendo os seus raios dourados cada canto em que toca. O céu, azul, de brigadeiro emoldura o planeta com pouquíssimas nuvens de algodão, a brisa morna balança as cortinas das janelas abertas, arejando o ambiente solitário.

Na rua não há barulho de motores nem de vozes, buzinas, gritos nem murmúrios. O silêncio invade os nossos ouvidos e colabora para que os olhos enxerguem toda a beleza ainda mais perfeita do que a imagem em 4k. É visualizar a perfeição da vida natural em seu auge, proporcionada por Deus aos filhos rebeldes que não enxergam que essa é a verdadeira eternidade. E ao que parece, seres humanos não fazem parte disso. Tirados da equação por medidas que visam salvaguardá-los deles mesmos, intimidados por um vírus invisível aos olhos humanos que extermina violentamente, infectando e eliminando com uma velocidade muito maior do que a que têm de raciocinar.

Meros humanos, contemplamos. Com apreensão que logo se tornará medo, depois em desespero e, por fim pânico. E esse estado em seres humanos causa destruição em massa, pela fragilidade intelectual, física e mental que nos torna selvagens degenerados, prontos a eliminar os próprios pares demonstrando poder, para manter bens, perecíveis ou não, egoístas por dna, irracionais com uma capa falsa de serenidade que tomba ao menor problema que atinja a sensação errada de segurança que julgam ter. Segurança individual, que jamais visa compartilhar qualquer coisa, a não ser que pertença aos outros! Ninguém divide nada, apenas aplaude a quem o faz, e se puder ainda entrará na fila, mesmo sem precisar para adquirir mais para si.

O que acalma a desolação humana é o contato. Dos olhos, dos sorrisos, das mãos, mesmo que leve e rapidamente, um roçar apenas detectado pelos que se roçaram. O contato físico, os abraços, apertos de mão, os beijos, os cheiros, encostar ombro a ombro, é o que faz aflorar o melhor das pessoas, o que controla a irracionalidade inata e contém o egoísmo e a maldade.

Justamente aí é que veio o golpe. Nos privar do contato aumenta as falhas, atinge o âmago de nossas forças de resistência, incute solidão e tristeza em ambiente esterilizado, corrói o pensamento e inabilita a confiança, desestabiliza e tira a firmeza dos pés no chão. Terremotos emocionais enfraquecem e todos ficam à mercê dos mínimos problemas, agindo como uma cadeia de dominó que desaba e não deixa nenhum outro de pé.

Lembremo-nos, entretanto, que o ser humano pode voar. Ajustando o pensamento e afastando as fraquezas podemos voar com o coração e superar a febre que se apodera de nós indiscriminadamente, levando ao óbito.

Precisamos preservar a febre por contato, para que a nossa maior força nos reerga e nos permita vencer a batalha.

                    Marcelo Gomes Melo

Consumidor

Fobia. É algo inexplicável e, para quem não sofre com alguma chega a soar como uma aberração. E a dele era fobia à luz do sol. Não, ele, não era um vampiro ou coisa parecida, andava normalmente a qualquer hora do dia que estivesse cinzento, nublado, escuro; sob a luz do sol, no entanto, jamais se arvorava. Não combinava com ele.

De dia dormia profundamente, cortinas fechadas, nenhuma fresta de luz penetrava o seu santuário. Era noite completa em pleno dia, e se estivesse acordado jamais acendia as luzes que não viessem da televisão, ou de abajures de luz fraca. Isso domava e o deixava completamente tranquilo, quase feliz.

À noite saía pelas ruas, vestido de preto, com as mãos nos bolsos e um chapéu elegante de feltro, caminhando lentamente pelas ruas, observando a alegria das pessoas sob as luzes artificiais, as suas comemorações, os seus ritos sociais estranhos.

Ele entrava discretamente em algum bar e se acomodava a um canto do balcão onde se punha a beber e a analisar comportamentos. Seres solitários sorrindo o tempo todo, bebendo e fingindo ser quem não o eram, bebendo e usando substâncias ilícitas que os fazem exagerar nas emoções enquanto os corroem por dentro, aos poucos, mexendo com a sua sanidade, convencendo-os a realizar coisas  cada vez mais malucas que acabarão por machucá-los, e no processo a outros inúmeros.

A noite abriga melhor aos psicóticos do que o dia, onde a maioria parece normal e feliz. Os seus corações são inalcançáveis, e os seus pensamentos profundamente arraigados em seu âmago, protegido até deles mesmos. Só assim podem sobreviver.

