Comigo é no iguana!

O professor se apresenta, dizendo o nome e a disciplina a qual lecionaria, e completa com a expressão: “Comigo é no iguana”. Em seguida, como era a primeira aula do ano e requeria esse procedimento rotineiro, os alunos, um a um passaram a apresentar a si mesmos, automaticamente concluindo com uma frase sobre cada um, um lema por assim dizer, seguindo o estilo do professor sem que fossem solicitados.

Os mais discretos nem comentaram, mas os curiosos quiseram saber o significado do “comigo é no iguana”, e levantaram a mão para perguntar. A resposta do professor foi de que tratariam daquele assunto após a apresentação de todos, o que seria mais lógico, pois assim quem o desejasse poderia comentar sobre o que mencionaram após o nome. Terminadas as apresentações, retornaram ao ponto de curiosidade: o significado da frase “comigo é no iguana”.

O professor, então, iniciou a explicação dizendo não ser nada misterioso, e que cada um poderia escolher e utilizar um lema de acordo com a visão de mundo pela qual fosse guiado. Apenas utilizara-se de um mote filosófico criado individualmente. Uma expressão que levava em conta o lagarto herbívoro conhecido por iguana como uma boa influência, com diversas qualidades intrínsecas.

Caso quisessem saber mais, os alunos poderiam pesquisar a respeito do réptil, mas destacaria os motivos pelos quais citara o iguana: quando jovens a cor verde prenominava e conseguiam mesclar-se ao ambiente, adaptando-se e tendo como um modo de proteção ficar praticamente invisíveis. É uma boa qualidade, às vezes, não se expor desnecessariamente.

Uma outra qualidade do iguana, cuja espécie tem 65 diferentes tipos, é que ficam imóveis avaliando uma situação; tão quietos e concentrados que podem indicar facilidade de ser capturado. E de repente, com uma velocidade incrível pode cruzar um rio afastando-se do que julga ser um perigo. O iguana adora tomar sol; é valente porque se acostuma a lutar sozinho desde cedo, pois não recebem como outras espécies qualquer auxílio ou assistência materna. Em caso de necessidade, impossibilidade de fuga, luta ferozmente contra quem o ataca, defendendo-se com mordidas e golpes de cauda.

Sendo assim, concluiu o professor, a expressão pode significar resiliência, coragem para sobreviver, talento para fazer parte da natureza com inteligência e respeito, força para autodefesa…

E além de tudo era um raio de um lagarto bonito, não acham?

                    Marcelo Gomes Melo

Comi!

       Eu mordi. Sentei os dentes sem piedade porque era gostosa demais para deixar passar. A minha imagem diante daquele suculento acepipe, macio e maravilhoso era a de um lobo salivando, os enormes dentes à mostra, pronto para dar o bote e degustar instantaneamente, saciando a minha voracidade.

      Não poderia renegar a minha espécie, fugir ao meu destino de apreciador das delícias inesgotáveis, inexplicáveis, inefáveis… Mesmo Não me sendo oferecido aquele regalo arredondado, cheiroso, quente e atraente, os meus músculos tremeram de prazer ante à mera possibilidade de comer. E agora, lambuzado e satisfeito posso garantir que comi.

       Eu faturei e foi muito bom; comeria de novo, devo ressaltar. A fome cumpre diversos estágios, que instigam a coragem de um homem e o transformam em uma arma pronta para atirar.

       O primeiro estágio é o cheiro. Você inspira e flutua, sendo guiado ao jardim dos prazeres mesmo sem saber a forma e o sabor, desejando assim mesmo através da imaginação.

       O segundo estágio é a observação. Você vê aquela maravilha saltitante, palpitante, aparentemente à sua disposição, prontinha para ser tomada e comida com um gosto especial. Você devora com os olhos.

       O terceiro é o toque. Suas mãos tateiam, exploram, apertam, espremem, mapeiam… É uma loucura até o momento em que você prepara o ataque fatal, olhos esbugalhados, suando gelado frente a expectativa maioral de saciar o desejo.

       Não precisa receber permissão, não aguenta esperar um oferecimento. Você sabe que dará um enorme problema e será julgado pelo excesso de desejo que gerou essa atitude antissocial e odiosa de sua parte.

       Eu comi! E afirmo que foi bom, embora ela tenha ficado surpresa com a minha ação veloz, chegando, pegando e me deliciando sem me importar em pedir antes, pelo menos.

       Ela ficou paralisada e estática, sem saber o que dizer ou fazer, na frente de todos. O fato é que tomei o sonho enorme das mãos dela e comi sem dó nem piedade. Depois, satisfeito, um tanto envergonhado, informei: “Eu pago outro”.

                              Marcelo Gomes Melo

Imortalidade programada

Nos dias de hoje morrer vai além dos trâmites naturais, que são avisar aos parentes e amigos, cuidar da burocracia, ajeitar as coisas, saber das despedidas curtas, poucas pessoas em um velório simbólico, orações, consolo à uma distância segura, enterro e cópias da certidão de óbito para os que puderam aparecer para prestigiar, sem fazer parte do grupo de risco, obviamente.

