Terra de ladrões

Poderia ser um título dos filmes de bangue-bangue Spaghetti estrelados por Clint Eastwood e Giulianno Gemma nos velhos tempos da TV Record às terças-feiras. Uma terra sem lei nem escrúpulos em que o mais forte (armado) pressiona e intimida os mais fracos (desarmados), enriquecem e desfrutam de todos os benefícios do poder e da riqueza, totalmente afastados da realidade.

Esses seres dominantes do bangue-bangue geralmente são espertos, mas não inteligentes; cruéis como selvagens, coiotes, hienas desprezíveis, incapazes de pensar além das próprias necessidades. Gente ruim que contrata gente pior para matar gente inocente e calar vozes pela força. A moeda vale mais do que a vida.

É por isso que surge um herói tão mau quanto os maus que vendem a arma, e a alma aos seus mandantes, só que solitários, rebeldes e desatrelados do sistema, dispostos a lutar por eles mesmos, não necessariamente pelos fracos, porque ninguém luta por fraco nenhum, o problema é deles, fracos; e se formam a maioria são burros por continuarem fracos.

E esses maus que viram heróis não se interessam por isso, porque vivem a vida e não se interessam por grupos sejam quais forem. É aí que surgem os candidatos a herói. Gente covarde que tenta lucrar falsamente prometendo defender necessitados, criando sindicatos de heróis e explorando de todos os lados, aceitando propina para não matar, e fingindo matar para faturar.

A terra é apenas terra. Fruto sagrado da natureza, componente irrefutável do que é necessário para viver. Os ladrões são vermes que pululam o ambiente apenas com intenção de destruir e corroer aos poucos o ouro alheio para existir como parasitas, artistas interpretando um papel, utilizando a falta de caráter inerente para sobreviver em terra inóspita.

Hoje em dia esse título se encaixaria em que tipo de filme? Seria um roteiro perfeito para que tipo de diretores e artistas?

A resposta seria simples e fácil, caso não fosse explicitamente a imagem da vida real?

                 Marcelo Gomes Melo

Imortalidade programada

Nos dias de hoje morrer vai além dos trâmites naturais, que são avisar aos parentes e amigos, cuidar da burocracia, ajeitar as coisas, saber das despedidas curtas, poucas pessoas em um velório simbólico, orações, consolo à uma distância segura, enterro e cópias da certidão de óbito para os que puderam aparecer para prestigiar, sem fazer parte do grupo de risco, obviamente.

Em seguida o isolamento de todo dia, as lembranças encapsuladas para poucas pessoas, aglomeração zero, se possível. Lide com a sua depressão e adquira outra como brinde.

Não é possível tentar seguir a vida, pois você está estagnado, preso virtual e presencialmente, interna e externamente, engolindo o choro, os gritos e as lamentações, pois ainda há muitos outros vivendo à beira do despenhadeiro emocional, e falar da perda pode acabar causando muitas outras.

E cabe muito bem lembrar de que a pessoa se foi, mas está eternizada nas redes sociais, e os perfis permanecem ativos, recebendo mensagens, textos, emojis de quem jamais a conheceu pessoalmente e/ou não sabe do acontecido.

Aos vivos, além de procurar o equilíbrio para continuar sobrevivendo  entre quatro paredes, sem espaço ou oxigênio suficiente, remoendo as dores, sorrindo o sorriso profissional e o sorriso digital, fingindo que a vida continua para quem está vivo, mesmo que não seja verdade, buscando forças onde não há, ouvindo teorias e acusações em um tiroteio sem fim, sem ter firmeza de caráter de ninguém, sem poder confiar em  ninguém, muito menos nos que se encarregam de espalhar oficialmente a verdade que os interessa.

A morte continua pairando nas redes sociais, e até que os perfis sejam deletados o cadáver sorridente parece vender a ideia de que a vida é bela e não há o que temer, pois todos os agentes virtuais são felizes, perfeitos e competentes. Todos ostentam e reagem à ostentação que acreditam enxergar em alguém que já esteja morto.

Os fantasmas da era da internet das coisas, e da internet dos corpos permanecem nas ondas sem fio mesmo após deletadas, com os restos de suas informações arquivadas pelos softwares das grandes corporações, que vigiam e preparam um programa de vida compatível com o status da pessoa, para controlar os seus hábitos e faturar com as informações obtidas.

Talvez não habitem algum arquivo morto digital, no qual permanecerão até que seja possível reativá-los e voltar a enriquecer com algo que eles, mesmo mortos, possam voltar a proporcionar, nunca se sabe; afinal o trabalho nunca para, e provavelmente estejam investindo em zumbis virtuais, para que os vivos invistam as suas posses na esperança de um retorno via holograma ou coisa que o valha.

Ninguém morre definitivamente mais, na Era dos desalmados milionários que transformam sentimentos em código binário, fé em programas quânticos preparados para lucrar e nada mais. Isso é futuro em doses letais.

