Ratos podres de esgoto são melhores do que vocês

Políticos são ratos mentirosos. Todos eles, inclusive os que, no início têm boas intenções. Assim que entram na vida pública, ingenuamente apresentam ideias revolucionárias, defendem uma melhor existência para a comunidade, mais segurança, educação, saúde, treinamento paranormal, lazer, prêmios, sorteios… Utilizam os melhores sorrisos e abraçam pobres e criancinhas, escondem o nojo e vão pegando ódio da massa que os elegerá.

Durante uma parte da vida um indivíduo pode ser considerado honesto e excelente caráter, até que decide se tornar candidato a um cargo eletivo. É a partir daí que passa a conviver com a escória da sociedade, a aprender os ardis usados pelos lendários políticos de carreira, e sem perceber vão tendo a sua consciência lavada com lama do esgoto mais fétido, poluída pela total falta de escrúpulos e se inserindo no sistema pernicioso que jamais mudará.

Uma vez vendida a sua consciência, tudo acontece muito rápido: a alma é entregue ao diabo e a visão anterior se apaga como se jamais houvesse existido. Estão prontos para negociatas corruptas e ações que os dominam inteiramente. É quando se olha no espelho e o que vê é um comparsa do poder instituído, com a escolha de abandonar a tudo ou espernear e perder benefícios sedutores para si e toda a família e amigos. A imensa maioria decide pelo mais fácil e enriquecem fechando os olhos, mudando de lado, tratando a ideologia como cifras a serem adquiridas. Quem pagar mais o terá de corpo e alma.

A vida dos ratos nojentos da política não é fácil, envelhecem rápido em troca do poder, então apelam para cirurgias plásticas e Botox, exterminam pessoas friamente através de uma canetada e dormem com o auxílio de comprimidos.

Ao contrário do que se pensa, não há adversários a não ser ilusão, todos estão em concordância e fingem para manter o sistema funcionando; uns comprando a ralé com trocados, outros subornando acadêmicos com cargos e muito dinheiro, cobertura jurídica dentro e fora do país.

Esses ratos decidem aumentar o desemprego e a violência, causam caos na sociedade e prejudicam funcionários públicos inferiores pagando mal, retirando a hierarquia e transformando-os em vilões.

Após anos cumpridos com fé e afinco essas pessoas adoecem, vítimas de seus trabalhos insalubres, e é quando começa o calvário. Locais distantes para realizar uma perícia na qual o paciente não recebe sequer um bom dia, não recebe atenção, e os “peritos” pilotam os seus computadores ignorando-os com asco, sem se interessar pelo que sentem. Em seguida, cinco minutos depois já decidiram negar e os mandam embora, desiludidos, pior do que chegaram. A ideia? Eliminá-los do serviço público de alguma forma, matando ou os fazendo desistir, saindo sem nada, saúde, compensação financeira, dignidade. De qualquer forma prontos para morrer.

Políticos são ratos mentirosos e desonestos por natureza, e necessários como qualquer praga para dizimar populações carentes inteiras aumentando o lucro cada vez mais.

Não há reviravolta sem revolução, nem revolução sem derramamento de sangue, isso é fato. Isso quer dizer que revolucionários podem assumir o poder após uma batalha sangrenta em que todos perdem, principalmente a base da pirâmide pobre e inculta, mas os novos poderosos logo agirão com igual atitude, massacrando para manter o poder, envelhecendo mais rápido e dormindo com dificuldade, assombrado pelos atos repulsivos que cometem.

Políticos quando morrem habitam os porões das profundezas do inferno, sofrendo todo o tipo de tortura pela eternidade. E ainda assim continuam em dívida pelos malefícios que causam, causaram e ainda causarão post mortem.

                    Marcelo Gomes Melo

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Chulé!

Aquele maldito chulé determinara o rumo de sua vida. Logo adolescente usando tênis sem meia o dia inteiro e só tirando para dormir, adquirira um odor próprio insuportável até para ele mesmo.

