O caminho do fim em uma Era de trevas

Um mundo espiritualmente carregado pelas más energias, é o que dizem os especialistas da internet, os marreteiros da alma; os céticos por natureza ouvem e vacilam; os fanáticos por alguma coisa reagem, com violência verbal e física, e a sociedade permanece comandada por gente torpe, com pensamentos manchados pela crueldade, e os intolerantes bradam contra a intolerância, querendo reagir de maneira ainda mais intolerante.

Seja como for, uma guerra atroz é travada nos ambientes sociais e, com os “sugadores de energia” destruindo aos de boas intenções e espalhando as suas infinitas maldades via de regra, assombrando pessoas.

O certo é que os de bom coração provavelmente estejam perdendo a batalha e as péssimas influências estão suplantando e definindo a existência de todos.

Alarmistas proclamam o ódio como se fosse algo imprescindível. Alarmados surtam e seguem exatamente o que esperado pelos vendedores de perdição à vista e a prazo.

O caminho do fim se iniciou quando as pessoas que aprendiam e retinham conhecimento do que é bom e do que é ruim começaram a abrir exceções e perdoar aos maldosos dando espaço para as manobras maléficas dos amarfanhados, toscos que defendiam que o conhecimento fosse descartado e que os sem conhecimento ascendessem ao comando sem preparo, em vez de exigir mais conhecimento e preparo. Os sugadores de almas não têm interesse em aprender, e sim disseminar a falta de sabedoria, a falta de cultura, o retorno para a Era das trevas. E conseguiram.

Vive-se na Terra esse ar tortuoso, esse apocalipse constante que estremece aos cínicos e dissemina nos crentes um horror inigualável. O mundo de pontas-cabeça espelha a vida de sofredores expondo todos os tipos de sofrimento, e os sádicos e masoquistas comandam a festa. Até quando, não se sabe. Deve ser disso o que trata o fim do mundo.

                    Marcelo Gomes Melo

Tempos em que tudo pode acontecer

Ela não costumava se dirigir a mim pelo nome, o que em si quer dizer que deseja evitar qualquer interação social, mantendo uma distância regulamentar mais do que radical, deixando claro ser um estorvo a comunicação, mesmo sendo unicamente profissional.

Não fazia isso com maldade, apenas frieza, não se pode obrigar alguém a gostar de você, o que ela podia fazer era oferecer o mínimo de educação. Quando se distraía e falava direto comigo, sequer cruzávamos os olhares. Senhor era o mais utilizado, com respeito gelado, uma muralha do norte no Jogo dos Tronos, intransponível e mortal.

Eu não me importava e nem demonstrava estranheza, usava o seu primeiro nome e costumava ser conciso e genial, tão distante quanto achava que ela podia querer. Nossas conversas eram escassas, profissionais, e em meio a uma grande equipe de profissionais. Jamais tivemos oportunidade de conversar sozinhos.

Caso me pergunte o porquê, não faço ideia! Nunca houve motivo aparente, apenas não éramos escolhidos para qualquer tipo de amizade, ou seja, lá o que fosse. Também não fomos sorteados para sermos inimigos implacáveis. Isso deve acontecer com diversas pessoas ao redor do mundo. Universos paralelos jamais destinados a se cruzar em algum momento, por algum motivo.

Conviver em um ambiente de trabalho, discutir ações eficientes em conjunto sem jamais cruzar um olhar, raramente uma frase curta direcionada exclusivamente…

Realmente hoje vivemos em tempos estranhos, nos quais as pessoas agem diferente do que eram antes e ficam cada vez mais desconfiadas, distantes, incapazes de interagir sem a máscara social, sempre se esforçando para demonstrar quem são, fabricando um lado bom irreal, deixando os verdadeiros bons e velhos sentimentos de verdade enclausurados, enterrados por camadas grossas de falsidade variada, como arma poderosa apenas para sobreviver nessa selva assustadora, cruel e letal para cada um; e aumenta à medida em que o tempo passa e a experiência deixa de significar algo digno de respeito e medalhas e homenagens, para significar exclusão social, desrespeito e insistência para que saiam do convívio geral e se recolham no cemitério dos inúteis. Abrindo espaço para seres jovens totalmente sem noção hierárquica, sem empatia, guiados única e exclusivamente por dinheiro e poder.

