Um jogo impossível de vencer

Oh, destino inclemente que magoa a alma quando menos se espera, e tira do prumo os mais calculistas dos seres, devotados a uma vida contida e controlada, mais segura emocionalmente, sem os doces espasmos dos quais se é vítima e refém, quando as emoções tomam conta, porque agis assim?

Ah, a história indelével que se sobrepõe aos tempos e repete os acontecimentos, nos levando a recordar mesmo que não queiramos, porque é algo inerente e inevitável, parece brincar com as vidas, dificultando-lhe o caminhar com areia nos olhos, equivalente aos sentimentos que não pedimos, sequer reconhecemos a existência até que do nada surgem e tomam conta, bons ou ruins, bons e ruins alternadamente e nos mudam como pessoas, criando obstáculos, aliviando desesperos, matando aos poucos enquanto prometem existir eternamente, mas se vão e reaparecem de tempos em tempos para reabrir as cicatrizes.

Talvez seja o motivo para a nossa curta existência, que nos faz confusos e felizes, entristecidos e enraivecidos, comandam de forma que ansiemos por rotina e em seguida a desprezemos pela falta de novidades que nos renovem e nos obriguem a reagir, ou parecer, dependendo do estímulo e força de vontade.

Ah, conflitos malignos que nos transportam a uma variedade de janelas e portas, e atrás de cada uma há surpresas diferentes com as quais teremos que lidar, cedo ou tarde.

O que realmente importa jamais será descoberto, porque as perguntas feitas não são as certas, e as respostas pouco serão úteis. A perseguição ao invisível atinge por dentro, estômago e cérebro, tornando-os revoltos. É a forma como se lida com o desconhecido, medo e ferocidade.

O instinto de vingança aparece em seguida, impávido; serve apenas para magoar o vingador, porque mesmo que alcance o objetivo, continuará vazio após isso, perdido no tempo e no espaço, seguindo o caminho demarcado por forças desconhecidas.

Ao chegar à beira do precipício verá que lutou por nada, viveu por nada e foi manipulado todo o tempo. Os pensamentos foram comprados e inseridos em um cérebro vazio, que existiu apenas por um desejo maior.

Atirando-se do precipício, no meio da queda novamente saberá, lamentando, que até isso estava programado, não estava se libertando, apenas passando de nível em um jogo cada vez mais sangrento.

Nesse jogo não há chances de vencer. Já iniciou derrotado e permanecerá derrotado e humilhado para sempre.

                    Marcelo Gomes Melo

Esses tempos exóticos em que vivemos

Parecia um daqueles romances maravilhosos, na parte triste em que o casal que se ama tem uma briga, e resolve, mesmo a contragosto, se separar, e faz com que os espectadores chorem como crianças com o drama dos mocinhos, seja no cinema ou na TV.

Ela, com os olhos banhados por lágrimas sai do carro, enquanto ele, de lábios trêmulos e olhar mais triste do que o de uma pessoa que ganhou na loteria e perdeu o bilhete, a observa se afastar lentamente, a canção de fundo e a iluminação tornando tudo ainda pior, com a diferença de que era a vida real.

Após momentos de indecisão ele toma impulso para sair do carro e partir atrás dela, mas esquece que estava com o cinto de segurança e quase enforca a si mesmo. Por sorte apertou o botão a tempo, e com o rosto avermelhado, com dificuldades para respirar, tentou cruzar a praça para alcança-la do outro lado, andando encurvada, abraçando a si mesma com a mulher mais miserável do universo.

Ele tentou correr com seus sapatos italianos brilhantes, olhando apenas para ela, e não para os obstáculos no caminho. Escorregou na areia em que as crianças brincavam de dia, tropeçou no escorregador e gritando de dor tentou espalhafatosamente manter o equilíbrio, os braços esticados procurando algo, mas encontrado apenas espaço vazio. Tombou e enfiou a testa no poste de vôlei. Meio tonto, a cabeça sangrando, correu desajeitado para atravessar a rua.

Àquela hora da noite não havia movimento, então correu sem olhar, cruzando à frente do caminhão de lixo estacionado. Não viu o outro caminhão de mudanças que vinha em alta velocidade… Guinchou como um porco no matadouro quando foi atropelado, chamando a atenção dela, que viu o exato momento em que a pancada quebrou todos os ossos do corpo e o arrastou por metros e metros antes de parar.

