A praga

Vem trotando a inocência

Como um cavalo de raça

Ignorando a indecência

Que insiste em querer domá-la.

Os odores lhes pertencem

Os perfumes maravilhosos

Os calores, as enchentes

Tudo o que se lhe adore

Cavalga, cabeça erguida

Imune aos arroubos sensuais

Que a indecência indevida

Infiltra pelos umbrais

Tem apoio e proteções

Disfarçadas e até etéreas

Tem todas as disposições

Sem parecer ser tão séria

Enquanto a indecência, firme

Resiste com os seus grilhões

Atacando a inocência

Com milhares de tentações…

Marcelo Gomes Melo

Imortalidade programada

Nos dias de hoje morrer vai além dos trâmites naturais, que são avisar aos parentes e amigos, cuidar da burocracia, ajeitar as coisas, saber das despedidas curtas, poucas pessoas em um velório simbólico, orações, consolo à uma distância segura, enterro e cópias da certidão de óbito para os que puderam aparecer para prestigiar, sem fazer parte do grupo de risco, obviamente.

Em seguida o isolamento de todo dia, as lembranças encapsuladas para poucas pessoas, aglomeração zero, se possível. Lide com a sua depressão e adquira outra como brinde.

Não é possível tentar seguir a vida, pois você está estagnado, preso virtual e presencialmente, interna e externamente, engolindo o choro, os gritos e as lamentações, pois ainda há muitos outros vivendo à beira do despenhadeiro emocional, e falar da perda pode acabar causando muitas outras.

E cabe muito bem lembrar de que a pessoa se foi, mas está eternizada nas redes sociais, e os perfis permanecem ativos, recebendo mensagens, textos, emojis de quem jamais a conheceu pessoalmente e/ou não sabe do acontecido.

Aos vivos, além de procurar o equilíbrio para continuar sobrevivendo  entre quatro paredes, sem espaço ou oxigênio suficiente, remoendo as dores, sorrindo o sorriso profissional e o sorriso digital, fingindo que a vida continua para quem está vivo, mesmo que não seja verdade, buscando forças onde não há, ouvindo teorias e acusações em um tiroteio sem fim, sem ter firmeza de caráter de ninguém, sem poder confiar em  ninguém, muito menos nos que se encarregam de espalhar oficialmente a verdade que os interessa.

A morte continua pairando nas redes sociais, e até que os perfis sejam deletados o cadáver sorridente parece vender a ideia de que a vida é bela e não há o que temer, pois todos os agentes virtuais são felizes, perfeitos e competentes. Todos ostentam e reagem à ostentação que acreditam enxergar em alguém que já esteja morto.

Os fantasmas da era da internet das coisas, e da internet dos corpos permanecem nas ondas sem fio mesmo após deletadas, com os restos de suas informações arquivadas pelos softwares das grandes corporações, que vigiam e preparam um programa de vida compatível com o status da pessoa, para controlar os seus hábitos e faturar com as informações obtidas.

Talvez não habitem algum arquivo morto digital, no qual permanecerão até que seja possível reativá-los e voltar a enriquecer com algo que eles, mesmo mortos, possam voltar a proporcionar, nunca se sabe; afinal o trabalho nunca para, e provavelmente estejam investindo em zumbis virtuais, para que os vivos invistam as suas posses na esperança de um retorno via holograma ou coisa que o valha.

Ninguém morre definitivamente mais, na Era dos desalmados milionários que transformam sentimentos em código binário, fé em programas quânticos preparados para lucrar e nada mais. Isso é futuro em doses letais.

                    Marcelo Gomes Melo

Virgem e brava!

Ela era uma garota virgem e brava. Eles se conheceram na faculdade, e ela tinha uma personalidade fortíssima, dizia o que pensava argumentando com inteligência, cheia de amigos, curtia as festas e se divertia bastante, sem fumar, beber ou fazer qualquer coisa que não quisesse, apenas porque a grande maioria o fazia.