Inquieto e envergonhado com aquele fedor de lama podre com abutres em decomposição, lavava os pés com esmero e aplicava cremes e perfumes, mas não adiantava. Nos lugares públicos evitava ficar próximo a ventiladores pois o odor putrefato se espalhava rapidamente e fazia pessoas passar mal, vomitar e até desmaiar. Tinha que fugir do local antes que descobrissem de onde vinha a fonte dos desprazeres.

Achava os seus pés mergulhados no pântano do inferno, médicos experientes desistiram de trata-lo, outros se recusaram e alguns até sugeriram que os amputasse.

Era impossível namorar porque a proximidade já fazia com que as garotas fugissem traumatizadas. Emprego só como desentupidor de fossas, e a presença dele triplicava o problema.

Pesquisando na internet se dispôs a buscar tratamento no rio sagrado da Índia, mergulhando ao lado de cadáveres; na Antártida congelara os pés a ponto de perde-los, mas o mau cheiro derretera o gelo e mantivera os seus pés intactos.

Na África buscara magia, mas não funcionara. Caminhara sobre brasas em vão, envolvera os pés em placas de concreto… Estava destinado a viver impregnado pelo fedor mortal que afastava moscas, insetos e seres humanos. Infiltrara desodorante nos dedos, esfregara rosas nos pés, já estava desistindo de viver quando um sábio apareceu assegurando a solução para os seus problemas.

Embevecido e emocionado prometeu no homem muito dinheiro caso obtivesse êxito em acabar com aquele chulé indesejável. Depositou metade da quantia prometida e o sábio lhe ofereceu um teste simples. Caso fosse útil garantiria o fim dos maus odores para sempre!

Achou estranho quando recebeu do sábio um pregador de roupas daqueles de madeira. Aquele era o teste?! O homem simplesmente tapou o seu nariz com o pregador por alguns minutos e ele deixou de sentir aquele bafo terrível das fossas do mundo inteiro!

Esperançoso depositou o restante do dinheiro e recebeu uma máscara cirúrgica descartável para utilizar diariamente. Aquele simples gesto resolvera a sua vida! Estava feliz e descuidado sem aquele mau cheiro que o envergonhava. Não percebia mais se as pessoas se afastavam ou despejavam até as tripas para fora na sua presença. Não saberia se o problema estava no seu nariz ou nos seus pés fedorentos. Isso não era mais importante, estava livre para sempre daquele problema aparentemente insuperável e passou a comemorar a própria existência como uma pessoa comum. Soluções simples, eficazes ou psicológicas? Quem dirá?

                    Marcelo Gomes Melo

Las palabras de amor

Venha. Conte-me a sua história, não omita coisa alguma, não é necessário. Porque não entorna o rum, displicente, manchando a beira do copo com esse batom destacado, que faz com que os seus lábios carnudos pareçam partes de uma maçã promissora, que instiga a fome gulosa que começa a ser satisfeita com os olhos.

Sente-se. Não dê importância ao meu olhar para o seu decote, eu continuo imóvel como uma rocha, embora queime como uma fogueira sem que você perceba.

O que lhe move? Quais são os seus desejos? Está realmente preparada para isso? É o que quer? Tanto quanto eu? Hum, engolir em seco é uma resposta ambígua, mas o arfar do seu peito tomarei como um sim.

Aproxime-se. Está com frio? Esses arrepios na pele nua significam alguma coisa? Esse meio sorriso, o que quer dizer? Minha mão… Por que a segurou tão suavemente? Faz parte do jogo pousá-la em seu colo dessa forma?

Juro que posso sentir o calor das suas coxas sob o tecido macio e fino do vestido! Mais perto, quase sobre… Essa é uma história que norteará as nossas vidas, você sabe. Assim, mulher, muito perto, quase dentro!

O meu sorriso? Paz… Tesão. Tranquilidade. Lenda. Imortalidade… Fim.

                    Marcelo Gomes Melo

Um amor completamente criminoso

Toda vez que eu lhe sorria, ela enrubescia. Quando eu me aproximava, ela enrijecia. Os seus olhos, sim, brilhavam, e isso eu via, mas ela escondia, fazia cara de brava e me divertia.

