O mês da melancolia e da tristeza

Dezembro é o mês da melancolia. A marca registrada da tristeza e da dor. É quando os pecados, as hesitações, a incompetência, a falta de atitude, o erro no trato com o próximo vem à tona como uma enxurrada cheia de lama e escombros, confrontando a todos, até os supostamente de coração frio.

Dezembro, com as suas insinuações sobre perdão, seu discurso sobre a religião e o poder do arrependimento, a paz instituída através de rabanadas e presentes. A reunião familiar que acontece uma única vez ao ano, com a presença da ovelha negra, dos desconsiderados, os incapazes de pensar como parte de uma família, agora reduzida por conta de uma pandemia.

Inevitavelmente a bebida acaba por recordar fatos passados não superados, acusações entaladas na garganta, choro e desconforto emocional. O mês das festas e do reencontro com a paz nunca age tão enganosamente, e entre luzes de natal e amigos secretos, a ruína de cada um se apresenta como em um palco de teatro, e as perdas vão se juntando como quebra-cabeças, formando uma hidra que os devora interna e externamente.

Todos sabem que um dia depois iniciarão o período de negação e esquecimento, já separados novamente sem a resolução de suas mágoas concentradas, feridas mal curadas que se abrem facilmente e não há como curar definitivamente.

Logo o ano novo virá, com mais barulho e paganismo, pregando materialismo como forma de redenção, instigando atitudes egoístas e festivas, coisas que apagarão com prazer no dia seguinte, para poderem seguir em frente erguendo a cabeça até onde for possível, sem deixar claro a submissão ao processo e às marcas que carregam no corpo ano após ano, cada vez mais profundas, desenhando labirintos sem saída por onde o cérebro percorrerá incansavelmente.

O mês da melancolia revestida de alegria; uma alegria seca, vazia, nua, sem valor, sem nutrição. Algo que continuarão a ingerir sem obter nada que os faça fortes e autossuficientes.

A solidão toma conta da noite e permite que os fogos de artifício sejam em sua própria homenagem, dominante entre sorrisos gelados, abraços frios e cumprimentos mentirosos.

Acrescente a esse ano um item ainda mais destrutivo, incluído aos poucos durante o período, causando tristeza e morte, medo e impotência ante o destino, distanciando ainda mais, assustando ainda mais, destruindo o GPS que controla a vida de quem fica cada vez mais incapaz de raciocinar. Logo serão zumbis, alienados, e o mês da tristeza e melancolia se estenderá e os cobrirá por uma escuridão sufocante, terrível e infinita. Assim como estava escrito nas entrelinhas para os que não sabem ler.

                    Marcelo Gomes Melo

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