Ela não escondeu que a atração por ele era recíproca desde o início; sorrisos, brincadeiras, olhares, insinuações… Passaram a estudar juntos, sair juntos, inclusive sem a turma, curtindo em um cinema ou em um show, dançavam, se divertiam e se respeitavam.

Quando o clima pintou, mãos dadas, primeiro beijo, carícias, foi muito excitante e novo para ambos; mas para ela do que para ele que já namorara antes, de forma liberal como atualmente costuma ser. Ele a pediu para namorar oficialmente entre beijos no sofá, sozinhos vendo um filme, e ela fez questão de dizer, com seriedade, que também o queria como namorado, entretanto era imprescindível deixar claro que ela adotara uma filosofia de família na qual, tantos irmãos quanto irmãs aguardariam o casamento para experimentar o sexo completamente. Isso significava que, para aceitar o compromisso em nível inicial, ela teria que saber que não haveria negociações quanto a isso, e se ele tentasse avançar os limites poderia haver desentendimentos, mágoas e, consequentemente um rompimento, prejudicando até as chances de continuarem amigos.

Ele topou o desafio, concordou com as regras e assim se tornaram namorados. Viajavam juntos, faziam quase tudo o que um casal jovem faz. Não transavam. O rapaz era gentil, amoroso, atencioso, paciente, apaixonado… Cuidava dela, aceitava os seus períodos de mal humor. Mal brigavam, mas quando o faziam logo se reconciliavam. Dificilmente ficavam longe um do outro, e como eram saudáveis, trocavam carícias, beijos fogosos, as mãos se percorriam, iam até certo ponto e paravam, automaticamente, por mais difícil que fosse a situação.

A braveza da moça foi sumindo no convívio com ele. Era mais compreensiva, doce e carinhosa. Fazia tudo por ele, e era mais feliz das garotas, tanto que não mais ficou conhecida por ser brava em excesso ao defender as suas posições. Zero agressividade.

Hoje estão juntos há oito anos, terminaram a universidade, iniciaram a pós-graduação e ficaram noivos. O amor parece só aumentar. Ela definitivamente, graças a ele, não é mais tão brava. Apenas virgem.

                     Marcelo Gomes Melo

Quando os pais afetam a autoestima dos filhos

Acontece mais vezes do que se imagina, e a ampla maioria inadvertidamente. A atitude exacerbada dos pais pode causar diversas reações nos filhos, as vítimas, embora haja uma saída. Para os filhos, não para os pais.

A rebeldia é um acessório necessário, surge à época certa para evitar que sejam engolidos pelas atitudes embaraçosas às quais os afetariam implacavelmente pelo resto de suas vidas. Vejam o exemplo desse jovem, Lindigenho, rapaz nascido e criado em cidade pequena, filho de pais rigorosos e justos, amorosos em excesso e inteiramente desprovidos de noção.

Era sábado à tarde, e o jovem Lindigenho, de folga do trabalho estava há horas se arrumando para um encontro com uma garota nova na cidade, sobrinha do influente dono da única farmácia do lugar, vinda do Rio de Janeiro passar férias.

Eles se conheceram na praça e se deram bem; corajoso como um rato, Lindigenho suou, tremeu, mas a convidou para sair no sábado à noite. Tomar uma cerveja na maior lanchonete da cidade e depois dar uns tiros no parquinho de diversões para quem sabe, faturar um bicho de pelúcia.

O grande problema é que essas garotas cariocas não são tímidas e passivas como as caipiras com quem Lindigenho estava acostumado a lidar. Dirigindo o Fiat Uno que o tio usava para fazer entregas resolveu buscar o rapaz na tapera em que residia com os pais. Quando estacionou e se aproximou da casa, Ester, fala-se “Eixterr” no carioquês original, descobriu o casal na varanda, sentado em cadeiras de balanço, fumando cigarro de palha, com um garrafão de cachaça e dois copos no chão entre eles. Eram os pais de Lindigenho.

– Boa noite! – ela cumprimentou sorrindo gentilmente.

