Os piores entre os sobreviventes

Há um filtro entre a vida que se quer e a vida que se tem. Ele é responsável por afastar os pensamentos poluídos que permitem alcançar o patamar que se quer, mantendo a dosagem de falta de indignação correta para que a manutenção do status inferior permaneça sem maiores problemas.

O que acontece quando esse filtro anda descalibrado é o resultado de uma sociedade enlouquecida, sem parâmetros, sem um norte a seguir e muito menos alternativas criativas para suportar a própria mediocridade.

Cruzando as avenidas apressadamente, imersos em seus pensamentos devassos ou fanáticos, muitas vezes conversam sozinhos em voz alta pela rua, sem notar os outros seres que caminham na mesma ou em outra direção, como aliens, estranhos uns aos outros. Os seus olhares só se cruzam quando os objetivos se parecem, e trocam caretas estranhas como se fossem sorrisos desonestos, e a mente formiga em busca de uma brecha para passar o outro para trás e usá-lo como degrau invisível em tresloucada subida em atmosfera cinzenta.

O filtro descalibrado requer ajustes, mas esses são feitos com inexperiência, afundando-os cada vez mais em um poço de incompetência sangrenta. Todos ficam dispostos a tudo, e isso é perigoso. A cada esquina, a cada palavra trocada.

A opção atual é agir covardemente, rastejar para alcançar um lugar privilegiado sobrepujando aos outros, preparando-se para o salto final, no vazio e escuridão, alcançando a tudo ou perdendo-se para sempre. Vale o risco. Muitos perdem. Os que conseguem experimentam a sensação de prazer típica dos vencedores. Inebriados, não fazem ideia do quão pouco durará o seu reino, com boas intenções ou não.

No final o filtro falha e todos se transformam em Nero, tocando a lira enquanto a cidade queima, presos em sua loucura, sufocando na fumaça das notas altas de papel moeda, enviados para o inferno sem parada no purgatório.

A pior morte de todas. E nas profundezas enquanto ardem em sofrimento sem fim, produzem os novos filtros que regerão a humanidade até as novas catástrofes. Os escolhidos do mal, os imperdoáveis, os gananciosos sem saída…

Na superfície a poluição visual e sonora, as regras estúpidas fabricadas por hipócritas farão com que um novo começo estabeleça novas formas de autodestruição, híbridos dos seres anteriores com mais maldade e incertezas. Como em O Inferno de Dante, descem em círculos sem perceber, pagando pelos pecados que criaram, usaram e espalharam por um mundo sem culpas, um planeta sem culpas. Apenas os piores dentre os seres viventes.

                    Marcelo Gomes Melo

Nuvem de gafanhotos tecnológicos

O ser humano supostamente ocupa o topo da cadeia alimentar por ser a única espécie conhecida do planeta considerada racional. Por eles mesmos. Por aparentemente dominarem o ambiente e torna-lo seu habitat natural, cientificamente explorando novas possibilidades com o intuito de evoluir a qualquer custo, mesmo que seja destruindo o habitat de outros seres, dizimando a muitos, inclusive aos seus pares, impiedosamente.

A sensação de poder, o dinheiro como principal arma de sedução, a fraqueza de uma enorme maioria que se encolhe e aceita as migalhas do que realmente merecem por direito equânime.

A água, por exemplo, engarrafada e vendida. Um bem natural apossado pelos espertos dispostos a matar e a morrer pelo vil metal, inconscientes do valor mínimo para sobreviver lá embaixo, sem eletricidade, sem esgoto, sem educação, sem trabalho, sem dignidade, sem sonhos.

Destroem a tudo o que encontram como uma nuvem de gafanhotos impiedosos, e depois, em terra infértil, inventam um novo uso tecnológico que magoará o planeta e destruirá mais seres, inclusive humanos, para sustentar a sua sede por poder.

O ser humano não está no topo da cadeia alimentar por ser racional, porque não o é. Nunca o foi e jamais o será! É irracional, cruel, e ainda não foi extinto por uma simples razão: são extremamente adaptáveis. Sim, conseguem usar de resiliência para tirar algo de onde não existe, e assim sobrevivem um dia a mais. Todos fazem maldades, mesmo os desgraçados aos ainda mais desgraçados.

E orgulhar-se de ocupar o topo da cadeia alimentar não parece que durará muito tempo, pois eles mesmos estão se encarregando de criar vírus, doenças letais invisíveis, robôs, tecnologia invasiva e fria disposta a regular toda a vida, e acreditam que não serão afetados, manterão o comando e o controle, embebedados irremediavelmente pela sede insaciável de poder, buscando encontrar a vida eterna custe o que custar, incluindo as próprias vidas.

Será que olham à própria volta nesse momento e se sentem confiantes? Brindam com uísque contando os mortos? Como dormem? Quais são os planos para a retomada dos parâmetros pós destruição da vida como a conhecemos? Estarão eles preparados e sobreviverão? E caso sobrevivam, poderão ser chamados de seres humanos?

                    Marcelo Gomes Melo

Par de orelhas com garota no centro

Os brincos de ouro enormes eram pauta de discussão no trabalho, em casa, na rua em que morava e adjacências. Ela virou a garota mais importante da vila por causa daqueles brincos enormes. Dourados. Estaria namorando algum camarada rico? Os brincos eram mesmo de ouro? Seria fruto do trabalho da vida amarga, a prostituição?

Não, contra-argumentaram uns. Ela era moça direita, frequentadora da igreja aos fins de semana. Tímida e prestativa, só mudava quando os colocava. Aí virava uma rainha!

Pode ter ganhado uns trocos no jogo do bicho, por que não? Dera veado e o ex-namorado dela fora desmascarado há pouco tempo!