Chocada e desesperada caminhou até a cena. O motorista, apavorado ligando para a emergência, o companheiro de trabalho que o acompanhava no caminhão ajoelhado junto ao corpo, sem o tocar constatava que mais parecia um invertebrado do que um humano. Morto. Por amor? Por azar? Azar na vida ou azar no amor?

Ali parada, chorando, ela tremia em choque quando a polícia e a ambulância chegaram. Uma policial perguntava se ela havia presenciado, se o conhecia, mas a voz dela não saia. Apenas soluços e lágrimas.

O romance acabara de virar tragédia. A família do rapaz chegou. A mãe urrava como uma maritaca, e o pai, um sujeito atarracado com cara de mafioso encarou a garota estática ali na esquina, com uma policial procurando acalmá-la. Com um olhar de ódio, culpando-a pelo acidente, foi até o carro, abriu o porta-malas e retornou empunhando uma chave de rodas. Sem uma palavra partiu para cima da nora e segurando a barra de ferro com as duas mãos acertou-a à altura dos joelhos, quebrando-lhe as duas pernas. A moça, em choque, caiu, chorando como um pardal. A policial tentou intervir, mas foi atingida na testa pelo velho irado e caiu entontecida e ensanguentada. O sogro voltou ao ataque e golpeou a garota no meio da cabeça, que se abriu como um coco verde.

Ao presenciar a parceira machucada, o outro policial, que estava perto do corpo esfacelado sacou a arma e não hesitou em cobrir o velho de balas. Esvaziou o tambor, e o pai do morto se estatelou contra a virtude de uma loja, caindo já sem vida. Iria acompanhar o filho para onde quer que fosse. A tragédia acabara de virar terror.

A velha, descabelada, urrava ainda mais o alto como um sinal de fábrica, correndo do filho esmagado, que parou uma minhoca gigante, para a loja em que o marido jazia como um tomate esmagado.

Mais carros de polícia e a imprensa na área, os parentes da moça chegaram em seguida: quatro irmãos halterofilistas, mãe lutadora de judô e pai recém saído da cadeia por feminicídio. Quando entenderam o que houve com a moça foram todos para a velha gritalhona, espancando-a sem piedade, batendo a cabeça dela na parede, enquanto a polícia se via obrigada a elimina-los a tiros. Não antes que a velha fosse detonada até a morte.

O dia amanhecia e a cena estava cercada com fitas amarelas, a polícia tirava fotos, e os corpos eram cobertos com lençóis brancos até que a perícia chegasse ao local.

Os primeiros transeuntes passavam curiosos, se cumprimentando e tentando descobrir o que acontecera. Logo chegavam à conclusão de que era alguma filmagem de novela e seguiam rumo aos seus trabalhos.

A vida real mistura-se à arte diversas vezes, e fica quase impossível distingui-las nesses tempos exóticos em que vivemos.

                    Marcelo Gomes Melo

Paixões existentes não contabilizadas

Nós não passamos de um trabalho em construção, bem elaborado, pensado nos mínimos detalhes para que alcancemos o platô mais alto do universo do amor, local em que partilharemos todas as emoções e transformaremos, do alto, o mundo que vemos em um mundo só nosso, paralelo e restrito.

Um trabalho em progresso envolve olhares discretos, suspiros inaudíveis, conversas curtas, recicladas de sentidos outros que não os denotativos, indecifráveis para o restante da população mundial.

Um amor que não é dito não pode ser visto; se não é declarado, não pode ser contabilizado por quem quer que seja, já que se encontra em ambiente etéreo e invisível, nos protegendo como uma muralha de vidro através do qual podemos enxergar o precipício, o perigo que diariamente corremos de expor o desejo que sentimos através do pensamento em ações impensadas que olhos atentos captariam, e mentes curiosas arriscariam qualquer coisa para descobrir e saciar a sede por destruição.

Ao sabermos que estamos em construção e que chegaremos a qualquer instante à paixão desenfreada que nos unirá como um e descortinará diante de nós as delícias que se completam quando nos tocamos e exploramos cada palmo um do outro, coisa que já sentimos nos corações e nos pensamentos, tão reais que nos saciam sexualmente de uma maneira tântrica e impossível de esquecer.

Os sabores cobrem nossos corpos, os nossos sentidos aguçados e sensíveis um ao outro nos transportam a viagens cada vez mais distantes e prazerosas, coisas que jamais alguém conseguiria descrever ou imaginar sentir.

