… Até a chegada do prazer!

A mão resvalando entre as coxas da moça era o ponto clássico inicial do perigo. Ali naquele ambiente social civilizado repleto de sócios do clube, pessoas de bem, religiosas e pacatas. Hipócritas! Jamais admitirão os seus fetiches, nem os nocivos, nem os humanos.

 Deslizando rumo ao centro da Terra, a temperatura aumenta irrestrita, o coração tamborila e a respiração se altera. O olhar se esgazeia e o pensamento se atordoa, não há como evitar.

É desafio o que se quer; desafio às regras vigentes, aos próprios limites. A moça de rosto corado não impõe limites, exige o máximo! Entrega-se ao máximo!

A conexão com o infinito se torna possível, o prazer total se torna provável, e o caminho percorrido premia com pequenas surpresas que possibilitam o alcance do paraíso através de pequenas pílulas de delícias desconhecidas, adquiridas conjuntamente.

A moça de olhar indecifrável instiga, provoca e assombra pela capacidade de verter gostosuras através de cada gesto. Ela é a paixão em si, a promessa permanente de sonho, a fonte que jamais seca.

O encaixe perfeito transmite sensações inigualáveis, indescritíveis; delírio é o que se encontra, em camadas espessas e vibração poderosa, distribuindo-se em ondas desesperadoras, gemidos inomináveis até a chegada do prazer.

                              Marcelo Gomes Melo

O zuretão que queria matar o governador

Zuretão com revólver na mão, desceu do metrô e cruzou a Praça da Sé sem olhar para os lados, mendigos estrangeiros abandonados tomando banho no lago, pastores enfurecidos massacrando a Bíblia, chutando, mordendo, cuspindo, urrando pragas em tom assustador. Sentados no chão, de frente para a Catedral, vendedores espalham diversos tipos de ervas naturais para a cura garantida dos males urbanos a preço acessível.

Um barbudo liga o microfone a uma caixa de som, empunha o violão e providencia um chapéu no chão próximo a ele, na esperança de amealhar moedas que garantam o almoço e o jantar. Em passo constante, rápido, passadas largas, a arma apontada para o chão, o rosto tenso, sobrancelhas coladas, olhando para a frente fixamente, passa ao lado do posto policial que nem o percebe. Estavam comendo coxinhas e conversavam com alguns turistas que solicitavam informações.

Seguindo pela rua Direita o Zureta dribla as pessoas de máscara que encontra; algumas o reprovam com o olhar por não usar a proteção obrigatória. Quando percebem a ferramenta em sua mão direita se afastam assustados.

Logo estará na frente do Teatro Municipal, cruzando o Viaduto do Chá, respirando fortemente, o ódio escapando pelos poros com o suor. Praça da República. Artistas tentando vender quadros, pulseiras feitas à mão, máquinas para cortar cabelo… Parou por um momento, coçando a cabeça com o revólver. Todos à volta se espalharem, mulheres guinchando como sirenes de ambulância.

O Zuretão estava confuso a respeito do que queria fazer, tentava se lembrar do plano. Deixara a sua casa de um quarto em um cortiço na periferia disposto a cobrar por todos os males infringidos a ele durante a vida. Fora parar ali com um fogão, uma cama de solteiro e uma TV antiga e pequena depois que a esposa o abandonara levando os filhos de volta para o nordeste, porque ele não podia mais trabalhar como servente de pedreiro por conta da pandemia. Já fazia três meses e ainda não conseguira receber a ajuda emergencial, então estava vivendo com miojo Lámen todos os dias. O desespero só aumentava ao ligar a televisão no único canal que funcionava e só falava de mortes o dia todo, mostrando caixões, enterros, idosos em hospitais, famílias chorando… A ordem era “fique em casa”, e ele tentara obedecer. Agora estava ali, parado na Praça da República tentando organizar os pensamentos para realizar a sua última missão: assassinar o governador.