Os brincos hipnotizavam. Outras meninas fotografavam para postar no Facebook, senhoras a cercavam ostensivamente para admirar. Pacientemente ela deixava, sorria e agradecia os elogios. Ficava intrigada por que simples brincos hipnotizavam assim as pessoas! Logo ela que jamais chamara a atenção por nada.

Imaginava quando isso iria acabar, se acostumariam com os brincos, que eram, na verdade, bijuteria, embora ninguém acreditasse.

Um dia, reunidos na farmácia, vários vizinhos a cercaram quando entrou para comprar uma aspirina e puseram-se a filosofar sobre a razão de aqueles brincos chamarem tanta atenção de todos. De quase todos. O rapaz que trabalhava na limpeza da farmácia nunca demonstrara interesse. Era o único.

Finalmente alguém percebeu isso e o intimou. Por que não estava impressionado com os brincos, era cego? Invejoso? Burro?

Não, ele respondeu, incrédulo. O que vocês não perceberam ainda é que o que lhes chama a atenção não é o par de brincos!

Não? Então o que era? Pelo amor de Deus desvenda esse mistério!

E o garoto devolveu, sem parar de esfregar o chão:

– Sério?! Acham que o impressionante são os brincos? Não se tocavam de que o que realmente chamava a atenção são as enormes orelhas separadas da moça, que a transformavam em uma árvore de natal ambulante?! Francamente!

                    Marcelo Gomes Melo

A falta de sorte típica dos pobres

A ideia era boa. Caiu do céu para ele, rapaz de pouco talento, mas muita simpatia. Nem ele sabia se viera do céu, a tal ideia, só que não era hora para questionar.

Ele estava desempregado há oito anos, já, recebendo o benefício do governo. Como era solteiro dava até para comer arroz com frango uma vez por mês! Pelos dias restantes era arroz com arroz.

O que pegou foi que resolveu se engraçar com uma menina do bairro, que trabalhava pintando unhas em um salão de beleza. Moça de sorriso fácil, que não abria mão de uma cervejinha no fim de semana, ouvindo pagode com os amigos. Ela tomou a iniciativa e o convidou para juntar-se a eles. Ficou sem graça, deu uma desculpa, mas acabou prometendo ir.

Ele sabia que se demorasse muito perderia a chance de pegar a garota, então passou a fazer contas para enfiar no orçamento pelo menos o custo de duas latinhas de cerveja. Dez reais. Sexta e sábado. Vinte reais. E uma das latinhas era para ela.

Observando a mesa deles rapidamente, viu que havia porções de batata frita, ovos de codorna, salame… Já engrossava a conta. Digamos que dividissem, não sairia menos de vinte e cinco reais cada um. Se tivesse que pagar a parte dela, cinquenta. Dois dias, cem reais. Era 50% do que recebia do seguro desemprego. Se deixasse de pagar a luz, o gás… Tomaria banho frio, comeria arroz cozido em uma fogueira no quintal. Mesmo assim não sobraria muito.

E se começasse a dar certo, motel nem pensar! No quartinho em que morava tinha uma cama de solteiro, dessas de campanha que comprara de um ex-soldado. Rangia pra caramba!

O desespero tomou conta do homem apaixonado. Saía cedo para procurar emprego, voltava tarde, e nada. Um dia parou em um bar para tomar um copo d’água da torneira, grátis, a televisão estava ligada no jornal, e a presidente da época discursava sobre a genial ideia de estocar vento.

Pensativo, voltou para o cafofo e fez mais contas. Ao comprar dois quilos de arroz no mercado, uma lata de óleo, sal e tempero, podia discretamente pegar saquinhos plásticos a mais, disfarçadamente. Encheria as sacolinhas com ar, fecharia bem e se posicionaria na esquina da estação de trem, sorrindo e oferecendo aos passantes sacos de oxigênio puro. Por dois reais poderiam levar para as suas casas um saquinho de oxigênio puro, sem partículas nocivas, sem ácaros, sem fuligem. Poderiam respirar profundamente, fortalecer o corpo e dormir melhor apenas respirando ar direto de Campos do Jordão!

Nem ele acreditou quando esgotou o conteúdo que levara, retornando para casa com doze reais! A alegria era tanta que mal dormiu! Agora era um empresário do ramo do oxigênio. Passou no salão de beleza, e, timidamente confirmou a presença no bar com a moça na sexta-feira vindoura. Tirasse doze reais por dia, na sexta à noite seria o rei do bar! Pediria um frango assado para impressioná-la, e compraria camisinhas. Duas!

Quando chegou quinta-feira ele era só dentes para fora, sorrindo a toa. Cento e três reais! A postura mudara, mais um dia e poderia até comprar uma sandália havaianas para ir ao encontro.

Na sexta ele chegou cedo ao ponto, esperava vender mais e sair por volta das cinco horas para se preparar adequadamente. A falta de sorte típica dos pobres aconteceu quinze minutos antes das cinco. Três barbudos de camiseta vermelha se aproximaram e apresentaram uma carteirinha. Fiscais da prefeitura. Teria que apresentar o atestado de liberação para vender ali, o que quer que fosse. Ele não tinha! Na verdade, era o primeiro a seguir a ideia da presidente e estocar vento.

Os fiscais lamentaram, mas confiscariam o produto e o dinheiro que amealhara. E ele devia se dar por sortudo, daquela vez não o prenderiam. Tristeza. O sonho fora destruído de uma vez! Nada de frango assado, nada de namorada. O governo dá, o governo tira.

Voltou à sua vida lamacenta, enterrado em depressão e baixa estima. O ódio só martelava a sua pobre cabeça sem cérebro. Na próxima eleição teria a sua vingança.

                    Marcelo Gomes Melo