Nós somos esse trabalho em construção, nos tocando aos poucos, decifrando entrelinhas, permanecendo juntos por horas, embora separados. Já sabemos a razão para existirmos, contra todas as probabilidades e possibilidades. Nunca admitiremos em voz alta, porque quando percebemos nossos corpos estão enroscados, e sussurros e gemidos é tudo o que conseguimos emitir, suados, ansiosos, famintos um pelo outro. Inevitável. Incompreensível. Totalmente realizável. Não nos importa como.

                    Marcelo Gomes Melo

Amor em farrapos além da vida

Ela cometeu suicídio aos vinte e oito e agora pairava como um fantasma pelos pubs em que ele tocava saxofone e depois do show passava horas bebendo cerveja irlandesa, pensativo, distante, sem emitir outro som que não fosse a respiração atarantada de um homem sem propósito.

Observando-o no palco, agora de chapéu enterrado na cabeça, daqueles de feltro que escondiam os olhos e a barba mal cuidada, parecia uma sombra da pessoa feliz que costumava ser com ela em vida. E a sombra era ela, espalhando uma espécie de fog com a sua não presença, sentindo-se às portas do paraíso ao ouvir cada nota que saía daquele saxofone, tristes a ponto de hipnotizar casais apaixonados, que se perdiam em suas histórias e fazer chorar os corações solitários embriagados que passavam as noites acordados, sem chance alguma de dormir em paz, fossem quais fossem as razões.

Para ela as notas eram o impedimento para que desapegasse da terra e permitisse que a alma adentrasse o paraíso para onde deveria se dirigir de uma vez por todas, mas suicídio era um impedimento ainda maior, pois suicidas não iam para o paraíso jamais.

Noite após noite ela renovava o amor que sentia por ele, e ao mesmo tempo sofria e se desesperava com a solidão que o consumia, a bebida que o enganava e não arrancava a dor da perda. Ele jamais saberia a razão pela qual ela optou pela saída através da porta dos fundos da vida, já que era amada como nenhuma outra e sabia. Também sabia que ela era metade de sua alma, do seu corpo e de sua existência entrelaçada por sorrisos e sol, maçãs e vinho tinto.

Um dia se viu abandonado sem explicação e a angústia quase o destruiu por completo, não fosse o instrumento que o mantinha algemado à vida terrível, combatendo a sensação de inutilidade e o desejo de segui-la aonde quer que fosse para obter alguma resposta, nem que isso significasse fazer o mesmo caminho, sem garantias de encontra-la cometendo o mesmo ato brutal que ela, por falta, sobretudo, de coragem.

Às vezes sentia um arrepio enquanto tocava, e poderia jurar que o perfume dela o impregnava e ao seu instrumento. Por mais que tentasse não conseguia conectar-se a ela no além.

Ali, pairando, ela o viu, sem nada poder fazer para impedir, sair pelos fundos do pub, embebedado, sem forças nem motivação. Do alto o observou parar em frente a uma lixeira no beco escuro. Pensativo, arrasado tirou o chapéu e olhou para o alto como se soubesse onde ela estava.

Foi aí que ela viu os seus olhos azuis avermelhados, cercado de olheiras, banhados em lágrimas. Com a alma efervescente olhou quando ele ergueu a lixeira e atirou o chapéu. Quid gritar, mas não era ouvida do local em que se encontrava, era um plano diferente. Em seguida o saxofone, jogado no lixo. A dor que ele sentia era tão viva que se estendia pelo ar e a feria na alma, desesperadamente.

Afastou-se com as mãos nos bolsos do casaco, cabeça baixa, largando tudo para trás. Ainda vivo, em farrapos. Quando chegou à rua iluminada olhou para trás onde jogara as duas preciosidades que possuía e que só valiam com ela. Não notara n ada diferente, mas naquele instante ela se sentiu evaporando, sumindo do mundo dos vivos definitivamente. Uma história de amor eterno que se manteria secreta para vivos e mortos. Sem solução para ele, sem solução para o mundo dos espíritos.

                    Marcelo Gomes Melo

Concentrar-se na resolução de problemas, para o bem ou para o mal

Todo manchado de batom, cheirando a uísque e cigarro dos outros que fumaram perto de mim, impregnando as minhas roupas e, como bônus me prejudicando os pulmões, caminho de madrugada pela rua deserta, com o paletó em uma das mãos e os pensamentos formigando, ocupados com todos os problemas do mundo, que se transformam em uma película ante os meus olhos embaçados.

Não sou capaz de resolver nem os meus próprios, que em comparação com todas as questões filosóficas universais são vergonhosamente desprezíveis e pequenos, indignos de serem levados em consideração.