E se eu piscava o olho, ela quase corria. Eu me afastava e no meio da caminhada, virava e sorria, o que a fazia parar, ela se distraía. Toda vez que me falava, frieza ela fingia, no corredor, se eu a encurralava, ela se afligia, com um lindo olhar em chamas, me repreendia. E com os lábios entreabertos, ela nem percebia o quanto isso me abalava, nem sabia que me oferecia.

Para longe me empurrava, e quando me segurava, ela se perdia, o seu olhar no meu firmava, e eu estremecia; com a coxa entre as coxas dela, eu me atrevia. Correndo os riscos a abraçava, e ela não resistia, então a gente se beijava, o mundo não existia!

Se eu era dela, ela era minha, era o que acontecia. Nenhuma palavra se dizia, isso não carecia, ambos fomos atingidos, abalroados, incinerados, destruídos, destinados a um amor completamente criminoso.

                    Marcelo Gomes Melo

O velho intragável da casa 705

Eu sou bom em ser ruim, essa é a verdade. Faço questão de apavorar a todos os que aparecerem no meu caminho, e até os que não apareçam. Para lhe dar uma ideia, vou lhe oferecer alguns exemplos: quando a molecada deixa a bola cair no meu quintal, pego uma faca e estouro sem dó, depois jogo para o lado de fora os restos mortais da bola, gargalhando do ódio dos moleques que jogavam futebol na rua. Deixo o meu pitbull com fome no dia da leitura da luz e da água e o solto quando os caras tentam acessar o relógio para tirar a conta. Eu gosto de colocar uma ratoeira armada dentro da caixa do correio para pegar os dedos do carteiro idiota ao colocar a correspondência.

Eu sou um velho mau que nem um pica-pau. Lambuzo o corrimão de graxa quando as velhas da família vêm visitar; encho as empadas de pimenta malagueta para servir aos convidados e atiro bombinhas de São João no quintal dos vizinhos de madrugada para acordá-los apavorados.

Quando junto as minhas sobrancelhas grossas e olho por baixo delas com um risinho irritante, já sabem que vou contar o final dos filmes. No mercadão mordo as frutas e deixo no meio das outras, sem comprar. Furo as embalagens de iogurte, bebo a metade e largo por lá mesmo.

Eles me chamam de “o velhinho intragável da casa 705”. E eu fico todo orgulhoso. Denuncio festinhas de aniversário de crianças à polícia causando constrangimento aos pais e convidados. Passo trotes para os velhos religiosos quando voltam da igreja aos domingos, blasfemando até desligarem o telefone.

Eu nasci velho e ranzinza. Sempre fui assim, excelente em encher o saco dos outros. Fingia que ia atravessar a rua e voltava, e as pessoas que tentavam me seguir tomavam susto por quase serem atropeladas. Os meus netos fazem terapia desde pequenos por minha causa, de tanto que inventei de histórias de terror para eles, que ficavam sem dormir, com medo. Talvez algum deles se torne um psicopata indomável!

Estou contando isso apenas agora, no leito de morte, como a minha maior maldade. Eu sei que vou para o inferno, então prometo desde já retornar para puxar os seus malditos pés por toda a eternidade! Ra, Ra, ra, ra, ra, ra, ra, ra, ra!

                              Marcelo Gomes Melo

Um motivo para a progressão da humanidade

A ousadia é o principal motivo para a evolução terrestre. Sem pessoas com pensamentos além do senso comum, inicialmente considerados loucos, as descobertas que facilitariam o domínio do homem sobre a Terra, e a consequente sobrevivência não alcançaria estágios tão elevados, porque a maioria tem medo do desconhecido e reage com violência em vez de tentar o entendimento.

Graças aos que ousaram sair do senso comum para testar teorias inovadoras e provar o enorme valor em todas as áreas, uma sociedade foi construída, costumes foram implementados e possibilitaram uma vida em comum com paz e respeito.