– Noite, moça! – responderam em uníssono, desconfiados. Evidentemente a achavam exótica.

– Eu vim buscar o… – Antes que ela terminasse a frase, a mulher da cadeira de balanço gritou estridentemente:

– CHEROOOOOOSOOOOOO! Vem cá, cheroso, tem uma moça aqui te aprecurano. CHEROOOOOOOSOOOOO!

– Cheiroso? – Ester estava confusa.

– CHEROSO, fdp, vem aqui logo! – emendou o pai, gargalhando.

– Moça, o cheroso não fez nada errado, não, fez? – parecia preocupada – A senhora é mulé dama da casa da luz vermeia? O desgraçado não lhe pagou o que devia? CHEROOOOOOSOOOOO!

– Não, senhora, eu não sou…

– Deixa de ser besta, muié! – interrompeu o pai – O nosso Cheroso paga por mês, não ia ficar devendo na casa das muié dama.

– Os senhores estão enganados, o meu nome é Eixterr, o Eugênio…

– Eugênio?! O nome do nosso fio não é esse não! – cortou a mãe, sorrindo – O cheroso foi batizado Lindigenho.

– Porque quando nasceu nois viu que ele ia ser lindi – disse o pai – E…

-… E o genho foi em homenagem ao sinhô meu pai, que Deus o tenha, cuja graça era Ogenho! – explicou a senhora.

E olhe, moça, que o fdp é trabaiadô que nem a pqp! – disse o pai, entusiasmado – Cheroso começou cedo na roça ajudano eu, prantano, capinano…

– Agora subiu na vida, moça! – a mãe tomou de um gole o conteúdo do copo antes de encher novamente e continuar – Ele não tem estudo, não senhora, mas conseguiu um emprego como funcionário público e é respeitado por todos, um excelente partido!

– CHEROOOOOOSOOOO, PQP, vem logo! A moça bonitona tá te isperano, cadê ocê, homi? – Ester sorria, divertindo-se com a conversa, mas o rapaz nada de aparecer. A mãe continuou: – O cheroso é moço respeitador e um dos mió partido da região, moça! Tão bão que nem é partido, é intero!

– Então ele é funcionário da prefeitura? – Ester puxou assunto.

– Sim senhora, ele chefe! Chefe dos limpa fossa da cidade!

– O departamento tem dois funcionários, ele e um outro rapaz, mas ele é o chefe! Ele conhece todas as fossas da cidade; dos ricos e dos pobres.

– Isso memo, Ontoim – a mulher completou a informação do marido: – Cheroso sabe diferenciar os tipo de bosta de quarqué um na natureza. Seje rico ou seje pobre, se defecou em uma casa dessa cidade, ele conhece.

– Aposto que as fezes da senhora são das mais cherosas – elogiou o pai, cortês – Cheroso cavou e desentupiu a maioria das fossas dessa região! De vez em quando é chamado pelas cidades vizinhas porque é bom no ofício.

– *CHEROOOOSOOOO! – a mãe estava impaciente – Hoje ele tumô baim de acetona, de água sanitária, dispoi gastou quatro sabunete, dois vrido de perfume e dois de desodorante. Tá mais cheroso do que fi de vendedô de chá de hortelã! Agora que nois sabe o motivo!

– A moça não qué se assentá, uma com limão? Osvalda, pega limão!

– Não, não, obrigada, eu tenho mesmo que ir. Por favor avise o Eugê… O Lindigenho que o vejo mais tarde na lanchonete. Até mais ver!

Eles observaram Ester se afastar, entrar no Uno e sumir na escuridão.

– Oia, Osvalda, o Cheroso tá se dano bem, né muié?

– Pai, mãe… Vocês precisavam me envergonhar daquele jeito?! Arrasaram com a minha vida! – Lindigenho estava prontinho, de chapéu, botinas lustradas, camisa xadrez, claramente aborrecido – Minha vida nessa cidade ACABOU!

– Craro que não, cheroso! Nem deu tempo de contar a origem do seu apelido!