O melhor lugar para esperar amanhecer é sentado em um banco de pedra, de cabeça baixa, inalando o ar respirável e frio que ajuda a desembaralhar as ideias. A gravata afrouxada permite um respirar mais tranquilo e nada parece ser tão difícil quanto há minutos.

À medida em que o dia amanhece e o sol ameaça dar as caras, o uísque dissipado clareia o pensamento e as primeiras pessoas começam a sair, iniciando as tarefas diárias, outras o exercício físico antes do trabalho, o passeio com o cachorro… A rotina diária não permite que os problemas sejam remoídos, pois novos surgirão, e devem ser rapidamente resolvidos ou deixados de lado, a vida continua, de qualquer forma.

O cerne da questão é reconhecer os próprios pontos fracos, para tentar restringi-los, escondê-los e encontrar o escudo ideal para não ser atingido. Todo o sofrimento mental se torna físico durante essa procura; encontrada a solução, um alívio imediato restaura a confiança para que o rio continue a fluir, turvo, mas ainda limpo o suficiente para banhar os sonhos e fingir que os pecados serão lavados e continuarão lentamente até o encontro com a cachoeira.

Erguer-me, recompor a aparência, entrar em uma padaria para levar pão e leite; parece um bom plano não chegar em casa de mãos vazias. Observar o ambiente, o nível de raiva e preocupação viável, minimamente aceitável para ter passado a noite fora sem avisar. Era o mais recente problema, e a concentração deveria permanecer nele até que fosse concluído, para o bem ou para o mal.

                    Marcelo Gomes Melo

Os diversos tipos de paz

Existe uma enorme diferença entre o que eu desejo e o que eu procuro. Isso quer dizer que nem sempre vou aos lugares que me proporcionariam saciar o tipo de desejo que tenho.

Paz, por assim dizer. Eu desejo paz, mas jamais a encontrarei procurando uma chance de arrancar essa sua roupa de madre, que esconde de mim quase tudo e em compensação me esfaqueia desnudando-se através dos olhos, tão profundamente que me faria morrer de tesão, caso você permitisse. E eu sei que me faz voltar e, em seguida ir, e voltar… Um controle absurdo sobre um homem que costuma caminhar sozinho para não adquirir responsabilidade por mais ninguém.

Amor, se é que me entende. Como posso desejar amor e me afastar de você por dias e dias, nos quais percorro todos os bares e experimento todos os líquidos alcoólicos, filosofando em silêncio com a noite, dividindo os meus pensamentos com o vento, que os carregam para longe de mim.

Então não pareço compatível com paz e amor? Pelo contrário! Apenas as encontro no caminho de suas pernas, e essa é uma contradição legítima, a qual reconheço e aceito completamente. Sou eu o mentor das diferenças que, como paralelas infinitas que jamais se cruzam.

Viver pelo instinto tem sido a melhor escolha até aqui; entendo que não será assim para sempre e, mesmo que eu evite, chegará o momento em que a razão definirá o meu destino. E a razão escolhe imparcialmente, não é compatível com amor ou qualquer coisa oposta. Talvez alcance alguma paz. Não o tipo de paz que me toma após fazer amor com você.

Dos diversos matizes de paz, esse é o que mais me marca, embora seja passageiro. A paz eterna não é atraente para adultos ou jovens, então, ainda não. A paz da consciência é muito edificante e tranquilizante, mas afasta qualquer espécie de amor, vadios ou puros, são incompatíveis.

Eu só preciso da ânsia de ter você, com urgência, e possuir, saciar, possuir… Sorrir. Para você o meu melhor, o único sorriso. Depois vagar, displicente, até o retorno.

                    Marcelo Gomes Melo

Um pouco do submundo e o livre-arbítrio

Ela estava sofrendo por amor quando entrou em meu escritório. Parecia não dormir há dias e a maquiagem se assemelhava à do coringa. Provavelmente entornara uísque suficiente para embriagar uma cidade inteira, não muito populosa. Aceitou o café e fez careta ao tomar, talvez porque não tinha álcool nem açúcar, e estava quente.

Era jovem, ainda, daquelas que podem fingir inocência para qualquer um com o coração mole e a carteira recheada, mas estava por baixo da carne seca no momento. Deixara-se prender na própria armadilha e se apaixonara, quando acontecia exatamente o contrário. Sempre havia alguém mais esperto.