Quando ergue o olhar, voltando a si, estava cercado por policiais bem armados apontando-lhes diversos tipos de armas; uns tentando acalmá-lo e fazê-lo largar o revólver.

Confuso, enlouquecido, olhou as pessoas à sua volta. Será que não entendiam? Girou a mão armada para apontar alguma coisa, e essa foi a deixa para que os policiais disparassem, transformando-o em um queijo suíço. A ameaça estava neutralizada, informou um deles pelo rádio.

Aproximaram-se do Zuretão ensanguentado e lhe tiram a arma. Era de plástico. Um brinquedo que um dos filhos deixara. A ordem veio de cima, enterrem logo, como indigente. O motivo da morte: COVID-19. Mais um para engrossar as estatísticas no jornal nacional.

                    Marcelo Gomes Melo

Versos soltos impulsionam a vida

De vez em quando nos deparamos com alguns versos soltos, mais do que no ar, nas redes sociais, e não pensamos em que os construiu. Não pensamos em nada. Aqueles versos soltos nada significam para nós e milhares de outras pessoas, entretanto permanecem em nós, adormecidos.

Ninguém com natureza comum e normal pensa em morrer, ou em período de vida. Esse tipo de coisa é para os que vivem obcecados pela lógica, martirizam-se por algo que não podem prever, e isso os magoa. A ansiedade os controla e assim fica impossível guardar as emoções em uma caixa, como desejariam.

Os versos podem enfim, incutidos em cada um obrigar-lhes, os comuns e os lógicos, a raciocinar em termos complexos. Cada dia vivo é um infinito de causas para existir. Um dia de cada vez, nos deparamos com um infinito de causas para existir. Um dia de cada vez nos deparamos com um infinito de possibilidades, e se vivermos plenamente, viveremos para sempre, não importa o quanto estivermos do lado de cá da existência.

Os que querem eternizar-se por coisas, plantar uma árvore, ter um filho, escrever uma obra fantástica, não entendem que a eternidade é diária. É desse jeito que permanecemos nos corações de quem nem imaginamos, e levamos no coração pessoas que não fazem isso.

Eis o infinito em nós. Cada momento feliz, cada pensamento altruísta, cada sacrifício realizado em segredo… Atos de bondade esquecidos por quem realizou, mas inesquecíveis para quem foi a razão. Tudo é amor. Os versos soltos sempre dizem algo completo. Compartimentalizam-se em diferentes lugares do corpo e dificilmente serão acionados, e se o forem, mal serão notados, porque os seres humanos são construídos por versos soltos, que os mantém sãos e instigam o seu instinto imparável de perseguir moinhos de vento, sem saber que não são inimigos de verdade como Dom Quixote.

É assim que se vive, afinal.

                    Marcelo Gomes Melo

“Infinito-me

Um dia de cada vez”.

                                  (autor desconhecido)

O melhor amigo dos bêbados

Não importa acordar de ressaca, vomitando as tripas e a cabeça a rodar. O chão parece um furacão, entontecido e com gosto amargo na boca, se escondendo atrás de uma caneca de chá. Chá de boldo para tentar consertar. Chá de camomila para regenerar, dois comprimidos de aspirina, um café quente, forte, sem açúcar, deixar-se cair no sofá.

Olhos vermelhos, sem lembrar direito das marcas de cachaça e cerveja que não parou de tomar. Um copo atrás do outro, uma garrafa na sequência embaçando o olhar. O mundo rodando e você se mijando por não encontrar o zíper antes de se aliviar.

Você precisa de recuperação, descansar, meditar. Porque daqui a dois dias haverá outro encontro com o seu melhor amigo, e não pode faltar: o bar!

É ele quem lhe acolhe do frio, lhe oferece estadia e bebida suficiente se quiser se matar. Não haveria amigo mais fiel e contente por poder ajudar. O seu melhor amigo sempre será o bar!

Acaba o expediente, nervoso e descrente, precisando de autoestima e um pouco de alegria só para variar, como um imã ele traz você com tudo para beber e esquecer, para beber e lembrar. Esse é o seu velho amigo, o bar.