– Mãe! Querem saber? Eu vou embora dessa cidade agora mesmo! Nunca mais piso aqui! Tentarei a sorte em São Paulo!

– Cheroso, que é isso, cheroso?! Fica assim não!

E cheiroso foi visto a pé, com uma trouxa de roupas na ponta de um cabo de vassoura afastando-se da cidade rapidamente, tencionando seguir para São Paulo em um caminhão pau de arara. Os pais jamais saberiam como afetaram a vida dele.

                    Marcelo Gomes Melo

                                              *contém linguajar informal

Aos que não se rendem ao tempo, a escuridão eterna

Você não briga contra a idade, é ela quem lhe corrói, aos poucos, fazendo estragos imperceptíveis, sutis para que não os reconheça até que seja tarde demais.

O tempo é paciente, monótono, traiçoeiro à sua maneira, comandando o destino com uma suavidade brutal, fazendo com que as suas vítimas permaneçam em negação, não reconheçam a decadência inevitável e procurem maneiras científicas para driblar o que é impossível.

Nesse processo transformam-se em caricaturas, e depois em monstros, os quais o espelho não mostra, porque as pessoas veem a si mesmas de uma forma diferente das quais são vistas pelos outros. Aberrações deixam de ser aquele humano original e tornam-se híbridos, não fazem ideia de que agindo assim fogem completamente à imagem de Deus, o que o eram desde o nascimento.

O cientificismo cético, lógico e trágico busca o seu lugar no Olimpo, semideuses capazes de manipular a genética em nome de uma nova Era, sem as crenças selvagens em seres inexistentes, ao mesmo tempo em que procuram extraterrestres necessariamente melhores e mais inteligentes. Superiores em tudo, bondosos ou cruéis, dispostos a domar um planeta e escraviza-los, cientistas imbatíveis, mas submissos a uma suposta inteligência superior.

Enquanto desprezam as crenças ancestrais, rastejam como vermes em busca de superiores no universo. E enriquecem criando poções para a juventude eterna e viagens para fora do planeta; basta poder pagar e  acreditar na juventude eterna para os bem nascidos, ricos por natureza, herança ou corrupção’

O espetáculo fica evidente em uma casta intermediária, a dos artistas capazes de tudo para manterem a utilidade que têm, beleza e disposição para fazer qualquer coisa em nome da sobrevivência. E como a concorrência é gigantesca, a cada momento um sacrifício maior deve ser feito com o intuito de continuarem à tona em mar bravio, rodeados de piranhas vorazes que transformam em sangue rapidamente tudo à sua volta.

No fim de tudo, retiro para os que nada guardaram da época de vacas gordas; tentativa de usar os dons interpretativos para faturar na área política, que não requer estética, apenas amoralidade e imoralidade, o que conhecem bem, fruto da carreira anterior.

O tempo massacra aos poucos, a idade impõe limites e humilha sem piedade os que aceitam homenagens hipócritas transformando em santos quem era a imagem do capeta, como se velhice fosse sinônimo de bom caráter.

O fim é igual para todos, mas os que mantiveram a dignidade vão sem medo, sem reclamações; não imploram para vender os retalhos em que se transformaram por mais um pouco de brilho.

O tempo é astuto e incorruptível, segue lento enquanto os expulsos de sua locomotiva se percam na escuridão implacável e eterna.

                    Marcelo Gomes Melo

A faísca que acende o desejo

A fronha que ela agarrava desesperadamente determinava a intensidade do amor, a fúria de uma paixão comparável a uma ação da natureza, imparável e assustadora.

A razão daquela urgência era saciar uma fome inacabável, burlar as necessidades fugazes para permanecer por um bom tempo com o sabor entre os lábios, o odor demarcado no corpo, os arranhões e hematomas como despojos de uma guerra santa, valiosos, a serem exibidos com orgulho para o espelho e para os que costumam notar a satisfação alheia.