                    Marcelo Gomes Melo

A vala comum da história

O sistema ambiental sobrecarregado começa a transbordar as suas queixas através da queda de barragens, chuva intermitente fora de hora, mudança climática constante causando distúrbios físicos nos seres humanos, assombrando os cientistas e entregando farto material aos teóricos da conspiração e aos profetas do apocalipse.

A população se divide entre assustada e indiferente; uns juntando coisas, preparando-se para o apocalipse, o final dos tempos, sacrificando animais e a própria vida; outros recusam-se a discutir essas supostas bobagens, apenas culpam o governo pelas enchentes enquanto atiram latas de refrigerante pela janela do carro, entupindo bueiros, amaldiçoam aos chefes, a distância, o trabalho, o trânsito…

A reportagem cobre a tudo com um tom intencional de desastre, cobram aos governantes, entrevistam a quem perdeu tudo, lucram com a desgraça alheia. Isso dá IBOPE. IBOPE dá patrocinadores. Patrocinadores dão dinheiro. Dinheiro dá poder. Poder… Dá qualquer coisa.

Tudo se repete ano após ano, da mesma forma que antes, os problemas não resolvidos são os mesmos, a angústia se repete, mas a atitude não. Anestesiados, abaixam a cabeça à destruição do habitat, enquanto malucos extremistas ameaçam matar pelo clima, assassinar pelos animais, explodir bombas em nome da Terra.

A humanidade está louca, fora de prumo, navegando à deriva, esperando que um dia tudo se resolva para bem ou para mal, com a destruição do mundo ou a redenção dos povos, o que criará um novo dilema: redenção física ou espiritual? Viver da mesma forma, sujeitos aos pecados da carne ou uma experiência em plano superior, sem necessidades físicas, em contato com  algo maior, inseridos nas partículas do universo, parte de um bem inacabável, próximos de Deus, esperando beber de sua onisciência, encontrando a razão para toda a curiosidade que os instiga desde o começo dos tempos: por que estamos aqui? Quem somos? Qual é o propósito da vida?

Desligam a TV e vão dormir, esperando um tempo melhor ao amanhecer.

                              Marcelo Gomes Melo

A equação da felicidade

A calma com a qual a amo é o oposto da paixão que compartilhamos. De dia somos calmaria iluminada pelos raios dourados do sol na água morna de nossa praia de desejos, e à noite nos transformamos com tempestades furiosas batendo contra as pedras, a espuma branca desnudando nossas almas sob raios e trovões que representavam nossos prazeres sendo satisfeitos violentamente, usando nossos corpos como condutores de toda energia sexual do planeta!

E a tranquilidade como falamos através das mãos dadas, dos olhares ternos e dos silêncios cúmplices eternizava cada segundo que passávamos juntos, atravessando o abismo das dúvidas através de uma velha ponte de madeira prestes a ruir, embora confiantes com a proteção um do outro, a divisão dos medos e a multiplicação da coragem.

Do outro lado o prêmio que nos aguardava era mais do mesmo: o amor que dividíamos sem escolta, sem escudos e sem individualismos. Era a fórmula com a qual resistíamos aos tropeços e vencíamos os piores dias, quando o mundo parecia conspirar contra nós. A força do amor que tínhamos iluminava a neblina espessa do pântano das dores, e mesmo que saíssemos chamuscados, saíamos juntos. E juntos formávamos a equação da felicidade eterna.

                    Marcelo Gomes Melo

O auge da culpa universal

É a estreia do resto das nossas existências, cão virulento! Como essa visão sombria pode ajudar a reerguer-lhe do chão duro e seco que lhe apara a queda e impele a derrocada em direção às profundezas do inferno particular que habita essa mente frágil e torta?

Um único tiro de aviso raspa-lhe a sensibilidade, é a hora de levantar o corpo pesado por tanta culpa e garantir um lugar na romaria que vaga em uma única direção, abismo de um lado, floresta escura do outro, sem promessas de que o recomeço seja valioso de alguma maneira.

No céu sobre nossas cabeças, raios azuis cruzam o ar anunciando punição inclemente, criatura soturna, desanimada, vítima dos terrores noturnos, culpado dos massacres diurnos. Limpe o seu machado ensanguentado e o utilize como bengala, ser humano inconsequente, ingênuo, maldoso na própria ingenuidade.

À frente o horror se materializa confirmando que a luz é mais veloz do que o som, porque os estrondos espalham corpos e abrem caminho para o retorno de muitos para o abismo, dessa vez sem volta.

Tomemos cuidado, criatura nojenta! Atente para as minas terrestres que vitimizam vários diante da nossa vista, cobrindo de sangue alheio e restos mortais a sua figura ainda mais patética, apesar de aterradora.

É a estreia do resto das nossas vidas, mas não parece melhor do que foi antes! Não lhe faz indagar se vale a pena passar por tais provações para viver mais do mesmo, criatura nefasta?