No meio das enrascadas da vida, inanimado, firme e forte ele sempre está lá, com luzes neon na porta e muita gente solitária ou vazia por dentro, não atingem cem por cento embora queiram ostentar. Ali uns tentam sobrepujar aos outros em histórias inverídicas de como são felizes, realizados profissionalmente e abençoados no amor, mas o castelo de cartas desmorona quando a primeira garrafa de uísque termina e outra tem que chegar.

A choradeira, a raiva, o sentimento de inferioridade, a falta de razão para existir vem à tona até você vomitar. Embaraçado, sem as faculdades mentais em ordem, prontos para desabar, a ajuda confusa oferecida por outros bêbados não vai ajudar. A sarjeta lhe espera, ou o chão do banheiro onde irá apagar.

Tudo isso acontece com ajuda do seu indestrutível amigo sempre lá para aprovar: o bar! Você deve tudo a ele, e a ele deve pagar. É nele que o seu espírito irá permanecer assim que a sua hora chegar. Parceiros de bebedeira que ainda não foram chamados sufocam as lágrimas com o bafo de cachaça balbuciam o seu pesar com a tristeza genuína de quem sabe que o seu dia ainda vai chegar.

No templo dos cachaceiros, reunidos irão beber o amigo morto, relembrar histórias até que o dia amanheça e os encontre na sarjeta, bancos de praça, fachadas de lojas, esperando a abertura do amigo mais profundo, sincero, que não julga apenas oferece as ferramentas para que usem como desejarem, e o encontrem no inferno quando o dia chegar. Todos amigos chegados, juramentados e fiéis ao local mais respeitoso que puderam frequentar: o bar!

                    Marcelo Gomes Melo

O primeiro caso de amor platônico em tempos de pandemia

Eram apenas olhos nos olhos em tempos de pandemia, com os rostos cobertos por máscaras e um boné escondendo os meus cabelos grisalhos. Uma touca colorida mantinha apenas uma parte dos longos cacheados dela. Os olhos azuis; os meus, marrons. Brilhavam incontrolavelmente, eu tinha plena certeza.

Distância regulamentar garantida, juro que ela sorriu sob a máscara, irônica, desafiadora. Os meus olhos eram quentes embora a minha expressão fosse dura, costume de vários anos.

Ela mexeu nos cabelos vaidosamente, o que pareceu um sinal ao qual eu não estava disposto a ignorar. Ambos em pé, no metrô um tanto vazio. De vez em quando pessoas cruzavam o nosso caminho por instantes perdíamos a conexão visual, mas os batimentos do coração permaneciam aceleradas e um certo calor determinava o nível latente de excitação.

Minuciosamente, sem disfarçar concentrei-me em seu corpo saudável de pernas torneadas em destaque pela calça colada. Os seios saltavam sob a blusa fechada, sem decotes, mas incrivelmente sexy, sugerindo uma respiração ofegante. As bochechas ruborizadas guardavam certa inocência, desmentida imediatamente pelos olhares provocantes e as curvas dos quadris extremamente salientes.

Gostei da maneira como entortou o rosto para o lado, tornando claros a sua atenção em mim, que não tirava os olhos dela, mas parecia uma estátua, um guarda inglês que por nada se move, concentrado em seu trabalho. O meu era grava-la em meu pensamento, cada detalhe, para a próxima vez em que nos encontrássemos em outras circunstâncias.

Em sua estação ela saiu relutante, sem tirar os olhos de mim, da mesma forma que agi, enquanto o metrô se afastava, lentamente, nos distanciando um do outro, sem nada além de atração e promessas.

Seríamos nós o primeiro caso de amor platônico em tempos de pandemia?

                    Marcelo Gomes Melo

O tique-taque compulsivo do fim do mundo

Nesgas de lua apareciam entre as folhas secas de outono sem fim. O vento frio tornava os seres conformados, um tanto encolhidos, costurados com linha de pesca e deixados ao relento, de frente para uma paisagem maravilhosa.