Um dia ela se descuidou, a guarda caiu e se dirigiu a mim pelo primeiro nome, informalmente. Provavelmente por distração. Quando percebeu, nossos olhares se cruzaram e aqueles segundos me mostraram o que ela carregava no coração e nos sonhos.

Quando pronunciou o meu nome, imediatamente deixei de ser apenas movimento e virei um pássaro azul que converte pedidos em realidade. Dos lábios dela brotavam flores e perfume. Nesses tempos tudo pode acontecer.

                    Marcelo Gomes Melo

A assimetria do amor

Foi uma garota siciliana quem me contou que o amor é assimétrico e a tristeza é marrom, quando ainda há retorno. Em sua jovialidade sábia ela acrescentou que o cinza é para os dias gelados, mas com esperança de troca de rumo, e os licores nem aquecem, nem refrescam, apenas adocicam a língua por alguns segundos, e isso basta para encontrar a perdição.

Essa garota, a siciliana, mantinha a si mesma aquecida com uma longa jaqueta de lã, e os cabelos ruivos e curtos cobertos por uma boina cor de cereja, refletindo a canção do Prince. Os olhos nunca paravam, atentos em todos os lugares, capturando cada nova imagem, segundo o conselho de Fernando Pessoa, tomando a vida como um copo do mais valioso néctar, cujo sabor se perderá para sempre caso seja desperdiçado, e jamais saboreado da mesma maneira.

Enquanto a fitava com uma expressão enigmática ela parecia não prestar atenção em mim; só parecia. Na verdade, estava consciente do quanto eu a observava e como a observava. O que a intrigava era não ter a menor ideia do que se passava pelo meu pensamento.

Como uma boa garota europeia, siciliana, mordeu a fatia de pizza com gosto, lambuzando os belos lábios de azeite, sem se importar. Ela deveria ser algum tipo de anjo em calças pretas apertadas e botas de couro cheia de laços.

Como conversava displicentemente, movia os braços e o corpo em sintonia com a bela voz. De vez em quando eu me perdia ouvindo o som sem perceber os significados, para então voltar na metade de uma frase interessante, filosófica sobre a assimetria do amor e dos níveis de calor das paixões, sagradas como os rituais celtas antigos que garantiam coisas como paz, honra e afastava os sintomas de solidão, aquela incômoda, depressiva.

As flores perfumavam conforme a situação, era o que ela defendia nesse momento. Em situações de agradecimento, um tipo; de desejo, outro tipo; de tristeza… As mesmas de sempre. E essas não enfeitavam bem.

Finalmente ela sorriu, terminando a sua pizza, lambendo os dedos mais como adolescente do que como uma mulher. Sorriu como um dia ensolarado e se espalhou por mim. Tudo o que pude fazer foi devolver um meio sorriso, tímido, cansado.

Havíamos nos conhecido há pouco, na estação de trem. Ela com uma mochila, eu com as mãos nos bolsos. Nada em comum, a não ser a tal assimetria.

                    Marcelo Gomes Melo

O maior dos segredos

O seu segredo tem o meu nome, fica óbvio quando ainda ruboriza e engole em seco, desvia o olhar e em seguida me olha firmemente, como se fosse, em um ímpeto, me dizer todas as coisas armazenadas no peito, atirando-se felina sobre o meu corpo, só ousadia e amor.