Quase ao raiar do dia volta para casa com muitos perfis gravados em sua mente e nunca acompanhado. Era um fardo enorme acumular perfis solitários em sua mente ágil e reflexiva, não cabia mais ninguém com quem pudesse dividir mais coisas, principalmente pessoais. Estava destinado a ser assim, solitário e com uma tendência absurda em se deixar tocar pelas tristezas alheias. Mas não reclamava. Era um consumidor.

                              Marcelo Gomes Melo

O templo em que a alma habita

Eu sou um amontoado de imperfeições físicas angariadas através de uma vida repleta de diversões e turbulências que agora cobram a conta, que com o passar dos anos aumenta e os juros são inclementes.

A cada inverno uma nova dor surge, logo quando vou me acostumando com a anterior. É fato que não se pode fugir delas; são a herança de todo humano, inclusive dos que tentam burlar o tempo através de artifícios e científicos. Também é fato que não se pode restaurar a si mesmo, por mais avançada que seja a ciência. Negar o acúmulo de deficiências é mais do que ser inocente, é patético.

Sempre que me confronto com as minhas falhas, sinto que o equilíbrio se faz presente, e sou apenas um ser humano comum, destinado, como todos os outros a um fim, embora individual, diferente do final dos outros.

A mortalidade faz com que vivamos com mais incertezas, e o ritmo com que nos movemos determina a maneira com a qual nos encaminhamos para o término. O componente incrível dessa equação não é o corpo, mas a alma. É ela o que realmente importa, sendo a fagulha divina implantada em cada um em um templo que se deteriora com maior ou menor velocidade à medida em que, e como a utilizamos.

A alma limpa mantém o templo em forma por mais tempo em um mundo repleto de razões para que as falhas ocorram e nos submetamos a elas, por impertinência ou inocência. A escolha é sempre nossa, de acordo com o livre arbítrio, mas as tentações aumentam a cada instante, como em um jogo de vídeo game, quando superamos as fases e nos sentimos invencíveis, quase imortais. Por isso muitos vivem suas vidas em busca de tal imortalidade, sem perceber ao nosso redor, formas naturais ainda mais belas que nascem, crescem e morrem; com métodos parecidos de defesa para garantir a sobrevivência, tal e qual os espinhos em uma rosa.

Em nossa arrogância podemos nos colocar no topo da cadeia alimentar até que qualquer vírus invisível nos coloque em pânico e resolva nos eliminar. É o instante em que todo o egoísmo aflora e a luta mesquinha pela sobrevivência se manifesta através de atitudes rasteiras indesculpáveis.

Eu sinto, a cada dia, as minhas imperfeições físicas. A minha luta é para conter as imperfeições da alma; mas isso requer bem mais tempo e força de vontade. As dificuldades aumentam e a pergunta que resta é se conseguirei, como qualquer outro, alcançar antes que o templo que abriga a alma pereça. E isso é certo.

                    Marcelo Gomes Melo

Um mundo repleto de cicatrizes

Ele não quer se matar, ele só quer beber até um ponto em que a consciência deixe de existir, ficar inerte e inapto a qualquer coisa que as pessoas apaixonadas fazem quando estão decepcionadas consigo mesmas ou com o alvo do amor quebrado de surpresa.

O estágio de bebedeira em que não se sente nada, a cabeça gira e afeta todos os outros sentidos. Beber mais é tudo o que se pode fazer, a única habilidade em funcionamento. Se quer ficar só, mas sempre há amigos para tentar consolar falando idiomas impossíveis de entender porque não há interesse. Ele só quer apagar como um robô desligado da vida através de um botão para evitar qualquer dor.

Não é sábio morrer por amor, porque amores vêm e vão, uma boa carraspana é suficiente, lhe fazendo dormir sem sonhos e acordar enjoado e com dores de cabeça inesquecíveis, olhos inchados e o olhar vermelho perdido, imerso em toda a angústia que se puder arranjar.

Água. Um chá de boldo e sofá, com a cabeça coberta por uma almofada, as cortinas fechadas e os telefones desligados. É a sensação do corredor da morte? Aquele nó na garganta a cada pensamento da noite anterior, da briga, da intolerância. Das acusações e das ameaças cumpridas por orgulho.

É caminhar permanentemente no vale das sombras com uma garrafa de uísque pela metade e as roupas amassadas, os cabelos desgrenhados, a ausência de vontade para qualquer ação construtiva.

Beber sem perceber o que é, misturar sem sentir qualquer sabor, o quanto mais forte melhor, para afogar o sentimento miserável da perda irreversível, incapaz de enxergar qualquer saída. Arroubos de entrar em contato apenas para ofender e acusar, humilhar-se, perder a linha, o orgulho e a razão. Para isso servem as duplas caipiras modernas.