Os sussurros quase inaudíveis, o suor que banhava os corpos brilhantes, músculos retesados pulsando a cada movimento febril. A cama resistente rangendo e aguentando a montaria poderosa, cheia de força e arrojo, indestrutível por razões óbvias.

E essa ânsia que aumenta até alcançar o ápice, em que mãos se entrelaçam, olhares se cruzam jurando tudo o que é maravilhoso, possessão total, sem renúncias, sem regulamentos. Tudo pode e tudo o é.

O clima lá fora não importa, outros sons não penetram o nosso mundo particular fora da Terra, em que a alcova é a nossa nave espacial nos levando a lugares nunca antes desvendados, inserindo prazer por todos os poros, navegando em local tempestuoso sem medo, no sobe e desce que no final nos jogará contra as pedras, cobertos de espuma, assim como uma vitória existencial, em um clamor celestial que confiamos nos manterão saciados por longo tempo.

Estamos enganados, no entanto! Jamais estivemos tão errados! Porque basta que os olhos se toquem novamente para que os corpos se procurem, resvalando um no outro para causar a faísca que incendiará novamente o planeta de duas pessoas, ardendo de prazer e desejo. Isso sim é eterno. Renovando-se a cada momento, e sobre esse tempo não temos controle.

A fronha sabe, a cama sabe, nasceram para resistir às fúrias dos pecados de amor.

                              Marcelo Gomes Melo

Reflexões e constatações de um eremita

Um ermitão um dia resolveu retornar ao convívio social. Abandonou a caverna, tomou um longo banho de cachoeira, raspou a longa barba, aparou os cabelos, vestiu roupas simples e apresentáveis, calçou sapatos e desceu o morro tranquilamente após quarenta anos afastado.

O que viu foi, para ele, estarrecedor. Abandonara a vida em sociedade para viver sozinho, em silêncio, sem interrupções bruscas ou conversas amáveis. Não queria fazer parte daquela maioria de seguidores, com os seus desejos de status e fingimento obsessivo, por isso partira.

Ao deparar-se com os sons que ouvia ao longe constatou que era o aumento absurdo de automóveis de todos os tipos, buzinando como loucos e pessoas trocando insultos em um trânsito parado. Ninguém ia a lugar algum. As pessoas que estavam a pé caminhavam como zumbis, não se enxergavam e nem conversavam, concentrados em um pequeno aparelho no qual pareciam escrever ou assistir a alguma coisa, totalmente encarcerados ao próprio mundo.

Caminhou mais um pouco e percebeu que a população triplicara, havia anúncios de todos os tipos e diversas lojas de comércio, cheias de gente brigando pelas promoções. Entrou em um shopping, uma concentração de lojas com pessoas igualmente apressadas, ignorando umas às outras, mas com um pouco mais de estilo.

O decoro havia desaparecido das vestes, tanto masculinas quanto femininas; o linguajar utilizado era um tipo de dialeto confuso permeado de palavrões que o fizeram crer que o alfabeto não mais existia; se comunicavam como selvagens antes da evolução dos primatas.

Ele começou a pensar no porquê de ter ficado tanto tempo ausente para ficar sozinho, já que agora todos pareciam estar sozinhos. A fé estava sendo deturpada, assim como as leis e as regras de convivência. Todos estavam sensíveis demais e qualquer manifestação gerava agressividade.

O ambiente estava mais cinza, menos verde e muitos hospitais anunciavam pacotes com descontos. Era preciso pagar para tentar curar as doenças geradas pela evolução promovida por eles mesmos.

O eremita coço o queixo, de olhos arregalados, cansou só de ver o esforço que faziam correndo em máquinas dentro de um espaço fechado para depois comer um alimento parecido com plástico, chamado fast food.

Ele raciocinou que poderia viver isolado ali no meio de todos, sem ser importunado por ninguém. Só que haveria um custo muito alto, que não estava disposto a pagar: a própria sanidade.

Virou as costas e lentamente retornou para o local em que estava, a sua boa e velha caverna, na qual estaria sempre mais perto de Deus.