Em cada área, gênios criaram regras e hierarquia para que os homens mantivessem a coragem e a motivação de evoluir e dominar as leis da natureza. Ousadia é a chave para que as coisas aconteçam, e coragem é o escudo que permite insistir em uma luta interminável contra seres obscuros e covardes que se sentem seguros com o atraso constante, impedindo que o ser humano cresça e alcance patamares inimagináveis, acreditando ser o destino traçado por Deus  e a vitória dos obstinados sobre os preguiçosos.

Graças aos ousados no amor, a existência se tornou mais suportável e os corações puderam se alegrar fazendo valer a pena construir coisas novas, úteis e gigantescas, enaltecendo a Deus e às forças da natureza, devidamente domadas com a ajuda divina.

Para as mínimas coisas é preciso coragem e ousadia e essas qualidades garantem a diferença entre humanos e outros seres. Que isso seja lembrado através dos tempos e reforçado, e multiplicado, pelo bem da humanidade.

                    Marcelo Gomes Melo                 

Apenas uma questão de negócios

Chegou o dono do boteco. Abaixa a crista, fecha a conta e sai andando reto no caminho de casa. Aqui se bebe, se chora as mágoas e se afoga as dores; com o excesso de álcool se acabam os pudores e tudo é escancarado. Boteco Psicologia, esse aqui. Nome fantasia registrado. Bem mais barato do que um profissional da mente, todos desfrutam do ambiente para enxaguar o ódio ou a alegria com pinga de boa qualidade e petiscos deliciosos.

Camarada felizardo, recém ganhador do jogo do bicho pode comemorar pagando uma rodada para todos os presentes, adquirir endereços de prostíbulos novos e telefones de profissionais liberais sem vínculo com qualquer residência da luz vermelha, agradecer o apoio e o orgulho dos parceiros de cama pela sorte e em seguida sair para o complemento da noite. De manhã chegaria em casa bêbado e sem um centavo, ouviria as reclamações da mulher e tomaria um banho para ir pegar no batente.

Tipos nervosos, sacaneados por todos, podem abrir a garrafa e, soturnos, remoer o chifre, a perda do emprego, a visita da sogra, a queda do andaime e outros males menores, sem serem incomodados por ninguém.

Os sonhadores podem beber sem ter o que comemorar, bradando os benefícios que viriam no futuro, de peito estufado, acreditando como se fosse verdade coisas que não aconteceriam. Eram esses sonhos que os mantinham em pé, com a quantidade certa de cachaça, obviamente.

Aqueles tristonhos, solitários, sem família, bebiam diariamente para esquecer a solidão e lembrar da família distante, que jamais saberia do fracasso que os acometera desde que saíram do buraco em que moravam nos confins do mundo, prometendo enriquecer na cidade grande. Enganados, limitavam-se a trabalhar como burros de carga para beber. A família continuaria sem notícias até que as coisas mudassem e pudessem comprar roupa nova, sapato, um rádio FM, um óculos Ray-ban, um boné…

O dono do boteco era rei no trato com os seus clientes. Observava uns em silêncio, lavando e secando os copos, servindo novas doses. Ouvia atentamente a outros, sorridentes e barulhentos, que deixavam gorjeta quando estavam por cima, e os que, caindo de bêbados choravam, contando as suas tristes histórias de cortar o coração.

O que não permitia era que os valentões, que surgiam de vez em quando, tentassem perturbar o estabelecimento puxando briga com quem estava quieto ou tentando quebrar as coisas do bar. Logo retirava de baixo do balcão um taco de baseball e acalmava o brigão, na pancada ou no ameaço. Nada pessoal, poderiam voltar depois, desde que em paz.

Um profissional precisa realizar a sua função sem raiva, sem lamentação, sem piedade. Ele fazia o que tinha que fazer, protegia o seu negócio e cuidava do bem-estar dos clientes, do jeito que fosse necessário. Eram apenas negócios.

                    Marcelo Gomes Melo

O auge da culpa universal

É a estreia do resto das nossas existências, cão virulento! Como essa visão sombria pode ajudar a reerguer-lhe do chão duro e seco que lhe apara a queda e impele a derrocada em direção às profundezas do inferno particular que habita essa mente frágil e torta?