Esse é o modo cruel de mostrar a finitude. Toda a fragilidade de corpos mortais que murcham, e a alma não lhes cabe mais, precisa expandir-se e se afastar da opressão de um receptor impuro, imprestável, menor do que ela merece.

É assim que muitas almas se perdem, enlouquecem e se tornam más por conta dos seus receptáculos cruéis, fracos, os não-merecedores. O tempo desgasta e corrói como ácido, em silêncio. O faz até com as pedras, ninguém sai incólume. Vertigem é o que acomete aos que pretendem ir mais longe e mais rápido do que os controladores o permitem.

Magnanimamente o orvalho cobre as folhas e os corpos; enregelados eles têm a sensação de preservação inútil, mas consoladora, como esperar uma revelação nos últimos momentos, seja lá o que for.

Buscar significados em uma folha em branco é melhor, mais confortável do que desvendar o que já foi vivido e registrado, e com toda a certeza exige originalidade e fá durante décadas de vida, enganando-se ao acreditar poder driblar o destino, tornando-se impopular com o espelho pelos pensamentos opostos às atitudes desleais.

Instabilidade é tudo o que pode lhe manter desperto quando os luminares do universo caem. Enquanto as luzes se apagam e a queda do portal é inevitável, ninguém quer ficar para trás. Atropelam-se, fazem o jogo da morte sem pensar duas vezes. A sobrevivência não tem lei, a discórdia é a desculpa perfeita entre os pilares que tombam sem mostrar misericórdia, porque não há nem isso entre os sacrificáveis. Aqueles que vieram para atuar durante algum tempo e depois despencar na escuridão infinita, sofrendo diariamente, fazendo sofrer diuturnamente, uma existência marcada por falhas impossíveis de consertar, por motivações obscuras que os dominam e às quais abominam, mas não resistem por falta de força, de poder, ou de vontade. Pela ganância de acreditar que agindo desse modo pode-se alcançar algo miraculoso.

No fim, o inevitável. Tornar-se outra vítima no baú do irrisório, ouvindo o tique-taque compulsivo do fim do mundo.

                    Marcelo Gomes Melo

Todo mundo enlouquece. Ao meio dia ou à meia noite

Você é um muro contra o qual não desejo colidir; uma nuvem cinza que eu não quero sobre mim, um para-raios que me atrai e me atira na terra, impassível como uma estátua, sem se importar com a intensidade que eu demonstro.

Você é uma calda de derreteria o meu sorvete preferido, e ainda assim permaneceria mais gostosa e suculenta, um impulso para eu saborear sem temor.

A mulher de gelo que queima o meu coração e destrói as minhas ondas cerebrais sem piscar por um segundo. O seu propósito vai muito além de um amor. Qualquer amor. Tem coisas mais importantes em que pensar, conquistas materiais pelas quais está disposta a negociar, não importa a quem vai ferir, você não tem amores, tem objetos pessoais com os quais se distrai. Às vezes tropeça à beira do abismo, as lágrimas lhe assustam e lhe fazem sentir raiva de si mesma por dias e dias, mas renasce das cinzas e prossegue, de queixo erguido; venceu a fraqueza a qual deixou lhe atingir, de raspão.

Não permite sair em tentação por mais do que o tempo programado, logo retorna ao jogo ainda mais voraz e impiedosa.

Você é caçadora do tipo que se compraz em fazer a presa sangrar entre os dentes, arrancando os pedaços, degustando o que serve e cuspindo as sobras para os porcos, sem dor de consciência. Especializada em encantar, aterrorizar, destruir; é o lema em sua bandeira. O veneno suave que mata lentamente e o perfume permanece na sepultura por anos a fio.

Um rastro de miséria e ódio banhados por aguarrás e pétalas, você continua e sequer desvia os olhos. Não tem interesse pelo que lhe cerca, e obstáculos que porventura encontre talvez lhe mantenha o interesse pelo tempo que leve para quebrar em pedaços como a tudo que lhe atraia, como uma criança que tem por prazer esmagar os brinquedos.