                    Marcelo Gomes Melo

A construção do relacionamento com o divino

Há uma razão para que a juventude seja avoada, cheia de expectativas e desconectadas da natureza e de Deus. Ela ainda é crua, débil e influenciável, já que não passam de uma casca, vazia por dentro, sem conhecimento suficiente e arrogância ao extremo.

Não sabem absolutamente nada, a juventude está em processo de aprendizagem aleatório e mesmo assim se recusam a ouvir conselhos sobre um caminho a seguir, porque se sentem afrontados com tanta força física e magnetismo, indomáveis, fora do prumo, sem bússola.

Erram por premissa: “sou jovem, não sei nada, portanto erro”, e ao errar me rebelo de mil maneiras, agrido, viro uma fera selvagem e magoo de forma intransigente, porque é o que me resta. Essa fogueira ardendo no peito sem parar, a coceira deixando o pensamento em frangalhos, e a sensação de derrota inacabável, de uma vida sem propósito, na qual não acreditam, desconfiando de todo mundo e traçando planos para se vingar dos adultos, dos seus pares e de qualquer um que tente tutorá-los.

Esse processo se repete com todas as gerações, não importa quais nem quando, o fogo é o mesmo e os caminhos estão lá, mas em forma de labirinto, o que apimenta ainda mais os obstáculos para alcançar alguma maturidade.

Os jovens, mesmo os que fingem viver uma vida religiosa, não fazem ideia de como se relacionar com Deus. Fingem, debocham, cometem erros e tremem de medo do castigo, e ainda assim não sabem como consertar porque não têm experiência suficiente.

A partir do momento em que vão envelhecendo e vivendo diversas situações que lhes moldarão o caráter e definirão o verdadeiro caminho que seguirão, achando que estão no controle quando se trata de meros passageiros em um trem sem condutor, torcendo para que sejam bem tratados por Deus, embora só se lembrem Dele para pedir, jamais para agradecer.

O relacionamento com Deus vai se construindo aos poucos, ditado pela experiência adquirida através da vida, imperceptível, mas importantíssimo. Os que se dizem ateus parecem constrangidos por gritar por ele em situações pequenas de problemas absurdos.

A idade permite uma conexão maior com Deus, porque há menos questionamentos e mais fatos comprováveis de sua existência e ações concretas que o comprovem. Esse parece um direcionamento eficaz e eterno, um curso para que as pessoas desapeguem das coisas materiais e valorizem as espirituais, não por hipocrisia, tentando vender uma imagem de desapego para faturar com ela, mas por finalmente pisarem, sabendo ou não, no caminho reservado para cada um.

Essa suposta comunhão com Deus se dá através do envelhecimento físico, e dá uma aparência distinta a quem era o oposto quando jovem, seja verdadeira ou falsa. O que causa um arroubo filosófico de boteco de pretender descobrir ou aventar a possibilidade de ter que morrer para completar a conexão, e daí para adiante tudo é desconhecido.

É por isso que querer ver o céu sem morrer é impossível, uma pegadinha para explicitar a covardia humana de querer burlar as regras. O que ainda assim não desculpa o radicalismo muçulmano, assustador para o ocidente.

O caminho todo, desde o nascimento até o falecimento é a verdadeira comunhão com Deus, incluindo a inaptidão, a rebeldia e o ceticismo. Na hora certa as decisões são tomadas. Deve ser assim para que a existência tenha algum propósito.

                    Marcelo Gomes Melo

A farsa de fim de ano

Dezembro é quente e deprimente, época de tirar o tapete e realmente encarar tudo o que foi ignorado, escondido sob ele. Uns preferem fantasiar, fazer planos para o novo ano, mesmo sabendo que jamais serão realizados e a deterioração de suas vidas patéticas continuará.

O fim de ano é simbólico, não existe de verdade, porque os dias seguem lineares; estourar fogos e usar determinados tipos de roupas é um erro desculpável que, em vez de energizar, anestesiará a todos os estúpidos que comem ervilhas, dão pulinhos na água e se empanturram de rabanadas.