Fora das faculdades normais é muito melhor encarar uma briga encolhendo-se para ser chutado e golpeado sem poder nem vontade de reagir, para, de maneira desonesta se colocar como a vítima, a parte digna de dó, o farrapo humano que lamentará por meses e meses até que os amigos e família desistam e o abandonem à própria falta de sorte, para virar um maltrapilho relapso, acabado para a sociedade, que for incapaz de terminar com tudo através do suicídio, e ficar com a dívida mordaz de qual escolha corresponde à mais covarde e vil.

O resgate à margem também pode acontecer repentinamente, como um cachorro que caiu da mudança encontrado após tempos de sofrimento. Um outro amor ainda poderá demorar, pois gato escaldado tem medo de água fria, mas aos poucos novas aventuras podem ajudar a apagar o pior dia de sua vida.

As recaídas virão, mas serão cada vez mais fácil de recuperar-se, até que substituídas por atitudes positivas e esperança em uma nova vida em um mundo repleto de armadilhas que deixam diversas cicatrizes.

                    Marcelo Gomes Melo

Shooting the breeze (De papo furado)

All the sorrow the world brings, my lady

All the fear we used to feel when we don’t know

The stuff around us

Is a measure to define destiny

All the infinity has  an end, for sure

To people who dies on the way

This is reality, we have no question

Any filosopher can try and they will try

Believe it! But just what they get are more questions

And more debates and theorys feeding the necessity itself

To discover something

Conspiration theorys ares the way who common people

Got to do serious questions over the system

Producing some resistence to help the majority persons

Without voice, cattle under world Lords domination

Who needs hope to keep living anyway

All the love we ourselves conquer everyday

That is about courage and we deserve nothing wich is for free

At life, so don’t stop on the way, let it go, with me baby, let it go

And maybe we will find some peace together

Close to the end of the existence

De papo furado

Toda a tristeza que o mundo traz, minha senhora

Todo o medo que costumávamos sentir quando não sabíamos

As coisas ao nosso redor

É uma medida para definir o destino

Todo o infinito tem um fim, com certeza

Para as pessoas que morrem no caminho

Isso é realidade, não temos dúvida

Qualquer filósofo pode tentar e eles tentarão

Acredite! Mas o que eles recebem são mais perguntas

E mais debates e teorias alimentando a necessidade em si

Para descobrir algo

A teoria da conspiração é a maneira como as pessoas comuns

Têm que fazer perguntas sérias sobre o sistema

Produzindo alguma resistência para ajudar a maioria das pessoas

Sem voz, gado sob domínio dos senhores do mundo

Que precisa de esperança para continuar vivendo de qualquer maneira

Todo o amor que conquistamos todos os dias

Isso é sobre coragem e não merecemos nada de graça

Na vida, então não pare no caminho, deixe para lá, comigo baby, desapegue

E talvez encontremos um pouco de paz juntos

Perto do fim da existência

                    Marcelo Gomes Melo

A atitude que o deixará de existir como pessoa

Não vale os segredos que temos, essas ameaças veladas contra a nossa vida comum. É improvável que elas sumam de vez em quando, para aliviar a tensão de ter que estar atento a essas armadilhas diariamente, portanto conformemo-nos e concentremo-nos nas lutas que manterão alta a nossa guarda, embora o desgaste seja imenso.

Os nossos segredos são nossos, e permanecerão assim até o fim dos nossos tempos; não os superficiais, vigiados e arquivados pelo grande irmão, que os ajudam a descobrir do que gostamos, quais os objetos dos nossos desejos e usar essas informações contra nós, para controlar os vícios e aumenta-los, para nublar a mente e impedir o pensamento claro, criando confusão e decisões equivocadas, virando as tradições de cabeça para baixo, tentando muda-las e criar uma atmosfera devassa e letal, com propósitos os quais nunca saberemos.

Teorias da conspiração contribuem ainda mais com esse estado de coisas, pois as informações pertinentes que elas trazem se perdem em meio a bizarrices dos seus noticiadores, que por conta de seu aspecto incomum e exagero intencional transformam possibilidades reais em motivos de riso incondicional.

Repito, não valem os nossos segredos mais profundos, aqueles que escondemos de todos, menos do nosso subconsciente, gravados na pele e marcados em uma parte inalcançável do cérebro. Que morram os vorazes caçadores do que nos é mais caro, porque um ser humano merece carregar para a eternidade algo que a ninguém mais diz respeito. Aquilo que o definirá nos outros patamares de julgamento divino, se é que procede.

Coisa alguma substituirá os seus segredos mais profundos, tenha isso como certo. Caso você os perca deixará de existir como pessoa.

                    Marcelo Gomes Melo

Todo em você até não caber mais!