Um único tiro de aviso raspa-lhe a sensibilidade, é a hora de levantar o corpo pesado por tanta culpa e garantir um lugar na romaria que vaga em uma única direção, abismo de um lado, floresta escura do outro, sem promessas de que o recomeço seja valioso de alguma maneira.

No céu sobre nossas cabeças, raios azuis cruzam o ar anunciando punição inclemente, criatura soturna, desanimada, vítima dos terrores noturnos, culpado dos massacres diurnos. Limpe o seu machado ensanguentado e o utilize como bengala, ser humano inconsequente, ingênuo, maldoso na própria ingenuidade.

À frente o horror se materializa confirmando que a luz é mais veloz do que o som, porque os estrondos espalham corpos e abrem caminho para o retorno de muitos para o abismo, dessa vez sem volta.

Tomemos cuidado, criatura nojenta! Atente para as minas terrestres que vitimizam vários diante da nossa vista, cobrindo de sangue alheio e restos mortais a sua figura ainda mais patética, apesar de aterradora.

É a estreia do resto das nossas vidas, mas não parece melhor do que foi antes! Não lhe faz indagar se vale a pena passar por tais provações para viver mais do mesmo, criatura nefasta?

O mundo é o mesmo, o cenário já existe, como esperar que mudemos? Pelo que observas, não parece pior? Após uma vida de atropelos e violência, interrompida pela justiça poética, embora já esperada e justa, não te faz perguntar se vale a pena o retorno nesses termos, ou é uma outra fase da punição, fingir que há uma chance para dobrar os tormentos, acelerar a tortura e nos fazer reviver todas as ruindades cometidas ou presenciadas, com mais intensidade e destruição?

Caso pensemos direito, rei da culpa em potencial, talvez seja apenas o recomeço como imãs que atraem todas as formas de ódio universal, travestido de estreia para triplicar a dor, pois acompanhado de esperança, sendo falsa, atingirá o auge da punição em todos os tempos!

                    Marcelo Gomes Melo

Medo hétero de amar (A Era dos linchamentos morais)

Abolinácio queria comer Gabriela, mas não tinha coragem nem para dizer-lhe bom dia, quanto mais paquerar, muito menos aplicar uma cantada legal, que não seja patética, arrogante ou ofensiva.

A culpa de Abolinácio esconder os olhares gulosos e os sorrisos tímidos era o malfadado politicamente correto, o qual ele não entendia bem. Será que ele não podia ser homem e gostar de mulher, e declarar-se com suavidade e verdade, prometendo respeitosamente dividir a vida e a cama com ela sem que o acusassem de machismo e o prendessem, levando-o algemado pelas ruas, apedrejado pelos transeuntes enojados porque ele ousou desejar uma fêmea?

Gabriela era moça séria e bonita, gentil e leal, tratava às pessoas muito bem e sorria com facilidade. Era digna de ser amada e desejada, mas ele temia que por trás daquela simpatia houvesse uma garota impiedosa, disposta a acabar com a vida dele caso soubesse de suas intenções românticas, e por que não dizer, sexuais.

Eram tempos confusos, esses, em que os homens não deveriam expressar interesse nem tentar a sorte, e no máximo ouvir um não caridoso, sem ofensa ou diminuição do seu desejo, como funcionava antes.

Por esse motivo Abolinácio vagava pela firma como um sonâmbulo, perto dos colegas e com ela presente não dizia nada, nem bebia ou contava piadas que pudessem ter duplo sentido e estragasse o seu amor platônico que jamais sairia do pensamento para a realidade simplesmente porque os regulamentos sociais mudaram, e radicalizados passaram a assombrar a qualquer homem decente e saudável que desejasse comer uma mulher.

