A razão das dores alheias

Perda. Constante. Indelével. Letal. E as diversas reações de cada um às catástrofes pessoais que, de cada maneira específica atinge e confronta as atitudes de acordo com o nível de envolvimento, o momento e as implicações gerais da perda.

Uma vida envolve estranhas e necessárias variáveis, entre elas dor e perda; elas ressignificam a história pessoal e em grupo de cada um. A felicidade adoça as mentes, suaviza os corações e desaparece como o perfume de flores depois de horas, enquanto a dor da perda, tatuada e incrustada no coração a laser, riscadas na pedra indestrutível que protege as lembranças e as aciona sempre que possível, necessário para trazer os pés e a mente de volta à terra firme.

A sociedade humana tem algumas marcas gravadas no DNA, e uma delas é a tendência a prejulgar os outros tomando por base as próprias inseguranças e falhas. Pecados dos quais não têm consciência em si mesmos, apenas nos outros, e não imaginam que estão, como todos, em frente a um grande espelho, e o reflexo de cada um mesmo é o que é visto e exposto. Ingenuidade ou punição, não os permite perceber?

Não há como escapar das pessoas. Uns choram e se martirizam; outros culpam a vítima e o entorno; todos procuram fugir da parcela de culpa que lhe cabe de alguma forma. O sofrimento é igual. A duração depende do que farão para cumprir as etapas até que se livrem da pressão, ganhando alívio ao coração, sensatez à mente e equilíbrio à vida, não para sempre, por um período em que as probabilidades mudam e os caminhos a seguir também. O que fica é a dor da perda, nas profundezas do pensamento, quase esquecidas, mas prontas para vir à tona em ocasiões especiais. A felicidade é superficial, alegra a existência; a perda é inevitável e eterna, molda o caráter, traça novas existências, rumos nunca antes imagináveis para ninguém, e ninguém está livre desse acontecimento. Até que você se torne a perda, a razão das dores alheias.

                  Marcelo Gomes Melo

O mês da melancolia e da tristeza

Dezembro é o mês da melancolia. A marca registrada da tristeza e da dor. É quando os pecados, as hesitações, a incompetência, a falta de atitude, o erro no trato com o próximo vem à tona como uma enxurrada cheia de lama e escombros, confrontando a todos, até os supostamente de coração frio.

Dezembro, com as suas insinuações sobre perdão, seu discurso sobre a religião e o poder do arrependimento, a paz instituída através de rabanadas e presentes. A reunião familiar que acontece uma única vez ao ano, com a presença da ovelha negra, dos desconsiderados, os incapazes de pensar como parte de uma família, agora reduzida por conta de uma pandemia.

Inevitavelmente a bebida acaba por recordar fatos passados não superados, acusações entaladas na garganta, choro e desconforto emocional. O mês das festas e do reencontro com a paz nunca age tão enganosamente, e entre luzes de natal e amigos secretos, a ruína de cada um se apresenta como em um palco de teatro, e as perdas vão se juntando como quebra-cabeças, formando uma hidra que os devora interna e externamente.

Todos sabem que um dia depois iniciarão o período de negação e esquecimento, já separados novamente sem a resolução de suas mágoas concentradas, feridas mal curadas que se abrem facilmente e não há como curar definitivamente.

Logo o ano novo virá, com mais barulho e paganismo, pregando materialismo como forma de redenção, instigando atitudes egoístas e festivas, coisas que apagarão com prazer no dia seguinte, para poderem seguir em frente erguendo a cabeça até onde for possível, sem deixar claro a submissão ao processo e às marcas que carregam no corpo ano após ano, cada vez mais profundas, desenhando labirintos sem saída por onde o cérebro percorrerá incansavelmente.

O mês da melancolia revestida de alegria; uma alegria seca, vazia, nua, sem valor, sem nutrição. Algo que continuarão a ingerir sem obter nada que os faça fortes e autossuficientes.

A solidão toma conta da noite e permite que os fogos de artifício sejam em sua própria homenagem, dominante entre sorrisos gelados, abraços frios e cumprimentos mentirosos.

Acrescente a esse ano um item ainda mais destrutivo, incluído aos poucos durante o período, causando tristeza e morte, medo e impotência ante o destino, distanciando ainda mais, assustando ainda mais, destruindo o GPS que controla a vida de quem fica cada vez mais incapaz de raciocinar. Logo serão zumbis, alienados, e o mês da tristeza e melancolia se estenderá e os cobrirá por uma escuridão sufocante, terrível e infinita. Assim como estava escrito nas entrelinhas para os que não sabem ler.

                    Marcelo Gomes Melo

Antes da escuridão e do recomeço

Nada como uma boa e velha pandemia para liberar todos os fantasmas guardados individualmente a sete chaves por cada ser humano, sem importar a idade, o credo, os sonhos, gêneros e os objetivos em si.