Nada me enche de mais encantos do que as horas que se imobilizam no tempo em que estou com ela. Todas as outras coisas, outrora importantes, perdem qualquer relevância e o mundo em que passo a habitar é o lugar construído por nós para vivenciarmos experiências enternecedoras, extraídas dos amores profundos existentes nas lendas, imortais como os sentimentos fugazes que pairam em nós e marcam para sempre, ainda que durem apenas alguns segundos em que a troca de olhares intensamente definem todo um destino e além.

Todos os pensamentos se dirigem para a razão do meu viver e meu único motivo para deixar a vida sem remorso, você, minha musa e razão maior para a existência do universo. Enregelado, sonho sob os cobertores querendo o seu corpo que, nu, agirá como aquecedor natural, fazendo-me transitar entre a paixão mais crua e o tesão mais energético, entrelaçados, sufocando-me ao ponto de me fazer acreditar em perecer em nome das delícias insuportavelmente torturantes.

A volta é um respirar forçado, doloroso, difícil de lidar; em desespero procuro me reconectar à vida real, tomando consciência do que me cerca, luzes, cama, espelhos, fone, cardápio…

E você, ao meu lado, sob o meu corpo, sobre o meu corpo, por todos os lados até que me toma por completo e me faz deixar de ser eu para ser você até não caber mais!

                    Marcelo Gomes Melo

Tempero da vida

O medo da morte cega as pessoas. O instinto de sobrevivência se sobrepõe a qualquer outra coisa e o egoísmo transborda, cada um cuidando dos próprios problemas e das próprias necessidades.

Criar pânico é a coisa mais fácil e irresponsável de fazer, embora seja, de vez em quando chacoalhar a árvore para gerar resultados imediatos, com o risco de, no processo, destruir diversos incautos, arrastados pelos mais preparados para sobreviver e dispostos a tudo, inclusive dispor da vida de outro ser humano.

Em casos especiais, surtos que atinjam indiscriminadamente a todos, a responsabilidade recai única e exclusivamente nos governantes, os mesmos que ansiaram pelo poder e que precisam arcar com o ônus das decisões sem lamentar ou hesitar, em nome dos que o colocaram lá para representa-los.

As notícias surgem do nada, espalhadas por desconhecidos com credenciais que não se importam no mal que podem causar em massa pela credulidade do brasileiro comum, disposto a ser enrolado de várias maneiras, achando-se esperto e cedendo a propostas de fácil enriquecimento, impossíveis de acontecer.

O medo é moralizador. Assim como o riso, dita parâmetros de comportamento que obrigam as pessoas a manter um comportamento uniforme; o primeiro para sobreviver, o segundo para evitar humilhações. Conviver com casos que só acontecem em uma sociedade humana, cheia de paradoxos, contrassensos e hipocrisias incontáveis, aos quais chamam de tempero da vida.

                    Marcelo Gomes Melo

Realidade melhor do que o sonho

A luminosidade difusa não permitia distinguir mais do que formas corpóreas, o que aparentava um ambiente ficcional fora da realidade, enfumaçado como em uma balada extrassensorial, movendo os corpos como bonecos assustadores de filmes de terror. Caminhar entre eles observando como estavam alheios a tudo o que não estivesse em suas mentes, e nada estava.

Quanto mais eu tentava entender, mais me sentia fora do jogo, alheio às sensações particulares daquelas figuras indistinguíveis, que faziam sei-lá-o-quê com uma concentração emocionante, ao ponto de beirar às lágrimas.

Um drinque equivale a uma passagem secreta que lhe imiscuirá em círculos novos, com objetivos indizíveis, capazes de modificar maneiras de pensar e agir em um piscar de olhos, uma ponte em direção ao desconhecido.

A cada passo uma novidade, sempre protegida dos olhos por uma névoa, mais escondendo do que mostrando, insinuando com classe, instigando o pensar, convencendo silenciosamente, encaminhando com suavidade para um destino sem volta.

E repentinamente um redemoinho de sentimentos conflitantes arrancando os pés do chão e fazendo girar cada vez mais veloz, entranhando-se em cada célula, transportando corpo e alma para um espaço de transcendência memorável e irracional, só instinto, visceralidade, atitude e inquietude, atirando de um lado para o outro com vitalidade, impiedoso e ao mesmo tempo cuidadoso, proporcionando experiências inigualáveis, improváveis e impossíveis de relevar.

Tomado por todos esses acontecimentos, enlevado e também em um estado crítico de um medo elevado à máxima potência, o coração dispara a ponto de explodir, o sufocar aumenta e você se debate apavorado. Só é salvo pelo despertador do aparelho celular que lhe acorda para a dura realidade que, pelo momento parece muito melhor do que a do pesadelo.

                    Marcelo Gomes Melo