O mundo é o mesmo, o cenário já existe, como esperar que mudemos? Pelo que observas, não parece pior? Após uma vida de atropelos e violência, interrompida pela justiça poética, embora já esperada e justa, não te faz perguntar se vale a pena o retorno nesses termos, ou é uma outra fase da punição, fingir que há uma chance para dobrar os tormentos, acelerar a tortura e nos fazer reviver todas as ruindades cometidas ou presenciadas, com mais intensidade e destruição?

Caso pensemos direito, rei da culpa em potencial, talvez seja apenas o recomeço como imãs que atraem todas as formas de ódio universal, travestido de estreia para triplicar a dor, pois acompanhado de esperança, sendo falsa, atingirá o auge da punição em todos os tempos!

                    Marcelo Gomes Melo

A rocha transformada em pedregulhos

A rocha que se parte em pedregulhos dormiu em autossuficiência. Cansou de resistir através dos tempos de modificação natural, do desgaste de permanecer imóvel, sem temor diante da iminente destruição do ambiente como é conhecido.

 O testemunho das grandiosidades, a fotografia das crises que resultaram em catástrofes, o destino de existir como um marco em determinado lugar faz da rocha a maior mantenedora da história do mundo, muda, inclemente, resignada e ignorada, até que desiste de seus desígnios enquanto pedra fundamental para quebrar-se, desmantelar-se em pedregulhos insignificantes e utilizáveis.

A decisão para isso parece em princípio, tresloucada, para quem não passou séculos sendo rocha; no entanto há um motivo, e ele soa muito razoável da perspectiva de quem exercia o poder imutável e imóvel por tanto tempo, com pouca efetividade na opinião dos que zombam do tempo.

Pedregulhos transformam-se em armas imediatas, se espalham por todos os lugares e causam pequenos danos, influenciando situações em contundência maior, embora com menor relevância.

A troca entre o tipo de poder instantâneo e o poder imortal depende da rocha em si, e suas intenções na participação universal intrínseca à sua existência.

Os pedregulhos se desfazem e misturam-se ao pó, mudando a sua forma e função universal, sendo esquecidos para sempre, inclusive terem sido fruto de uma última ação rebelde da rocha.

                              Marcelo Gomes Melo

A tosca possibilidade de amar

Quando eu não fazia ideia de que lhe amava, eu levava flores do campo todas as manhãs para enfeitar a mesa do seu café da manhã, o qual eu preparava cantando baixinho hits dos anos 80, alheio ao sol nascendo lá fora, clareando o espaço limpo e agradável em que você habitava.

          O cheiro do café brasileiro que eu fazia, à moda antiga, com bule e filtros de papel espalhava-se pela residência, dando um sabor de vida e família. Naquele tempo eu nem entendia assim, era algo gostoso, mas sem significado.

          Quando eu não fazia ideia de sua importância vital para a minha existência, eu colocava canções românticas para suavizar os seus dias e costumava voltar para almoçar com você, comida brasileira cujas receitas eu sabia de cor, e garantia que ficassem deliciosas para o seu prazer.

          Às tardes conversávamos e sorríamos, e eu recitava poesia milenar para o seu deleite, tomando suco gelado e café com biscoitos.

          Realmente tudo era pra mim algo especial e instrutivo, embora não houvesse como definir ou determinar o que havia entre nós. Eu não sabia do amor infinito que em mim habitava.

          O anoitecer era tranquilo e jantávamos e víamos TV, brincávamos um com o outro até que o sono viesse, então lhe acompanhava até o seu quarto, fazia um gesto de boa noite sem tocá-la e fechava a casa antes de ir embora, religiosamente à mesma hora, rotineiramente.

          Então a tempestade chegou, inesperadamente em uma noite em que bebíamos vinho e conversávamos através dos olhares, nos aproximando cada vez mais através dos relâmpagos e trovões que ribombavam lá fora.

          Naquela noite eu não pude ir, tive que permanecer com você e uma nova garrafa de vinho. Os trovões me fizeram entrar em seu quarto pela primeira vez. Compartilhamos a cama. Foi algo surpreendentemente perfeito e prazeroso para nós dois.

          Isso se repetiu depois, com frequência, com ou sem tempestade por muito tempo. Com ou sem vinho aprendemos um novo modo de interação, mais completo e, de vez em quando doloroso para ambos. Eu nunca soube explicar a sensação de vazio quando cometíamos algum erro que nos impedia de compartilhar o mesmo quarto, momentaneamente.

          O destino causa problemas em situações como essa. Um dia entendi que aquilo que nos movia era amor. Eu estava perdidamente apaixonado por você.

          Triste descobrir daquela maneira. Irônico passar uma vida de alegria sem saber a razão e só agora que você se foi, me reconhecer habilitado para definir nossa vida.

          Como continuar a existir sem você é a minha nova questão sem resposta, um desafio para prosseguir com uma vida sem propósito, que se arruinou no momento exato em que acreditei na tosca possibilidade de amar.

Marcelo Gomes Melo