Inquieto não tiro os olhos de você, lhe tenho frente e verso no pensamento, conheço cada detalhe de você, platonicamente. Apesar de deixar claro para você, apenas para você através de cada movimento que faço, cada respiração e inspiração, mantenho camadas de silêncio entre os dois corpos, um acordo tácito entre duas mentes que se tocam e se beijam, e se amassam…

É um enlouquecer constante esse nosso relacionamento instável, tão comedido, cheio de boas maneiras eternamente, ultrapassa todos os limites, nos faz planar muito alto, habitar um lugar apenas nosso, um planeta em que dominamos e somos suficiente, dias e noites, sob as estrelas e sobre as estrelas, apaixonados em segredo de vida e de morte.

O segredo o qual apenas você tem a chave, no entanto, não lhe cabe sozinha desvendar. Unir, misturar e deixar transparecer não depende de um de nós, em um impulso que nos tortura o tempo todo, magoando como agulhadas e se pode esconder, a não ser no espelho do olhar.

Saber do inevitável que é amar a você é como a necessidade infinita de respirar. A contenção que nos é imposta socialmente torna-se pior sob a égide da solidão. Uma fêmea como você, definida para mim desde o nascer do sol, tatuada em minha coxa, marcando para sempre o território inóspito que eu sou sem você.

O máximo que chegamos foi um roçar gostoso, os meus lábios em seu rosto, o meu braço em torno da sua cintura, um leve tremor em seus lábios, o calor e a maciez do seu corpo que eu gostaria de espremer, apertar contra mim, esfregar… Ah! Possuir! Sem meias palavras, sem meio desejo, sem trâmites que impeçam de lhe agarrar até o fôlego acabar e o nosso perfume se fundir em um novo cheiro sensual, que nos pertence e a mais ninguém.

O seu maior segredo sou eu, e o meu maior segredo é você. Entre nós nunca foi tão claro!

                    Marcelo Gomes Melo

Só os loucos sabem

O silêncio que precede a tempestade. O recuo das águas do mar momentos antes do tufão. A leve frieza feminina que afirma, sub-repticiamente, problemas infindáveis referentes a reclamações que envolvem zumbidos, chiados e gritarias.

Ah, as coisas que podemos perceber imediatamente! Não tão de imediato, afinal seres masculinos tendem a uma distração letal para o que não lhes importa. Retratando a sociedade, com toda diversidade possível, o instinto é o que nos une a todos. E instintos funcionam muito bem até que falhem. Ou sejam ignorados.

As manobras através das quais somos controlados. E os controladores são iguais, não diferem em nada, apenas camuflam-se, trocam de cores, sorriem diferente e conseguem entreter de uma forma que poucos percebam que se tratam de uma casta. Subdividida por vontade própria, reforçando a máxima de que dividir para conquistar é o modo mais eficiente.

Os que conseguem perceber alguma coisa e ousam bradar aos quatro ventos correm o risco de receber a alcunha de loucos, e só os loucos sabem já dizia o Chorão, com Charlie Brown Jr., de Santos para o pensamento quase livre da juventude.

Os loucos que porventura ousem mais podem sumir, desaparecer como abduzidos por aliens, quedas de monomotores, helicópteros e até aviões com inocentes displicentes no lugar errado e na hora errada. Teorias da conspiração causam polêmica, risos, ajudam a nublar qualquer claridade no pensamento como o fog londrino, ou o inverno da São Paulo de antigamente.

As coisas que ocorrem nos bueiros são menos escondidas do que as que acontecem embaixo do olhar tolo da maioria, gente benevolente e autoindulgente, manobrados conforme o vento como uma vela, e as bússolas que lhes são ofertadas custam bastante dinheiro e apontam para o lugar que eles querem. Nunca a um único norte. Dispostos a acreditar em qualquer coisa, e a seguir a qualquer um com a cara de pau suficiente para leva-las a uma cruzada vazia e sem nexo, deficientes morais encarregam-se de criar ondas, intitulam-se influenciadores. Para que sejam influenciadores necessitam de influenciados, e há gente aos borbotões procurando uma ideologia para viver, já previa Cazuza nos bons e velhos anos oitenta.