Restava-lhe o sonho mais cruel, que consistia no dia em que Gabriela tomaria a iniciativa e o convidaria para jantar, ir ao cinema e depois esticar para o término da noite em um lugar discreto e agradável, tudo devidamente registrado em vídeo pelo celular, para evitar surpresas pós encontro. Os estatísticos amorosos de plantão nas redes sociais afirmavam que a porcentagem de uma coisa dessas acontecer era baixa, porque as mulheres temiam errar o bote e convidar um cidadão que não gostasse da fruta. Seria constrangedor para todos.

E o impasse estava firmado e reconhecido, devidamente difundido e vorazmente defendido. Heterossexuais estavam com problemas para se dar bem. Livros sobre como reconhecer os sinais positivos e evitar as gafes e os vexames pré-sexuais estavam vendendo bem. Cursos online sobre como se aproximar na certeza sem ser taxado de assediador, idem.

Abolinácio não era nada disso. Em princípio só desejava comer Gabriela, e depois decidir em conjunto possibilidades de prosseguirem juntos respeitosamente, de forma eventual ou fixa, seguindo a cartilha do bem viver, anti-assédio e divisor justo de tarefas e lucros.

Um dia Gabriela caminhou inocentemente em sua direção com aquele sorriso perfeito e com uma garrafa térmica na mão, e usando aquela voz encantadora e maravilhosa de atendente do antigo serviço de sexo por telefone, perguntou para Abolinácio na lata:

– Abolinácio, aceita um café quentinho? Acabei de passar.

Abolinácio ficou verde, espumou pela boca e, sem conseguir pronunciar uma palavra, infartou, ali, na frente dela.

Foi inaugurada, então, a possibilidade de processo por “contra-assédio sexual desprovido de intenção”. Novos militantes, novas leis, novos advogados, novas atitudes políticas… Fim dos tempos.

                    Marcelo Gomes Melo

Sobre os quinhões de reflexão

Sob os cabelos empapados em sangue há um cérebro, e nesse cérebro há arquivos obscuros, perigosos, acumulados durante uma vida intensa a serviço de pessoas pouco confiáveis, inescrupulosas, dispostas a qualquer coisa pela manutenção do poder. Sempre atrás de um biombo blindado, é claro. Esses, os dos arquivos mais profundos em um cérebro aberto literalmente, não agem diretamente. Eles nunca colocam a si mesmos sob riscos, embora saibam que esse é o sobrenome que escolheram, abandonando a tudo o que pareça honesto, ético, humano.

Estranhamente são esses os valores que pregam descaradamente, ao mesmo tempo em que matam, cegam, destroem, inutilizam, determinam o modo como a maioria vive, ou quando morrem. Sorriem com facilidade e oferecem vantagens como objeto de sedução. Quando não o conseguem, torturam, ameaçam, causam problemas e maldades, sequer piscam os olhos.

Os arquivos profundos naquele cérebro em plena decadência, contém listas e instrumentos mortais, físicos e escritos, instrumentos que corretamente sussurrados acarretarão tribulações e sacrifícios humanos, tragédias vendidas como naturais, mas provocadas artificialmente com um único propósito: a manutenção do poder.

O sangue que escorre pelos olhos, também escapam dos cabelos e atingem o cérebro, apagando com o vermelho as lembranças mais perigosas para os mandantes, os que se serviram da coragem insana e falta de inteligência total de quem não se considera digno o suficiente para ter ideias próprias. Nasceram para servir, e quando a validade acabar, serem atirados em uma vala qualquer à beira de uma estrada de terra, no meio do mato.

Ninguém chorará por eles, nem se lembrará de sua existência nociva, ilegal, vergonhosa. O sangue empapado esfriará e coagulará, expelindo da vida o seu dono, envenenado por natureza, sem a benção divina.

Os restos mortais não serão encontrados; predadores já estarão à espreita para devorar o que puderem. O que restar será corroído por vermes inclementes e indiferentes, que não discriminam os cadáveres que porventura surjam.

A vida segue, quase ninguém fica sabendo. Na verdade, quase ninguém quer saber, só os que terão, cedo ou tarde, o mesmo destino, comentarão brevemente antes de seguir com os próprios pensamentos. Essa é toda a reflexão que são dotados a ter.

                              Marcelo Gomes Melo