É tudo o que lhe faz sorrir. Ver a ingenuidade tosca dos que acham que podem lidar com você, e depois enxerga-los pelo retrovisor, sangrando lentamente até a morte mais desesperadora possível: a morte do apostador que deixou tudo se distanciar, até os sonhos.

Ninguém vive com juízo completo, entretanto. É isso o que lhe impele obsessivamente a uma vida de riscos. Todo mundo enlouquece ao meio dia ou à meia noite. É o que define a existência.

                    Marcelo Gomes Melo

Não me traga flores

Tudo é uma questão do quão desesperado se está. Relacionamentos. Nessa época em que tudo se confunde e não há regras para nada as pessoas sofrem pelo motivo errado, e podem chamar de amor qualquer coisa que se pareça com afagos, atenção, tomar café juntos…

Se está desesperado o suficiente faz qualquer coisa para aliviar a pressão e chamar a isso de amor é bizarro, mas é real. O mais realista possível. E as consequências chegam sem demora, cobrando um preço alto demais. Quanto mais se afundam na areia movediça, mais se envolvem em situações estranhas, e morrem por isso.

Nesses tempos fora de ordem tudo é horror, quando duas pessoas se envolvem por razões que nem elas reconhecem. Podem fingir que é amor, chamar de necessidade, nomear como companhia eterna, mas é apenas solidão correndo a alma, enfraquecendo os sonhos, nublando a visão e obrigando todos a submeter-se a humilhações inconcebíveis.

O ritmo é outro nos ouvidos magoados; não mais violões alegres nem palmas espontâneas; o que ressoa como um bumbo em um evento fúnebre é o que lhe faz se mover. Um único e estreito corredor com luz fraca e mão única. Siga, nem olhar para trás é possível.

O nível de desespero é o que une casais improváveis hoje em dia. Solidão, sentimento difuso, mas consistente, insistente, persistente jamais lhe abandonará, ou a mim. Ou a qualquer um. Então não me traga flores.

                    Marcelo Gomes Melo

Os que confiam mais em si do que em Deus

Simone, o jantar está queimando, não seja teimosa e não fique falando sei lá com quem através desse maldito aplicativo que é a única forma para saber das pessoas e se sentir vivo, embora preso. Você deveria largar um momento e salvar nosso meio de nos manter vivos mais tempo, que é nos alimentando. E se a comida tiver algum sabor, melhor.

Eu? Já li alguns livros, vi a TV nos canais jornalísticos, briguei com a maneira cínica com que distorcem as informações em próprio benefício, mudei para o canal de esportes que, sem ter do que falar torna claro a incompetência da imensa maioria deles, mentirosos, fanáticos, incultos e ineficientes. Tento com certeza alguma música de qualidade, obviamente antigas para conter a ansiedade. Funciona por algum tempo. Quando fico cansado olho através da janela e o sol me cega os olhos, desacostumados da luz natural. E isso me lembra do jantar. Simone, largue o smartphone e termine o jantar, por favor!

Logo mergulharei na profundidade escura dos oceanos da internet, descobrindo coisas, me horrorizando com outras, distraído com memes, contando a enormidade de golpes cruéis contra os mais inocentes, inabilitados a lidar com as ferramentas, caindo em situações que os levarão à miséria física, mental e financeira. Verei amores virtuais verdadeiros durar por décadas, e ao sair para além das máquinas morrer por serem absolutamente falsos, baseados em fantasias de quem acreditava no que contava que era, mas estava longe de ser real.