O que salta aos olhos e não é visto seria unicamente fruto da bondade divina, para que as pessoas não acabem com a própria vida por conta das atitudes bizarras que se espalham dia após dia, tomando o que é certo como errado, e consequentemente o que é errado como certo?

A expressão da moda é gado. Manadas e manadas se digladiam sob o olho do dono, que fuma o seu charuto, bebe o seu licor e sorri, complacente com os que acham que ainda existe independência e o livre-arbítrio não está sendo tomado aos poucos, como goles de xerez. Disso, só os loucos sabem.

                    Marcelo Gomes Melo

Foi um raio que passou na minha vida

… E quando menos se espera, pow! A pancada vem forte, não se sabe de onde! Entontecido o cidadão vê através de uma cortina nebulosa, algo pegajoso escorrendo por entre os cabelos em abundância, ensopando-lhe a cara.

Não mais do que de repente, um escorregão na pista molhada, ao lado do abismo, encarando as nuvens no mesmo nível, por um instante se pergunta se é o caminho para o céu, traçado inesperadamente. Não, é engano, não teve tempo necessário para ser perdoado pelos seus pecados fúteis, o que dirá dos ferrados mesmo, aqueles para valer, que atormentam em segundo plano, dia e noite, como agulhadas nas costelas.

O que seria então? Uns passos trôpegos, uma tosse com massa de tomate na camisa… Massa de tomate? Turvos, os pensamentos. Ausência de dor, apenas um sono culpado, aquele que lhe ataca nos sermões longos em qualquer igreja e lhe faz lutar para não ser flagrado pescando, tombando para o lado sobre a pessoa mais próxima, um embaraço para ambos.

Passos sem direção, não há bússola no coração, alguém disse. Quem? Onde? Algum poeta, filósofo? Apaixonado inculto, talvez? Em um biscoito da sorte, é o mais provável.

As pernas bambas, o coração latejando, fizera amor recentemente? Essas não eram as dicas do retorno do paraíso? Tremores incontroláveis, não pode ser um terremoto, não há barulho. Surdez. Total surdez. As imagens embaraçadas ao redor, nada de vozes ou seres, apenas manchas se movimentando à volta. Manchas escuras. Não! Inferno também não! Ele não foi tão mau assim, por favor!

Parece ser sangue. Na camisa, nas mãos, no rosto. Deve ter ajudado a matar um porco, pensa. A dentadas. Ninguém fica desse jeito em um churrasco. Bêbado. A tonteira, o tremor, a quase cegueira… O que atrapalha a teoria é não bebia álcool. Era uma promessa cumprida até o fim para ela. Dentre muitas outras que não funcionaram. Não bebera mais álcool nem fumara, nem maconha. Por que aquele cheiro de queimado, então?

Agora vozes longínquas, sirenes… Ou trombetas de anjos o recepcionando? Estremecimento involuntário. Pelo menos era o céu, não o inferno. O céu não seria assim barulhento. Ele gelou. As vozes em torno dele, almas atormentadas? Não era massa de tomate, parecia mais suco de morango. Som de chuva, trovões, agora via uns flashes, como relâmpagos.

Senhor, deite no chão, deite no chão!

Deitar no chão?! Assalto? Chuva? Deitar no chão?!

– Senhor, vamos ajuda-lo, fique calmo.

Homens e mulheres de branco com uma cruz vermelha no peito. Seriam suíços?  Não, ele nunca viajara para fora do país!

Senhor, fique tranquilo, vamos leva-lo a um hospital aqui perto. Deu sorte. A ambulância chegou rápido.

Ambulância? Então… Ainda estava vivo, mal enxergava, não conseguia falar, mas vivia!

– Senhor, aconteceu um acidente…

Era uma voz feminina, firme, profissional.

– Somos paramédicos. O senhor foi atingido por um raio, está chamuscado, mas vai sobreviver.

O quê, raio?! Que raios era aquilo?!

– Não deveria andar com essas correntes de ouro grossas no pescoço nessa área chuvosa, senhor. Nem que fosse um rapper.