Em seguida o isolamento de todo dia, as lembranças encapsuladas para poucas pessoas, aglomeração zero, se possível. Lide com a sua depressão e adquira outra como brinde.

Não é possível tentar seguir a vida, pois você está estagnado, preso virtual e presencialmente, interna e externamente, engolindo o choro, os gritos e as lamentações, pois ainda há muitos outros vivendo à beira do despenhadeiro emocional, e falar da perda pode acabar causando muitas outras.

E cabe muito bem lembrar de que a pessoa se foi, mas está eternizada nas redes sociais, e os perfis permanecem ativos, recebendo mensagens, textos, emojis de quem jamais a conheceu pessoalmente e/ou não sabe do acontecido.

Aos vivos, além de procurar o equilíbrio para continuar sobrevivendo  entre quatro paredes, sem espaço ou oxigênio suficiente, remoendo as dores, sorrindo o sorriso profissional e o sorriso digital, fingindo que a vida continua para quem está vivo, mesmo que não seja verdade, buscando forças onde não há, ouvindo teorias e acusações em um tiroteio sem fim, sem ter firmeza de caráter de ninguém, sem poder confiar em  ninguém, muito menos nos que se encarregam de espalhar oficialmente a verdade que os interessa.

A morte continua pairando nas redes sociais, e até que os perfis sejam deletados o cadáver sorridente parece vender a ideia de que a vida é bela e não há o que temer, pois todos os agentes virtuais são felizes, perfeitos e competentes. Todos ostentam e reagem à ostentação que acreditam enxergar em alguém que já esteja morto.

Os fantasmas da era da internet das coisas, e da internet dos corpos permanecem nas ondas sem fio mesmo após deletadas, com os restos de suas informações arquivadas pelos softwares das grandes corporações, que vigiam e preparam um programa de vida compatível com o status da pessoa, para controlar os seus hábitos e faturar com as informações obtidas.

Talvez não habitem algum arquivo morto digital, no qual permanecerão até que seja possível reativá-los e voltar a enriquecer com algo que eles, mesmo mortos, possam voltar a proporcionar, nunca se sabe; afinal o trabalho nunca para, e provavelmente estejam investindo em zumbis virtuais, para que os vivos invistam as suas posses na esperança de um retorno via holograma ou coisa que o valha.

Ninguém morre definitivamente mais, na Era dos desalmados milionários que transformam sentimentos em código binário, fé em programas quânticos preparados para lucrar e nada mais. Isso é futuro em doses letais.

                    Marcelo Gomes Melo

Os seres desprezíveis observados por um universo condescendente

Mulher, não me morda! Não assim, sem aviso, sorrindo e marcando o meu corpo de uma forma que eu não possa mostrar! Eu sei das disputas por território e do quanto as mulheres conseguem ser possessivas, mas garanto não ser a maneira correta de me fazer permanecer ao seu lado.

Quando um homem faz marcas de amor, ele sabe que qualquer mulher sabe esconder, disfarçar, ou mesmo assumir com orgulho o valor de suas prendas, ao ponto de mexer com o controle mental de um apaixonado irreversível.

Para um homem, mulher, é muito mais difícil porque não se exibe livremente, precisa ser discreto para manter a respeitabilidade ante os seus pares, embora todos saibam dos sacrifícios aos quais se deixam tomar, que os torna humanos e falíveis. Não falam sobre isso jamais, porque as fraquezas precisam ser secretas, e todos aceitam as regras implícitas em mundo masculino forjado desde tempos imemoriais.

Hoje em dia, mulher, esses arroubos rebeldes que buscam mudar o que é sensato, sequer esperto, porque a mudança de rotina fará com que os homens sejam extintos, e a ausência de sexo oposto exterminará a vida como a conhecemos.

A submissão velada também acabará com a força esperada dos homens, criados para agir com poder e ser capaz de defender suas fêmeas das intempéries da vida! Virar esse fato comum levaria séculos, e por consequência aumentaria a possibilidade de término da vida humana eternamente.

É um jogo que está em pleno vigor, com perdas de ambos os lados e confusão mental e física de ambos os lados. Quem estaria manipulando os cordões e brincando com uma raça cujo destino parecia traçado por séculos e séculos, e agora simplesmente apresenta falhas terríveis, enganos irremediáveis e crenças inicialmente absurdas!

Não há fim de verdade. Há mudança de regras e extermínio de iguais, maiorias dizimadas pela vontade das minorias, mudando o que antes era correto, a vontade de muitos sendo desrespeitada pelo desejo de poucos.

O pensamento seguinte é como a existência dessa raça seguirá, ou não, surgindo uma nova raça para habitar por séculos o mesmo ambiente natural, com estilos diferentes, até que um novo final se torne necessário, e novos grupos com novas ideias destruam insensivelmente a história para iniciar um novo período em um canto qualquer de um universo silencioso e impassível, esse sim imortal, inacabável, observando com olhos gelados o poder de consumir a si mesmos desses seres desprezíveis.

                    Marcelo Gomes Melo