A sequência dos acontecimentos não se altera e luzes coloridas não os salvarão dos medos, dúvidas e dívidas, servem para distrair e não curar.

O fim do ano é o fim das burrices repetidas ano após ano? Não, tudo continua a mesma coisa, o que muda é a disposição e a força das pessoas, que envelhecem, perdem a energia e começam a vivenciar a triste realidade. Ficam mais rebeldes, menos políticas, rabugentas e intragáveis, É o que vem acontecendo cada vez mais cedo, com gente cada vez mais jovem.

Não há o que comemorar! Lamentar seria mais honesto. Lidar com as perdas, abandonar os desejos e as promessas, começar a arrancar as farpas do corpo uma a uma, manualmente, sem anestesia. Manter no rosto uma máscara intransponível, não emitir sons e respirar com parcimônia.

O mundo está acabando para todos. Ele continuará fisicamente intacto, fixado no universo, os seus habitantes, entretanto, acabarão rapidamente, sem chance de pedir perdão ou se arrepender de algo.

Enquanto pensavam em manipular a natureza, estavam apenas sendo manipulados por ela; cada final de ano é um sinal emitido com cinismo e ironia, jamais percebidos, por causa da inocência gananciosa que empana o raciocínio e os mantém sob rédeas curtas, morrendo aos poucos, agradecendo pelo sofrimento a conta-gotas, acreditando em uma esperteza que nunca existiu.

Dezembro é o mês do declínio, a moradia da depressão, a derrota das crenças e a interrupção por segundos do que poderia parecer a chegada de alguma paz e comunhão; pura falsidade produzida para manter o comando e a destruição em massa como uma coisa normal.

Um brinde na madrugada e algumas superstições servem para que ninguém perceba que tudo continua igual, os dias não mudam, a ladeira é a mesma lhes empurrando para o inevitável fim.

                    Marcelo Gomes Melo

Só os escolhidos…

Eu viajaria mil léguas por ela, mas os mares estão bravios, a Terra está rachando e os ares estão rebeldes, fazendo com que indivíduos capitulem, revejam as suas metas de vida e se preocupem com a própria sobrevivência nesses tempos inodoros, incolores e incapazes de garantir qualquer segurança, individual ou coletiva.

Ainda assim eu superaria todos os obstáculos para ficar com ela, lutando com todas as forças físicas até o esgotamento fatal, e me rebelaria contra as forças da natureza, ainda que fosse uma batalha perdida que me custasse a vida por diversas vezes, como em um jogo de vídeo game.

Os meios físicos em um ambiente em franca deterioração não seriam nem um pouco eficazes, embora satisfizesse o ódio e aliviasse o estresse antes do suspiro final. O Pior de tudo: ficar sem ela.

Um homem não deve desistir do seu amor jamais, mesmo que lhe custe a vida. Não se trata de filosofia romântica, mas de objetividade transcendental. Além da vida, de forma etérea poderei caminhar mil léguas por ela, até encontra-la e agarrá-la fortemente em meus braços.

Um novo tipo de amor seria inaugurado, o de mortais que continuaram a querer um ao outro em um plano diferente, mais fácil de lidar por não poderem ser atingidos nem magoados, e os seus objetivos estariam garantidos apesar das provações da vida existe para caçoar dos mais fracos e impulsionar os resistentes a alcançar todos os desejos provocados através dos sonhos, insinuando que poderiam se realizar com o esforço certo, a atitude correta e inteligente; acima de tudo corajosa e repleta de fé.

Carregaria o universo nas costas para permanecer com ela, ser feliz com ela por algumas eternidades em sequência. Em outro plano isso é possível, e daqui, observando o planeta se dissolvendo e levando com ele bilhões de descrentes, aprendi o real significado de morrer por amor.

É tudo muito simples, mas parece complicado, pois morrer por amor é viver para sempre com o seu amor, imune às trapaças e armadilhas nas quais a imensa maioria cai. Só os escolhidos sobrevivem.

                    Marcelo Gomes Melo