Voz firme, masculina. Movendo a maca.

Agora lembrava. Brigaram. Ela não parava de falar. Saíra para espairecer e a chuva o pegara de surpresa. As correntes de ouro… Só podia ostentar ali mesmo, na fazenda. Na cidade era muito perigoso.

                    Marcelo Gomes Melo

Atrás de si, pesadelos, sem se importar

Eu me lembro prometi cuidar de você, na rua, na chuva, chocolate, cobertores, risadas, dias cheios de cores, noite completas de amores… Prometi alimentar você, leite e miojo, pêssego em calda, beijos, histórias sussurradas, café da manhã, olhares de lado, caras e bocas, mãos nos cabelos!

Do jeito que eu prometi cuidar de você, cuidei. Fui além de todos os limites, inseri mistério em seu pensamento, lidei com beicinhos de garota em uma mulher sexy, independente; dominei os seus domingos com leituras em voz alta, poemas controversos e indecentes os quais debatíamos e você me arrancava sorrisos pela sua visão diferente dos versos, quase adequando-os à sua necessidade, recriando-os em verdade e poesia individual, reproduzida para nós dois.

Eu roubei os seus sábados com passeios despretensiosos, cinema, sorvete, livraria e beijos adolescentes cheios de fúria e sabor, habitantes de um mundo paralelo com apenas dois habitantes e um infinito playground de emoções.

Estava me saindo bem na tarefa, mantendo as suas bochechas rosadas quando ouvia as sacanagens sussurradas em seu ouvido, e fingia surpresa com sorriso de prazer, os olhinhos brilhantes antecipando o anoitecer naquela cama king size com lareira no quarto.

Nós fazíamos amor com desapego, suspirando e sorrindo ao alcançarmos o clímax. As suas piadas infantis, os seus seios macios saltando acelerados por um coração em lavas, vulcão ativo escorrendo, derretendo o que tocava como calda de chocolate.

Eu prometi cuidar de você, assim sem compromisso, nem nas brigas que acabavam na cama, e acabei me descuidando de mim tempo integral, me apaixonei por você inviolavelmente, um cofre recheado de poesias preciosas em um homem cercado por alarmes a laser. Comandado pelo amor descompromissado de uma mulher livre pensadora, formada na arte de encantar, que sabe como se deixar cuidar…

E então você se foi. Sem uma palavra, sem contraditório, sem adeuses, sem choro, sem nada. Largou atrás de si pesadelos, seguiu sem notar, sem sequer se importar.

Jamais saberei o quanto me saí bem, se a minha palavra valeu, foi cumprida totalmente ou você só não se importou. O fato é que você se foi, sem olhar para trás.

                    Marcelo Gomes Melo

Seres incapazes e suas vidas de lamentos

Existem os deploráveis e desprezíveis, preguiçosos e maldosos que vivem para o pessimismo e veneram observar a vida alheia, prejulgar à vontade sem fatos nem provas. São os que invejam por serem inferiores, almas manchadas, egoístas que não se importam com a própria evolução, mas em barrar a dos outros, inventar as mais bizarras teorias e as espalhando cruelmente. Julgam através da própria régua, julgam que os outros fariam as piores maldades, manteriam a péssima atitude apenas porque eles mesmos são capazes e jamais hesitariam em fazer. Projetam as suas almas maléficas nas pessoas que só se importam em fazer corretamente a sua parte sem prejudicar a ninguém.

Esses humanos atormentados não sabem o que é paz, poluem o ambiente o qual frequentam com pitadas de crueldade, mentiras e falta de piedade. Queimarão nas profundezas dos infernos, estão marcados desde o nascimento, não têm vergonha nem bondade. Fingem não saber da maldição que carregam, seres mesquinhos ingratos que espalham pelo mundo o egoísmo e a ganância.

Atingirão aos que não merecem e alcançarão êxito, mas serão meras batalhas, pois esse tipo de gente sempre perde a guerra e estão destinados a uma vida de lamentos.