Ao morder a torrada fez cara de nojo; devia estar sem nada no estômago há dias; algo sólido. De braços cruzados a observei sem demonstrar emoções, gente como ela é muito sensível e ao menor sinal de pena dispara seu arsenal de palavrões e se afasta. Essa viera por livre e espontânea vontade, então talvez ainda pudesse ser ajudada, salva ou afundada na lama, dava no mesmo.

Ela comia em silêncio e eu anotava em silêncio coisas como: “parece não tomar banho há dias, só tem essa roupa”; talvez precise consultar um médico após um banho demorado, roupas limpas e muitas horas de sono.

Não estamos aqui para julgar ou pressionar, só assim o que fazemos pode ser considerado ajuda. Eles pedem e recebem. Se mudarem de ideia depois de limpos, sem sarna ou piolhos, a porta da rua é serventia da casa. Por falta de adeus, tchau. Nem todos querem salvação, querem tirar algum proveito e retornar ao ponto de início, eventualmente. São livres para isso, e ajudamos porque queremos, então…

Treinados por anos nesse ambiente somos capazes de determinar a causa do desespero dessas aves de rapina apenas com um olhar. Aquela era vítima da paixão doentia, que a ilude desde adolescente, e agora a domina a ponto de não ter volta. Enquanto ela come o pão e toma o café, alguém abre a porta e me chama para um atendimento mais urgente.

– Padre, por favor, temos um surto aqui…

                    Marcelo Gomes Melo

It’s Only Rock and Roll but I like it!

Misture em uma garrafa de plástico de corote o conteúdo de um pacote de Mid sabor limão, em pó. Chacoalhe com disposição e erga um brinde dentre os irmãos, sentados na calçada do bar em cadeiras de plástico, com as motos reluzentes estacionadas na sarjeta.

Nós somos engenheiros, padres, médicos, professores, empresários, mecânicos, todos com os nossos coletes de couro preto personalizados com o nome do clube e a cidade à qual pertencemos. Com orgulho carregamos a história das nossas vidas desde adolescentes, partilhando uma filosofia de vida oposta à que adotamos no dia-a-dia em nossas profissões.

O rock nos une em qualquer circunstância, e médicos operam ao som de Motorhead, advogados produzem documentos ouvindo Iron Maiden e professores analisam letras do Black Sabath. Mecânicos testam o som dos clientes com Rolling Stones e filósofos tecem análises profundas sobre a humanidade usando Rush como música de fundo.

Sobre as motocicletas desbravamos outros mundos, outras vidas enquanto born to be wild, do Steppenwolf é a eterna trilha sonora, o vento batendo na cara e as pessoas comuns desconfiando do que é diferente, fisicamente, estilo aparentemente selvagem em cérebros privilegiados que se entopem de cerveja, jogam bilhar e carregam amazonas ferozes na garupa, acostumadas a viver de acordo com as regras do clube.

Dinossauros que poderiam ser considerados machistas caso as suas senhoras não preferissem assim, homens fortes e decididos, porém com um equivalente feminino, que sempre o que deseja.

O ronco das Harley Davison, os capacetes arredondados e os óculos escuros de modelos diversificados garantem o estilo, e os acessórios definem a personalidade. Tatuagens que contam amores e brigas, diversão e fuga, histórias inesquecíveis eternizadas na pele, sem volta.

Honra e tradição é o que nos move. O dia-a-dia no trabalho nos iguala, mas o peso da vida verdadeira música permanece; alguns não sobrevivem, mas quem fica garante que as normas sejam cumpridas, e a liberdade, ao nosso modo, cultuada. Pulseiras de couro, anéis de caveira, chapéus e canivetes definem o que o mundo não vê, ou não deseja ver. O ciclo segue ao som de Judas Priest, Curtis Stiger, Heart e muitos outros.

Os novos virão e garantirão o espaço para os rebeldes aniquiladores do tédio, filósofos de uma realidade crua, que existe para manter atônitos aos despreparados.

Escrito em papel de pão, versos de Janis Joplin cruzam fronteiras e épocas; Hendrix queima guitarras e a fumaça se espalha pelo mundo encantando e definindo pessoas.

Na calçada do bar, cachaça e histórias varam noites inclementes. É apenas rock and roll, mas eu gosto.

                    Marcelo Gomes Melo

Música para funerais

Os que gastam bastante tempo durante a vida pensando uma lápide apropriada, com os dizeres certos, precisam ir além disso! Estão tratando de sua imagem pública, raios! Deixar as palavras que o eternizarão sob a terra úmida ou em uma tumba clássica é, no mínimo, displicência.