A máquina controlando o criador, comendo pelas beiradas e modificando o modo como a nossa geração costumava viver, Simone, livres, lá fora sob o sol e chuva, sorrindo, trocando abraços e xingamentos, correndo contra o tempo, mas sobrevivendo através das próprias forças e decidindo pelos próprios erros e acertos, sem comando central proibindo-nos de viver, aumentando as nossas chances de falar, profissional e amorosamente, porque não se importam com seres humanos comuns, julgam-se acima deles com seus objetos pessoais sem preço e iguarias jamais conhecidas. A forma dos genocidas, psicopatas e sociopatas está funcionando muito bem e está protegida, então doenças invisíveis surgem do nada, intimidam, matam e seguem agindo, sem cura, estranhamente poupando aos que habitam o topo da pirâmide e os que fazem o trabalho sujo para criar colapso. O samba do crioulo doido está montado, há macacos armados com metralhadoras disparando a esmo e cegos brigando de foice no escuro à beira do barranco.

Simone, coloque essa máquina para carregar e venha sentar-se à mesa comigo, comer, brindar com uma taça de vinho e trocar algumas palavras gentis. Preciso ouvir o som de sua voz, e também o da minha dizendo o quão maravilhosa você é, e que sairemos dessa em breve; primeiro resistindo às doenças que o confinamento traz; depois superando com anticorpos a morte que esse vírus, natural ou de laboratório traz. Por fim, lutando contra os insensíveis que colocam os próprios propósitos acima do bem comum coletivo, dispostos a tudo para manter os benefícios, mesmo perdendo a humanidade no processo, remoldando a raça para algo inconcebível, predadores que em pouco tempo tentarão estender o domínio pelo universo, pois confiam mais em si mesmos do que em Deus.

                    Marcelo Gomes Melo

Quem viver, verá!

Jamais se meta com os ilusionistas, eles são tão arteiros como um amor mal curado, tão dominantes quanto a expectativa pelo início d um novo amor, e dissimulam com facilidade o que desejam, fazendo com que viva em uma sala de espelhos de um parque de diversões, olhando para todos os lados tortuosos que habitam em seu corpo, e complementam a sua mente, decidem como respirar, quando raciocinar, se mover e até como reagir.

Tudo está planejado pelos ilusionistas que manipulam o seu cérebro com tanta competência que são capazes de definir a forma do seu mundo, as maneiras com as quais interagirá com as pessoas ao seu redor, a qual círculo de trabalho ou amizades pertencerá.

O foco da habilidade deles está em algo importante, e que descobre antes do próprio fim garante a chance de tomar a atitude mais correta para si mesmo: os ilusionistas dependem de uma pequena coisa implantada em você desde que se deu por gente. A dúvida.

A dúvida é o cabresto certo para mantê-lo inseguro, vivo e esperneando para tudo quanto é lado. E isso é bom porque quem tenta abandonar a dúvida acaba precipício abaixo. Já ouviu que a soberba é um pecado capital? E o que é a soberba senão a ausência de dúvidas? Com dúvidas você se comporta melhor. Desde que na medida certa.

Quando os ilusionistas erram um pouco para mais ou para menos sempre há alguém que sofre. Esse alguém é você. Embora talentosos não podem manter uma vida inteira sob o comando da ilusão, então as pessoas ficam pelo caminho por conta de alguma falha.

Essas mesmas pessoas determinaram-se a chamar tais falhas de destino, por falta de um nome melhor, e até que funciona bem. Explica o inexplicável para muitos e mantêm a muitos outros obcecados por explicações.

Não as encontrando, impetuosos, inventam, produzem e tentam convencer ao máximo de pessoas possível, a quem convencionou-se nomear seguidores. Dependendo do nível dos seguidores, coisas terríveis acontecem. Esses impetuosos estão e sempre estarão abaixo dos ilusionistas, que por diversão permitem que eles existam e acrescentem um outro ingrediente à panela de feitiços: o caos.

E é desse jeito que a vida segue, sob os olhares indiferentes dos ilusionistas e dos seus arroubos de felicidade e ironia, raiva…

Necessário lembrar, entretanto, que são apenas ilusionistas. Há um verdadeiro mágico acima deles, e esse não tem se envolvido por tempos, mas em algum momento o fará. Quem viver, verá.

                    Marcelo Gomes Melo