                    Marcelo Gomes Melo

Em busca dos versos perdidos

Por noites a fio vagando em uma jangada na escuridão de alto mar, ao sabor das ondas fervorosas e implacáveis, lutando contra a força do vento e as pancadas certeiras das ondas, tentando sobreviver em um sonho inacabável, que se repetia em looping, sem permitir concentração nem firmeza de pensamento. Não havia horizonte onde se apoiar, era total perdição.

Um homem pode lutar contra os seus maiores medos secretos, acordar suado no meio da noite, de olhos arregalados e mãos crispadas refletindo o horror do pior pesadelo. Quando acontece não é motivo de orgulho, é um mergulho nas profundezas das águas escuras, onde não há tesouros perdidos nem navios afundados. Respirar é tudo o que importa, e torna-se cada vez mais difícil. Força de vontade é o que se espera de um escritor de versos itinerante que perdeu os cadernos e as canetas em meio à uma confusão sentimental.

Esses acontecimentos destroem a harmonia, tiram a fome e a sede, acabam com a imunidade por excesso de orgulho e irritação sem fim; afetam a clareza dos pensamentos, envenenam a alma e causam tristeza e dor.

As imagens tenebrosas se multiplicam e o sol jamais nasce. Não há lua, há relâmpagos e trovões intermitentes, flashes que dificultam enxergar. As mãos geladas de uma porta lhe arrancam o tato; não há olfato para flores nem sabor para lábios secos quando somem as palavras, as construções verbais ficam óbvias e o mistério se perde, os múltiplos significados impedem que os leitores enriqueçam enxergando de diversos ângulos, entendendo de acordo com as próprias necessidades.

É a batalha eterna do poeta, acariciar e convencer aos seus versos que se coloquem nos lugares certos, mesmo que fiquem confusos para muitos, mas perfeitos para os escolhidos.

Isso faz dele um mártir e um herói, transpondo a escuridão, ajustando a claridade e definindo novamente as cores, as paixões… Encontrando os versos perdidos.

                    Marcelo Gomes Melo

Amigos para sempre e bola para a frente

Eu levei toda uma vida pintando um relacionamento fadado ao fracasso. Em uma tela enorme usei todas as cores da paleta, e nos momentos de pressão inventei cores novas para delinear o seu corpo como deveria ser, o seu rosto angelical no qual eu acreditava, no sorriso insincero, mas afetivo que hipnotizava até as cobras, úteis para o seu show particular.

Rebelde, recriminei, causei o caos nas madrugadas venenosas que não acabavam na cama, porque a desconfiança borrava a pintura, reiniciada sempre de um modo mais frio.

Toda uma existência algemado ao irreal, ingenuamente acreditando em uma equação disfarçada de amor, quando tudo o que para a rainha do quadro era um jogo interminável no qual todos se ferram, inclusive ela, que mal curava os ferimentos e já mergulhava em aventuras inimagináveis, que gerariam mais tristeza e desconforto.

Na minha tela rabiscava diversas saídas, mas em todas havia armadilhas. Alguém disposto a amainar as próprias dores realizando atividades nocivas, apenas para se autodestruir, egoisticamente sem pensar no término do outro, que manipulou para se dar bem, e ainda assim saiu chamuscado dessa festa rumorosa e horripilante.

Essas pessoas não podem ser eternizadas por nenhuma arte porque são vítimas e carrascos, se magoam e sempre encontram nos outros a desculpa perfeita para atenuar a própria maldade. Nunca se julgam culpadas por nada, sempre acusam a quem era parceiro de sacanagem e agora é opositor, e deve carregar a culpa sozinho, para aliviar a dor pelo que foi feito.

Os egoístas são pintados como monstros, e da tela saltam para assombrar a qualquer desavisado que esteja admirando inocentemente.

Um arroubo de amor que se disfarça de paixão e acaba como uma noite apenas, regada a bebedeira e drogas. Um “amigos para sempre” e bola para a frente.

                    Marcelo Gomes Melo