Todos sabem, subliminarmente, não é costume comentar sobre essas coisas tétricas em voz alta, a não ser em círculos mais liberais, que as funerárias apresentam opções padrão: “Amado pai e marido”; “Esposa fiel e humilde”; “Filho educado e aluno respeitoso” … Ninguém  ousa dizer, de pronto, entalhado em mármore para sempre o que realmente pensa: “” Velho safado, ladrão e burro”; “Vadia imunda traiçoeira”; “Maconheiro bebum desrespeitoso”… Porque depois de morto todos viram santos, ninguém tem pecados. Pelo menos na escrita das lápides.

Os futuros mortos modernos já pensam no que desejam que seja escrito sobre eles, depois que se forem. Um ascensorista, por exemplo, deixou como último desejo que escrevessem “Esse foi para o andar de cima”. A mulher do frigorífico, “Finalmente um lugar quentinho”; um fã do Shwarzenegger, “I’ll be back”, e assim por diante.

Com o avançar dos séculos e a modernização das coisas, há mais a ser feito pelo postulante à vida eterna que ainda tem dúvidas de que terá esse direito. Pensar com estilo é obrigação, e é aí que entra a empresa “Música para funerais”, treinada para embalar os visitantes do defunto antes que cheguem à moradia final. Mesmo os desejos mais inusitados podem ser satisfeitos. Funk, caso o caixão não esteja fechado; Kenny G., se servirem energético no velório, para manter os convidados acordados. Forró, se as pessoas forem expansivas, que gritam o tempo todo em um lamento constante e alto; rock para os rebeldes resilientes, que querem partir afrontando ao mundo dos vivos; brega, se os convidados tiverem o mesmo senso de humor que o morto. Sertanejo universitário, não porque esse é o som apropriado para zumbis. Axé apenas para baianos, que nunca morrem, viram purpurina.

O fato é que em tempos de pandemia, até o direito a uma despedida em alto nível passa a ser levada em consideração, porque todos nascem sozinhos e morrerão sozinhos, mas em ambas as situações, cercados por quem os amam e respeitam. Coisa que tem sido proibido para as vítimas do vírus mortal.

Os versos são importantes tanto quanto a lápide. “Eu vos amo/Me dói partir…”; “Onde você estiver, não se esqueça de mim”; “O céu vai desabar sobre vocês” … As canções definem o que a vida lhe deu e o que lhe tiraram. O quanto você se divertiu e o quanto sofreu. E se sofreu demais, o quanto aguentou. Ou se a diversão foi maior, o quanto influiu no seu caminho final.

Tudo em torno de nós é importante. Tão ou mais importante do que qualquer um. O que lhe influenciou ou a quem influenciou, também. Vive-se em uma época de pensar nos detalhes. O tempo todo.

                    Marcelo Gomes Melo

A saga das morenas de corpos torneados

As morenas de corpo torneado e sorriso insincero habitam as fantasias do que jogam moedas na fonte dos desejos, e dos que apostam a vida nas mesas de pôquer. Passeiam ondulando os seus corpos perfeitos olhando a ninguém diretamente, sorrindo a qualquer um que deseje ceder à pandemia da paixão que lhes corroerá os cérebros enquanto descarregam a adrenalina contida atrás de suas mesas em seus escritórios mal iluminados.

Há coisas que acontecem porque precisam acontecer, e as vítimas imploram para que sejam alcançadas e detonadas, para que digam, se houver um pós-vida, que sentiram alguma coisa e reagiram à altura, vencidos, mas vencedores.

As morenas que exigem champanhe e uísque, e passam a língua lentamente pelos lábios vermelhos deixando embasbacados e orgulhosos os que pagam com a alma para saborear o poder. Uns se martirizarão depois, arrependidos, humilhados e renegados, enquanto uma cepa reservada bradará com arrogância que se deixaram exaurir, e o que perderam em uma noite recuperarão em alguns dias esfolando os que jamais poderiam sequer observar tais belezas, nem no mais ardoroso sonho.

Os falsos poderes habitam a mente, e perecem na mente, da mesma forma. Tudo não passa de uma realidade comprada com uma moeda da qual poucos dispõem de bom grado: a própria alma.

Estertores indicam o fim do passeio. Cansaço e languidez se misturam ao tilintar das moedas, sorrisos orgulhosos dentro de paletós caros, e a imagem da morena tortuosa que limpou os bolsos, a alma e o coração.

                    Marcelo Gomes Melo