Trancafiados em si mesmos por décadas, acostumados a fingir ser outra pessoa que em seu julgamento é mais agradável, palatável ao convívio social no qual se aplica a política para alcançar patamares dignos de orgulho, dos quais exercem descaradamente o poder através do dinheiro, comprando, subornando, aliviando consciências, passam a encarar um isolamento um tanto desagradável, real, que os obriga a enfrentar o próprio medo sempre existente de encarar quem realmente o são.

Normas rigorosas assustadoras levadas na brincadeira no início, logo espalham dor e perda aleatoriamente, atingindo igualmente pobres e ricos, sem distinção de cor, religião ou sorte, acontecendo aos montes. Pessoas próximas, conhecidas, famosas deixando o ambiente de súbito, causando choque e fazendo lembrar da mortalidade que ignora padrões de vida altos, poderes políticos, financeiros e artísticos e expõem a miséria interior de quem antes se julgava imune.

As doenças rotineiras de acordo com a condição financeira se tornam maiores, assustadoras, gatilhos iminentes para, associadas à pandemia lhes encomendar um belíssimo traje de madeira.

Em negação, muitos enfrentam a faca com o peito aberto, julgando-se ainda imortais quando apenas são um meio de transferência para mais infectados e mais mortes. No meio da confusão, políticos querem faturar e aumentar o poder, até que sejam pegos no meio do caminho e enviados para uma cama de hospital, com mais chances de sobrevivência que os comuns, mas ainda assim vítimas da própria ambição.

Lidar com os inúmeros problemas como uma família é muito complexo e difícil, exigindo mais de alguns que conseguem tirar alguma força sabe-se lá de onde, deixando em troca a sanidade mental que em algum momento os abandonará.

Nada é fácil, todos sofrem do seu jeito, uns contam as horas para o fim de tudo, especialmente trágico; outros não perdem tempo com isso e ignoram as artimanhas cínicas de uns poucos que desejam mudar o mundo como o conhecemos, geograficamente, socialmente, eliminando a quem consideram inúteis para preservar uma nova raça, com novos dogmas, submetidos a uma dominação completa em nome de um Bem. Um Bem menor.

Esquecem que isso já foi tentado em outros séculos por outros malucos sanguinários, que sacrificaram muita gente e não conquistaram o seu objetivo porque a natureza é mais forte, e comanda os seus filhos, mesmo os mais rebeldes; e no fim os pune impiedosamente, antes da escuridão e do recomeço.

                    Marcelo Gomes Melo

Tudo o que se fala quando não há o que dizer

Tempos, tempos, que se façam lentos, apenas para nos torturar com o falatório estéril de quem hoje atua, por conta de uma boa equipe de propaganda profissional, preparados para desvirtuar as ideias que deveriam ser valorizadas e instalar no poder os tortos de caráter, imbecis unidos sob a bandeira da mudança de normas e regras que beneficiam a enorme maioria, calando-os, dividindo-os e incutindo ideais absurdos, putrefatos e bizarros como o novo normal, controlando através da liberação de ações tétricas impensáveis, que farão definhar toda uma população, sem importância para os atoleimados que tiveram o cérebro lavado e dominado, cegos ante a realidade, ávidos por comentar sobre o que  desconhecem e a julgar imediatamente, parcialmente, sem dores de consciência.

Tempo, que não tenha pressa e assista ao massacre diário, rotineiro, defendido pelos que em breve serão vítimas, e, tarde demais, queimarão com os cérebros vazios, sem saber o porquê de seu sacrifício, já que fizeram tudo como lhes foi ordenado. Não vislumbrarão o erro, morrerão na escuridão na qual viveram.

O falatório aumenta, especialistas surgem do nada para opinar sobre nada, criando hipóteses nocivas e nojentas, sorrindo como imbecis durante o discurso prolixo, tão obscuro que se tornam incapazes de serem compreendidos.

Traduzidos pela mídia pérfida, comprada por moedas de ouro, desfrutam dos quinze minutos de fama e depois tentam viver desse momento fugaz, entrando em desespero quando não mais reconhecidos. Recusam-se  a acreditar no lixo descartável que são, e  procuram novos acordos espúrios para continuar palpitando, nem que seja para as paredes, fingindo uma erudição inexistente, porque reduziram a qualidade da formação para que desqualificados obtivessem credenciais sem nenhuma condição ou talento para exercer o que atestaram que poderiam. Vivem de enganar a si próprios com tanta convicção, que se tornam cegos para a mais simples realidade.

Um mero exemplo, para clarear as ideias: se a maioria não reúne condições intelectuais ou vontade para aprender um idioma, por que não criar um acordo no qual se corrompa o que é certo e valorize o errado? As pessoas desqualificadas automaticamente viraram experts, e as preparadas através do que é do que é correto e milenar se perderão, horrorizados, até desaparecer para o surgimento de uma sociedade morta e incapaz, caminhando a passos lentos para a profundeza dos infernos.

                    Marcelo Gomes Melo